FATOS DO BRASIL IMPÉRIO

Bem vindo ao blog FATOS DO BRASIL IMPÉRIO. Aqui são narrados fatos da época do Império, geralmente pouco conhecidos, extraídos do livro REVIVENDO O BRASIL-IMPÉRIO, que publiquei sob o pseudônimo Leopoldo Bibiano Xavier. Leitura muito útil, que dá uma visão realista do modo como o Imperador Pedro II conduzia os destinos do País.
Você está convidado a visitar também os sites referentes ao meu livro mais recente, A VOLTA AO MUNDO DA NOBREZA, que contém mais de 1.700 fatos mostrando a atuação da nobreza em diversos países e épocas:
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Leon Beaugeste

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2.6.08

10 - A UNIDADE NACIONAL QUE RESULTOU DO IMPÉRIO

O Imperador-menino, pólo da unidade nacional

Auguste Saint-Hilaire escreveu em 1833, quando D. Pedro II tinha apenas 8 anos de idade: “Quanto ao Brasil, repousam hoje seus destinos sobre a cabeça de um menino, o único, entre os brasileiros, que une o presente ao passado. É uma criança que une ainda as províncias deste vasto Império, e somente a sua existência opõe uma barreira aos ambiciosos que surgem de todos os lados, de igual mediocridade e pretensões igualmente gigantescas. Idéias de federalismo foram semeadas entre todas as províncias do Brasil, mas os brasileiros não saberiam estabelecer no seu seio o sistema federal, sem começar por desfazer os fracos laços que os unem ainda”.

Escrevendo de Portugal ao seu filho e sucessor, felicitando-o pelo aniversário, D. Pedro I afirma:
“Todos os bons brasileiros que desejam de coração, como eu, ver feliz a Terra da Santa Cruz, não poderão deixar de celebrar este dia, com todo o entusiasmo, como o de maior interesse para o Império brasileiro. Da tua conservação dependerá a futura felicidade do Brasil. A ti está reservada a glória de o fazer chegar àquele grau de prosperidade de que é capaz.
Eu faria uma grande injustiça aos meus concidadãos, se não estivesse persuadido de que eles se acham penetrados destas verdades e se desvelam por sustentar-te no trono. Estou convencido de que, se não seguirem a Constituição e D. Pedro II, a mesma sorte da infeliz América espanhola os espera.
Não posso deixar de te pedir que cuides muito de te instruíres, de te fazeres digno do amor dos teus súditos e da admiração de todos”.

O grande orador sacro Mont’Alverne afirmou em um sermão, por ocasião do aniversário de D. Pedro II em 1833, depois que este se recuperara de uma doença grave: “Vós nos convenceis de que o Brasil está salvo, que o primogênito dos brasileiros está vivo. Não é só uma fiança de paz, que o Brasil possui no seu Imperador. Ele é ainda o símbolo da unidade nacional, que seria posta em risco por uma adversidade tão deplorável como a sua morte. A perda do Imperador, afrouxando todos os vínculos sociais, abriria uma vasta arena a empresas temerárias”.

O primeiro Imperador libertara o Brasil e tornara-o independente. O seu cetro e o do seu pai tinham impedido que a Nação se fragmentasse em tantas repúblicas quantas as províncias, dispersando a sua energia e valor, estilhaçando o astro em vinte pequenas estrelas.
O Brasil salvara as suas formosas províncias de se transformarem em outras tantas repúblicas, e amava os seus soberanos. Sem os Braganças, seria a pulverização da grande América, com suas repúblicas faltas de unidade, até a guerrearem-se.

Haviam caído em pedaços todas as possessões americanas da grande nação espanhola. Cada zona, cada palmo desse território se foi progressivamente destacando, como corpo moribundo invadido pela gangrena, e que vai sucessivamente pagando o seu tributo à dissolução e à morte. Todos esses destroços da nobre Espanha se foram atenuando e nulificando. A forma republicana implantou neles o gérmen da anarquia e a caudilhagem, e a desordem e o retrocesso campearam impunes nas plagas outrora regidas pelo leão da Ibéria.
Por um contraste esplêndido, o Brasil estabelecendo um cordão sanitário, único da América, contra as idéias e instituições demagógicas, lançou à terra, desde o dia da sua separação, a semente desta grandeza e prosperidade, que tornará nossos vindouros felizes e poderosos.

O trono brasileiro, pelo próprio fato da sua singularidade na América, repousava sobre uma base precária, e ter-se-ia certamente desmoronado sob o peso do seu novo ocupador se não fosse este uma criança de cinco para seis anos, e não representasse, portanto, um fardo levíssimo.
Esse infortúnio, pelo qual uma criança que já era órfã de mãe se tornava como que órfã com o pai ainda vivo, despertou em todo o País um movimento de afeição suave pelo Imperador-menino. A compaixão, mola poderosa num povo sentimental, tomou o lugar das amizades e dedicações dinásticas que faltavam, e o receio de ver despedaçar-se a bela unidade nacional, alcançada não sem esforço, agiu como se houvesse um partido organizado e disciplinado para manter as instituições monárquicas, ou uma classe verdadeiramente interessada em defendê-las.


Com a maioridade de D. Pedro II, o prestígio da Monarquia salvou o Brasil

Os nove anos de regência, que vão desde 1831 até 1840, constituem a fase mais agitada da nossa existência autônoma. A “experiência republicana” das regências não pudera dar seus frutos, não só pela dispersão das forças nacionais em choque, mas também pelo caráter extraordinariamente singular de Diogo Feijó. Sentia-se a falta de um homem-símbolo, de uma figura central que encarnasse a autoridade suprema e a pusesse a cavaleiro das revoltas periódicas ou das indisciplinas ousadas. O Imperador, com seus 15 anos, oferecia um pólo em redor do qual podiam evoluir as idéias, as aspirações, as forças políticas dispersas até então dentro do País.

Em 1839, quando se cogitava da grave questão da antecipação da maioridade, foi dito a D. Pedro II:
— Senhor, acha-se em risco tanto a paz do Império como a causa da Monarquia. Só um braço há que a ambas possa salvar: é o de Vossa Majestade. Antevemos desde já um porvir de venturas, confiado a tão alta sabedoria.
D. Pedro então perguntou:
— Será certo que com pouco mais de 14 anos possa haver sabedoria?
Os senadores se reuniram e formularam a D. Pedro a pergunta:
— Quererá Vossa Majestade assumir o Governo em 2 de dezembro, quando completa seus 15 anos, ou quer já?
— Quero já! – foi a sua resposta.

A campanha pela maioridade de D. Pedro II foi uma revolta do instinto de conservação nacional. Ninguém se preocupou com indagar propriamente dos méritos do régio adolescente. A confiança geral residia no princípio que ele encarnava, e que era o símbolo da paz e a garantia da segurança da nacionalidade. No dia 23 de julho de 1840, o prestígio da Monarquia salvou o Brasil. Salvou-o, e é fato que todos se voltaram para o Imperador-menino como se vissem nele o único recurso possível de salvação para o País. Somente um poder superior e inacessível às contingências dos partidos poderia pacificar e tranqüilizar os espíritos e robustecer os laços da unidade nacional. Com a sua investidura, conseguiu evitar a perturbação da ordem, senão a dissolução do Império.

Charles Reybaud conta que, em 1850, o Conselheiro Marques Lisboa, embaixador do Brasil em Londres, falava, diante do Duque de Wellington, sobre a situação do Império do Brasil e a vitalidade de suas instituições, que haviam permitido atravessar, sem confusão, o período tão tempestuoso de uma regência de dez anos. O Duque meditou alguns instantes. Depois, em voz lenta e grave, e como que pesando as palavras, respondeu:
— Podeis orgulhar-vos de vossa Constituição e de vosso país. Não conheço na Europa um único Estado que tivesse resistido a semelhante prova.

Visto no seu conjunto, o reinado de D. Pedro II é uma obra-prima de paciência humana e de dedicação patriótica. Nada era mais fácil do que inutilizar, no dia seguinte à Maioridade, a boa vontade e a esperança dos que não viam outro meio de sair da oligarquia senão a sua coroação. No entanto, ele teve a habilidade de conseguir, por perto de meio século, a quase unanimidade nacional em apoio do seu trono e de sua pessoa.


Firmeza e clemência do Imperador garantem a paz e o progresso

Não sabemos se D. Pedro II daria o grito do Ipiranga. Mas podemos afirmar que D. Pedro I não atravessaria tão prudentemente os perigos dos primeiros anos do Segundo Reinado, nem resolveria com tamanho acerto os árduos problemas de meio século de administração.
A desgraça mais temerosa de todas, naquele tempo, foi o desmembramento do Império. E esta possibilidade mais de uma vez se afigurou inevitável. A unidade se fez em volta do Imperador, e nesse sentido as manifestações separatistas deixaram de se produzir.91
Começando o seu reinado pela clemência, que por meio século lhe marcou o roteiro na alta administração do Império, concedeu plena anistia a todos os que estivessem presos por crimes políticos. O decreto, de 22 de agosto de 1840, continha também uma proclamação aos revoltosos do Rio Grande do Sul, chamando-os de novo ao grêmio da sociedade brasileira, em termos em que transpareciam a bondade que perdoa e a energia que ameaça: “A natureza deu-me um coração para perdoar-vos; o concurso da Nação inteira ministra-me forças para vos subjugar. Aproveitai-vos, enquanto é tempo, do que o coração vos oferece, e temei de arrostar as forças do Império”.
A guerra dos Farrapos, que ensangüentara por dez anos as campinas riograndenses, tivera termo graças à ação enérgica de Caxias, a quem não faltou força para vencer os rebeldes heróicos, nem benevolência para colher as suas propostas de paz. Visitando a província logo depois, D. Pedro II conseguiu, só com a sua presença, conciliá-la e conservá-la lealmente unida por todo o longo período do seu reinado.

A 13 de maio de 1842, em Sorocaba, estoura uma rebelião liderada por Rafael Tobias de Aguiar e pelo Padre Feijó. Em 10 de junho, os Otonis desfecham um golpe em Barbacena. A mão firme de Caxias susteve o edifício do Estado. Três anos antes, sem um Imperador, esses golpes seriam uma catástrofe, mas em 1842 não passaram de um sobressalto.

Em 1843, por ocasião das comemorações da Independência, D. Pedro II escreveu um soneto que termina com estes versos:
“Juro, nas aras da fidelidade:
De meu pai recebeste a Independência,
Receberás de mim a Liberdade!”

Em menos de dez anos o País entrou na ordem, e o que eleva extraordinariamente o nome de D. Pedro II, na gratidão nacional, é que conseguiu este enorme resultado sem repressões violentas, sem perseguições cruéis. Vencia as revoluções e perdoava aos revoltosos, completando a obra da justiça com a colaboração de sua magnanimidade.75
Foi incontestavelmente um estadista, que conseguiu, com a força moral de sua virtude, unir durante cinqüenta anos, no mesmo pensamento, interesses e homens tão diferentes, ainda apaixonados das lutas em que se haviam batido. O Brasil lhe deve sua unidade política, o seu prestígio no exterior, a rápida civilização do povo, que se exterioriza brilhantemente na capacidade e na moralidade dos seus homens públicos, e principalmente na brandura de nossos costumes, ao tempo em que os caudilhos de países vizinhos se revezavam no poder, reduzindo, de cada assentada, o número de cabeças de seus concidadãos.

Relatando suas impressões, após viagem ao Brasil em 1882, o Conde Alexandre Hübner afirma: “O Imperador possui, em alto grau, a arte de manejar os homens. É graças a essa arte que ele alcançou um resultado prodigioso. Cercado de repúblicas onde as revoluções se repetem periodicamente, o Brasil se beneficia há 32 anos de uma paz interna ininterrupta. Isso deve-se ao Imperador”.

D. Pedro nos deu meio século de progresso moderado, disciplinado, sadio. Meio século de paz, de tranqüilidade, de ordem. Meio século de legalidade, de justiça, de moralidade.


O Imperador consolida a nacionalidade brasileira

O maior milagre que já se registrou na crônica dos povos sul-americanos é, sem dúvida, a preservação da unidade política do Brasil. Tantas e tão variadas eram as dissensões que trabalhavam a vida interior do Império, que tudo fora de prever, menos que a Nação saísse ilesa do choque dos interesses e das ambições dos primeiros dias da independência. Alcançada em definitivo a emancipação sonhada pela alma brasileira, logo entrou o Brasil a pagar o tributo da sua própria felicidade, encontrando dentro de si mesmo maiores inimigos a vencer do que em terras estrangeiras.

Antes de completar dez anos de administração, o Imperador já havia aniquilado o espírito de caudilhismo que reinava em várias províncias brasileiras, desviando do campo da atividade patriótica algumas dezenas de militares e de paisanos, que passaram depois a prestigiar-lhe a autoridade, cheios de entusiasmo pelas suas qualidades de administrador justiceiro e clemente.

O Gabinete da Conciliação, organizado pelo Marquês de Paraná em 1853, assinala na história política do Segundo Reinado uma época cujos frutos permanecerão vivos até o fim do Império. Acabou com o espírito revolucionário e firmou definitivamente a paz dentro da qual prosperará o País. Preparou um punhado de homens novos para o futuro governo, selecionando os mais capazes, ensinando-lhes a escola da tolerância, do respeito mútuo e do interesse público, que passou a ser a característica do governo. E finalmente criou o ambiente constitucional em que passariam a se revezar, sem se excluírem, os dois grandes partidos da Monarquia.
Cercava o Imperador nessa época, ajudando-o na obra de consolidar a nossa nacionalidade em formação, uma brilhante coleção de homens públicos, sem dúvida a mais completa que já nos foi dado possuir. Nunca se vira, nem se veria depois no Brasil, como nesse período áureo da Monarquia, semelhante galeria de estadistas, notáveis pelo talento, pelo senso da medida, pelo amor à causa pública, pelo desinteresse pessoal, pela rigidez de costumes, pela austeridade de suas vidas privadas.

O grande serviço que o Imperador nos prestava não era tanto o de preparar um Brasil de amanhã, mas sobretudo o de consolidar o Brasil do presente, o Brasil do seu tempo, dar-lhe uma estrutura política e social bastante resistente, para que as gerações vindouras pudessem construir o grande edifício que seria o Brasil do futuro, sem receio de vê-lo um dia por terra. Ele era, neste particular, um dos grandes consolidadores dos alicerces da nossa nacionalidade. Durante cinqüenta anos de reinado, fez de sua vida um longo e constante dever cumprido sem impaciência, sem dilação, sem preguiça. Foi mais administrador do que estadista.
À atuação do Imperador, à sua habilidade política e espírito de longanimidade, atribui Gustavo Aimard a paz profundíssima que o Brasil desfrutava quando o visitou. O Soberano era ao mesmo tempo político e filósofo dotado de enorme benevolência, conhecedor de homens como ninguém, e animado pelo maior patriotismo.


A lógica inflexível do Imperador nos objetivos de longo prazo

A coerência, com a madura reflexão, era uma das virtudes de D. Pedro II. Uma vez adotado um sistema ou aceito um plano, não mudava facilmente. A tradição, a continuidade do governo, está com ele só. Como os gabinetes duram pouco e ele é permanente, só ele é capaz de política que demande tempo. Só ele pode esperar, contemporizar, continuar, adiar, semear para colher mais tarde, em tempo certo.

Durante a guerra do Paraguai os ministérios se sucederam, como também os chefes combatentes. Mudaram a política dos países amigos e as circunstâncias em que a luta se desdobrou. Mas permaneceu ele, seguro dos seus objetivos, sem esmorecer nem precipitar, árbitro das soluções, fiel ao programa. Se a política exterior do Brasil teve então uma lógica inflexível, foi porque a fez o Imperador.
No Brasil, ninguém se identificava mais com a campanha do Paraguai do que o Imperador. Ninguém a intensificava com maior interesse e mais acentuado patriotismo. Joaquim Nabuco afirma: “A influência do Imperador foi notável, nessa época. Cedeu para as despesas da guerra a quarta parte da sua verba pessoal. A sua atividade proverbial aumentou ainda mais. A sua solicitude não teve limites. O seu ardor em animar os que partiam dava às suas palavras a emoção da voz da Pátria. O Imperador arrastava atrás de si todos que o circundavam”.
Por vezes, sua insistência era quase uma súplica: “As circunstâncias são muito graves, e todos devem concorrer para o fim patriótico de concluir a guerra, como só posso admitir que ela termine, com honra para o Brasil. Caxias está animado. Porém ele merece, e o bem do Estado exige, que ele receba, como até agora, o maior apoio do Governo”.

A guerra do Paraguai envelheceu precocemente D. Pedro II. Foram cinco anos que valeram vinte.
Nunca, talvez, um rei o foi tão inteiramente como D. Pedro II, entre 1864 e 1870. Havia já construído o seu sistema de governo – a macia direção pessoal do Estado, em harmonia com um gabinete representativo – e imposto aos políticos a sua maneira de agir e de conciliar, de resolver e de negar, de conduzir e de orientar.
A luz perene das suas janelas, iluminadas até altas horas, projetava-se sobre os horizontes da nacionalidade. Sabia-se que o Imperador dormia pouco, empenhado em dar à sua terra o completo esforço, para que vencesse a tormenta com dignidade e glória.

Tomemos os Estados Unidos e o Brasil, frente ao mesmo problema: a abolição da escravatura. Tiveram os Estados Unidos a solução pela violência, pela força, pelo grande fragor da guerra fratricida. Teve o Brasil uma solução que todos vimos, solução que excedeu aos sonhos dos humanitários mais otimistas. Porventura deveremos envergonhar-nos da solução que soubemos e pudemos dar ao problema, e sentir o não termos imitado os Estados Unidos também nesse ponto?
“Se os Estados Unidos, em 1862, tivessem um monarca em vez de um presidente eleito por poucos anos, certamente lhes teria sido possível dirigir o problema servil para uma solução pacífica, evitando uma sangrenta guerra civil, cujos efeitos ainda perduram”.
Isto dizia Doellinger em 1880, e oito anos depois os fatos vieram dar-lhe razão, porque o único país monárquico da América foi também o único que pacificamente extinguiu a escravidão. O seu natural instinto de conservação leva as monarquias a procurarem resolver os problemas sociais, enquanto que as oligarquias republicanas temem esses problemas e adiam-lhes indefinidamente as soluções.

O Conde Afonso Celso, em visita ao Imperador exilado em Paris, contou-lhe minuciosamente as notícias da Pátria, algumas das quais desagradaram-no. Um dos presentes perguntou-lhe:
— O espírito patriótico de Vossa Majestade não se confrange com as desgraças que se desencadearam sobre o nosso País?
— Certamente! Sucedem ali fatos que me fazem sofrer muito. Por exemplo, a notícia de que pretendem ceder aos argentinos parte do território das Missões. Isso, nunca! Nem um palmo do nosso território, nem uma pedra das nossas fortalezas. Contamos a nosso favor com o direito e a força. Como transigir nessas condições? Foi o meu empenho sagrado conservar o Brasil unido e íntegro. Reside nessa homogeneidade individual a nossa grandeza.


Não pertencendo a partidos, o Monarca é Imperador de todos os brasileiros

Um dos maiores serviços que o Rei presta ao povo é a garantia da sua total independência em relação aos partidos políticos, e dum modo geral em relação aos interesses particulares das pessoas ou das associações, sejam de que tipo forem: políticas, econômicas, profissionais.

Em 1886, ao visitar as obras do Museu do Ipiranga, em São Paulo, o Imperador mandou a carruagem seguir pelo caminho histórico. Chegando ao local, comentou:
— Esta é a verdadeira arquitetura adequada a um monumento desta ordem.
E perguntou ao Conselheiro Ramalho:
— Ainda vive alguém do tempo da Independência?
— Há em Campinas um velho, chamado João Cintra, que fez parte da comitiva do augusto pai de Vossa Majestade.
Dias depois, quando chegou a Campinas, foi logo indagando onde morava o velho Cintra, cuja casa era fora da cidade. E seguiu para lá, acompanhado apenas de um jornalista e do seu velho negro Rafael. Encontrou João Cintra falando a meia voz, num grupo de velhos. Depois dos cumprimentos, perguntou:
— Que história estava aí contando? Continue, eu também quero ouvir. Quem é velho sempre sabe muitas histórias.
Não sabendo o que lhe haveria de dizer, o rude velhinho perguntou a Sua Majestade:
— Por que é que o Senhor não se muda para cá? Será por ser carioca?
— Eu não sei o que é ser carioca, paulista, gaúcho, mineiro ou pernambucano. Só sei que sou brasileiro.

No dia 10 de julho de 1888, os brasileiros residentes em Paris promoveram um banquete para comemorar a abolição da escravidão. Compareceram 169 personalidades do mundo oficial. Os organizadores desejavam convencer o Imperador, presente então na França, a presidir o banquete. Coerente com a sua situação de Imperador de uma maioria de abolicionistas, mas também da minoria não abolicionista, ele se recusou:
— Desejo continuar Imperador de todos os brasileiros, quaisquer que sejam os credos e convicções políticas.

Numa carta dirigida a D. Pedro II, Lamartine escreveu: “Todos os súditos de Vossa Majestade, que vêm do Brasil ou que daí nos escrevem, felicitam-se de viver sob o governo de um príncipe que extinguiu no Novo Mundo, por seu caráter e suas virtudes, a eterna disputa entre as naturezas do governo republicano ou monárquico: a liberdade das repúblicas sem a instabilidade, e a perpetuidade das monarquias sem o despotismo”.

Tivemos 67 anos de Monarquia que, além de nos trazer a Independência, trouxe a este País crescimento industrial e comercial, estabilidade política e ideológica, liberdade total, honestidade, probidade com as coisas públicas e identidade pátria, além de governos livres e independentes, sistema monetário forte, estruturas institucionais fortes e morais, estrutura partidária de grande potência e uma política exterior digna.


Na “questão religiosa”, atuação objetável do Imperador

Dos muitos fatos ocorridos no Segundo Reinado, nenhum houve que, sequer de longe, causasse tanta comoção no extenso Império do Brasil quanto a chamada “questão religiosa”, que se desenrolou de março de 1872 a setembro de 1875.
Herdeira e continuadora da Monarquia portuguesa, a Monarquia brasileira conservava o Estado unido à Igreja. A Religião Católica era a única oficialmente reconhecida como verdadeira pelo Império, conforme previa o artigo 5º da Constituição. A prática de cultos não católicos era tolerada, porém só o culto católico podia ser realizado em edifícios com forma externa de templo. Quando o Santíssimo Sacramento passava pelas ruas, a tropa recebia ordem de ajoelhar-se. Os membros do episcopado eram objeto de honras oficiais, como dignitários do Estado.
A estes justos privilégios se contrapunham, infelizmente, graves e injustos cerceamentos da liberdade da Igreja, entre os quais ressaltava o fato de que, segundo o entendimento de canonistas eclesiásticos e civis, as bulas e decretos do Soberano Pontífice, com vigência para o mundo inteiro, não podiam ser aplicadas em território brasileiro sem a aprovação – ou “placet” – do Imperador.
Assim, tendo o Papa Pio IX, então reinante, publicado decreto proibindo aos católicos filiarem-se à maçonaria, o Gabinete de então, presidido pelo Visconde do Rio Branco, grão-mestre da maçonaria brasileira, se declarou contrário à aplicação do documento pontifício em nosso País. E nisto foi apoiado pelo Imperador, que recusou seu “placet” ao mencionado ato pontifício.
Discordando dos canonistas que sustentavam a legitimidade do “placet” imperial, dois prelados brasileiros – D. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, Bispo de Olinda, e D. Antonio de Macedo Costa, Bispo de Belém do Pará – deliberaram aplicar nas respectivas dioceses aquele decreto, afirmando assim a obediência que, como bispos católicos, lhes cabia ter em relação a todos os atos emanados do Vigário de Cristo na Terra. Em conseqüência, determinaram que, sob penas canônicas, saíssem da maçonaria todos os eclesiásticos e leigos católicos a ela filiados.
À vista desse ato, que teve graves desdobramentos, o Governo Imperial decidiu levar presos ao Rio de Janeiro ambos os prelados, a fim de serem julgados. O Supremo Tribunal de Justiça, em maio de 1874, condenou os bispos a 4 anos de prisão com trabalhos forçados. Fazendo imediatamente uso da sua atribuição constitucional, D. Pedro II comutou a pena em prisão simples.
É difícil avaliar devidamente, em nossos dias, a comoção causada em todo o Brasil pela decisão do Tribunal. De todo o País afluíram católicos inconformados, para visitarem nos respectivos cárceres os valorosos prelados. E de todas as partes convergiam para a mesa de D. Pedro II os pedidos de anistia em favor destes. Entre as pessoas de maior destaque nesses pedidos, figuravam muitos membros do episcopado nacional e a Princesa Isabel.
O seguinte episódio, ao mesmo tempo que nos mostra um aspecto gracioso da intimidade entre as pessoas da Família Imperial, deixa reluzir a firme têmpera dessa grande dama católica que foi a Princesa Isabel.

Em visita à Princesa, em julho de 1875, o Imperador e a Imperatriz comunicaram-lhe que pretendiam viajar à Europa, para o tratamento de D. Teresa Cristina. Aproveitando o ensejo, a Princesa declarou que só aceitaria a Regência com satisfação se fossem anistiados D. Vital e D. Macedo Costa, então cumprindo pena de prisão. O Imperador não respondeu, mas ela voltou, decidida, ao assunto:
— Pois o papai fique certo de que, se até eu assumir a Regência o caso permanecer como está, eu anistiarei os bispos. Será o meu primeiro ato.

Afinal, no dia 3 de setembro de 1875, o novo Gabinete, presidido pelo Duque de Caxias, obteve do Imperador o decreto de anistia dos bispos.

Alguns anos mais tarde, quando visitou o Colégio do Caraça em abril de 1881, D. Pedro II percorreu as aulas do Seminário Maior. Depois de ouvir os alunos que eram interrogados sobre Teologia Dogmática, Moral, História, quis saber o que se ensinava ali sobre o “placet”. Foi chamado então um seminarista, que expôs a doutrina do Concílio Vaticano sobre o assunto:
— Há dois poderes, o eclesiástico e o civil, e ambos vêm de Deus. O primeiro, imediatamente de Deus. Sobre o segundo, as opiniões divergem se imediatamente ou mediante o povo. O poder eclesiástico é superior ao civil, porque tem objeto mais nobre, espiritual, sobrenatural – o bem das almas – e extensão territorial maior, pois abrange o mundo todo. O poder civil tem por objeto o bem temporal, e se limita a uma nação particular. Estes dois poderes são distintos e livres na sua esfera.
Houve um silêncio, e D. Pedro perguntou:
— E nas questões mistas?
O professor, Pe. Chanavat, tomou a palavra:
— Para estas, a decisão pertence à Igreja.
— Protesto! Como chefe do poder civil e defensor nato da Constituição Brasileira, protesto contra esta doutrina.
Com tato e delicadeza, o Superior, Pe. Clavelin, propôs outro assunto, desfazendo o incidente. Mais tarde, durante o recreio, D. Pedro passou com a comitiva perto do Pe. Chanavat, que se encontrava em uma roda de alunos, e este aproveitou para interpelar o Imperador:
— Não posso admitir o protesto de Vossa Majestade. É escandaloso um monarca católico protestar contra a doutrina da Igreja diante de um seminário maior.
Mais tarde, D. Pedro comentou com a comitiva:
— O Pe. Chanavat é um sacerdote digno da batina que veste e da cátedra que ocupa. É um homem!

O elogioso comentário do Monarca sobre a pessoa do Pe. Chanavat deixa claro o respeito com que considerava os sacerdotes e os católicos que se tinham oposto a ele tão firmemente, em defesa das inalienáveis prerrogativas do Papado. As suas atitudes, decorrência natural das doutrinas que lhe inculcaram os professores designados pela Regência, durante a menoridade, não se revestiam, portanto, de um caráter rigoroso e inflexível.

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30.5.08

08 - EDUCAÇÃO, ARTE, CIÊNCIA, TECNOLOGIA - O IMPÉRIO NAS VIAS DO PROGRESSO

Em torno do Imperador, surge no País uma elite cultural e artística

As conveniências da cultura, das artes e das letras nos governos monárquicos, e o abastardamento do gosto atribuído aos regimes puramente democráticos, constituem um argumento em favor das monarquias e em desabono das repúblicas. Todos os reis conhecem isto. Sabe-se que em toda a parte e em todo o tempo os períodos mais brilhantes do desenvolvimento das letras condisseram com o maior esplendor dos tronos.
A democracia não é literária, porque é a igualdade; e a inteligência, que ela pretende nivelar, é indispensavelmente aristocrática. Nada mais aristocrático do que o grande poeta da democracia, Victor Hugo. A literatura ou a arte democrática não existem. Sendo manifestações do que há de melhor e de superior na inteligência humana, são forçosamente aristocráticas. As ciências, as letras e as artes jamais florescerão nos estados sociais onde impera a democracia.

Assis Chateaubriand comentou a respeito de D. Pedro II: “Mau grado o lamentável espetáculo de incapacidade da vida pública do Brasil, ele criou um ambiente de ordem política, que era, em larga parte, uma transposição e uma projeção da sua personalidade vigorosa. A obra mais interessante do Imperador consistiu na formação das elites no Brasil. Elites políticas, elites literárias, elites artísticas, ele se preocupava da criação de todas elas, e com uma sabedoria doce, insinuante e sagaz”.

Aos 29 anos, acabara por criar no Brasil um verdadeiro mecenato, que atinge todos os ramos da atividade literária, artística e científica. Macedo, Alencar, Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães, Varnhagen, entre outros, se encarregam de elevar o nível intelectual do País, estimulados pela atenção que o Soberano dedicava às coisas literárias. Pintores, músicos e escritores encontram apoio e auxílio que chegam por intermédio de viagens de estudos, de encomendas de obras, enfim, por todas as formas de que o Imperador podia dispor. Lendo todos os jornais da Capital e das províncias, tendo à sua disposição funcionários que assinalavam os artigos que podiam interessá-lo, não somente os que se referiam à política, mas também às artes e às letras, o Imperador deseja ter dinheiro apenas para fundar escolas, para a compra de livros, de objetos de arte, de quadros, ou para financiar aqueles que ele julgava dignos de apoio.

O Imperador reunia freqüentes vezes, em sessões literárias e científicas, os homens de letras e os sábios brasileiros, para com eles examinar alguma nova produção ou discursar sobre literatura, ciências e artes. Eram as conferências conhecidas como ‘palestras imperiais’.

Na corte de Pedro II, Victor Hugo e Lamartine é que pareciam reinar. Seus livros, lidos e discutidos pela elite na língua original, haviam sido traduzidos e divulgados amplamente.
Uma certa douceur de vivre, na expressão de Talleyrand, parece estender-se sobre a sociedade brasileira, marcada pela personalidade do Imperador, cada vez mais integrado aos assuntos intelectuais. De hábitos simples, inimigo da ostentação, utiliza ainda a velha carruagem que pertenceu ao avô, D. João VI, para seus passeios habituais. Rodeia-se de gente erudita, sem distinção de cor ou de fortuna. Auxilia os artistas em suas realizações. Estimula, com dinheiro, os estudos de Pedro Américo, Gonçalves Dias e Carlos Gomes, na Europa.

Ferdinand Wolf avaliou o interesse do Imperador pelas artes: “D. Pedro não se contenta em amar e proteger as ciências e as artes, de reunir em sua Corte sábios e artistas, de os favorecer. Não faz das ciências, das letras e das artes um pedestal de sua ambição. Ele as ama por elas mesmas, e conhece muitos dos seus ramos ele próprio”. Foi, talvez, o único que teve essa elevada e desinteressada preocupação pelas artes, letras e ciências.


A instrução pública, um objetivo primordial da Monarquia

Entre as graves preocupações de D. Pedro II, durante quase meio século de reinado, um dos assuntos que sempre mereceram sua particular atenção foi o desenvolvimento da instrução pública, que ele encontrou imperfeita e mal esboçada, quando em 1840 assumiu as rédeas do governo, e que conseguiu melhorar notavelmente, com o auxílio de alguns de seus ministros mais devotados a esta nobre causa.
O historiador Max Fleiuss fornece os seguintes dados: “Em 1844 havia no Rio de Janeiro apenas 16 escolas públicas e 34 colégios particulares. Em 1860 as escolas públicas são 3.516, com mais de 115.000 alunos. Em 1889, são 300.000 alunos freqüentando 7.500 escolas”.

D. Pedro II tinha tanto interesse pelas escolas e pela educação das crianças, que repetia com freqüência:
— Se eu não fosse imperador, quisera ser mestre-escola.

Terminada a guerra do Paraguai, quis a gratidão nacional levantar ao Imperador uma estátua eqüestre, que chegou a ser modelada em gesso. Abriu-se para isso uma grande subscrição. Quando a iniciativa chegou ao seu conhecimento, D. Pedro recomendou, em carta ao presidente do Conselho de Ministros, que só empregassem seus esforços na aquisição do dinheiro necessário para a construção de edifícios apropriados ao ensino das escolas primárias e para o melhoramento material de outros estabelecimentos de instrução pública. Não queria que a sua figura fosse perpetuada em mármore ou bronze, mas em quatro edifícios consagrados à instrução popular. E concluía a carta:
“Todos os ministros passados e os atuais sabem bem o que eu penso sobre a instrução pública. De há muito venho dizendo que se deve cuidar dela muito seriamente, e que nada me seria mais agradável, agora que se fez triunfar a causa da dignidade nacional, do que ver a nova era de paz e de prosperidade começar por um ato de iniciativa do Brasil, em proveito da educação do povo”.
Foram assim edificadas as escolas do Largo do Machado, da Rua Senador Correia, da Praça XI de Junho e da Rua da Harmonia, no Rio de Janeiro.

Defendendo-se da acusação que alguns lhe faziam, de ir perturbar o trabalho das escolas com as suas visitas, D. Pedro II afirmou:
“Tenho assistido a exames e concursos, sobretudo para conhecer as habilitações individuais. Tenho assim reconhecido, por mim mesmo, muitas inteligências que têm feito figura depois. Rio Branco, lembro, fez exame em minha presença, na antiga Academia Militar. Se vou aos concursos e outras provas literárias ou científicas, é para poder dar minha opinião sobre as provas, assim como conhecer as habilitações individuais. Quantos ministros tenho eu conhecido desde o colégio? O tempo que nisso gasto é para mim quase que mero cumprimento de dever, tendo eu tantos outros estudos ou leituras que preferiria fazer. Tenho ido a conferências e outros atos, porque sempre desejei animar as letras e as ciências”.

O “Le Petit Journal”, por ocasião da morte do Imperador, afirmou: “Pode-se dizer que tudo quanto se fez de generoso no Brasil, de 50 anos para cá, foi inspirado por ele”.


O Imperador incentiva e fiscaliza pessoalmente a instrução pública

Em 1846, D. Pedro II visitou em São Paulo a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. No salão dos atos, ouviu o discurso do diretor, Avelar Brotero, e poesias de alguns estudantes. Voltou depois para assistir aos exames, como sempre gostou de fazer.
José Antonio Saraiva, futuro conselheiro e um dos estudantes de então, escreveu para a família, a propósito dessa visita do Imperador: “É afável com todos, dirige-se a qualquer um, faz-lhe perguntas e procura informar-se das menores particularidades. Tem andado a pé como simples cidadão, só acompanhado daquelas pessoas que o querem acompanhar sem aparato nenhum, e isto sem a menor quebra de sua dignidade, pois sua circunspeção, suas belas maneiras, fazem com que todos o estimem e respeitem. O entusiasmo tem sido grande, e ele está muito contente. É muito vivo, e segundo dizem todos, tem instrução superior à sua idade”.
Um mês depois o Imperador voltou, para apreciar a defesa de tese de dois bacharéis, um dos quais foi reprovado. Datam dessa época as primeiras anedotas sobre a sua severidade como fiscal do ensino. Nunca mais uma congregação de academia se deixaria surpreender pela visita imperial. Passaria a ter o cuidado de preparar os estudantes, prevenir imprevistos.
Aos vinte anos, D. Pedro começou um ofício que desempenharia pelo resto da vida: inspetor geral da educação no Império. Presidia à mesa de examinadores, e às vezes perguntava também. Embaraçava os alunos e espicaçava os professores, com a sua proverbial memória e a sua erudição. Dizia que o ensino devia elevar-se, e dava o exemplo, fiscalizando-o com uma tenacidade inigualável. Insistia para que moralizassem a instrução. E não confiava nas informações oficiais, mas ajuizava com os próprios olhos.

O Imperador visitava assiduamente o Colégio Pedro II, que tinha em grande estima. Fernando Magalhães narrou a impressão que lhe causavam essas visitas: “No Colégio, subitamente, a sineta que batia o toque simples do início da aula, ou o dobrado do fim do recreio, entrava a bimbalhar repetidamente, num aviso de festa. Já se sabia: era a visita de Dom Pedro II. Ele a fazia freqüentemente, corria todas as aulas, subia ao estrado do professor, sentava-se na cadeira ao lado e entrava a questionar os meninos como um mestre-escola cuidadoso e paciente. Tenho na memória a sua lembrança, tanto me impressionou a beleza singular daquele velho plácido e corpulento, um grande corpo que as pernas já vacilavam em carregar, uns olhos que o tempo se comprazia em azular cada vez mais na suavidade, uma fronte larga e polida, barbas brancas de santo, rosto feliz de abnegado, atitude tranqüila de justo, vulto inconfundível de nobre”.

Em 1875, D. Pedro II e D. Teresa Cristina visitam em São Paulo o Seminário N. Sra. da Glória, das Irmãs de São José, sendo provincial Madre Maria Teodora Voiron. Percorrem todas as dependências do educandário, e ao chegar ao dormitório D. Pedro diz aos acompanhantes:
— Essas Irmãs de Caridade são as mesmas em toda a parte. São aqui como no Rio.
— Perdão, Majestade – responde a Madre Superiora –, vosso hospital no Rio é a riqueza. Aqui é a pobreza.
— Tendes o mais belo dos luxos: o asseio – comenta o Imperador.

O diretor da Faculdade de Medicina foi falar ao Imperador sobre o regulamento de ensino. Tal foi a erudição de D. Pedro II, ao discutir os vários assuntos, que o professor comentou depois:
— Ora essa! O Imperador sabe mais Medicina do que eu!


Entre poetas e escritores, o Imperador cria e estimula uma elite intelectual

O Imperador costumava reunir os literatos e os professores do Colégio Pedro II, aos sábados, no salão do externato, para se entreterem em animadas palestras literárias, quando eram lidas as produções inéditas de qualquer dos presentes, às vezes dele próprio.
Numa dessas noites, em que o programa tinha sido particularmente cansativo, o Barão Múcio Teixeira, para evitar de cochilar, pegou um lápis e começou a esboçar a caricatura do Monarca, mas de tal modo que ele não pudesse ver de que se tratava. Terminada a leitura, que o Imperador acompanhara atentamente, voltou-se para o caricaturista e pediu:
— Deixe ver se está parecido comigo.
Sem compreender como ele se inteirara dos seus movimentos, apesar de toda a cautela, o Barão passou-lhe o desenho. O Imperador sorriu, complacente, mostrou a caricatura ao Reitor, e ela foi passando de mão em mão, entre comentários e risadas. Quando completou o percurso, D. Pedro dobrou-a, meteu-a no bolso e disse:
— Gosto mais dos seus versos do que das suas caricaturas. Mas guardo-a como lembrança.

Castro Alves e Fagundes Varela eram com igual atenção recebidos pelo Monarca, diante de quem iam recitar em primeira mão as suas composições poéticas.

Quando Salvador de Mendonça perguntou ao poeta Francisco Otaviano como ia o Imperador, obteve esta resposta:
— Sempre a fazer maus versos e a criticar os bons!

Em 1887, o deputado Joaquim Nabuco pediu ao Imperador permissão para publicar uma de suas peças em verso. Este respondeu:
— Sei muito bem que não sou poeta. Faço versos, de vez em quando, como exercício intelectual, e somente quando não tenho outra coisa a fazer. Isso, porém, não é poesia. Mostro aos amigos íntimos esses trabalhos, mas por nenhum preço eu os queria ver publicados.
D. Pedro II mostrou um dos seus sonetos a Moniz Barreto. O poeta e repentista, depois de lê-lo, comentou:
— Se eu tivesse perpetrado tal crime, Senhor, suicidar-me-ia.
O Imperador, inteiramente despreocupado de ser tido como literato, retrucou sorridente:
— Ora, Senhor Moniz Barreto. Tu te fizeste réu de sandices muito maiores, e ainda estás vivo!

Quando Charles Expilly, autor do célebre livro “Mulheres e Costumes do Brasil”, apresentou-se a D. Pedro II, o Monarca acolheu-o animadamente, dizendo:
— Conheço este nome.
— Talvez seja o de Claude Expilly, comentador de sentenças...
— Não! Não!
— Vossa Majestade quer falar então de Alexandre Expilly, deputado pela Bretanha em 89...
— Charles Expilly! Eis o nome que li assinando vários folhetins e jornais parisienses. É o seu, ou de algum de seus parentes?
— Sou forçado a convir que é bem o meu nome, esse que Vossa Majestade reteve – respondeu Expilly, justamente maravilhado de que um nome tão obscuro na França fosse conhecido do Imperador do Brasil.

Em 1869, trabalhava o Dr. Ramiz Galvão como cirurgião no Hospital Militar, onde atendia alguns doentes vindos do Paraguai. Em visita ao hospital, D. Pedro II perguntou ao cirurgião:
— Que atividades tem exercido?
— Senhor, preparo-me para escrever uma memória sobre o Mosteiro de São Bento, ao qual sou muito grato. Ali encontrei informações preciosas e documentos que contradizem certas afirmações injustas.
— Está bem. Continue. E quando a tiver pronta, apresente-a ao Instituto Histórico.
Concluída a obra, foi entregue ao Instituto, mas um ano depois ainda não havia sido publicada. Encontrando-se casualmente com Ramiz Galvão, o Imperador lhe perguntou:
— E o seu trabalho sobre o Mosteiro de São Bento? Não o levou avante?
— Sim, Senhor. Há longos meses que o entreguei na secretaria do Instituto.
— Como?! Não tenho notícia disso. Vou indagar.
Pouco tempo depois o trabalho era publicado.


Carlos Gomes, Pedro Américo, Vítor Meireles – Os grandes artistas e o bolsinho do Imperador

A despeito de não se incluir entre os soberanos mais aquinhoados pela fortuna, D. Pedro II realizou sacrifícios financeiros por amor à arte e à ciência.
Não limitava a proteção oficial, ou a que ele diretamente concedia, ao período de formação do artista. Nunca perdia de vista o bom artista, amparava-o, dava-lhe empregos, incumbia-o de encomendas e decorações e adquiria-lhe as obras para si ou para a Pinacoteca, por ele fundada e enriquecida.

Da Itália nos vinha o nome glorificado de Carlos Gomes. Graças à pensão que lhe dava pessoalmente o Imperador, conseguira concluir os estudos. Jamais outro compositor brasileiro alcançou o sucesso de “O Guarani”, cuja estréia se deu no Teatro Scala de Milão.

Conversando com o Visconde de Taunay, D. Pedro II comentou a ópera “Schiavo”, de Carlos Gomes, e acrescentou:
— Estou disposto a custear pessoalmente a montagem da peça.
— Repare, Senhor, que serão necessários 40 contos de réis.
— Não! Com a breca, isso não! Não sou tão rico assim. Em todo caso, fale com os empresários e venha entender-se comigo. Podemos contar com o sucesso da obra.

Carlos Gomes declarou:
— Se não fosse o Imperador, eu não seria Carlos Gomes.
Embora aureolado por um nome glorioso, que honrava o Brasil, Carlos Gomes ficara pobre após o 15 de novembro. Fora mantido pessoalmente por D. Pedro II, e a República se recusou a conceder-lhe uma pensão, por ser amigo da Família Imperial. Apesar disso, quando lhe foi feito o convite para compor o hino da República, não aceitou, como nobre homenagem de gratidão ao seu protetor destronado.

Na pintura, dois jovens brasileiros fixavam na tela cenas da nossa história ou fatos heróicos dos nossos soldados. Chamavam-se Vítor Meireles e Pedro Américo.
Vítor Meireles iria dar-nos, sucessivamente, entre outras telas, “Primeira Missa no Brasil”, “Combate de Riachuelo” e “Batalha de Guararapes”. Pedro Américo nos daria outras grandes telas: “Batalha do Avaí”, “Juramento da Princesa Isabel”, “Batalha do Campo Grande” e “Grito do Ipiranga”. Esta última tela fora exposta pela primeira vez em Florença, onde o autor terminava seus estudos de pintura por conta do “bolsinho de Sua Majestade”.

O Imperador conheceu Pedro Américo no Colégio Pedro II. Enquanto ele visitava uma aula de aritmética, o estudante fez um desenho do Monarca, que lhe foi entregue. Perguntado se gostaria de estudar na Academia Nacional de Belas Artes, Pedro Américo ficou encantado com a oportunidade, e logo começou os estudos, às expensas do Imperador. Posteriormente, foi também ele que custeou o prosseguimento dos estudos na Europa.

A arte brasileira, com o desaparecimento do espírito que a nutria, se conserva numa espécie de recolhimento, como que à espera de um novo mecenas, desvelado e magnânimo.


O Imperador cria hábitos de seriedade nas instituições científicas

Um artista lírico, em visita ao País, escreveu: “O Imperador anima, com sua presença, todas as instituições que julga úteis para melhorar o País, e a modesta dotação que lhe é fixada no orçamento é absorvida por obras de caridade. Dom Pedro possui conhecimentos muito amplos. Preside ao Instituto Histórico e Geográfico todas as sextas-feiras, menos por pedantismo do que para estimular os trabalhos relativos ao Brasil”.
Com inquebrantável pontualidade, o Imperador presidia a todas as sessões do Instituto Histórico, devotando-lhe o maior carinho. Como acentuou o diplomata e escritor Vicente Quesada, ele assim procedia para infundir, com o seu alto exemplo, hábitos de seriedade às instituições dessa ordem.

Em setembro de 1880, reunia-se no Rio o Primeiro Congresso Nacional de Medicina. Terminados os trabalhos, e desanimada de obter dos cofres públicos os necessários recursos para impressão dos anais, a comissão organizadora resolveu apelar para o Imperador, que respondeu:
— Como foi por falta de verba que o Governo mandou sustar a publicação dos trabalhos do congresso, não posso eu, primeiro guarda das leis do País, concorrer para fazerem-se despesas não decretadas. Amigo, porém, da ciência e dos progressos de minha terra, terei muito gosto em tomar a mim essa despesa.
No dia seguinte eram dadas as ordens para a impressão dos trabalhos do congresso.

O Dr. Antonio Ennes de Souza venceu um concurso para a cadeira de Mineralogia da Escola Politécnica, assistido pelo Imperador. Depois de nomeado, subiu ao Palácio da Boa Vista para agradecer, e resolveu esclarecer que tinha idéias republicanas. Ouviu este conselho:
— Senhor Ennes, deixe de política. Dedique-se à ciência. O senhor é moço, e tem um vasto campo diante de si.

Em Washington, D. Pedro II foi visitar o observatório. Dado o seu interesse por questões de Astronomia, examinou tudo cuidadosamente. De um modo geral, achou-o bem montado. Mas o regulador elétrico da hora, a que correspondiam quatro relógios da cidade, não lhe pareceu tão perfeito quanto o do observatório do Rio de Janeiro. Achou o cosmógrafo colocado sem a necessária estabilidade, e o relógio standard, para observações, mal colocado.
Mostraram-lhe depois o “grande relógio”, que registrava observações astronômicas por meio de eletricidade, e fora o primeiro do gênero. Estava parado, e ninguém sabia consertá-lo. O astrônomo Newcomb, que acompanhava o Imperador, ficou assombrado quando viu D. Pedro passar uma mão por baixo do móvel e começar a examinar pacientemente a base que suportava o relógio. Feito isso, demonstrou-se admirado de que estivessem usando um aparelho desnivelado como aquele. Verificou-se depois que esse era o único defeito, que impedia o aparelho de funcionar.


O Instituto Pasteur demonstra sua gratidão ao Imperador

Na Academia das Ciências, em Paris, o Imperador foi ouvir de Pasteur a exposição dos resultados das suas experiências. Para encerrar a sessão, o grande cientista saudou a presença de D. Pedro com as seguintes palavras:
— Nosso augusto colega Dom Pedro de Alcântara, que, como todos sabem, gosta de esconder seu cetro imperial sob as condecorações acadêmicas que recebe do mundo inteiro.

Dom Pedro II foi um dos primeiros grandes admiradores de Pasteur, dos que acreditaram no valor dos seus trabalhos e deram apoio às suas famosas experiências. Várias vezes tentou induzir o grande cientista a vir prosseguir seus estudos no Brasil, não precisamente sobre a raiva ou o cólera, mas sobre um mal que dizimava então entre nós milhares de criaturas por ano: a febre amarela. O Imperador estava persuadido, apesar da completa ignorância que se tinha então sobre a origem dessa moléstia, de que Pasteur podia bem isolar-lhe o bacilo, descobrindo depois uma vacina eficaz. A esse propósito, escreveu a Pasteur:
“Encontrareis aqui culturas feitas com o maior cuidado para o exame dessa questão, e ainda que não pudéssemos vos ser reconhecidos pela descoberta da vacina dessa moléstia, vossa visita ao meu país será um acontecimento que terá a maior influência sobre o progresso científico do Brasil. Meus sentimentos por vós e meu amor à ciência vos são bem conhecidos, e desde já me alegro de vos acolher aqui como mereceis, não fazendo com isso senão acompanhar o sentimento de todo o meu país. Vossos estudos sobre a raiva não seriam abandonados senão por pouco tempo, e o serviço prestado à humanidade, preservando-a da febre amarela, seria pelo menos de idêntico alcance”.
Todas as tentativas foram vãs. Pasteur não pôde atender aos desejos do Imperador: “Depois de muitas reflexões e hesitações, devo render-me aos conselhos de meus médicos: tenho a profunda tristeza de não poder aceitar o oferecimento de Vossa Majestade”.

D. Pedro II nunca foi esquecido no Instituto Pasteur. Por volta de 1900, dez jovens médicos brasileiros recém-formados foram designados para seguir os cursos no Instituto. Chegando a Paris, apresentaram-se ao secretário, que lhes informou:
— Muito tarde, senhores. O registro de inscrições já está fechado. Havia apenas cem vagas, e todas já foram preenchidas.
Um dos médicos, Afrânio Peixoto, não desistiu, e resolveu procurar o próprio diretor do Instituto, em nome dos colegas. O Professor Roux recebeu-o sem delongas, e logo perguntou:
— Então o senhor é brasileiro?
— Sim, senhor.
— Bem, deve reconhecer este personagem – e indicou com a mão um busto de mármore branco.
— É o nosso Imperador, D. Pedro II!
— Sim, senhor. Dom Pedro, Imperador do Brasil. Talvez não saiba que, quando meu mestre Pasteur não tinha ainda conseguido vencer todas as hesitações, todas as dúvidas, foi vosso Imperador, seu amigo, quem lhe trouxe os primeiros cem mil francos necessários à fundação deste Instituto. Como é, então, que nesta casa não haverá sempre lugar para brasileiros? Não quero, naturalmente, prejudicar os estudantes já admitidos, mas este ano, como grande exceção, mandaremos colocar mais um banco na sala do curso, e teremos cento e dez ouvintes, em vez dos cem habituais.


Nosso Imperador, promovendo o desenvolvimento material do País

Sob o ponto de vista do progresso e do desenvolvimento material do País, o Império não foi o atraso e a estagnação de que ainda hoje é acusado pelos que não se querem dar ao trabalho de estudar e conhecer melhor esse período da nossa História. Na verdade o Brasil era, de fato e de direito, a primeira nação da América Latina. Essa hegemonia, ele iria conservar até o último dia da Monarquia.

Foi das mãos de D. Pedro II que o Brasil saiu apto a enfrentar as dificuldades políticas do continente e do século: pacificado e unificado pelo Imperador, o Brasil se impôs ao respeito internacional, disseminou a instrução, consolidou a linha de suas fronteiras, estabilizou a moeda, bateu-se vitoriosamente nas guerras que lhe foram impostas, tratou de igual para igual as maiores potências, não reconheceu hegemonias no hemisfério, construiu a terceira esquadra do mundo. Apoiado em dois grandes partidos nacionais, praticou o parlamentarismo. Criou uma elite intelectual, moral, social e política, foi um fecundíssimo viveiro de valores humanos, aboliu o tráfico e a escravidão, insuflou as nossas maiores riquezas econômicas, aparelhou a indústria, construiu uma enorme rede de comunicações rodoviárias e ferroviárias, ligou-nos à Europa pelo cabo telegráfico, o telefone, a tração a vapor, impulsionou as ciências e as letras, conheceu intimamente aquilo que Cícero preconizava como a suprema ventura dos povos: o gozo tranqüilo da liberdade.

Em 1874, o irlandês Hamilton Lindsay-Bucknall veio ao Brasil, com a equipe encarregada de instalar o primeiro cabo submarino no País. Posteriormente escreveu um livro narrando a sua viagem, no qual contam as seguintes referências:
“O navio cabográfico Hooper finalmente colocou em terra, sã e salva, a extremidade do primeiro cabo submarino no Brasil. E o bom Imperador Dom Pedro II poderia ser visto nessa ocasião, ajudando nobremente a puxar aquele cabo que em pouco tempo colocaria seu grande Império em comunicação direta com o resto do mundo civilizado. Que esplêndido exemplo nos fora dado pelo grande e sábio Dom Pedro II, Imperador do Brasil, não só se interessando pessoalmente pela instalação do cabo submarino, mas também dando uma mão para puxá-lo para a praia!
Logo depois da amarração da extremidade do cabo submarino à terra, foram recebidas mensagens congratulatórias transmitidas ao Imperador pelos governadores do Pará, Pernambuco e Bahia. Os telegramas para o Imperador me foram confiados para entrega. Ao chegar ao palácio, fui conduzido sem cerimônia à presença de Sua Majestade Imperial. O Imperador, que estava sentado na varanda apreciando uma xícara de café, em companhia de diversos visitantes, levantou-se para receber-me e apertar-me a mão. O conteúdo dos telegramas pareceu satisfazê-lo muito e, a seu pedido, sentei-me ao lado. Fez-me então muitas perguntas sobre o cabo submarino, a respeito do qual parecia estar profundamente interessado. E não podia haver dúvida, pela natureza de suas perguntas e pelo conhecimento de eletricidade que demonstrava, de que não se tratava de um novato naquela ciência. Prontamente verifiquei o acerto dos que o diziam um dos mais inteligentes e altamente dotados dos soberanos reinantes. Permaneci em sua companhia por algum tempo, durante o qual nossa conversa convergiu para diversos tópicos. Senti-me tomado de profundo respeito por aquele sábio homem que rege os destinos de um dos mais admiráveis impérios do mundo”.

Estava em andamento a construção da estrada de ferro para a subida da Serra do Mar, e discutia-se qual o sistema a ser adotado. Havia pouca experiência no assunto, e predominava a opinião dos técnicos ingleses, que eram os concessionários. Cristiano Otoni defendia a outra solução. Em reunião do Conselho de Estado, que decidiria o assunto, o Imperador determinou:
— Ouçamos antes o Sr. Otoni.
E assim se evitou o erro da construção pelo sistema inglês.

Em visita à exposição de Filadélfia, em 1876, o Imperador passou pelo stand de Graham Bell, que a duras penas conseguira inventar e expor ali o protótipo do telefone. Pouca atenção atraíra o seu stand. Bertita Harding narra o encontro:
“Ajustando inúmeras bobinas, eletrodos e discos de metal, Bell preparava-se para demonstrar a invenção. Por fim anunciou:
— Dei a isto o nome de telefone.
Estendeu ao Imperador um objeto em forma de taça, pedindo-lhe que o conservasse pegado ao ouvido. Afastou-se depois a razoável distância, e falou para o outro objeto de forma similar, que levava nas mãos, enquanto os espectadores, de pé, observavam-no com mal dissimulada incredulidade. De repente, D. Pedro deu um pulo”:
— My God! It speaks!
— “Sim – respondeu pelo fio a voz de Bell –, isto fala. Não tardará muito para que o telefone seja uma necessidade em todas as casas.
Os olhos de D. Pedro brilhavam de admiração e surpresa:
— Meus parabéns, Sr. Bell! Quando a sua invenção for posta no mercado, o Brasil será o seu primeiro freguês”.
E cumpriu a palavra. Bell recebeu encomendas do Rio muito antes que o telefone fosse comercialmente explorado. Foi Dom Pedro, graças à sua incansável curiosidade científica, que pôs em relevo e valorizou a descoberta do jovem professor de Boston. O telefone ficou sendo uma das sensações da exposição, e quando ele se tornou um produto comercial, o Imperador foi dos primeiros a utilizá-lo na prática.

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29.5.08

07 - A ESCRAVIDÃO - EXTINGUINDO UMA HERANÇA INGRATA

Abolir a escravidão, desejo ardente do Imperador

A Princesa Isabel, ao abolir a escravidão, era a intérprete dos sentimentos do seu pai.
O literato e diplomata argentino Hector Varela ouviu do Imperador:
— A escravidão! Acredita o senhor que haja no Brasil algum compatriota que deseje mais ardentemente do que eu a abolição? Nenhum! E os primeiros a saber como eu penso são os que trabalham à frente do belo movimento de emancipação. Alguns me atacam, com marcada injustiça, afirmando que eu retardo a hora, que no entanto será a mais feliz do meu reinado, em que não haja um só escravo em minha Pátria, e que o último desses infelizes seja tão livre quanto eu.

A ação do Imperador para promover e preparar a liberdade dos escravos não podia deixar de ser lenta, e só poderia ser eficaz se fosse constante. Ele precisava convencer os homens políticos e atrair o concurso da Nação. Percebe-se hoje que nesse trabalho as interrupções não foram senão aparentes, mas, para chegar aos resultados, ele não quebrou os moldes que a Constituição lhe traçara.

Em 1850, quando se discutia a lei de repressão do tráfico de escravos, e se mostrava ao Imperador os perigos a que a lei exporia o trono, D. Pedro II, então com 25 anos, replicou com energia:
— Prefiro perder a coroa a tolerar a continuação do tráfico de escravos.

Em 1870, durante uma reunião do Imperador com o Conselho de Ministros, o Barão de Cotegipe argumentava:
— A questão da emancipação é semelhante à pedra que rola da montanha. Nós não a devemos precipitar, porque seremos esmagados.
— Não duvidarei de me expor à queda da pedra, ainda que seja esmagado – replicou D. Pedro II.

Durante a viagem à Europa, em 1871, D. Pedro II disse ao Visconde Nogueira da Gama:
— Nunca deixei de ser grato à sua avó pela delicadeza com que, em fevereiro de 1845, hospedou-me em sua fazenda de S. Mateus. Principalmente por ter festejado a minha chegada libertando, nesse mesmo dia, uma família que era sua escrava. Pois ninguém melhor do que o senhor conhece quais foram sempre os meus sentimentos a respeito da escravidão.

Votava-se no Senado a Lei do Ventre Livre, a 28 de setembro de 1871. Nas galerias repletas, apareciam as figuras mais eminentes do mundo diplomático. A discussão do projeto foi brilhante e vigorosa, sob a presidência do Visconde de Abaeté. Quando se verificou, pela votação, a vitória do Visconde do Rio Branco, que defendera a aprovação da lei, o povo que enchia as galerias irrompeu em manifestações ao grande estadista, lançando-lhe sobre a cabeça braçadas e braçadas de flores.
Terminada a sessão, o embaixador dos Estados Unidos, James Rudolph Partridge, desceu ao recinto para felicitar o presidente do Conselho e os senadores que haviam votado o projeto. Colhendo algumas flores, das que o povo atirara a Rio Branco, declarou:
— Vou mandar estas flores ao meu país, para mostrar como aqui se fez, deste modo, uma lei que lá custou tanto sangue!

Foi em Alexandria, no Egito, que D. Pedro II soube que em seu vasto Império, a partir de 28 de setembro de 1871, todas as crianças nasceriam livres. O Visconde de Itaúna, camarista de D. Pedro, anotou em uma carta:
— Eu nunca vi o Imperador tão satisfeito.


A ação abolicionista do Imperador: constante e imensa

O Imperador foi o emancipacionista mais pertinaz e mais constante que o Brasil possuiu. Foi abolicionista tanto quanto pode ser um rei compenetrado da sua missão de chefe de Estado, incompatível com a de chefe de partido, por mais simpático que seja o seu programa. Consagrou ao abolicionismo uma atividade de herói, incompatibilizando-se com os políticos, atraindo antipatias e, por fim, sacrificando-lhe a coroa.

Joaquim Nabuco, após as lutas abolicionistas, avaliou a ação do Imperador no processo de emancipação dos escravos: “É certo que a ação pessoal do Imperador se exerceu principalmente, desde 1845 até 1850, no sentido da supressão do tráfico, e desde 1866 até 1871, em favor da emancipação dos filhos nascidos de mulher escrava. A parte que tocou ao Imperador, em tudo o que foi feito em prol da libertação, foi imensa, foi essencial”.

Em 1840, o Imperador libertou todos os escravos que herdara. Além disso, tomou emprestada a quantia de sessenta contos de réis, que entregou ao seu mordomo para comprar anonimamente um lote de escravos. Em seguida libertou-os e os empregou no serviço da imperial quinta de Santa Cruz, dando-lhes salário mensal, assistência médica e educação dos filhos.
O Imperador tinha o usufruto de alguns cativos chamados “escravos da coroa”, dos quais não podia dispor livremente, por não serem de sua propriedade particular. Porém sempre os considerou como seus protegidos. Eles recebiam salário mensal, e os filhos freqüentavam a escola que fundara para os empregados da imperial quinta de São Cristóvão.
Durante a guerra do Paraguai, favoreceu a libertação dos escravos que quisessem tomar armas. Na fazenda de Santa Cruz, encarregou-se da educação dos filhos dos libertos que partiram para a guerra, e libertou às suas custas as mulheres e filhos desses defensores da Pátria.

Zacarias de Góis e Vasconcelos, presidente do Gabinete em 1864, recebeu de D. Pedro II estas instruções: “A medida que me tem parecido profícua é a liberdade dos filhos dos escravos, que nascerem daqui a um certo número de anos. Tenho refletido sobre o modo de executar a medida, porém é da ordem das que cumpre realizar com firmeza, conforme as circunstâncias o permitirem, remediando os males que ela necessariamente originará”.

Em 1886, visitando D. Pedro II a província de São Paulo, e vendo em uma cadeia um escravo, disse-lhe:
— Espere, meu preto, tenha paciência, que eu vou tratar já da sua liberdade.
Voltou-se então para o presidente da Câmara Municipal, que o acompanhava, e acrescentou:
— Faça um requerimento em nome desse infeliz, dizendo que tem a quantia necessária para a sua alforria.
Vendo porém que o vereador continuava a acompanhá-lo, exclamou:
— Ande, que eu tenho pressa, e não quero sair daqui sem ver isso feito.
E mandou o mordomo remeter ao possuidor daquele escravo a quantia necessária para libertá-lo.

Em uma das suas audiências do sábado, em que atendia a toda a gente, recebeu D. Pedro II no Paço da Boa Vista um preto velho, que se queixava dos maus tratos de que era vítima:
— Ah, meu Senhor grande, como é duro ser escravo!
— Tenha paciência, meu filho. Eu também sou escravo das minhas obrigações, e elas são muito pesadas. As tuas desgraças vão diminuir.
E mandou alforriar o preto.

Em 1866, em visita à cidade de Lorena, em São Paulo, o Imperador foi convidado a entregar a dois escravos as suas cartas de alforria, e comentou na ocasião:
— Nada me poderia ser mais agradável, para comemorar a minha visita, do que conceder liberdade a cativos.
Em Campinas, ao acabar de emancipar um escravo, o Imperador, com surpresa para todos, apertou a mão do negro e encorajou-o com sua palavra amiga.

Visitando a cadeia de Taubaté, viu o Imperador um alçapão, cautelosamente fechado com antecedência, e indagou o que havia lá embaixo. Ao saber que nesse antro se encontravam cinco escravos, por ordem dos respectivos senhores, desceu e ali encontrou uns miseráveis pretos, que eram “atrevidos e incorrigíveis”, segundo a explicação do inconsciente carcereiro.
A cadeia era no pavimento térreo do edifício da Câmara Municipal, e o Imperador logo perguntou ao respectivo presidente se achava que o possuidor de escravos devia ser auxiliado pelas autoridades em corrigir fora de casa esses infelizes. E acrescentou:
— Entendo que o senhor de escravos não pode castigá-los fora de sua casa.
O episódio foi divulgado por um jornalista que o acompanhava. Durante todo o resto da viagem, o Imperador alegrou-se por não encontrar mais nenhum negro naquelas condições, provavelmente como resultado da sua intervenção.


Premiando os libertadores de escravos, o Imperador incentiva o processo de abolição

Na cidade de Ponta Grossa, por ocasião de sua viagem ao Paraná, foi D. Pedro II recebido por um cidadão, que o cativou por sua hospedagem fidalga, mas despida das exigências protocolares. Após o almoço, no dia da partida, o anfitrião disse:
— Senhor Imperador, eu podia ter feito mais alguma coisa. Podia ter matado mais uma vitela, mais um peru, mas preferi assinalar por outro modo a vossa passagem por esta terra e a honra de vir a esta vossa casa. Libertei todos os meus escravos, que são mais de setenta, e peço a Vossa Majestade o favor de lhes entregar as cartas de liberdade.
Essa alocução tão simples quanto eloqüente emocionou profundamente o Monarca, que agradeceu o gesto de benemerência do digno paranaense. Por ocasião das graças, o Governo levou ao Imperador o decreto fazendo-o oficial da Ordem da Rosa. Ao apresentarem-lhe o decreto, disse o Monarca ao ministro do Império:
— Isto é pouco para esse benemérito. Faça-o barão!
— Mas, Majestade, ele é quase analfabeto!
— Não será o primeiro. E este é muito digno. Mande-me o decreto fazendo-o Barão dos Campos Gerais.

Quando a Ordem dos Beneditinos, em 1866, proclamou a liberdade dos filhos de seus escravos, o Imperador foi pessoalmente ao Mosteiro de São Bento felicitar o Abade Geral, a quem entregou em mão própria uma condecoração.

D. Pedro II tinha uma antipatia visceral contra os que se haviam envolvido no degradante tráfico de negros. A condescendência que sobre isso tiveram alguns políticos, mesmo aqueles tidos então ou posteriormente como abolicionistas, ele nunca a teve. Joaquim Nabuco diz que, se não fosse o Imperador, os piores traficantes de escravos teriam sido feitos condes e marqueses do Império. Pereira Marinho, por exemplo, tornou-se opulento às custas do tráfico. Depois de deixá-lo, envidou todos os esforços para obter uma condecoração, um título, uma fita. O Imperador nunca transigiu. Afinal Pereira Marinho conseguiu fazer-se conde, mas em Portugal.

Quando foi promulgada a Lei Áurea, Dom Pedro II se encontrava em Milão, gravemente enfermo. Fora atacado de uma pleurisia, complicada com febre palustre. Os médicos aconselharam a ocultar do paciente as notícias que chegavam do Rio diariamente.
A 22 de maio os médicos perderam as esperanças de salvá-lo, e declararam à Imperatriz que chegara o momento de chamar o sacerdote. O Arcebispo de Milão assistiu D. Pedro II, que após a confissão recebeu os últimos sacramentos da Igreja Católica. Ele estava de tal modo enfraquecido, que mal podia falar. A Imperatriz achou conveniente, então, informá-lo da grande notícia recebida no dia 13. Imediatamente seu olhar se reanimou.
— Não há então mais escravos no Brasil?
— Não. Votou-se a lei em 13 de maio. A escravidão foi abolida.
— Rendamos graças a Deus! Telegrafem imediatamente à Isabel, enviando-lhe a minha bênção com os meus agradecimentos à Nação e às Câmaras.
Depois, voltou-se ligeiramente. Os que o cercavam julgaram que estivesse moribundo. Mas seu patriotismo deu-lhe forças para pronunciar estas tocantes palavras:
— Grande povo! Grande povo!...
E correram lágrimas de seus olhos.
A alegria profunda que sentiu, ao saber que todos os seus súditos seriam livres para o futuro, produziu em todo o seu ser uma comoção eficaz e salutar. Desde então se acentuaram as melhoras. Aos poucos desapareceu o perigo, e ele não tardou a restabelecer-se.

Quando D. Pedro II chegou de sua viagem à Europa, após a Lei Áurea, o Conselheiro João Alfredo, presidente do Gabinete, apresentou-lhe o texto da “Fala do Trono”, que o Imperador deveria ler diante das Câmaras. No tópico em que se aludia à lei de 13 de maio, intercalou Sua Majestade, com a própria letra, estas palavras significativas: “...cuja decretação tanto me consolou das saudades da Pátria, minorando os meus sofrimentos físicos”.
Assistindo à leitura destas palavras, a Princesa Isabel acolheu-as como o único elemento de tranqüilidade que lhe faltava:
— Fico muito contente que a lei de 13 de maio tenha tido esta última sanção.

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25.5.08

01 - A MINHA FAMÍLIA BRASILEIRA

OUVINDO A TODOS SEM ENGANAR A NINGUÉM


A Família Imperial, modelo e apoio das famílias brasileiras

Se investigarmos bem a fundo as razões da popularidade que a Família Imperial conservou, mesmo depois da República, veremos que reside, em boa parte, no êxito de sua tarefa social. O velho Imperador, com a grande respeitabilidade de sua figura, seu porte grave, sua longa barba precocemente encanecida, sua afabilidade, representava bem o tipo ideal do excelente pai de família brasileiro daquela época, coluna do lar, protetor suave e varonil dos seus. O Imperador era como que o tipo exemplar que concentrava em si as virtudes que cada brasileiro estimava em seu próprio pai.
O mesmo se poderia dizer da Imperatriz, Dona Teresa Cristina. Era italiana, e adaptou-se ao nosso ambiente com a naturalidade com que o fazem os de sua terra. Feia, bondosa, acolhedora, era ela mesma o protótipo da dama brasileira, algum tanto desinteressada, naquele tempo, dos encargos de representação, mas exímia em tudo quanto dissesse respeito aos deveres do lar. Todo o mundo, consciente ou inconscientemente, se sentia um pouco parente daquela família-tipo.

Chamou a atenção do jornalista norte-americano James O’Kelly, do “New York Herald”, o cunho familiar da Monarquia brasileira e a enorme popularidade de que gozava o Imperador. Ele escreveu: “Os brasileiros comportam-se para com seu Imperador como uma grande e feliz família para com seu bem-amado pai”.
Ao relatar o embarque do Imperador para os Estados Unidos, observou: “Não era um chefe despedindo-se cerimoniosamente da nação que governa, era antes um casal adorado despedindo-se da família”.

Na Universidade Lehigh, por ocasião da viagem do Imperador aos Estados Unidos, havia alguns estudantes brasileiros, que ficaram encantados em vê-lo. A propósito do encontro com esses estudantes, o jornal “North American” comentou: “Os jovens se aglomeraram em torno dele, como filhos em torno de um pai, e ele parecia um pai tratando com seus filhos”.

O dia do seu regresso foi um dia de gala nacional. A emoção com que o acolheram assumia antes o tom carinhoso de uma família que revê o chefe estremecido do que o de uma nação que recebe o seu soberano.

Após a sua viagem ao Brasil, o Conde Alexandre Hübner, diplomata austríaco, publicou no “Le Figaro”, em 18/10/1882, um artigo sob forma de carta ao povo brasileiro, no qual diz:
“Oriunda de duas das mais ilustres e mais antigas famílias reinantes, a dinastia que vejo à vossa frente identifica-se convosco nos bons e nos maus dias. Aliando a simplicidade à dignidade, pode servir de modelo ao mais suntuoso como ao mais humilde lar.
Um fato, sobretudo, me impressionou. A 15 de agosto, a festa da Virgem foi celebrada com a pompa tradicional, na antiga igreja de Nossa Senhora da Glória. Quando chego, o templo já está cheio de fiéis. As poltronas reservadas para a Corte são as únicas ainda desocupadas. Diante da igreja, na plataforma de onde se domina a vista do golfo, amontoa-se uma multidão de diversas cores. Do branco mais puro ao negro mais escuro, todas as tonalidades da pele humana ali se achavam representadas.
O sol poente doura com seus últimos raios esse vasto lençol de rochedos fantásticos, todo esse conjunto de céu e de mar, de granito e de vegetação, que faz da baía do Rio uma das maravilhas do mundo. Os sinos todos dobram, soltam-se foguetes, e os petardos se juntam com seu barulho ensurdecedor. É a Corte que se aproxima.
Guiado pelo acaso, penetro por uma porta entreaberta num pequeno jardim dando para a plataforma, onde o proprietário e sua família recebem o desconhecido com hospitalidade verdadeiramente brasileira. Foi dali que pude lançar o olhar em profundidade e ver o Imperador dando o braço à Imperatriz, acompanhado da Princesa Imperial e do Conde d’Eu, subir a pé a rampa muito inclinada que conduz à igreja. Uma multidão compacta de povo o cerca. Nenhuma ala militar, nenhum policial”. Dom Pedro encontra-se no seio de sua grande família, e ali se sente bem. Espetáculo admirável que me impressionou vivamente, porque recordava-me cenas semelhantes do meu país”.


O Imperador, um pai respeitado e amado, que conhece todos os seus filhos brasileiros

Seria erro acreditar que os brasileiros prezavam no Imperador somente a suprema autoridade do Estado. Eles amaram antes de tudo nele o homem, e do homem as suas virtudes. Esta afeição tinha um cunho de ternura filial. E a virtude do Imperador que mais cativou o povo foi a bondade.

O historiógrafo João Ribeiro fez a seguinte apreciação sobre D. Pedro II: “Simples e modesto, mas sem perda da distinção pessoal. Generoso e desinteressado. Sábio, mas sem afetação. Exemplo de todas as virtudes domésticas. Melhor que a popularidade, granjeou a simpatia respeitosa da multidão. A opinião unânime a respeito do Soberano o fez protótipo das virtudes sociais”.
Ele não via no povo apenas a massa amorfa, em que as parcelas se confundem e se anulam na soma total. Ia além, buscava enxergar no todo o detalhe das fisionomias e a vida dos indivíduos. Sabia a história do País e a história de muitos de seus súditos.

Durante uma audiência pública, um ex-oficial de voluntários entregava um memorial ao Imperador. O Conde d’Eu, que estava presente, aproximou-se e perguntou ao oficial:
— O senhor não é o tenente tal, que serviu em tal batalhão?
O oficial confirmou, trocaram algumas palavras, e a audiência prosseguiu. Depois que este se retirou, o Conde d’Eu comentou com D. Pedro:
— Tenho o orgulho de conhecer todos os oficiais que serviram sob minhas ordens.
— Isto é uma grande coisa. E eu tenho procurado conhecer todos os brasileiros.

Numa viagem ao interior de Minas, o Imperador observou, no meio de uma multidão compacta, uma negra que fazia grande esforço para se aproximar dele, mas as pessoas à sua volta procuravam impedi-la. Compadecido, ordenou que a deixassem aproximar-se.
— Meu senhor, eu sou Eva, uma escrava fugida, e venho pedir a Vossa Majestade a minha liberdade.
O Imperador mandou tomar as notas necessárias, e prometeu dar-lhe a liberdade quando regressasse. E efetivamente entregou à cativa o documento de alforria.
Algum tempo depois, indo a uma das janelas do Palácio de São Cristóvão, viu um guarda tentando impedir que uma preta velha entrasse. Sua memória prodigiosa reconheceu imediatamente a ex-escrava de Minas, e ele ordenou:
— Entre aqui, Eva!
A preta precipitou-se porta adentro, e entregou ao seu protetor um saco de abacaxis, colhidos na roça que plantara depois de liberta.

A 7 de dezembro de 1889, a Família Imperial exilada chegava a Lisboa. Antes de ir para terra, o Imperador quis despedir-se de toda a oficialidade de bordo, entregando uma lembrança pessoal aos três oficiais mais graduados. Para a tripulação, reservou uma determinada quantia em dinheiro, tendo tido o cuidado de mandar organizar, para esse fim, uma lista com os nomes de todos os marinheiros e empregados de bordo. Como de costume, nenhum detalhe lhe escapou:
— Falta o homem que trata dos bois. Não o esqueça.

No gabinete de D. Pedro II havia um busto de Alexandre, o Grande. À vista dessa imagem, alguém lembrou-lhe as palavras de César ao contemplar outra semelhante:
— Ele não tinha ainda a minha idade, e já conquistara toda a terra.
— E eu conquistei o meu povo! – exclamou o Imperador.


O Palácio do Imperador está aberto a todos

Todo o mundo, sem exceção, podia ser facilmente admitido à presença do Monarca, não se precisando para isso nem de vestuário apropriado, nem de bilhete especial, nem de qualquer declaração ou outra formalidade, e muito menos de empenhos de políticos ou de gente do Paço. Bastava apresentar-se em palácio, declinar o nome, que era lançado num grande livro, e penetrar naquelas salas abertas a todos. Benjamim Mossé afirma: “Cada um pode apresentar-se como quiser, de casaca, de uniforme, de blusa, de roupa de trabalho; nem por isso deixa de ser recebido por Sua Majestade. O mais humilde negro, em chinelos ou pés descalços, pode falar ao Soberano”.

Escragnolle Dória, conhecido historiador e escritor, confirma:
“Era só chegar e esperar a sua vez, certo de ser atendido. Cada qual trazia o seu interesse, e dava o seu recado sem vexame, na sua gramática. O Imperador costumava referir-se a essas audiências públicas como receber a minha família brasileira.
“Certa vez, falava ao Imperador uma mulher de cor, já idosa, cabeça nua, mãos trêmulas, xale aos ombros, vestido de chita, sapatos e meias usados. Aproximou-se acanhada, dirigiu-se ao Soberano, e no perturbado da exposição deixou cair papéis, sem dúvida de apoio à modestíssima pretensão. Apanhou-os o Imperador, restituiu-os, continuou a ouvir por muito tempo, despedindo a suplicante com um sorriso de bondade e gesto de encorajamento, ficando a segurar os documentos que ela lhe confiara”.

O romancista Gustavo Aimard, que visitou o Brasil três vezes, escreveu sobre nosso País o livro “Brésil Nouveau”. Estava no Rio havia oito dias, em 1881, quando seu amigo Sohier lhe sugeriu que fosse ao Palácio da Boa Vista visitar o Imperador. Perguntou então qual seria a etiqueta. O amigo riu-se, e lhe deu a explicação:
— Nos sábados, as audiências imperiais são públicas, e duram de duas às cinco da tarde. Os candidatos a um encontro com o Soberano entram no Palácio, sobem ao segundo andar, atravessam uma longa galeria e entram na sala das audiências, sem ninguém para lhes embargar os passos.
— Então não há soldados, funcionários e veadores?
— Soldados, haverá uns vinte. Mas nenhum se ocupa de quem entra nem de quem sai.

Aimard narrou desta forma a entrevista:
“Entrei no Palácio, subi uma larga escadaria atapetada, no alto da qual encontrei uma pessoa que imaginei ser um porteiro, mas que era um camarista. Perguntei-lhe onde estava o Imperador: “Em frente, na segunda porta à esquerda”, respondeu-me sorrindo esse desconhecido. Atravessei um imenso salão, que parecia estreito por causa de seu extenso comprimento. Estava deserto, completamente sem móveis, não tendo nem mesmo um banco. Em compensação, as paredes se achavam cobertas de quadros, dos quais quase todos me pareceram ser de bons mestres e de várias escolas. Alguns deles chamaram minha atenção, parecendo-me de grande valor. Fiquei de tal modo absorvido por essas telas, que esqueci por muito tempo o que tinha ido fazer ali. Duas pessoas que saíam, conversando em voz alta, chamaram-me à realidade. Abri a porta que o desconhecido me tinha indicado, e achei-me noutro salão, este muito bem mobiliado, no qual se via uma meia dúzia de capuchinhos comodamente sentados, todos cochichando uns com os outros. Atravessei uma galeria bastante estreita, mas muito longa, cheia de gente. O Imperador se encontrava no fim da galeria. Reconheci-o logo pela sua elevada estatura, pela barba loura entremeada de fios de prata, e pela fisionomia sorridente”.

O Conde d’Ursel, secretário da legação belga no Brasil, aqui desembarcou em 9 de dezembro de 1873. Narra a visita a D. Pedro II:
“Estava o Palácio Imperial aberto a todo o mundo, e os veadores do Soberano acolhiam os visitantes com a maior cordialidade. Ao limiar daquele Paço, sentia-se que o dono da casa a todos recebia benévola e bondosamente.
Era sábado, dia de audiência pública, por assim dizer, pois toda e qualquer pessoa era admitida a falar a D. Pedro II. Na extremidade da longa galeria avistei o Imperador vestido de preto, parando em frente a pessoa por pessoa, estendendo freqüentemente a mão e ouvindo o interlocutor, sempre com visível atenção.
Nada mais impressionante do que o espetáculo ao mesmo tempo simples e comovedor, que eu tinha diante dos olhos. Havia pessoas de modesta posição, vestidas pobremente, esperando a vez para, sem intermediário algum, submeter ao Soberano a sua petição.
O Imperador, com benevolência e dignidade, deixa chegarem-se a ele todos dentre os seus súditos que têm uma reclamação a fazer ou um favor a pedir. É voz corrente que esta prática excelente serve por vezes de freio salutar aos funcionários que se deixam levar a arbitrariedades”.


Qualquer brasileiro pode falar com o Imperador e confiar na sua bondade

No Rio Grande do Sul, por ocasião dos contatos com os governantes dos países aliados Argentina e Uruguai, D. Pedro despira-se preliminarmente das exterioridades de sua hierarquia. Não era um rei entre burgueses, mas um chefe de Estado que procura equiparar-se aos outros dois. Na realidade, acentuava com isso a majestade que lhe é natural. Só os príncipes, educados para o trono, podem ser simples, familiares e agradáveis, sem que os demais ousem romper a zona de respeito de que insensivelmente se cercam. Silveira da Mota, secretário de Tamandaré, afirmou:
“Confesso que nunca vira, na pessoa de D. Pedro II, tanta força de sedução. Tudo o que havia de simpático e nobre na sua fisionomia, apresentava-se naquela época com o aspecto mais favorável. Parecia ser o Monarca da coxilha, idealizado pela gauchada. Ele não teve sequer o seu batismo de fogo, mas a fleuma com que se aproximava ao alcance do fuzil das trincheiras paraguaias foi o bastante para que os circunstantes fizessem uma alta idéia da sua coragem”.

Se D. Pedro II tinha um grande, um irremediável defeito, pode dizer-se que esse defeito era a sua bondade.27 Joaquim Nabuco, o famoso abolicionista, afirmou que durante cinqüenta anos o povo encontrou o Imperador sempre de pé, na galeria de São Cristóvão ou no Paço da Cidade, ouvindo a todos sem enganar a ninguém: “A sua porta esteve sempre mais franca do que qualquer outra no País. E quando se deixava de tratar com ele, para falar aos poderosos, todos sentiam que a vaidade da posição começava abaixo do trono”.

Na sua “Fé de Ofício”, o próprio Imperador afirmou: “O meu dia era todo ocupado no serviço público, e jamais deixei de ouvir e falar a quem quer que fosse”.

O conselheiro Nuno de Andrade descreveu uma audiência do Imperador:
“Às cinco horas em ponto desci do tílburi, junto à portinha baixa onde uma sentinela cochilava. Não se pedia licença para entrar. Tomei a escada da direita, e fui ter a um longo salão retangular quase sem móveis, com grandes quadros nas paredes. O Freire, criado da casa, meu conhecido, disse-me:
— O Imperador não tarda.
Cerca de quinze pessoas esperavam D. Pedro II, e entre elas um preto vestido de brim pardo, sem gravata, com uns grandes sapatos muito bem engraxados. Depreendia-se do lustro do calçado que o preto cuidara de parecer asseado; e, como era idoso, a intenção traduzia certa altivez nativa. Tinha ido a pé e sentia-se cansado, por isso sentara-se no chão da galeria. O Pederneiras, com sua barba branca, chegou-se a mim, indicou o preto e disse filosoficamente:
— Ainda querem mais liberdade nesta terra...
Instintivamente olhamos para as portas, constantemente abertas a todos os brasileiros.
O Imperador apareceu no extremo da galeria, e o preto levantou-se. Seria o primeiro a falar ao Soberano, e ninguém se lembrou de lhe disputar a precedência. O Imperador lhe perguntou:
— Então, como está? Que é que temos?
— Estou bom, sim senhor. E vosmecê? Eu venho dizer a vosmecê que fui voluntário na guerra do Paraguai. Na batalha, fiquei com um braço ferido por bala. Curei-me, e continuei até o fim de tudo. Depois voltei e caí no meu ofício de empalhador. Há um ano adoeci do fígado, e o Dr. Miranda, na Santa Casa, me fez uma operação. Nunca mais tive saúde. Agora, não posso mais trabalhar no ofício, e não tenho vintém para comprar farinha. Na secretaria do Império há falta de servente, e eu fui falar com o ministro. Mas o ministro não fala com toda a gente. Estão lá uns mulatinhos pernósticos, que me dizem sempre: Você espere. Eu espero, sim senhor; e depois os mulatinhos me mandam embora, porque o ministro não recebe mais ninguém. Já três vezes isso me aconteceu. Então fiquei zangado e pensei assim: vou falar ao Imperador, que é nosso pai; ele não manda a gente embora. Ora, pois, eu queria que vosmecê me desse um bilhetinho para o ministro...
O Imperador chamou o general Miranda Reis, que então o acompanhava, e disse-lhe algumas palavras. Voltando ao preto, exprimiu-se assim:
— Vá com Deus. Fico sendo seu procurador, e tratarei do seu negócio.
— Mas eu tinha vontade de mostrar àqueles mulatinhos pacholas...
— Não tem nada a mostrar. Vá para sua casa e espere.
Alguns dias depois, contou-me o general Miranda Reis que o Imperador mandara alojar o antigo voluntário numa casinha da Quinta, e ordenara ao comendador João Batista que lhe suprisse a mensalidade de 40 mil réis, pedindo desculpas de não poder dar mais. E o João Batista, honrado mineiro, prodigiosamente econômico, amofinava-se com as freqüentíssimas decisões desta espécie, sustentando, em voz fraca e lacrimosa, que das quatro operações o sábio Imperador só conhecia a de dividir”.


O Imperador é feliz quando cada brasileiro está contente

No “Figaro”, Gaston Calmette escrevera que Dom Pedro II se parecia com o escritor Arsène Houssaye, velho conhecido do Soberano. Dias depois, encontrando-se com Houssaye, Dom Pedro, risonhamente, conduziu-o para diante de um espelho, dizendo:
— Vejamos se de fato nos parecemos!
— Talvez – disse o poeta –, mas numa coisa não nos parecemos: é que eu, de vez em quando, gostaria de ser Dom Pedro II, e vós jamais gostaríeis de ser Arsène Houssaye.
— Quem sabe? Todo homem traz sua coroa de espinhos. Faríamos, contudo, uma troca inútil, pois não usaríamos a coroa do homem feliz.
— E Vossa Majestade já encontrou algum homem feliz?
— Sim! Eu mesmo, quando meu povo está contente!

No dia 16 de julho de 1865, quando chegou ao Rio Grande do Sul no limiar da guerra do Paraguai, o Imperador publicou uma patriótica proclamação, que termina com estas palavras:
— Riograndenses! Falo-vos como pai que zela a honra da família brasileira. Estou certo de que procedereis como irmãos que se amam ainda mais quando qualquer deles sofre.

D. Pedro se esforçava para obter o bem estar de cada súdito.
O Barão de Teffé narra um exame do qual participou na Academia de Marinha, na presença do Imperador. Era presidente da banca examinadora o Prof. Cristiano Otoni. No tom seco que lhe era peculiar, e que tanto assustava os alunos, chamou o examinando e ordenou:
— Exponha com clareza e precisão a matéria do seu ponto.
O rapaz titubeou, pois não tinha prática de fazer discursos. Gaguejou, empalideceu e guardou silêncio, enquanto organizava mentalmente algumas frases, para iniciar a exposição. Otoni se impacientou e intimou:
— Sua Majestade veio aqui para ouvi-lo e julgar do seu aproveitamento. Ou fale ou retire-se.
Nisto o Imperador tranqüilizou o rapaz, dizendo:
— Compreendo a sua perturbação, mas acalme o seu espírito, porque aqui não há juízes ferrenhos, e sim amigos dispostos a esperar que lhe volte o sangue frio.
Começou em seguida a conversar calmamente com Otoni. Isto bastou para conquistar o estudante tímido, porém bem preparado, que acabou fazendo brilhante exame e obteve aprovação plena.

Diante de uma escola, numa cidade do interior por onde passava o Imperador, uma menina se preparava para ler um discurso em sua homenagem.
— Nada, nada, minha filha! Eu não gosto de discursos.
Mas logo se arrependeu, porque a criança, contrariada, assumiu um ar de choro.
— Bem, bem! Uma vez que tanto quer falar, venha cá. Venha conversar comigo.
Para encorajá-la, acrescentou:
— Vejo que você é inteligente. Não tenha medo. Mostre-me que você é inteligente, porque eu gosto muito de crianças. Eu tenho netinhos da sua idade.

O Imperador tratava com especial atenção todos os servidores da Casa Imperial, inclusive os escravos, quando ainda os tinha, ou ex-escravos que, depois de libertos, continuavam a servi-lo como empregados pagos. Assistia aos casamentos dos seus servidores, quando previamente avisado.
Quando o Santíssimo Sacramento saía da capela da Quinta, para a casa de algum empregado doente, Dom Pedro II acompanhava o padre, de tocha na mão, até o carro que o conduzisse.

Em 1866, durante a guerra do Paraguai, D. Pedro escreveu ao Marquês de Paranaguá: “Lembro-lhe as providências para que não falte de comer e agasalho, assim como roupa, aos que forem designados. Cumpre não demorar essas medidas”.
De quem se tratava aí? De filhos de grandes do Império, que seguiam para os campos paludosos do Paraguai? Nada disso! Visava o conforto de simples escravos, que deixavam a Fazenda Imperial de Santa Cruz e partiam para a guerra.

Às quintas-feiras o Imperador costumava jantar com a Princesa Isabel, no Palácio Guanabara, para onde seguia com a Imperatriz às 4 horas da tarde, escoltado pela guarda imperial. Não estava previsto que os cadetes seriam alimentados pela cozinha do palácio, o que lhes causava não poucos transtornos, porém desconhecidos pelo Imperador.
Certo dia, um cadete resolveu arranjar algum alimento. Dirigiu-se aos fundos do Palácio e penetrou na sala de jantar. Pegou uma penca de bananas, e quando ia apanhar também uma garrafa de vinho, deparou com o Imperador. Não se desconcertou. Depôs sobre a mesa o que apanhara, fez continência e disse:
— Vossa Majestade me perdoe. Estava com fome, vi estas belas bananas e não me contive.
— Por que não esperou o jantar, seu cadete? Não demorava.
— Saiba Vossa Majestade que aqui não nos fornecem jantar, e os que não têm dinheiro para comprar alguma coisa passam fome.
O Imperador ficou carrancudo, e nada disse. Pouco depois vinha um bom jantar do Palácio, e daí em diante isto se tornou rotina.

Narrando fatos que comprovavam a brandura de trato do Imperador, um distinto servidor do Paço dizia:
— É coisa admirável! Eu às vezes não posso conter-me diante de faltas cometidas no Paço, mas o Imperador nunca se zanga! A que ponto isto chega, seria necessário ver para crer.


A popularidade do Imperador cantada em versos

Popularidade autêntica é a que se conquista na voz do povo, que não admite imposições. Principalmente na poesia popular, que é a própria alma do povo. Não são muitos os nomes de heróis e bandidos, de intelectuais e políticos, que aparecem na poesia popular do Brasil. Entre esses nomes, teve lugar de destaque o do magnânimo Imperador D. Pedro II. Logo após o seu nascimento, as mães cantavam em Minas Gerais, ninando as crianças:
“Lá vai o sol entrando
Arraiando pelo mundo;
No dia 2 de dezembro
Nasceu Dom Pedro Segundo”.

Por ocasião da campanha da maioridade, o povo se manifestou com uma quadra que ficou famosa:
“Queremos Pedro Segundo,
Embora não tenha idade.
A Nação dispensa a lei,
E viva a maioridade!”

A popularidade de D. Pedro II começou, mesmo, após a maioridade, pois cansado estava o povo das revoltas e experiências. Ansiava por outra coisa, e pôs no jovem Monarca, por isso, todas as esperanças:
“Suba ao trono o jovem Pedro,
Exulte toda a Nação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união.

Vista a seda, traje a púrpura,
Exulte toda a Nação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união.

Foi abaixo a camarilha,
De geral indignação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união”.

De Norte a Sul do País, cantava a musa popular, com variações regionais:
“Atirei um limão n’água
De tão alto foi ao fundo;
Os peixinhos responderam:
Viva Dom Pedro Segundo!”

No tempo de Canudos, cantava-se:
“Saiu D. Pedro Segundo
Para o reino de Lisboa,
Acabou-se a Monarquia,
O Brasil ficou à toa.

Este povo está perdido,
Está sem arrumação,
E o culpado disso tudo
É o chefe da Nação”.

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