FATOS DO BRASIL IMPÉRIO

Bem vindo ao blog FATOS DO BRASIL IMPÉRIO. Aqui são narrados fatos da época do Império, geralmente pouco conhecidos, extraídos do livro REVIVENDO O BRASIL-IMPÉRIO, que publiquei sob o pseudônimo Leopoldo Bibiano Xavier. Leitura muito útil, que dá uma visão realista do modo como o Imperador Pedro II conduzia os destinos do País.
Você está convidado a visitar também os sites referentes ao meu livro mais recente, A VOLTA AO MUNDO DA NOBREZA, que contém mais de 1.700 fatos mostrando a atuação da nobreza em diversos países e épocas:
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Leon Beaugeste

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30.5.08

08 - EDUCAÇÃO, ARTE, CIÊNCIA, TECNOLOGIA - O IMPÉRIO NAS VIAS DO PROGRESSO

Em torno do Imperador, surge no País uma elite cultural e artística

As conveniências da cultura, das artes e das letras nos governos monárquicos, e o abastardamento do gosto atribuído aos regimes puramente democráticos, constituem um argumento em favor das monarquias e em desabono das repúblicas. Todos os reis conhecem isto. Sabe-se que em toda a parte e em todo o tempo os períodos mais brilhantes do desenvolvimento das letras condisseram com o maior esplendor dos tronos.
A democracia não é literária, porque é a igualdade; e a inteligência, que ela pretende nivelar, é indispensavelmente aristocrática. Nada mais aristocrático do que o grande poeta da democracia, Victor Hugo. A literatura ou a arte democrática não existem. Sendo manifestações do que há de melhor e de superior na inteligência humana, são forçosamente aristocráticas. As ciências, as letras e as artes jamais florescerão nos estados sociais onde impera a democracia.

Assis Chateaubriand comentou a respeito de D. Pedro II: “Mau grado o lamentável espetáculo de incapacidade da vida pública do Brasil, ele criou um ambiente de ordem política, que era, em larga parte, uma transposição e uma projeção da sua personalidade vigorosa. A obra mais interessante do Imperador consistiu na formação das elites no Brasil. Elites políticas, elites literárias, elites artísticas, ele se preocupava da criação de todas elas, e com uma sabedoria doce, insinuante e sagaz”.

Aos 29 anos, acabara por criar no Brasil um verdadeiro mecenato, que atinge todos os ramos da atividade literária, artística e científica. Macedo, Alencar, Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães, Varnhagen, entre outros, se encarregam de elevar o nível intelectual do País, estimulados pela atenção que o Soberano dedicava às coisas literárias. Pintores, músicos e escritores encontram apoio e auxílio que chegam por intermédio de viagens de estudos, de encomendas de obras, enfim, por todas as formas de que o Imperador podia dispor. Lendo todos os jornais da Capital e das províncias, tendo à sua disposição funcionários que assinalavam os artigos que podiam interessá-lo, não somente os que se referiam à política, mas também às artes e às letras, o Imperador deseja ter dinheiro apenas para fundar escolas, para a compra de livros, de objetos de arte, de quadros, ou para financiar aqueles que ele julgava dignos de apoio.

O Imperador reunia freqüentes vezes, em sessões literárias e científicas, os homens de letras e os sábios brasileiros, para com eles examinar alguma nova produção ou discursar sobre literatura, ciências e artes. Eram as conferências conhecidas como ‘palestras imperiais’.

Na corte de Pedro II, Victor Hugo e Lamartine é que pareciam reinar. Seus livros, lidos e discutidos pela elite na língua original, haviam sido traduzidos e divulgados amplamente.
Uma certa douceur de vivre, na expressão de Talleyrand, parece estender-se sobre a sociedade brasileira, marcada pela personalidade do Imperador, cada vez mais integrado aos assuntos intelectuais. De hábitos simples, inimigo da ostentação, utiliza ainda a velha carruagem que pertenceu ao avô, D. João VI, para seus passeios habituais. Rodeia-se de gente erudita, sem distinção de cor ou de fortuna. Auxilia os artistas em suas realizações. Estimula, com dinheiro, os estudos de Pedro Américo, Gonçalves Dias e Carlos Gomes, na Europa.

Ferdinand Wolf avaliou o interesse do Imperador pelas artes: “D. Pedro não se contenta em amar e proteger as ciências e as artes, de reunir em sua Corte sábios e artistas, de os favorecer. Não faz das ciências, das letras e das artes um pedestal de sua ambição. Ele as ama por elas mesmas, e conhece muitos dos seus ramos ele próprio”. Foi, talvez, o único que teve essa elevada e desinteressada preocupação pelas artes, letras e ciências.


A instrução pública, um objetivo primordial da Monarquia

Entre as graves preocupações de D. Pedro II, durante quase meio século de reinado, um dos assuntos que sempre mereceram sua particular atenção foi o desenvolvimento da instrução pública, que ele encontrou imperfeita e mal esboçada, quando em 1840 assumiu as rédeas do governo, e que conseguiu melhorar notavelmente, com o auxílio de alguns de seus ministros mais devotados a esta nobre causa.
O historiador Max Fleiuss fornece os seguintes dados: “Em 1844 havia no Rio de Janeiro apenas 16 escolas públicas e 34 colégios particulares. Em 1860 as escolas públicas são 3.516, com mais de 115.000 alunos. Em 1889, são 300.000 alunos freqüentando 7.500 escolas”.

D. Pedro II tinha tanto interesse pelas escolas e pela educação das crianças, que repetia com freqüência:
— Se eu não fosse imperador, quisera ser mestre-escola.

Terminada a guerra do Paraguai, quis a gratidão nacional levantar ao Imperador uma estátua eqüestre, que chegou a ser modelada em gesso. Abriu-se para isso uma grande subscrição. Quando a iniciativa chegou ao seu conhecimento, D. Pedro recomendou, em carta ao presidente do Conselho de Ministros, que só empregassem seus esforços na aquisição do dinheiro necessário para a construção de edifícios apropriados ao ensino das escolas primárias e para o melhoramento material de outros estabelecimentos de instrução pública. Não queria que a sua figura fosse perpetuada em mármore ou bronze, mas em quatro edifícios consagrados à instrução popular. E concluía a carta:
“Todos os ministros passados e os atuais sabem bem o que eu penso sobre a instrução pública. De há muito venho dizendo que se deve cuidar dela muito seriamente, e que nada me seria mais agradável, agora que se fez triunfar a causa da dignidade nacional, do que ver a nova era de paz e de prosperidade começar por um ato de iniciativa do Brasil, em proveito da educação do povo”.
Foram assim edificadas as escolas do Largo do Machado, da Rua Senador Correia, da Praça XI de Junho e da Rua da Harmonia, no Rio de Janeiro.

Defendendo-se da acusação que alguns lhe faziam, de ir perturbar o trabalho das escolas com as suas visitas, D. Pedro II afirmou:
“Tenho assistido a exames e concursos, sobretudo para conhecer as habilitações individuais. Tenho assim reconhecido, por mim mesmo, muitas inteligências que têm feito figura depois. Rio Branco, lembro, fez exame em minha presença, na antiga Academia Militar. Se vou aos concursos e outras provas literárias ou científicas, é para poder dar minha opinião sobre as provas, assim como conhecer as habilitações individuais. Quantos ministros tenho eu conhecido desde o colégio? O tempo que nisso gasto é para mim quase que mero cumprimento de dever, tendo eu tantos outros estudos ou leituras que preferiria fazer. Tenho ido a conferências e outros atos, porque sempre desejei animar as letras e as ciências”.

O “Le Petit Journal”, por ocasião da morte do Imperador, afirmou: “Pode-se dizer que tudo quanto se fez de generoso no Brasil, de 50 anos para cá, foi inspirado por ele”.


O Imperador incentiva e fiscaliza pessoalmente a instrução pública

Em 1846, D. Pedro II visitou em São Paulo a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. No salão dos atos, ouviu o discurso do diretor, Avelar Brotero, e poesias de alguns estudantes. Voltou depois para assistir aos exames, como sempre gostou de fazer.
José Antonio Saraiva, futuro conselheiro e um dos estudantes de então, escreveu para a família, a propósito dessa visita do Imperador: “É afável com todos, dirige-se a qualquer um, faz-lhe perguntas e procura informar-se das menores particularidades. Tem andado a pé como simples cidadão, só acompanhado daquelas pessoas que o querem acompanhar sem aparato nenhum, e isto sem a menor quebra de sua dignidade, pois sua circunspeção, suas belas maneiras, fazem com que todos o estimem e respeitem. O entusiasmo tem sido grande, e ele está muito contente. É muito vivo, e segundo dizem todos, tem instrução superior à sua idade”.
Um mês depois o Imperador voltou, para apreciar a defesa de tese de dois bacharéis, um dos quais foi reprovado. Datam dessa época as primeiras anedotas sobre a sua severidade como fiscal do ensino. Nunca mais uma congregação de academia se deixaria surpreender pela visita imperial. Passaria a ter o cuidado de preparar os estudantes, prevenir imprevistos.
Aos vinte anos, D. Pedro começou um ofício que desempenharia pelo resto da vida: inspetor geral da educação no Império. Presidia à mesa de examinadores, e às vezes perguntava também. Embaraçava os alunos e espicaçava os professores, com a sua proverbial memória e a sua erudição. Dizia que o ensino devia elevar-se, e dava o exemplo, fiscalizando-o com uma tenacidade inigualável. Insistia para que moralizassem a instrução. E não confiava nas informações oficiais, mas ajuizava com os próprios olhos.

O Imperador visitava assiduamente o Colégio Pedro II, que tinha em grande estima. Fernando Magalhães narrou a impressão que lhe causavam essas visitas: “No Colégio, subitamente, a sineta que batia o toque simples do início da aula, ou o dobrado do fim do recreio, entrava a bimbalhar repetidamente, num aviso de festa. Já se sabia: era a visita de Dom Pedro II. Ele a fazia freqüentemente, corria todas as aulas, subia ao estrado do professor, sentava-se na cadeira ao lado e entrava a questionar os meninos como um mestre-escola cuidadoso e paciente. Tenho na memória a sua lembrança, tanto me impressionou a beleza singular daquele velho plácido e corpulento, um grande corpo que as pernas já vacilavam em carregar, uns olhos que o tempo se comprazia em azular cada vez mais na suavidade, uma fronte larga e polida, barbas brancas de santo, rosto feliz de abnegado, atitude tranqüila de justo, vulto inconfundível de nobre”.

Em 1875, D. Pedro II e D. Teresa Cristina visitam em São Paulo o Seminário N. Sra. da Glória, das Irmãs de São José, sendo provincial Madre Maria Teodora Voiron. Percorrem todas as dependências do educandário, e ao chegar ao dormitório D. Pedro diz aos acompanhantes:
— Essas Irmãs de Caridade são as mesmas em toda a parte. São aqui como no Rio.
— Perdão, Majestade – responde a Madre Superiora –, vosso hospital no Rio é a riqueza. Aqui é a pobreza.
— Tendes o mais belo dos luxos: o asseio – comenta o Imperador.

O diretor da Faculdade de Medicina foi falar ao Imperador sobre o regulamento de ensino. Tal foi a erudição de D. Pedro II, ao discutir os vários assuntos, que o professor comentou depois:
— Ora essa! O Imperador sabe mais Medicina do que eu!


Entre poetas e escritores, o Imperador cria e estimula uma elite intelectual

O Imperador costumava reunir os literatos e os professores do Colégio Pedro II, aos sábados, no salão do externato, para se entreterem em animadas palestras literárias, quando eram lidas as produções inéditas de qualquer dos presentes, às vezes dele próprio.
Numa dessas noites, em que o programa tinha sido particularmente cansativo, o Barão Múcio Teixeira, para evitar de cochilar, pegou um lápis e começou a esboçar a caricatura do Monarca, mas de tal modo que ele não pudesse ver de que se tratava. Terminada a leitura, que o Imperador acompanhara atentamente, voltou-se para o caricaturista e pediu:
— Deixe ver se está parecido comigo.
Sem compreender como ele se inteirara dos seus movimentos, apesar de toda a cautela, o Barão passou-lhe o desenho. O Imperador sorriu, complacente, mostrou a caricatura ao Reitor, e ela foi passando de mão em mão, entre comentários e risadas. Quando completou o percurso, D. Pedro dobrou-a, meteu-a no bolso e disse:
— Gosto mais dos seus versos do que das suas caricaturas. Mas guardo-a como lembrança.

Castro Alves e Fagundes Varela eram com igual atenção recebidos pelo Monarca, diante de quem iam recitar em primeira mão as suas composições poéticas.

Quando Salvador de Mendonça perguntou ao poeta Francisco Otaviano como ia o Imperador, obteve esta resposta:
— Sempre a fazer maus versos e a criticar os bons!

Em 1887, o deputado Joaquim Nabuco pediu ao Imperador permissão para publicar uma de suas peças em verso. Este respondeu:
— Sei muito bem que não sou poeta. Faço versos, de vez em quando, como exercício intelectual, e somente quando não tenho outra coisa a fazer. Isso, porém, não é poesia. Mostro aos amigos íntimos esses trabalhos, mas por nenhum preço eu os queria ver publicados.
D. Pedro II mostrou um dos seus sonetos a Moniz Barreto. O poeta e repentista, depois de lê-lo, comentou:
— Se eu tivesse perpetrado tal crime, Senhor, suicidar-me-ia.
O Imperador, inteiramente despreocupado de ser tido como literato, retrucou sorridente:
— Ora, Senhor Moniz Barreto. Tu te fizeste réu de sandices muito maiores, e ainda estás vivo!

Quando Charles Expilly, autor do célebre livro “Mulheres e Costumes do Brasil”, apresentou-se a D. Pedro II, o Monarca acolheu-o animadamente, dizendo:
— Conheço este nome.
— Talvez seja o de Claude Expilly, comentador de sentenças...
— Não! Não!
— Vossa Majestade quer falar então de Alexandre Expilly, deputado pela Bretanha em 89...
— Charles Expilly! Eis o nome que li assinando vários folhetins e jornais parisienses. É o seu, ou de algum de seus parentes?
— Sou forçado a convir que é bem o meu nome, esse que Vossa Majestade reteve – respondeu Expilly, justamente maravilhado de que um nome tão obscuro na França fosse conhecido do Imperador do Brasil.

Em 1869, trabalhava o Dr. Ramiz Galvão como cirurgião no Hospital Militar, onde atendia alguns doentes vindos do Paraguai. Em visita ao hospital, D. Pedro II perguntou ao cirurgião:
— Que atividades tem exercido?
— Senhor, preparo-me para escrever uma memória sobre o Mosteiro de São Bento, ao qual sou muito grato. Ali encontrei informações preciosas e documentos que contradizem certas afirmações injustas.
— Está bem. Continue. E quando a tiver pronta, apresente-a ao Instituto Histórico.
Concluída a obra, foi entregue ao Instituto, mas um ano depois ainda não havia sido publicada. Encontrando-se casualmente com Ramiz Galvão, o Imperador lhe perguntou:
— E o seu trabalho sobre o Mosteiro de São Bento? Não o levou avante?
— Sim, Senhor. Há longos meses que o entreguei na secretaria do Instituto.
— Como?! Não tenho notícia disso. Vou indagar.
Pouco tempo depois o trabalho era publicado.


Carlos Gomes, Pedro Américo, Vítor Meireles – Os grandes artistas e o bolsinho do Imperador

A despeito de não se incluir entre os soberanos mais aquinhoados pela fortuna, D. Pedro II realizou sacrifícios financeiros por amor à arte e à ciência.
Não limitava a proteção oficial, ou a que ele diretamente concedia, ao período de formação do artista. Nunca perdia de vista o bom artista, amparava-o, dava-lhe empregos, incumbia-o de encomendas e decorações e adquiria-lhe as obras para si ou para a Pinacoteca, por ele fundada e enriquecida.

Da Itália nos vinha o nome glorificado de Carlos Gomes. Graças à pensão que lhe dava pessoalmente o Imperador, conseguira concluir os estudos. Jamais outro compositor brasileiro alcançou o sucesso de “O Guarani”, cuja estréia se deu no Teatro Scala de Milão.

Conversando com o Visconde de Taunay, D. Pedro II comentou a ópera “Schiavo”, de Carlos Gomes, e acrescentou:
— Estou disposto a custear pessoalmente a montagem da peça.
— Repare, Senhor, que serão necessários 40 contos de réis.
— Não! Com a breca, isso não! Não sou tão rico assim. Em todo caso, fale com os empresários e venha entender-se comigo. Podemos contar com o sucesso da obra.

Carlos Gomes declarou:
— Se não fosse o Imperador, eu não seria Carlos Gomes.
Embora aureolado por um nome glorioso, que honrava o Brasil, Carlos Gomes ficara pobre após o 15 de novembro. Fora mantido pessoalmente por D. Pedro II, e a República se recusou a conceder-lhe uma pensão, por ser amigo da Família Imperial. Apesar disso, quando lhe foi feito o convite para compor o hino da República, não aceitou, como nobre homenagem de gratidão ao seu protetor destronado.

Na pintura, dois jovens brasileiros fixavam na tela cenas da nossa história ou fatos heróicos dos nossos soldados. Chamavam-se Vítor Meireles e Pedro Américo.
Vítor Meireles iria dar-nos, sucessivamente, entre outras telas, “Primeira Missa no Brasil”, “Combate de Riachuelo” e “Batalha de Guararapes”. Pedro Américo nos daria outras grandes telas: “Batalha do Avaí”, “Juramento da Princesa Isabel”, “Batalha do Campo Grande” e “Grito do Ipiranga”. Esta última tela fora exposta pela primeira vez em Florença, onde o autor terminava seus estudos de pintura por conta do “bolsinho de Sua Majestade”.

O Imperador conheceu Pedro Américo no Colégio Pedro II. Enquanto ele visitava uma aula de aritmética, o estudante fez um desenho do Monarca, que lhe foi entregue. Perguntado se gostaria de estudar na Academia Nacional de Belas Artes, Pedro Américo ficou encantado com a oportunidade, e logo começou os estudos, às expensas do Imperador. Posteriormente, foi também ele que custeou o prosseguimento dos estudos na Europa.

A arte brasileira, com o desaparecimento do espírito que a nutria, se conserva numa espécie de recolhimento, como que à espera de um novo mecenas, desvelado e magnânimo.


O Imperador cria hábitos de seriedade nas instituições científicas

Um artista lírico, em visita ao País, escreveu: “O Imperador anima, com sua presença, todas as instituições que julga úteis para melhorar o País, e a modesta dotação que lhe é fixada no orçamento é absorvida por obras de caridade. Dom Pedro possui conhecimentos muito amplos. Preside ao Instituto Histórico e Geográfico todas as sextas-feiras, menos por pedantismo do que para estimular os trabalhos relativos ao Brasil”.
Com inquebrantável pontualidade, o Imperador presidia a todas as sessões do Instituto Histórico, devotando-lhe o maior carinho. Como acentuou o diplomata e escritor Vicente Quesada, ele assim procedia para infundir, com o seu alto exemplo, hábitos de seriedade às instituições dessa ordem.

Em setembro de 1880, reunia-se no Rio o Primeiro Congresso Nacional de Medicina. Terminados os trabalhos, e desanimada de obter dos cofres públicos os necessários recursos para impressão dos anais, a comissão organizadora resolveu apelar para o Imperador, que respondeu:
— Como foi por falta de verba que o Governo mandou sustar a publicação dos trabalhos do congresso, não posso eu, primeiro guarda das leis do País, concorrer para fazerem-se despesas não decretadas. Amigo, porém, da ciência e dos progressos de minha terra, terei muito gosto em tomar a mim essa despesa.
No dia seguinte eram dadas as ordens para a impressão dos trabalhos do congresso.

O Dr. Antonio Ennes de Souza venceu um concurso para a cadeira de Mineralogia da Escola Politécnica, assistido pelo Imperador. Depois de nomeado, subiu ao Palácio da Boa Vista para agradecer, e resolveu esclarecer que tinha idéias republicanas. Ouviu este conselho:
— Senhor Ennes, deixe de política. Dedique-se à ciência. O senhor é moço, e tem um vasto campo diante de si.

Em Washington, D. Pedro II foi visitar o observatório. Dado o seu interesse por questões de Astronomia, examinou tudo cuidadosamente. De um modo geral, achou-o bem montado. Mas o regulador elétrico da hora, a que correspondiam quatro relógios da cidade, não lhe pareceu tão perfeito quanto o do observatório do Rio de Janeiro. Achou o cosmógrafo colocado sem a necessária estabilidade, e o relógio standard, para observações, mal colocado.
Mostraram-lhe depois o “grande relógio”, que registrava observações astronômicas por meio de eletricidade, e fora o primeiro do gênero. Estava parado, e ninguém sabia consertá-lo. O astrônomo Newcomb, que acompanhava o Imperador, ficou assombrado quando viu D. Pedro passar uma mão por baixo do móvel e começar a examinar pacientemente a base que suportava o relógio. Feito isso, demonstrou-se admirado de que estivessem usando um aparelho desnivelado como aquele. Verificou-se depois que esse era o único defeito, que impedia o aparelho de funcionar.


O Instituto Pasteur demonstra sua gratidão ao Imperador

Na Academia das Ciências, em Paris, o Imperador foi ouvir de Pasteur a exposição dos resultados das suas experiências. Para encerrar a sessão, o grande cientista saudou a presença de D. Pedro com as seguintes palavras:
— Nosso augusto colega Dom Pedro de Alcântara, que, como todos sabem, gosta de esconder seu cetro imperial sob as condecorações acadêmicas que recebe do mundo inteiro.

Dom Pedro II foi um dos primeiros grandes admiradores de Pasteur, dos que acreditaram no valor dos seus trabalhos e deram apoio às suas famosas experiências. Várias vezes tentou induzir o grande cientista a vir prosseguir seus estudos no Brasil, não precisamente sobre a raiva ou o cólera, mas sobre um mal que dizimava então entre nós milhares de criaturas por ano: a febre amarela. O Imperador estava persuadido, apesar da completa ignorância que se tinha então sobre a origem dessa moléstia, de que Pasteur podia bem isolar-lhe o bacilo, descobrindo depois uma vacina eficaz. A esse propósito, escreveu a Pasteur:
“Encontrareis aqui culturas feitas com o maior cuidado para o exame dessa questão, e ainda que não pudéssemos vos ser reconhecidos pela descoberta da vacina dessa moléstia, vossa visita ao meu país será um acontecimento que terá a maior influência sobre o progresso científico do Brasil. Meus sentimentos por vós e meu amor à ciência vos são bem conhecidos, e desde já me alegro de vos acolher aqui como mereceis, não fazendo com isso senão acompanhar o sentimento de todo o meu país. Vossos estudos sobre a raiva não seriam abandonados senão por pouco tempo, e o serviço prestado à humanidade, preservando-a da febre amarela, seria pelo menos de idêntico alcance”.
Todas as tentativas foram vãs. Pasteur não pôde atender aos desejos do Imperador: “Depois de muitas reflexões e hesitações, devo render-me aos conselhos de meus médicos: tenho a profunda tristeza de não poder aceitar o oferecimento de Vossa Majestade”.

D. Pedro II nunca foi esquecido no Instituto Pasteur. Por volta de 1900, dez jovens médicos brasileiros recém-formados foram designados para seguir os cursos no Instituto. Chegando a Paris, apresentaram-se ao secretário, que lhes informou:
— Muito tarde, senhores. O registro de inscrições já está fechado. Havia apenas cem vagas, e todas já foram preenchidas.
Um dos médicos, Afrânio Peixoto, não desistiu, e resolveu procurar o próprio diretor do Instituto, em nome dos colegas. O Professor Roux recebeu-o sem delongas, e logo perguntou:
— Então o senhor é brasileiro?
— Sim, senhor.
— Bem, deve reconhecer este personagem – e indicou com a mão um busto de mármore branco.
— É o nosso Imperador, D. Pedro II!
— Sim, senhor. Dom Pedro, Imperador do Brasil. Talvez não saiba que, quando meu mestre Pasteur não tinha ainda conseguido vencer todas as hesitações, todas as dúvidas, foi vosso Imperador, seu amigo, quem lhe trouxe os primeiros cem mil francos necessários à fundação deste Instituto. Como é, então, que nesta casa não haverá sempre lugar para brasileiros? Não quero, naturalmente, prejudicar os estudantes já admitidos, mas este ano, como grande exceção, mandaremos colocar mais um banco na sala do curso, e teremos cento e dez ouvintes, em vez dos cem habituais.


Nosso Imperador, promovendo o desenvolvimento material do País

Sob o ponto de vista do progresso e do desenvolvimento material do País, o Império não foi o atraso e a estagnação de que ainda hoje é acusado pelos que não se querem dar ao trabalho de estudar e conhecer melhor esse período da nossa História. Na verdade o Brasil era, de fato e de direito, a primeira nação da América Latina. Essa hegemonia, ele iria conservar até o último dia da Monarquia.

Foi das mãos de D. Pedro II que o Brasil saiu apto a enfrentar as dificuldades políticas do continente e do século: pacificado e unificado pelo Imperador, o Brasil se impôs ao respeito internacional, disseminou a instrução, consolidou a linha de suas fronteiras, estabilizou a moeda, bateu-se vitoriosamente nas guerras que lhe foram impostas, tratou de igual para igual as maiores potências, não reconheceu hegemonias no hemisfério, construiu a terceira esquadra do mundo. Apoiado em dois grandes partidos nacionais, praticou o parlamentarismo. Criou uma elite intelectual, moral, social e política, foi um fecundíssimo viveiro de valores humanos, aboliu o tráfico e a escravidão, insuflou as nossas maiores riquezas econômicas, aparelhou a indústria, construiu uma enorme rede de comunicações rodoviárias e ferroviárias, ligou-nos à Europa pelo cabo telegráfico, o telefone, a tração a vapor, impulsionou as ciências e as letras, conheceu intimamente aquilo que Cícero preconizava como a suprema ventura dos povos: o gozo tranqüilo da liberdade.

Em 1874, o irlandês Hamilton Lindsay-Bucknall veio ao Brasil, com a equipe encarregada de instalar o primeiro cabo submarino no País. Posteriormente escreveu um livro narrando a sua viagem, no qual contam as seguintes referências:
“O navio cabográfico Hooper finalmente colocou em terra, sã e salva, a extremidade do primeiro cabo submarino no Brasil. E o bom Imperador Dom Pedro II poderia ser visto nessa ocasião, ajudando nobremente a puxar aquele cabo que em pouco tempo colocaria seu grande Império em comunicação direta com o resto do mundo civilizado. Que esplêndido exemplo nos fora dado pelo grande e sábio Dom Pedro II, Imperador do Brasil, não só se interessando pessoalmente pela instalação do cabo submarino, mas também dando uma mão para puxá-lo para a praia!
Logo depois da amarração da extremidade do cabo submarino à terra, foram recebidas mensagens congratulatórias transmitidas ao Imperador pelos governadores do Pará, Pernambuco e Bahia. Os telegramas para o Imperador me foram confiados para entrega. Ao chegar ao palácio, fui conduzido sem cerimônia à presença de Sua Majestade Imperial. O Imperador, que estava sentado na varanda apreciando uma xícara de café, em companhia de diversos visitantes, levantou-se para receber-me e apertar-me a mão. O conteúdo dos telegramas pareceu satisfazê-lo muito e, a seu pedido, sentei-me ao lado. Fez-me então muitas perguntas sobre o cabo submarino, a respeito do qual parecia estar profundamente interessado. E não podia haver dúvida, pela natureza de suas perguntas e pelo conhecimento de eletricidade que demonstrava, de que não se tratava de um novato naquela ciência. Prontamente verifiquei o acerto dos que o diziam um dos mais inteligentes e altamente dotados dos soberanos reinantes. Permaneci em sua companhia por algum tempo, durante o qual nossa conversa convergiu para diversos tópicos. Senti-me tomado de profundo respeito por aquele sábio homem que rege os destinos de um dos mais admiráveis impérios do mundo”.

Estava em andamento a construção da estrada de ferro para a subida da Serra do Mar, e discutia-se qual o sistema a ser adotado. Havia pouca experiência no assunto, e predominava a opinião dos técnicos ingleses, que eram os concessionários. Cristiano Otoni defendia a outra solução. Em reunião do Conselho de Estado, que decidiria o assunto, o Imperador determinou:
— Ouçamos antes o Sr. Otoni.
E assim se evitou o erro da construção pelo sistema inglês.

Em visita à exposição de Filadélfia, em 1876, o Imperador passou pelo stand de Graham Bell, que a duras penas conseguira inventar e expor ali o protótipo do telefone. Pouca atenção atraíra o seu stand. Bertita Harding narra o encontro:
“Ajustando inúmeras bobinas, eletrodos e discos de metal, Bell preparava-se para demonstrar a invenção. Por fim anunciou:
— Dei a isto o nome de telefone.
Estendeu ao Imperador um objeto em forma de taça, pedindo-lhe que o conservasse pegado ao ouvido. Afastou-se depois a razoável distância, e falou para o outro objeto de forma similar, que levava nas mãos, enquanto os espectadores, de pé, observavam-no com mal dissimulada incredulidade. De repente, D. Pedro deu um pulo”:
— My God! It speaks!
— “Sim – respondeu pelo fio a voz de Bell –, isto fala. Não tardará muito para que o telefone seja uma necessidade em todas as casas.
Os olhos de D. Pedro brilhavam de admiração e surpresa:
— Meus parabéns, Sr. Bell! Quando a sua invenção for posta no mercado, o Brasil será o seu primeiro freguês”.
E cumpriu a palavra. Bell recebeu encomendas do Rio muito antes que o telefone fosse comercialmente explorado. Foi Dom Pedro, graças à sua incansável curiosidade científica, que pôs em relevo e valorizou a descoberta do jovem professor de Boston. O telefone ficou sendo uma das sensações da exposição, e quando ele se tornou um produto comercial, o Imperador foi dos primeiros a utilizá-lo na prática.

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25.5.08

02 - O EXEMPLO QUE VEM DE CIMA



Nosso Imperador, um modelo para todos os soberanos do mundo

O Visconde se Sinimbu definiu uma das funções importantes da atividade política: “Temos uma missão mais elevada, que é educar a população. Ora, esta educação não pode ser feita senão pelo exemplo, que é a primeira lição, a primeira base de qualquer educação. O povo tem os olhos fitos nos seus homens de Estado, e se os vê dúbios, contraditórios, incertos, oscilantes em suas idéias, perde-lhes a fé e a confiança”.

D. Pedro II acreditava na eficiência cívica do bom exemplo, que compete ao monarca esclarecido oferecer aos seus súditos. Confiava no império da justiça, que orienta a atividade da nação para a plena consecução dos seus elevados ideais.
Era um exemplo raro de soberano, do qual não se apontava, com provas convincentes, uma amante ou sequer uma protegida. Vivia, pode-se dizer, exclusivamente para o lar e para o País.
Falando em 1921 a respeito de D. Pedro II, Rui Barbosa afirmou: “As suas virtudes eram muito maiores que os seus defeitos. D. Pedro era um padrão de moralidade, um farol penetrante que brilhava dos cimos do poder, exercendo com a vigilância de sua luz, quer sobre o Governo, quer sobre a administração, quer sobre o estado geral dos costumes, uma ação incalculavelmente saneadora”.

Como participante de uma companhia lírica, L.A. Segond esteve no Rio em 1857, e escreveu sobre a Família Imperial: “O que há de notável aqui é a veneração unânime que o Imperador e a Imperatriz inspiram. Sua vida privada é sem mácula”.

Em julho de 1877 inaugurava-se em Londres a Caxton Exhibition, exposição organizada em honra de William Caxton, introdutor da imprensa na Inglaterra. Gladstone, um dos mais célebres estadistas ingleses, fez um discurso no banquete ao qual estavam presentes a Rainha Vitória e o Príncipe de Gales. Nesse discurso, ergueu o brinde protocolar – o chamado brinde da lealdade – à sua soberana e ao futuro rei da Inglaterra. Normalmente, nenhum outro brinde se poderia fazer. Contudo, Gladstone pediu licença, dizendo estar certo da aprovação não só da Rainha e de seu filho, mas de todos os presentes, pois desejava saudar o Imperador do Brasil.
Dom Pedro fora dos primeiros a visitar a exposição, e mantivera longa palestra com o Primeiro-Ministro. Os jornais, no dia seguinte, assim resumiam as palavras de Gladstone:
“Esse homem – e posso falar com mais liberdade por estar ele ausente – é um modelo para todos os soberanos do mundo, pela sua dedicação e esforços em bem cumprir seus altos deveres. É um homem de notável distinção, possuidor de raras qualidades, entre as quais uma perseverança e uma capacidade de trabalho hercúleas. Muitas vezes começa seu dia às quatro horas da manhã, para terminá-lo tarde da noite. Atualmente, essas dezoito ou vinte horas de atividade diária, ele as emprega através do mundo, e em esforços constantes para adquirir conhecimentos de todo o gênero, que saberá aproveitar no regresso à pátria. E continuará, assim, a promover o bem-estar de seu povo. É o que chamo, senhoras e senhores, um grande, um bom soberano, que, pelo seu procedimento no alto cargo que ocupa, é um exemplo e uma bênção para a sua raça”.

Quando a Família Imperial deixava a terra brasileira, em 17 de novembro de 1889, o mesmo estadista Gladstone pronunciou um discurso no qual disse:
“Todos admitem que o homem excelente e distinto, ora derrubado do trono por essa revolução, não o deve certamente a qualquer falta pessoal. Aqui, nesta independente associação britânica, deixai-me prestar testemunho aos seus méritos. Tive a honra de apreciar algumas de suas qualidades pessoais, das quais ousarei dizer duas coisas: não há na Inglaterra, nem em Manchester, no mais suntuoso palácio do mundo, como na mais humilde choupana, não há homem mais ávido do que foi o ex-imperador do Brasil em adquirir todos os conhecimentos de útil aplicação. Nenhum monarca foi mais dedicado à felicidade do seu povo.
Seu nome será distinto na História, e ainda que não caiba a mim dar parecer sobre as causas que produziram esta grande mudança em um país importante, estou inteiramente convencido de que entre elas não está a desaprovação do procedimento do Imperador, nem falta de afeição à sua pessoa”.


O Imperador cumpre com exatidão os deveres da realeza

A noção do dever é essencial na vida de D. Pedro II. Foi a sua idéia imutável, a de quem cumpre a obrigação e não vê heroísmo nisso. Limitava-se a exigir dos outros igual honestidade. No trono, nos seus horários de rei metódico, no casamento, também foi um cativo de sua missão.

O príncipe Adalberto da Prússia, visitando o Brasil em 1842, impressionou-se com a avidez de D. Pedro II em adquirir toda sorte de conhecimentos. Impressionou-o também o pendor por tudo quanto é grande e nobre, e concluiu: “Que felicidade para este belo país, a de ser governado por um soberano como este, que tão bem compreende os deveres da realeza e nutre tão ardente desejo de fazer feliz o seu povo”.

No seu diário, o Imperador se lamentava: “A falta de zelo, a falta de cumprimento do dever, é o nosso primeiro defeito moral. Muitas coisas me desgostam, mas não posso remediá-las, e isso me aflige profundamente. Se, ao menos, eu pudesse fazer constar geralmente como penso! Mas, para quê, se tão poucos acreditariam nos embaraços que encontro para fazer o que julgo acertado? Há muita falta de zelo, e para a maioria o amor à Pátria só é uma palavra. Ver onde está o bem, e não poder concorrer para ele senão lentamente, é um verdadeiro tormento para o soberano que tem consciência”.

Muitos dos nossos estadistas do Império, para fugir à responsabilidade dos seus atos, tinham por hábito atribuir a si próprios as medidas que o País aplaudia, e à Coroa os atos que praticavam em prol do filhotismo, quando repudiados pela opinião pública. Por ocasião do chamado Gabinete da Conciliação, presidido pelo Marquês de Paraná a partir de 1853, D. Pedro redigiu algumas instruções sob o título de “idéias gerais”, onde declarava de maneira formal e definitiva: “O ministro que se desculpar com o meu nome será demitido”.

No verão, a Família Imperial subia para Petrópolis. O Imperador desfrutava ali um sossego e uma tranqüilidade de espírito que não tinha no Rio. Os ministros folgavam com isso, porque não ficavam sob a sua vigilância diária inexorável. O Barão de Cotegipe, com visível satisfação, escreveu a um amigo: “Sua Majestade foi para Petrópolis, e estamos agora mais aliviados de trabalho”.

Alexandre Dumas Filho, diretor da Academia de Letras da França, afirmou que a preocupação exclusiva de D. Pedro II, desde que subiu ao trono, foi o progresso, a liberdade e a felicidade do seu país: “Suas grandes distrações, quando viaja, são os congressos científicos e as sessões acadêmicas. Feliz monarca, feliz nação!”

Fagundes Varela, referindo-se a D. Pedro II, escreveu:
“Oh! Não consintas que teu povo siga
Louco, sem rumo, desonroso trilho!
Se és grande, ingente, se dominas tudo,
Também da terra do Brasil és filho.
Abre-lhe os olhos, o caminho ensina,
Aonde a glória em seu altar sorri.
Dize que viva, e viverá tranqüilo;
Dize que morra, e morrerá por ti!”

Mons. Pinto de Campos constata na sua “Biografia de D. Pedro II”:
“Para patentear o desenvolvimento que o espírito religioso tem assumido no ânimo do Soberano, diremos que não há solenidade da Igreja em que Sua Majestade não timbre em dar o exemplo de devoção, assistindo com singela compostura a todas as grandes funções religiosas.
Os dias da Semana Santa são todos passados pela Família Imperial no templo. Ele mesmo lava os pés dos pobres, e o seu Paço torna-se nesses dias morada deles. No dia da Paixão de Jesus Cristo, todos os anos, abundância de mercês e perdões abrem portas de cárceres a desgraçados.
Em suas viagens, ao chegar a qualquer localidade, é a Casa do Senhor a que primeiro visita, entoando o ‘Te Deum Laudamus’, escutando a palavra dos oradores sagrados.
Nas suas próprias capelas imperiais, mormente nas do Paço da Cidade e de São Cristóvão, todas as festividades do culto são feitas com grande pompa, e não há acontecimento grave de seus parentes em que, nas festas, nas exéquias ou nos ofícios fúnebres, ele se não prostre a implorar sentidamente a Deus”.


A moralidade, critério importante para as nomeações do Imperador

Monteiro Lobato afirmou: “D. Pedro II tinha o maior escrúpulo na nomeação de um simples juiz que fosse. Sabia que um mau juiz é calamidade vitalícia. A República muito se beneficiou com a projeção, no tempo, do célebre lápis azul do Imperador. Mas o amoralismo que daí para cá presidiu à escolha dos substitutos desses homens, até quando operará os seus tristes resultados?”
O historiador Oliveira Lima confirma: “O Imperador assumira uma ditadura: a da moralidade. Suas escolhas procuravam ser justiceiras, e por coisa alguma no mundo as teria degradado. Os senadores vitalícios que D. Pedro II nomeava dentre os eleitos pelo povo, os magistrados que promovia na carreira judiciária, os diplomatas que mandava representarem o País no estrangeiro, tinham todas as probabilidades de ser respeitáveis e honestos. Se vinha a saber a menor coisa em contrário à sua reputação, e a acusação fosse justificada, seus nomes iam para a famosa ‘lista negra’, rabiscada pelo ‘lápis fatídico’”.

Um ilustre político e reputado historiador, de volta da Europa, trouxe um magnífico piano de cauda, e sua esposa aproveitou para ocultar dentro dele um respeitável contrabando de sedas e outras coisinhas. Na alfândega a muamba foi descoberta, mas logo abafada. Algo chegou ao conhecimento do Imperador, e o nome do político foi anotado pelo “lápis fatídico” no famoso caderno preto.
Algum tempo depois, o político resolveu pleitear uma vaga no Senado, e fez incluir seu nome na lista tríplice, em primeiro lugar, e além disso ao lado de dois outros do partido de oposição. Para ele, portanto, de acordo com as praxes, a escolha era certa. Mas não para o Imperador, que preferiu nomear um dos outros candidatos.

Desempenhou a magistratura em Cametá, durante muitos anos, um certo Dr. Miranda, sobre o qual recaía a acusação de ter cometido incesto com uma filha. O escândalo foi referido por um jornal local, e o nome do personagem anotado pelo “lápis fatídico” do Imperador.
Sempre que havia uma vaga de desembargador, em qualquer tribunal do País, o ministro da Justiça organizava uma lista tríplice, na qual vinha, quase sempre em primeiro lugar, o nome do Dr. Miranda. Mas ele nunca conseguiu ser nomeado, morrendo no cargo de Juiz de Direito.

O Governo brasileiro tinha direito ao placet na nomeação de padres estrangeiros como párocos e à intervenção nos seminários. Entretanto, D. Pedro II fez sentir que muitas vezes essa intromissão era levada pelo bom senso. Como ocorreu, por exemplo, quando o Arcebispo da Bahia apresentou a lista tríplice de candidatos para a paróquia de São Gonçalo dos Campos. Ele só escolheu o terceiro da lista, pelo fato de que o primeiro era recalcitrante beberrão, e o segundo era um impudico, que andava pela Feira de Santana com uma prostituta na garupa.

Fiscalizar a nomeação e a promoção dos diplomatas era uma das suas maiores preocupações. Conhecia, pode-se dizer, a vida de cada um. Daí, por exemplo, opor-se à nomeação do futuro Barão do Rio Branco para cônsul do Brasil em Liverpool, por se ter este amasiado no Rio com uma artista belga do Teatro Alcazar, e já ter dela um filho.
É conhecido o fato de um diplomata nosso que, após uma carreira sem mancha, fora nomeado embaixador em São Petersburgo. Naquele momento, estava na Itália. Foi quando veio a público haver ele cometido irregularidades no jogo, num clube fechado freqüentado pela aristocracia romana. Sabedor do fato, o Imperador foi inexorável. Mandou demiti-lo imediatamente, cassando-lhe ao mesmo tempo o título de Conselheiro.
O resultado desse policiamento do Monarca era um corpo diplomático ao mesmo tempo brilhante e capaz, moldado na melhor escola, onde cada qual se impunha pelo seu valor próprio e suas altas qualidades morais. Não se viam diplomatas sem um mínimo de moralidade, ostentando publicamente suas amantes. Ou embriagados, praticando toda sorte de desatinos. Ou fazendo falcatruas, emitindo cheques sem fundo, fazendo dívidas de jogo, tudo à sombra das imunidades diplomáticas e amparados pelos governos com o silêncio.


No atacado e no varejo, a vigilância do Imperador

D. Pedro II era atento aos mínimos detalhes do seu ofício, lendo os memoriais, investigando o passado dos candidatos aos cargos públicos, intolerante só para os desconceituados, intratável quando lhe falavam de gente indigna, incapaz de promover um juiz desmoralizado, implacável no julgamento dos desonestos. Metido em tudo, fiscal de todos os ramos do poder, absorvente, meticuloso, prudente, como se na dobra de cada papel houvesse um alçapão, por onde se afundasse o Império. Um terrível funcionário inexorável, vigilante, incansável!

Essa vigilância fenomenal, essa solicitude indefinível com que procurava conhecer até às mais ínfimas particularidades os negócios públicos, eram o amparo dos fracos e a confiança dos desanimados.
A sua memória admirável era o mais prodigioso dos dicionários biográficos. E esta ciência não era uma simples curiosidade, uma bisbilhotice banal. Tinha na memória o processo do seu tempo, e folheava-o com interesse de um juiz muito íntegro. Conhecia muitos dos seus compatriotas melhor do que os próprios vizinhos ou afeiçoados. E quanto esta miraculosa memória não prestou de relevantes serviços à moralidade do governo e à dignidade da Pátria!

O Imperador não se contentava apenas em ser consciencioso quase ao escrúpulo, no exercício de suas funções, mas era também vigilantíssimo para que os funcionários públicos fossem exímios. A começar por seus ministros, que ele fiscalizava a ponto de um ou outro por vezes se irritar.

Martim Francisco, ministro da Justiça do Gabinete Zacarias, submeteu à apreciação do Imperador um candidato à nomeação para Juiz de Direito. Para melhor conquistar a assinatura imperial, apresentou o candidato como “paupérrimo”. O Monarca observou:
— Não sofre tantas privações. A mulher ganha muito em quitandas.

Em 1859, D. Pedro II fez uma viagem às províncias do Norte e Nordeste. Em Salvador, estranhou encontrar no livro da tesouraria o nome de um arrematante de construções provinciais. Sua memória prodigiosa lhe denunciava que aquele era o nome do assassino do juiz municipal de Tucano. Na realidade, como lhe foi explicado, tratava-se de um homônimo. Mas a vigilância era constante.

O Imperador lia diariamente todos os jornais da capital, com a atenção posta em assuntos que pudessem interessar ao Governo. Recebia também um extrato dos principais artigos e notícias dos jornais das províncias, que depois iriam formar dossiês. Recorria a eles sempre que precisava interpelar um ministro a respeito dos assuntos que lhe propunha. Esses recortes constituíam o desespero dos ministros. Os recortes e a memória imperial vigiavam, implacáveis, contra os acobertadores de erros e violências partidárias.
Uma das notícias levadas ao conhecimento do Imperador, extraída do “Correio de Minas”, relatava assassinatos políticos, após os quais havia sido demitido o subdelegado local. Não satisfeito com a insuficiência da punição, o Imperador anotou, para providência do ministro: “E por que não processado?”
Mas o “lápis fatídico” não trabalhava apenas para corrigir a displicência e os erros das autoridades. Também para louvar ou premiar aqueles que o merecessem. Um exemplo é o despacho a propósito do “Jornal do Amazonas”, onde anotou: “No lugar marcado, achará os nomes de alguns indivíduos que, depois das necessárias informações, talvez mereçam medalhas concedidas por atos humanitários”.

Era raro o dia em que o Imperador não saía para visitar hospitais, quartéis, repartições públicas, estabelecimentos de instrução, arsenais, academias. Não eram simples visitas protocolares, mas verdadeiras visitas de inspeção. Logo depois da visita, algum de seus ministros recebia uma observação, sugestão, lembrete, pedido de providência. Depois de visitar o asilo dos Inválidos da Pátria, por exemplo, escreveu ao Marquês de Paranaguá, ministro da Guerra: “A limpeza do asilo e o bom tratamento dos inválidos dá-me muito cuidado. Nomeando-se um diretor militar ativo, e encarregando-se as irmãs de caridade do serviço que não seja de natureza militar, tudo se conseguirá”.


Nas decisões do Imperador, a corrupção administrativa não tem vez

Rui Barbosa, um dos articuladores da proclamação da República, que depois repetidamente se confessou decepcionado, declara: “Bati-me contra a Monarquia sem deixar de ser monarquista. A Monarquia parlamentar, lealmente observada, encerra em si todas as virtudes preconizadas, sem o grande mal da República, o seu mal inevitável. O mal grandíssimo e irremediável das instituições republicanas consiste em deixar exposto à ilimitada concorrência das ambições menos dignas o primeiro lugar do Estado e, desta sorte, o condenar a ser ocupado, em regra, pela mediocridade”.

O Imperador era de uma intransigência irredutível, sempre que se tratava de isolar a política ou a administração pública de todo interesse que não fosse propriamente o do País. Nisto, o seu espírito de moralidade era insuperável. Pode nem sempre ter evitado que políticos menos escrupulosos, mesmo dos mais acatados, ou funcionários prevaricadores, fugissem a uma justa punição. Mas em via de regra, sempre que um fato menos justificável lhe vinha ao conhecimento, ele não hesitava em punir o responsável com os recursos que lhe dava a lei.

Em Capão d’Anta, no Paraná, foi adquirida pelo Ministério da Agricultura uma gleba para a instalação de colonos russo-alemães, vindos do Volga. As terras eram impróprias para qualquer cultura, e haviam sido vendidas por um potentado político local. De tal qualidade eram as terras, que os próprios colonos as abandonaram em poucos dias, indo mendigar pelas estradas. A notícia chegou à Corte, causando a mais penosa impressão ao Monarca.
Por desejo expresso de D. Pedro II, toda a comitiva em visita ao Paraná foi com ele ao local. Na presença do próprio vendedor, mandou um soldado revolver a terra com a espada, e disse:
— Isto não dá nem capim. Isto é cascalho, não é terra. No Volga esses pobres homens tinham muito melhores terras. Não precisavam vir para tão longe.
Um dos amigos do vendedor ousou retorquir:
— Foram os próprios colonos que pediram estas terras. Muita gente os aconselhou a que não viessem para cá, mas eles insistiram.
— Quem os aconselhou? Quem?
— Gente do povo.
— O povo não fala alemão nem russo, e conselho não se dá por intérpretes.
De volta à Corte, ainda fez sentir o profundo descontentamento, na medida das suas limitações constitucionais. Como era de praxe, o Ministério levava para a assinatura do Monarca as graças concedidas aos que mais benefícios haviam prestado durante a viagem imperial. Ao ser apresentado um decreto transformando em barão o tal vendedor das terras, D. Pedro decidiu:
— Vamos reformar isto. Não quero dar nenhum título a esse senhor. Prefiro agraciar a mãe dele.
— Já é baronesa.
— Pois faço-a viscondessa. Mande-me o decreto para que eu assine. Faço-o com prazer. Ao filho é que não.

D. Pedro II não apreciava no Barão de Penedo a facilidade com que recebia as comissões de intermediação, sempre que tratava de novos empréstimos. Desinteressado, a ponto de não dar importância a dinheiro, estranhava que outros não agissem da mesma forma. Em 1863, num bilhete para o Marquês de Abrantes, dizia: “Consta-me que o empréstimo contraído em Londres o foi a 85,5%, e não a 88%, porque houve 2,5% de comissão. Espero que o embaixador brasileiro não tenha recebido parte dela, e de nenhum modo posso consentir que ele o faça. Já procedo do mesmo modo há anos”.
Foi esse o motivo da remoção do Barão de Penedo da Inglaterra para a França.


O Imperador serve à Nação desinteressadamente

A dotação do Imperador era de 800 contos de réis anuais. Foi mantida igual durante todo o reinado, apesar de relativamente pequena. Várias vezes o Parlamento propôs aumentá-la, mas sempre encontrou a resistência do Imperador, que declarou:
“Tenho querido que todas as minhas despesas corram por conta da dotação. Desde que ela foi votada, jamais quis nem quero que seja aumentada. Até parei com as obras do Palácio de São Cristóvão. E se tenho gasto com o jardim, tornando-o um dos mais belos do Rio, é porque desejo que aproveite ao público, que precisa desse passatempo saudável.
Nada devo, e quando contraio uma dívida, cuido logo de pagá-la. A escrituração de todas as despesas de minha Casa pode ser examinada a qualquer hora. Não junto dinheiro, e julgo que o que recebo do Tesouro é para ser gasto com o Imperador. Quarenta anos de um tal procedimento devem ter criado hábitos que não se mudam facilmente”.
Esta conduta foi uma constante na vida do Imperador, como o comprova um minucioso estudo de Maurílio Augusto de Almeida sobre a viagem à Paraíba, em 1859:
“Todas as despesas havidas com a viagem à Paraíba e demais províncias correram por conta pessoal de D. Pedro II, como se o Imperador estivesse empreendendo uma excursão turística para regalo íntimo, como se não estivesse no desempenho de missão inerente às suas altas funções. Marcava-lhe o caráter este traço reconhecido até mesmo por seus adversários mais ferrenhos: Sua Majestade nunca se valeu de recursos públicos para custeio de despesas pessoais, limitando-se ao emprego dos estipêndios que lhe coubessem por direito”.

Embora tivesse confiança nos empregados da mordomia, cuidava pessoalmente das contas da sua Casa. Uma vez por semana ia à mordomia para examinar os balancetes e conferir os documentos de despesas. Uma vez, chegando ali, perguntou ao tesoureiro:
— Como vão os negócios da minha Casa?
— Vossa Majestade não sabe multiplicar.
— Isso é verdade. Só sei dividir.

Quando o Imperador chegou da Europa em 1888, o Conselheiro Miranda Rego, que era mordomo interino, apresentou-lhe as contas da gerência de sua Casa:
— Senhor, há um saldo de treze contos de réis a favor da Casa Imperial.
— Dê quanto antes essa quantia aos nossos pobres. Não quero que digam que eu entesouro dinheiro.
Certo dia um funcionário veio comunicar-lhe que havia dezoito contos de réis de saldo em sua conta particular. Respondeu que não queria economias, e determinou que a soma fosse empregada na construção de uma escola na Fazenda Santa Cruz.

No dia 25 de maio de 1871, D. Pedro II partiu para sua primeira viagem à Europa, deixando como regente a Princesa Isabel. Concedida a licença, começaram na Assembléia os debates sobre como seria a viagem. Levanta-se o deputado Teixeira Júnior, e propõe:
— Já que nosso bem amado Imperador vai à Europa, ele precisa ir com certa folga financeira, para apresentar-se à altura de um Chefe de Estado do Império do Brasil. Proponho, pois, que se aprove a concessão de uma verba extra de dois mil contos de réis para o Imperador fazer condignamente sua viagem.
Levanta-se outro deputado, Melo de Morais, e diz:
— Dois mil contos de réis? Isso é muito pouco. Vamos votar o dobro, vamos dar quatro mil contos de réis para Sua Majestade poder comodamente ir à Europa.
E assim prosseguiram os debates. Quando soube disso, mandou logo o Imperador um bilhete ao Conselheiro João Alfredo, ministro do Império, nos seguintes termos: “Espero que o Ministério se apresse em fazer desaprovar quanto antes semelhantes favores, que eu e minha filha rejeitamos. Respeito a intenção de todos, mas respeitem também o desinteresse com que tenho servido à Nação”.
Nas duas viagens que fez mais tarde, revelou a mesma simplicidade e modéstia.

Uma hoteleira do Porto apresentou ao embaixador do Brasil uma conta das despesas feitas pelo Imperador, que lá estivera hospedado uns poucos dias. A conta foi considerada exorbitante, e o embaixador negou-se a pagá-la. A hoteleira viajou então para o Rio, e fez publicar uma notícia nos jornais. O Imperador, que ignorava a recusa do embaixador em fazer o pagamento, ficou profundamente contrariado. Mandou chamar a tal senhora, pagando-lhe do próprio bolso não só o montante da conta, como também as suas despesas com a viagem que fizera para cobrá-la.


Se o Governo imperial pode reduzir as despesas, não cria novos impostos

Nos arquivos do Imperador, pode-se constatar a sua constante preocupação com as finanças públicas e com o equilíbrio orçamentário: “Enquanto não tivermos certeza de extinguir o déficit, não se devem conceder favores pecuniários a novas empresas. Mesmo às existentes, só excepcionalmente, depois de muito sério exame”.
Se ele não se mostrava mais arrojado do que os ministros, é de justiça reconhecer que não lhes ficava também atrás. Muitas vezes antecedia-os vencendo seus preconceitos e prevenções, ou lutando por libertá-los das malhas absorventes da política partidária, que os esterilizavam e os consumiam.

O Visconde de Ouro Preto, na gestão do Ministério da Fazenda em 1879, emitia as seguintes idéias: “Ter em vista principalmente a economia, porque, enquanto se puder reduzir a despesa, não há direito de criar novos impostos. Do crédito, somente se deve usar para despesas produtivas, para as que aumentem e desenvolvam as fontes de receita”.

Na sessão de 5 de março de 1879, da Câmara dos Deputados, o Visconde de Ouro Preto se manifestou favorável à redução do subsídio de deputados e senadores, bem como dos vencimentos, sem razão majorados, de numerosos funcionários públicos.
Nas reduções projetadas, não figuravam as relativas à dotação da Família Imperial, e isso por razões justas que então apresentou. Quando, porém, em despacho imperial, o ministro comunicou ao Imperador o plano de redução de subsídios e vencimentos, D. Pedro II espontaneamente disse que de sua parte faria, de bom grado, o sacrifício que lhe coubesse, para melhorar a situação financeira. Não havia o que estranhar nesse ato, porque o Brasil estava habituado a ver partirem do Trono os nobres exemplos de abnegação e civismo.

O Governo Provisório, constituído após a proclamação da República, aprovou para as despesas da Família Imperial no exílio uma verba de 5.000 contos de réis, suficiente para comprar, na época, 4,5 toneladas de ouro. Logo que lhe foi possível, o Imperador enviou ao seu procurador no Brasil esta recusa categórica:
“Tendo tido conhecimento, no momento da partida para a Europa, do decreto pelo qual é concedida à Família Imperial, de uma só vez, a quantia de cinco mil contos, mando que declare que não receberei, bem como minha família, senão as dotações e mais vantagens a que temos direito pelas leis, tratados e compromissos existentes; e, portanto, se tiver recebido aquela quantia, deverá restituí-la sem perda de tempo. Recomendo outrossim que, cingindo-se aos termos desta comunicação, dirija ofício, que fará imediatamente publicar, e do qual me remeterá cópia”.
Sobre a oferta que lhe fizera o Governo Provisório, D. Pedro II comentou em Lisboa:
— Não sei com que autoridade esses senhores dispõem dos dinheiros públicos.136

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