Cumprimento do dever e amor à justiça, qualidades do Conde d’Eu
Nas três vezes em que a Princesa Isabel assumiu a Regência do Império, a atitude que manteve o Conde d’Eu foi a mais correta. Nunca nenhum político que foi ministro nesses períodos disse o contrário. Um constituinte republicano afirmou: “O que era possível fazer para conquistar o título de brasileiro, ele o fez: regulamentos, projetos de lei para melhor organização do Exército e aperfeiçoamento do seu material de guerra; escolas, bibliotecas, colônias orfanológicas para a infância desamparada; tudo enfim quanto podia falar à gratidão das massas mais desprotegidas da sorte ou às diversas classes da sociedade, ele planejou ou executou na maior parte”.
Durante a campanha do Paraguai, se as circunstâncias militares e políticas não lhe permitiram – mau grado dele, aliás – combater o inimigo do Brasil desde o início das hostilidades, sua ação de comandante-chefe, na última fase da guerra, quando os nossos melhores generais escasseavam já, por doentes ou cansados, foi cheia de heroísmo e de dignidade, e nunca se soube que tivesse se exercido em desabono das tradições do exército brasileiro.
Em suas “Memórias”, Taunay enumera as qualidades do Conde d’Eu: “Gosto pelo trabalho, amor sincero ao estudo, consciência no saber, espírito inimigo da futilidade e cheio de modéstia. Muita ordem na vida econômica, aborrecimento à intriga e aos mexericos. Desconfiança de si mesmo, desejo de servir bem e cumprir o dever. Absoluta simplicidade nos modos. Amigo da justiça nos conceitos, pouco propenso a ouvir e aceitar bajulações. Esposo exemplar, de fidelidade intangível, escrupulosíssima. Excelente pai de família, impossível melhor, exagerado até no amor aos filhos e nos cuidados de que os rodeia incessantemente. Crença viva na Religião. Discrição no falar, nenhum arrebatamento, paciente e nobremente resignado”.
Desejava ardentemente o Conde d’Eu participar da guerra no Paraguai, desde o início, mas encontrava invencível resistência em D. Pedro II, como também nos ministros. Contudo ele insistia. Tendo ido jantar com o Imperador, encontrou-se com o Marquês de Caxias, que acabava de ser promovido a Marechal do Exército e nomeado comandante geral das tropas brasileiras. Num dos corredores do Palácio, não se conteve e indagou sem rodeios:
— Marechal, o senhor consentiria em que eu fosse servir no Paraguai, sob suas ordens?
— Oh, senhor! Isso é muita honra para mim. Eu é que desejava ir sob as ordens de Vossa Alteza. Mas... isso depende do Governo.
Só bem mais tarde, quando Caxias retornou do campo de batalha, pôde o Conde d’Eu combater, agora como comandante geral, com a idade de 27 anos.
O general Osório, Marquês de Herval, em saudação ao Conde d’Eu durante banquete em sua homenagem, a 25 de maio de 1877, afirmou:
— Brindo ao Sr. Conde d’Eu, meu companheiro de armas, que sempre prodigalizou-me as maiores provas de consideração. Brindo-o pelo seu valor, pela sua coragem e pela justiça com que administrou o Exército. Brindo-o porque no Paraguai deu sempre provas de amar o Brasil e devotar-se de alma ao seu serviço, como os brasileiros que lá serviam.
A caminho do campo de batalha, as preocupações humanitárias do Conde d’Eu
Um interessante exemplo da preocupação humanitária do Conde d’Eu se encontra no seu diário da viagem a Uruguaiana, em 1865, quando se iniciava a guerra do Paraguai:
“Os corpos do exército de Flores e do general argentino Paunero bateram e aniquilaram hoje (17/8/65), nas alturas de Uruguaiana, os paraguaios da margem direita, em número de 4.000. Segundo estas notícias, que ainda não são oficiais, só teriam escapado 300, dos quais 50 ficaram prisioneiros dos aliados.
A vitória das forças aliadas está, pois, fora de toda a dúvida. Para saber pormenores positivos, será necessário aguardar o relatório oficial de Flores. Parece incrível, à primeira vista, que um corpo de 4.000 homens tenha quase totalmente perecido, e no curto espaço de hora e meia. Querem alguns, sem esperar explicação, enxergar nisto crime dos generais orientais, que nem sempre se têm distinguido por sua generosidade para com os vencidos. Quanto a mim, prefiro, até mais amplas informações, ter melhor opinião dos nossos aliados e explicar esse morticínio pela coragem cega, ou antes, fanatismo, que por ora têm mostrado nos combates os soldados paraguaios, o que torna muito difícil conservar-lhes a vida”.
Uma semana depois, relata: “Recebemos o relatório oficial da batalha e as quatro bandeiras paraguaias, que no dia 17 caíram nas mãos dos aliados. Por fim, e é o mais importante, a carta vem pôr termo à cruel dúvida em que ainda nos encontrávamos a respeito da sorte dos inimigos vencidos. Não são só 50, como se dizia, os prisioneiros que se encontram em poder dos aliados, porém 1.200. Tanto melhor para a humanidade e para a honra dos exércitos aliados”.
O Conde d’Eu anotou no diário o seguinte episódio da sua viagem a Uruguaiana:
“O jantar do Sr. Eufrásio fez-se esperar, mas resgatou a demora com o esplendor: grande mesa luxuosamente posta, cozinha francesa delicada e abundante. Não tardei a descobrir que as pessoas da estimável família Eufrásio eram grandes viajantes. Aos meus primeiros cumprimentos a propósito da sua casa, a senhora Eufrásia respondeu-me com modéstia:
— Mas para quem tem andado pela Europa, tudo isto é muito feio.
Não entendi que nisto houvesse segunda intenção. Porém, ao ver que esta palavra Europa lhe voltava freqüentemente aos lábios, ousei perguntar-lhe:
— A senhora esteve na Europa?
— Sim, senhor! Dois meses em Paris, e mês e meio em Londres.
Estava dado o primeiro passo. Nunca mais se esgotou a conversação”.
Ainda algumas anotações do diário do Conde d’Eu:
“Pelo fato de se ter deixado aprisionar, um soldado paraguaio que interrogávamos sabia muito bem que, para o seu governo, ele é agora um grande criminoso. Quando o Imperador lhe perguntou se desejava regressar ao seu país, a fisionomia, ordinariamente risonha, tornou-se logo sombria, e respondeu, com voz apavorada, que se o queriam mandar para lá, era melhor morto do que vivo, pois tinha a certeza de que lhe fariam sofrer algum cruel suplício.
Os homens do Norte, esses homens de pequena estatura, trigueiros, muitos deles mestiços, que deixaram as suas residências tropicais para virem, a 800 ou a 1.000 léguas de distância, defender a Pátria comum num clima para eles inóspito, inspiram-me profunda simpatia. Amando muito o Brasil, agrada-me também muitíssimo o Brasil tropical, a sua perpétua primavera, as suas imensas florestas e as suas esplêndidas montanhas revestidas de eterna verdura.
O que é digno de admiração é a paciência do Imperador, que pára ao pé de cada um daqueles 89 doentes, a perguntar ele próprio de que se queixa, de que província é e, sempre que o seu rosto mostra excessiva mocidade, que idade tem. Infelizmente, mais de um revela ter menos que a idade legal de 18 anos”.
Conde d’Eu, o único que pode dar esperanças e animar a todos
Com a entrada do exército brasileiro em Assunção e a fuga de Solano López, Caxias dava por concluída a guerra do Paraguai. Adoentado, e a conselho médico, retornara ao Rio de Janeiro, deixando o exército acéfalo. Porém o Imperador só concordaria em dar por encerrada a guerra após a rendição incondicional do ditador ou a sua morte em batalha, ou ainda a sua fuga do Paraguai. Depois de maduras reflexões, D. Pedro decidira enviar o Conde d’Eu, marechal do Exército, para comandar as tropas. Mas não adiantou a ninguém a sua decisão. Em reunião do Conselho de Ministros, a mesma idéia ocorreu simultaneamente a mais de um.
O Barão de Cotegipe afirmou, em carta ao Visconde do Rio Branco: “O Conde d’Eu é o único que, por sua posição, pode conter uma espécie de debandada, dar esperanças a uns e animar a todos”.
Em resposta, comentou o Visconde do Rio Branco: “Não me surpreendeu a idéia que aí tiveram quanto ao comando em chefe. Passou-me ela pela mente, tanto pela necessidade quanto pela insistência do indicado. Não vejo hoje nenhum inconveniente”.
Em carta ao general Dumas, seu antigo preceptor, o Conde d’Eu comenta: “Esta expulsão de López da região do Prata não é somente uma questão de honra nacional para o Brasil, mas é também uma questão de vida ou morte para a organização pacífica das repúblicas nossas aliadas. Para elas, ainda mais do que para nós, a existência de López será sempre uma espada de Dâmocles”.
Como se sabe, o comando da última fase da guerra foi conduzido magistralmente, culminando com a morte em batalha do ditador paraguaio. Ao voltar para o Rio, desacompanhado de regimentos, música e bandeiras, a população acolheu o Conde d’Eu com estupenda manifestação. Nenhum outro general fora ainda recebido assim, após lutar no Paraguai, o que deu origem a melindres injustificáveis.
Logo que se instalou em Assunção um governo provisório, após a vitória do Brasil e seus aliados na guerra do Paraguai, o Conde d’Eu dirigiu a esse governo uma carta pedindo a emancipação dos escravos ainda existentes naquele país:
“Em vários pontos do território desta República, que percorri à frente das forças brasileiras em operações contra o ditador López, tive ocasião de encontrar indivíduos que se diziam escravos, e muitos deles a mim se dirigiram pedindo que lhes concedesse a liberdade. Teriam assim motivo para se associar à alegria que experimenta a nação paraguaia, ao se ver livre do governo que a oprimia. Conceder-lhes o que pediam seria para mim uma agradável ocasião de satisfazer meus sentimentos, se tivesse poder para fazê-lo.
Estando agora constituído o governo provisório de que estais encarregados, é a ele que compete decidir sobre todas as questões que interessam à administração civil do país. O melhor que posso fazer é dirigir-me a vós, como o faço, para chamar a atenção sobre a sorte desses infortunados, no momento da emancipação de todo o Paraguai.
Se lhes concederdes a liberdade pedida, rompereis solenemente com uma instituição que infelizmente foi legada a diversos povos da livre América. Tomando esta resolução, que pouco influirá sobre a produção e os recursos materiais deste país, tereis inaugurado dignamente um governo destinado a reparar todos os males causados por uma longa tirania, e a dirigir a nação paraguaia para esta civilização que felicita os outros povos”.
Em conseqüência do pedido, o governo provisório do Paraguai decretou, a 2 de outubro de 1869, a abolição total e imediata da escravidão.
Como um Príncipe comanda a guerra
O testemunho dos companheiros de armas do Conde d’Eu basta para demonstrar que não se pode escrever a história da guerra do Paraguai sem lembrar devidamente o seu nome, honrando-o.
João da Fonseca Varela, veterano da guerra do Paraguai, contou que corria nos acampamentos a lenda de que o Conde d’Eu dormia com um olho fechado e o outro aberto. E quase sempre vestido. Havia ordem para qualquer pessoa procurá-lo, e instituíra as audiências públicas semanais. Nunca um soldado deixou de ser recebido por ele.
Durante a guerra do Paraguai, quando a fome e as doenças desgastavam o ânimo dos soldados brasileiros, um oficial se queixou da situação ao Conde d’Eu. O Príncipe o chamou a participar da sua mesa, e disse-lhe:
— Veja como eu passo. Tenhamos paciência e coragem, salvemos a nossa honra e a do nosso País, indo adiante.
Relata o Visconde de Taunay, testemunha ocular:
Nos incessantes reconhecimentos, às vezes seguidos um dia após outro, mostrou o Príncipe grande habilidade estratégica, paciência de experimentado capitão, indiscutível coragem e notável sangue-frio. Uma vez, diante da picada de Ascurra, cuja artilharia enfrentávamos, convidou alguns oficiais para nos aproximarmos o mais que fosse possível. Observei então:
— Pelo menos, convém pormos as capas dos bonés, para ocultarmos as nossas divisas de oficiais, já que nos vamos expor tanto.
O Príncipe concordou:
— Com efeito. É precaução bem lembrada.
Tão perto chegamos, que distingui perfeitamente as feições e barbas dos artilheiros inimigos. Desta forma o comandante em chefe patenteou bem claramente ao seu exército que sabia também ser valente, e não tinha medo da morte.
Quando o exército comandado pelo Conde d’Eu atravessava um riacho, sob a fuzilaria dos adversários, o general Menna Barreto correu ao seu encontro e lhe disse:
— Não há necessidade de se expor tanto. A batalha está ganha. Se precisássemos de um grande exemplo por parte do Príncipe e general em chefe, eu não impediria Vossa Alteza de o dar, a bem da vitória de nossas armas.
No entusiasmo do combate, o Conde d’Eu galopava, acompanhado do seu estado-maior, avançando sempre, até ficar ao alcance da fuzilaria inimiga, sem sequer cogitar do perigo que a sua pessoa corria. O capitão Francisco Joaquim de Almeida Castro o alcança, e com grande esforço contém o cavalo do Príncipe. Enraivecido, este ordena:
— Está preso, capitão!
— Quero ser preso, senhor, mas também quero salvar a vossa vida!
O marechal Deodoro costumava declarar:
— Não gosto do Conde d’Eu, solenemente antipatizo com ele. Mas a verdade me obriga a dizer: foi um dos mais ilustres generais sob os quais servi.
Exílio do Conde d’Eu e suas lembranças do Brasil
Seria necessário encher grossos volumes, para relatar tudo quanto se propalava no sentido de indispor o príncipe consorte com a opinião pública.
No dia 17 de novembro de 1889, a bordo do navio que levaria a Família Imperial para o exílio, o Conde d’Eu escreveu a seguinte carta:
“A todos os amigos que nessa terra me favoreceram com sua sincera e por mim tão apreciada afeição; aos companheiros que, há longos anos já, partilharam comigo as agruras da vida de campanha, prestando-me inestimável auxílio em prol da honra e segurança da Pátria brasileira; a todos que, na vida militar ou na civil, até há pouco se dignaram comigo colaborar; a todos aqueles a quem, em quase todas as províncias do Brasil, devo finezas sem número e generosa hospitalidade; e a todos os brasileiros em geral, um saudosíssimo adeus e a mais cordial gratidão.
Não guardo rancor a ninguém; e não me acusa a consciência de ter cientemente a ninguém feito mal. Sempre procurei servir lealmente ao Brasil na medida de minhas forças. Desculpo as acusações menos justas e juízos infundados, de que por vezes fui alvo.
A todos ofereço minha boa vontade, em qualquer ponto a que o destino me leve. Com a mais profunda saudade e intenso pesar afasto-me deste País, ao qual devi, no lar doméstico ou nos trabalhos públicos, tantos dias felizes e momentos de imorredoura lembrança. Nestes sentimentos acompanham-me minha muito amada esposa e nossos ternos filhinhos que, debulhados em lágrimas, conosco empreendem hoje a viagem do exílio.
Praza a Deus que, mesmo de longe, ainda me seja dado ser em alguma coisa útil aos brasileiros e ao Brasil”.
Em 1921, quando visitou o Brasil pouco antes de sua morte, o Conde d’Eu foi recepcionado e acompanhado pelo historiador Max Fleiuss, que deixou narrados alguns episódios ocorridos na ocasião:
“No Palace Hotel, onde se achava hospedado, assisti a várias cenas que confirmavam a sua estupenda memória. Certa manhã foi visitá-lo um cavalheiro da família Miranda Montenegro. Ao entrar, fez uma reverência. O Conde encarou-o, e de pronto chamou-o pelo nome de batismo. Disse-nos havê-lo conhecido menino, na fazenda de seus genitores, contando pitorescamente vários incidentes, um dos quais foi a passagem numa pequena ponte carcomida, do que resultou um banho nada confortável.
Outra visita foi a de um ancião de grandes barbas brancas, calças da mesma cor e um fraque antigo. Ao vê-lo, o Conde abraçou-o com enternecimento e, pondo-lhe a mão na cabeça, exclamou:
— Cá está ela!
Era uma depressão produzida por bala, na batalha de Campo Grande. O velho chorou de prazer”.
O Conde d’Eu insistiu em visitar o Palácio Guanabara, que fora a residência oficial da Princesa Isabel e dele. Ao se aproximar, comentou:
— Como está mudado!
Descendo do automóvel, ficou diante do portão, silencioso, estático, os olhos molhados, rolando saudosamente à direita e à esquerda, como numa evocação. Depois, voltou-se. O seu olhar estendeu-se por toda a Rua Paissandu, e ele caminhou para as três palmeiras do começo da rua:
— Está aqui! São estas! São estas! Estas três foram plantadas por Isabel. E aquelas outras foram plantadas por mim.
Pediu-me que o levasse à Igreja da Glória.
Ao chegarmos ao pátio do templo tradicional, a igreja estava de portas fechadas. Um homem varria a escadaria exterior. Saltei do automóvel e pedi permissão para entrarmos.
— Agora não é possível, patrão.
Insisti, alegando que estava ali o Conde d’Eu. Ao ouvir o nome de Sua Alteza, o varredor arregalou os olhos, e a vassoura caiu-lhe das mãos. O homem sumiu-se, e minutos depois a porta da igreja abria-se. Entramos. O templo estava vazio, mudo, mergulhado numa penumbra que era escuridão para os nossos olhos acostumados à claridade exterior. O Conde encaminhou-se para o altar-mor, e ali ficou, num esforço de pupilas, a olhar a imagem. Subitamente, para nossa surpresa, a igreja iluminou-se. É que o varredor correra a avisar o sacristão, e a surpresa da luz fora um gesto gentil do sacristão, para com o marido da Redentora”.
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FATOS DO BRASIL IMPÉRIO
Bem vindo ao blog FATOS DO BRASIL IMPÉRIO. Aqui são narrados fatos da época do Império, geralmente pouco conhecidos, extraídos do livro REVIVENDO O BRASIL-IMPÉRIO, que publiquei sob o pseudônimo Leopoldo Bibiano Xavier. Leitura muito útil, que dá uma visão realista do modo como o Imperador Pedro II conduzia os destinos do País.
Você está convidado a visitar também os sites referentes ao meu livro mais recente, A VOLTA AO MUNDO DA NOBREZA, que contém mais de 1.700 fatos mostrando a atuação da nobreza em diversos países e épocas:
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26.5.08
05 - O IMPERADOR NA INTIMIDADE
No recesso do lar, a vida do Imperador
D. Pedro II era sempre afável. A escritora Adelaide Celliez comenta sobre ele: “Nunca da sua boca se ouviu sair uma frase ofensiva, uma palavra áspera, nada que pudesse ferir um coração, ou o amor próprio. Sempre a mesma cordialidade, a mesma polidez, a mesma indulgência, e sempre a mesma vigilância e atividade do chefe de família aplicado à direção do Império constitucional”.
As princesas D. Januária e D. Francisca, irmãs de D. Pedro II, gostavam de cozinhar, quando crianças, mas faziam-no às escondidas. O irmão estranhava a constante falta de apetite das princesas, e pôs-se a espreitá-las, até descobrir que se alimentavam com os pratos que elas mesmas preparavam. Daí em diante não puderam evitar que o imperial irmão participasse da sua mesa clandestina.
Quando já velho, frei Pedro de Santa Mariana, preceptor de D. Pedro II na infância e adolescência, soube que o Imperador tinha ido ao teatro sem a Imperatriz, que ficara em Petrópolis. De madrugada, subiu as escadas e foi dizer ao Imperador:
— Venho pedir-vos um favor.
— Qual é?
— Vossa Majestade não vá mais ao teatro sem a Imperatriz. Fica muito feio.
O Imperador atendeu o pedido do seu estimado mestre.
Dom Pedro de Saxe-Coburgo, neto de D. Pedro II, foi certa vez a um baile na casa de uma baronesa em Rio Comprido. O Imperador notou que ele saíra em trajes de baile, compreendeu tudo, e à hora de recolher-se, em vez de ir para os seus aposentos, foi deitar-se na cama do neto, permanecendo ali a ler, até que ele finalmente chegou.
O jovem príncipe, ao entrar, muito satisfeito, recuou assustado ante a inesperada aparição daquele vulto querido estendido no seu próprio leito, a ler serenamente o Dom Quixote.
— Vovô?!...
— Tranqüiliza-te, meu filho, que sou eu. Uma cama de rapaz solteiro não deve ser abandonada durante a noite inteira. Vi-a tão solitária, e vim fazer-lhe companhia. Peço-te apenas que não me obrigues a repetir estas noitadas. Os velhos não devem também alterar os seus hábitos, e só tu me obrigarias a fazer isso.
A um cientista do Rio da Prata, perguntou D. Pedro em que se ocupara mais recentemente, e este lhe respondeu que redigia uma obra, em fase adiantada. Manifestando o desejo de lê-la, desculpou-se o escritor:
— Senhor, há capítulos que eu não desejaria que fossem vistos antes de minha morte.
— Podem-se conciliar os desejos de ambos. Confie-me o texto, indicando quais os capítulos que eu não devo ler, e eu verei o resto.
Foram-lhe confiados os originais da forma pedida, e no dia seguinte D. Pedro recomendou ao seu camarista que os lesse em voz alta, saltando os capítulos vedados.
Com os homens de Estado, um trato ameno e firme
O general Osório ocupava a pasta da Guerra. Em um dos despachos coletivos, o Imperador, minado pelas moléstias e pela idade, começou a cochilar, e adormeceu na presença dos seus ministros. Estes se entreolharam, numa consulta silenciosa. Que fazer, em tal situação? Irem-se embora? Seria uma desconsideração. Chamá-lo? Seria um desrespeito. Osório teve uma idéia. Desafivelou o cinturão e, como se fosse inadvertidamente, deixou cair a espada ao chão, provocando considerável barulho. Despertando, o Monarca logo se deu conta do que era, e brincou:
— Certamente, Sr. General, a sua espada não caía assim no Paraguai.
— Absolutamente, Majestade. Mesmo porque, no Paraguai, não se dormia!
D. Pedro II tinha indissimulável aversão à bajulação. Um dos seus camaristas, de índole subserviente, desejava entrar para a política, e apareceu como candidato de um dos partidos a uma cadeira no Senado. Apesar de votado em primeiro lugar, foi preterido na escolha pelo Monarca. Três vezes veio na lista tríplice, e três vezes foi esquecido. Ressentido, o camarista indagou de Sua Majestade a razão de tantas preterições.
— Não tenho queixas contra o senhor. É que são tão importantes os serviços que me presta como servidor da minha Casa, que não quero privar-me deles.
Andrés Lamas, embaixador do Uruguai no Brasil, possuía belos rosais em Petrópolis. O Imperador ia procurá-lo pela manhã, entre as roseiras, com o pretexto de jardinar. E ambos, com grandes chapéus de palha, removiam a terra enquanto falavam de poesia ou da política do Rio da Prata.
Em 1871, D. Pedro II foi o primeiro governante estrangeiro a visitar Paris, depois das atrocidades da comuna, que deixaram a cidade em ruínas. O governo francês se instalara em Versalhes, aonde D. Pedro foi fazer uma visita oficial ao presidente Adolphe Thiers, que conhecia o gosto de D. Pedro pelo estudo da antiguidade. No Petit Trianon, ao cumprimentá-lo, Thiers exclamou:
— Infelizmente, Vossa Majestade tem aqui muitas ruínas para visitar!
— Já visitei todas elas!
Durante a sua primeira viagem à Europa, D. Pedro II foi procurado pelo ministro americano Robert Schenck, para pedir-lhe a arbitragem na questão do Alabama, em que funcionaria como alto juiz. O Imperador escusou-se:
— Não, senhor. Aqui eu não sou Imperador, mas um cidadão que viaja.
O diplomata insistiu, mostrando que D. Pedro poderia escrever sobre o assunto para o Brasil. Mas este foi peremptório:
— Aqui eu não escrevo cartas sobre negócios, e não pretendo mudar de hábitos.
De pequenos e grandes, as homenagens ao nosso Imperador
Em 1888, quando estava em convalescença no interior da França, o Imperador foi visitar a capela de S. Cassiano. Foi recebido pelo ancião frei Luiz de Gonzaga, guardião da capela. Ao se despedir, disse-lhe o religioso:
— Creio ter tido a honra de falar ao Imperador do Brasil. Será exato?
— Por que me faz a pergunta?
— Porque o Imperador do Brasil é muito conhecido aqui, e me haviam dito que é um homem alto, de barba branca e muito bondoso. Com essas explicações, julgo ser o Imperador que aqui está. Disseram-me também que ele esteve doente, e aqui veio convalescer. Tenho sempre rezado por ele.
— Muito e muito obrigado, frei Gonzaga – respondeu comovido o Imperador.
Para prestar homenagem ao Imperador, que iria visitar a exposição de Florença, o professor De Gubernatis determinou que uma banda de música fosse posta à entrada principal, no dia da visita, com o encargo de saudá-lo com o Hino Imperial Brasileiro. Para que o chefe da banda não se enganasse quanto à pessoa a quem deveria homenagear, descreveu-o como um personagem alto, respeitável, de longas barbas brancas.
Aconteceu, no entanto, que o Imperador, para melhor e mais desembaraçadamente apreciar a exposição, chegou antes da hora, entrando por uma porta lateral. E percorreu-a sozinho, a pé, passando facilmente despercebido no meio dos muitos visitantes. Não teve por isso o seu hino. Mais tarde, encontrando-se com De Gubernatis na exposição, perguntou-lhe:
— Explique-me uma coisa, meu caro professor: por que é que de quando em quando ouço tocar lá fora o hino do meu País?
Um pouco confuso, o professor explicou-lhe a projetada homenagem. Mas, como chegaram vários personagens que correspondiam à descrição, o chefe da banda, com medo de enganar-se, resolvera receber cada um ao som do hino brasileiro. De forma que a única barba branca que não tivera o seu hino fora justamente a do Imperador do Brasil.
Na véspera do dia em que D. Pedro II devia ser recebido no Eliseu, o presidente francês Adolphe Thiers verificou, apreensivo, que não se tinha a menor idéia sobre o que podia ser o hino brasileiro. Chamou às pressas Gobineau, ex-embaixador francês no Brasil.
— O hino brasileiro? Ora essa! Certamente que há um hino brasileiro. Talvez eu possa reconhecê-lo. Mas lembrar-me, nunca.
Impossível receber o Imperador sem o seu hino. Acompanhado de Madame Thiers, Gobineau põe-se a campo. É uma corrida louca através de Paris, por todos os comerciantes de música. Mas ninguém conhece o hino. Enfim, em casa de Durand, descobrem-se umas músicas que vieram lá de longe. Gobineau não sabe ler uma partitura, e corre então para a casa de uma amiga, Lady Blunt, que se põe ao piano e a toca. Bravos! Gobineau confirma que era, sem dúvida, o hino brasileiro, e o leva triunfalmente ao Eliseu. A banda da Guarda Republicana passa a noite a orquestrá-lo, e no dia seguinte a honra da república estava salva.
No exílio, em 1890, alguém disse ao Imperador:
— Acabo de ler nos jornais que Rui Barbosa, num elogio a Deodoro, comparou-o a Washington.
— Verdade? Todos poderiam ter feito semelhante paralelo, menos esse, que sabe tão bem História e conhece as coisas do Brasil.
— E quem mais se assemelha a Washington do que Vossa Majestade?
— Oh! Não, não! Washington é um dos maiores homens da História. Um só ponto nos aproxima um do outro: o amor da pátria. Ele dos seus Estados Unidos, eu do meu Brasil.
— Pois a História colocará as duas figuras no mesmo pedestal, reconhecendo maiores virtudes talvez na brasileira, para orgulho nosso.
— Não diga isso. Arrasta-o o ardor da imaginação.
— A Washington, senhor, faltou a apoteose do infortúnio. Sempre um feliz. Os seus predicados jamais foram submetidos à contra-prova dos reveses pessoais. Viveu à luz de benigna sorte. Nunca perdeu filhos queridos. Educado por mãe extremosíssima, mulher superior que o viu ascender à chefia da sua nação e morreu em avançada idade. Extraordinários, na verdade, são os seus serviços, porém mais extraordinário ainda o reconhecimento dos seus concidadãos para com ele. Rico, adorado dos contemporâneos, Washington não tragou o fel das ingratidões e das injustiças. Não se viu expelido do solo natal pela soldadesca, como um bandido, após cinqüenta anos de honesto governo.
O Imperador ouvia pensativo, abanando de leve a cabeça. No fim, murmurou apenas, com melancolia:
— Na verdade, eu não conheci minha mãe. Tinha menos de um ano quando ela expirou...
Sem a vaidade da posição, gestos simples do Imperador
D. Pedro II gostava de caminhar pelas ruas do Rio, como simples transeunte. Certo dia ele se encontrou com um negro, que manifestamente não desejava fazer o esforço de ceder passagem. Muito tranqüilamente, desceu do passeio e seguiu caminho. O secretário, que o acompanhava, disse:
— Como Vossa Majestade pode se rebaixar assim diante de um negro?
— Se eu não aproveito a ocasião para lhe ensinar algo de educação, quem é que o fará?
Com freqüência o Imperador visitava as oficinas de máquinas e estaleiros do Arsenal de Marinha. Numa dessas visitas, procurou pelo tenente José Carlos de Carvalho, e foi informado de que se encontrava trabalhando nas caldeiras. Lá chegando, estendeu a mão ao tenente, que o cumprimentou, mas logo se desconcertou por ter sujado a mão de D. Pedro, e pediu uma bacia com água e uma toalha. O Imperador disse:
— Não precisa. É a melhor lembrança que posso levar da visita de hoje, onde encontro o tenente Carvalho com a blusa de operário das oficinas deste arsenal.
Descendo a pé uma das alamedas internas da sua Quinta de São Cristóvão, D. Pedro II viu de longe alguns garotos trepados nos galhos das árvores, para furtarem frutas do pomar imperial. Sem dizer nada, deu meia-volta e tomou um outro caminho bem mais longo. O secretário que o acompanhava perguntou:
— Esqueceu alguma coisa, meu senhor?
— Não. Vou dar volta por ali. Se eu prosseguisse por este lado, aqueles meninos ficariam amedrontados, e poderiam jogar-se das árvores e machucar-se. É preferível andarmos um pouco mais.
Nos Estados Unidos, Dom Pedro II foi a sós ao monumento Bunker Hill. Levantando-se cedo, como de costume, chegou às 6 horas, acordou o vigia e pediu permissão para entrar. Demonstrando muito pouco entusiasmo a essa hora da manhã, o vigia cobrou:
— São cinqüenta centavos a entrada.
Dom Pedro não tinha dinheiro, que ficava com o mordomo. Mas recorreu a um empréstimo do cocheiro da carruagem que o trouxera, pagou a entrada, inscreveu seu nome no livro de visitantes e entrou.
À tarde do mesmo dia, o historiador Richard Frothingham também compareceu ao monumento, inscrevendo seu nome na mesma página. Olhando para as assinaturas acima da sua, reconheceu a de Dom Pedro e disse:
— Vejo que você teve aqui o Imperador do Brasil.
— Aquele velho que não tinha um níquel?! Não me deixo enganar por um sujeito que não tem dinheiro nem para pagar uma entrada!
Amenidade e cortesia em ditos de ocasião
Visitando o Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, em Itu, em 1888, D. Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina tiveram uma brilhante recepção. No pátio, as alunas perfiladas e uniformizadas fizeram ao casal imperial as três reverências de estilo, provocando esta exclamação do Imperador:
— Oh! Tal como na Europa. Um imenso trigal balançando suas espigas ao sopro da brisa.
O professor norte-americano David Todd mostrava a D. Pedro II um novo instrumento do observatório, no qual havia um espelho rotativo que dava não sei quantas voltas por minuto. D. Pedro comentou:
— Quase tantas como numa república sul-americana.
Em visita de D. Pedro II ao escritor Whittier, em Boston, este perguntou o que mais lhe agradara na cidade. D. Pedro explicou que estava sempre à procura de idéias novas, e acrescentou:
— O senhor sabe, eu sou doutor em doenças do Estado...
Em uma viagem do Imperador a Campos, o abolicionista José do Patrocínio torceu o pé, ao subir para o vagão imperial, e D. Pedro II correu a ele, indagando sobre seu estado. Quando se certificou de que não era grave o acidente, disse-lhe risonho:
— O Sr. Patrocínio parece que não pisou no carro da Monarquia com o pé direito.
D. Pedro II, em São Paulo, entrou com sua comitiva numa câmara frigorífica, onde a temperatura era de cinco graus abaixo de zero. O senador Marquês de Paranaguá ficou de fora, aguardando. Ao sair, e notando a posição desse membro do Senado – instituição que o espírito popular denominava “Sibéria” – o Imperador gracejou:
— Oh! Nem me lembrava de que o senhor está à prova de temperatura mais fria...
Em Petrópolis, D. Pedro II encontrou-se na rua com o Barão de São Victor, negociante português. Perguntado pela esposa, este lhe afirmou que ela ficara em casa, mas logo depois viu-a passar diante deles. E comentou em francês:
— Souvent femme varie...
— Onde se escreveu esta frase?
O Barão não sabia, e logo D. Pedro completou:
— Francisco I a escreveu numa janela.
Nos últimos dias da guerra contra Rosas, com suas atrocidades e execuções, D. Pedro II pediu a Andrés Lamas, em Petrópolis, notícias do Rio de Janeiro.
— Morre-se de febre amarela...
— Que quer! Nem todos têm a mesma sorte, de morrer degolados...
Frei Fidelis d’Avola insistiu com D. Pedro II para que permitisse a reabertura do noviciado no convento de Santo Antonio. Um tanto jocosamente, D. Pedro argumentou:
— Qual! A época dos frades já passou!
— Majestade, não diga assim, porque andam também dizendo por aí que já passou o tempo das cabeças coroadas...
No limiar da guerra, um pouco da vida de caserna
Ao se iniciar a guerra do Paraguai, o Imperador foi a Uruguaiana, a fim de conferenciar com os presidentes dos países aliados. Ao longo das estradas precárias daqueles tempos, em veículos desprovidos de qualquer conforto, a comitiva de D. Pedro II deslocava-se como podia, sujeita ao mau tempo e a imprevistos. O Conde d’Eu narrou essa viagem em um livro, onde escreveu:
“Certo dia, de chuva torrencial e continuada, a comitiva lutou horas seguidas para poder ir adiante. Opunham-se-lhe todas as dificuldades: os caminhos encharcados, quase intransitáveis; o frio, o vento, o nevoeiro, que mal deixava ver cinco passos adiante; e, sobretudo, aquela maldita chuva, cada vez mais inclemente, cada vez mais copiosa!
De repente, no mais forte do temporal, a comitiva sentiu que estava desnorteada. Perdera-se naqueles campos sem fim, onde tudo se confundia: solo, horizonte, céu... Na região circunvizinha, nem o menor sinal de vida. Parar? Era impossível! Prosseguir? Mas em que direção? Procurou-se o capitão Morais, a única pessoa que conhecia a região. Mas onde estava o capitão Morais? Tinha ficado para trás, com todas as viaturas.
O momento era realmente de consternação geral. Pouco depois, porém, começa a aparecer um luar de esperança. Descobriu-se à direita, a pequena distância, uma sombra que parecia uma casa. Caminhou-se um pouco mais e a sombra precisou-se: era de fato uma casa.
Para lá nos dirigimos, e foi com indizível alegria que nos apeamos e nos abrigamos da água do céu. A casa era habitada por uma viúva e suas três filhas, uma das quais, casada, tinha o marido na guerra. Não possuía a família senão duas pobres camas e três compartimentos, aos quais era impossível dar-se o nome de quartos. Em um deles estavam pendurados a uma corda, em todo o seu comprimento, pedaços de um boi morto na véspera. Como era o quarto mais espaçoso, nele nos alojamos, à espera de que a chegada dos carros nos permitisse mudar de botas. E cada um se pôs a fazer considerações mais ou menos filosóficas sobre o resultado pouco brilhante da jornada.
Às quatro horas apareciam os carros tão ardentemente desejados. Mas, ai! Se as pernas iam ter com que se enxugar, os estômagos ficavam logrados: o carro que trazia o jantar quebrara-se, e todos os alimentos se haviam espalhado pelo charco. Tínhamos pois de aceitar com reconhecimento a carne de vaca meio assada, que a dona da casa nos trazia espetada num pau. O general Cabral apoderou-se dela, e distribuía os bocados que ia cortando com uma faca. A operação podia ser suja, mas, realmente, o sabor era excelente.
No dia seguinte, a situação não era mais promissora. Passa-se o dia nas carretilhas. Almoça-se churrasco, porque das carretas que trazem a cozinha e os cozinheiros não há vestígio. Para o jantar, a boa dona da casa encontra meio de acrescentar ao churrasco uma galinha cozida e uma tigela de pirão, massa de farinha de mandioca, sem sal, que eu acho sem sabor, mas que o Imperador declara deliciosa.
Enfim, pela madrugada do outro dia, a chuva cessou de cair. Horas depois apareceu o sol, que foi recebido com uma alegria geral e comunicativa. E, como afinal haviam chegado as carretas tidas como perdidas, a comitiva tocou novamente a marchar, para a frente, sempre para a frente”.
“A comitiva do Imperador, nas proximidades de São Gabriel, desviou-se para visitar o campo onde se dera, trinta e três anos antes, a batalha de Ituzaingó. Apenas duas cruzes toscas, de madeira, assinalavam o antigo campo de luta.
O general Cabral, que participara da batalha, tomou a iniciativa de explicar ao Imperador o seu desenrolar. Natureza exaltada, pouco simpático aos rio-grandenses, Cabral atribuía todo o insucesso do combate à cavalaria dos gaúchos, que na sua opinião se comportara desordenada e ineficientemente.
Nessa altura de seu discurso, o Barão de Saicam, ali também presente, saiu em defesa da honra da cavalaria rio-grandense. Para ele, o resultado pouco brilhante da batalha deveu-se à imperícia de Barbacena e do seu estado-maior. Acendeu-se entre os dois uma acalorada controvérsia. A tal ponto se embrulhou, que por fim já nem sequer sabíamos qual fora o ribeiro do campo de batalha, nem de que direção tinham vindo os dois exércitos. O Imperador, paciente, tolerante, sorria calado, um tanto cético, em meio a esse terrível combate verbal”.
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D. Pedro II era sempre afável. A escritora Adelaide Celliez comenta sobre ele: “Nunca da sua boca se ouviu sair uma frase ofensiva, uma palavra áspera, nada que pudesse ferir um coração, ou o amor próprio. Sempre a mesma cordialidade, a mesma polidez, a mesma indulgência, e sempre a mesma vigilância e atividade do chefe de família aplicado à direção do Império constitucional”.
As princesas D. Januária e D. Francisca, irmãs de D. Pedro II, gostavam de cozinhar, quando crianças, mas faziam-no às escondidas. O irmão estranhava a constante falta de apetite das princesas, e pôs-se a espreitá-las, até descobrir que se alimentavam com os pratos que elas mesmas preparavam. Daí em diante não puderam evitar que o imperial irmão participasse da sua mesa clandestina.
Quando já velho, frei Pedro de Santa Mariana, preceptor de D. Pedro II na infância e adolescência, soube que o Imperador tinha ido ao teatro sem a Imperatriz, que ficara em Petrópolis. De madrugada, subiu as escadas e foi dizer ao Imperador:
— Venho pedir-vos um favor.
— Qual é?
— Vossa Majestade não vá mais ao teatro sem a Imperatriz. Fica muito feio.
O Imperador atendeu o pedido do seu estimado mestre.
Dom Pedro de Saxe-Coburgo, neto de D. Pedro II, foi certa vez a um baile na casa de uma baronesa em Rio Comprido. O Imperador notou que ele saíra em trajes de baile, compreendeu tudo, e à hora de recolher-se, em vez de ir para os seus aposentos, foi deitar-se na cama do neto, permanecendo ali a ler, até que ele finalmente chegou.
O jovem príncipe, ao entrar, muito satisfeito, recuou assustado ante a inesperada aparição daquele vulto querido estendido no seu próprio leito, a ler serenamente o Dom Quixote.
— Vovô?!...
— Tranqüiliza-te, meu filho, que sou eu. Uma cama de rapaz solteiro não deve ser abandonada durante a noite inteira. Vi-a tão solitária, e vim fazer-lhe companhia. Peço-te apenas que não me obrigues a repetir estas noitadas. Os velhos não devem também alterar os seus hábitos, e só tu me obrigarias a fazer isso.
A um cientista do Rio da Prata, perguntou D. Pedro em que se ocupara mais recentemente, e este lhe respondeu que redigia uma obra, em fase adiantada. Manifestando o desejo de lê-la, desculpou-se o escritor:
— Senhor, há capítulos que eu não desejaria que fossem vistos antes de minha morte.
— Podem-se conciliar os desejos de ambos. Confie-me o texto, indicando quais os capítulos que eu não devo ler, e eu verei o resto.
Foram-lhe confiados os originais da forma pedida, e no dia seguinte D. Pedro recomendou ao seu camarista que os lesse em voz alta, saltando os capítulos vedados.
Com os homens de Estado, um trato ameno e firme
O general Osório ocupava a pasta da Guerra. Em um dos despachos coletivos, o Imperador, minado pelas moléstias e pela idade, começou a cochilar, e adormeceu na presença dos seus ministros. Estes se entreolharam, numa consulta silenciosa. Que fazer, em tal situação? Irem-se embora? Seria uma desconsideração. Chamá-lo? Seria um desrespeito. Osório teve uma idéia. Desafivelou o cinturão e, como se fosse inadvertidamente, deixou cair a espada ao chão, provocando considerável barulho. Despertando, o Monarca logo se deu conta do que era, e brincou:
— Certamente, Sr. General, a sua espada não caía assim no Paraguai.
— Absolutamente, Majestade. Mesmo porque, no Paraguai, não se dormia!
D. Pedro II tinha indissimulável aversão à bajulação. Um dos seus camaristas, de índole subserviente, desejava entrar para a política, e apareceu como candidato de um dos partidos a uma cadeira no Senado. Apesar de votado em primeiro lugar, foi preterido na escolha pelo Monarca. Três vezes veio na lista tríplice, e três vezes foi esquecido. Ressentido, o camarista indagou de Sua Majestade a razão de tantas preterições.
— Não tenho queixas contra o senhor. É que são tão importantes os serviços que me presta como servidor da minha Casa, que não quero privar-me deles.
Andrés Lamas, embaixador do Uruguai no Brasil, possuía belos rosais em Petrópolis. O Imperador ia procurá-lo pela manhã, entre as roseiras, com o pretexto de jardinar. E ambos, com grandes chapéus de palha, removiam a terra enquanto falavam de poesia ou da política do Rio da Prata.
Em 1871, D. Pedro II foi o primeiro governante estrangeiro a visitar Paris, depois das atrocidades da comuna, que deixaram a cidade em ruínas. O governo francês se instalara em Versalhes, aonde D. Pedro foi fazer uma visita oficial ao presidente Adolphe Thiers, que conhecia o gosto de D. Pedro pelo estudo da antiguidade. No Petit Trianon, ao cumprimentá-lo, Thiers exclamou:
— Infelizmente, Vossa Majestade tem aqui muitas ruínas para visitar!
— Já visitei todas elas!
Durante a sua primeira viagem à Europa, D. Pedro II foi procurado pelo ministro americano Robert Schenck, para pedir-lhe a arbitragem na questão do Alabama, em que funcionaria como alto juiz. O Imperador escusou-se:
— Não, senhor. Aqui eu não sou Imperador, mas um cidadão que viaja.
O diplomata insistiu, mostrando que D. Pedro poderia escrever sobre o assunto para o Brasil. Mas este foi peremptório:
— Aqui eu não escrevo cartas sobre negócios, e não pretendo mudar de hábitos.
De pequenos e grandes, as homenagens ao nosso Imperador
Em 1888, quando estava em convalescença no interior da França, o Imperador foi visitar a capela de S. Cassiano. Foi recebido pelo ancião frei Luiz de Gonzaga, guardião da capela. Ao se despedir, disse-lhe o religioso:
— Creio ter tido a honra de falar ao Imperador do Brasil. Será exato?
— Por que me faz a pergunta?
— Porque o Imperador do Brasil é muito conhecido aqui, e me haviam dito que é um homem alto, de barba branca e muito bondoso. Com essas explicações, julgo ser o Imperador que aqui está. Disseram-me também que ele esteve doente, e aqui veio convalescer. Tenho sempre rezado por ele.
— Muito e muito obrigado, frei Gonzaga – respondeu comovido o Imperador.
Para prestar homenagem ao Imperador, que iria visitar a exposição de Florença, o professor De Gubernatis determinou que uma banda de música fosse posta à entrada principal, no dia da visita, com o encargo de saudá-lo com o Hino Imperial Brasileiro. Para que o chefe da banda não se enganasse quanto à pessoa a quem deveria homenagear, descreveu-o como um personagem alto, respeitável, de longas barbas brancas.
Aconteceu, no entanto, que o Imperador, para melhor e mais desembaraçadamente apreciar a exposição, chegou antes da hora, entrando por uma porta lateral. E percorreu-a sozinho, a pé, passando facilmente despercebido no meio dos muitos visitantes. Não teve por isso o seu hino. Mais tarde, encontrando-se com De Gubernatis na exposição, perguntou-lhe:
— Explique-me uma coisa, meu caro professor: por que é que de quando em quando ouço tocar lá fora o hino do meu País?
Um pouco confuso, o professor explicou-lhe a projetada homenagem. Mas, como chegaram vários personagens que correspondiam à descrição, o chefe da banda, com medo de enganar-se, resolvera receber cada um ao som do hino brasileiro. De forma que a única barba branca que não tivera o seu hino fora justamente a do Imperador do Brasil.
Na véspera do dia em que D. Pedro II devia ser recebido no Eliseu, o presidente francês Adolphe Thiers verificou, apreensivo, que não se tinha a menor idéia sobre o que podia ser o hino brasileiro. Chamou às pressas Gobineau, ex-embaixador francês no Brasil.
— O hino brasileiro? Ora essa! Certamente que há um hino brasileiro. Talvez eu possa reconhecê-lo. Mas lembrar-me, nunca.
Impossível receber o Imperador sem o seu hino. Acompanhado de Madame Thiers, Gobineau põe-se a campo. É uma corrida louca através de Paris, por todos os comerciantes de música. Mas ninguém conhece o hino. Enfim, em casa de Durand, descobrem-se umas músicas que vieram lá de longe. Gobineau não sabe ler uma partitura, e corre então para a casa de uma amiga, Lady Blunt, que se põe ao piano e a toca. Bravos! Gobineau confirma que era, sem dúvida, o hino brasileiro, e o leva triunfalmente ao Eliseu. A banda da Guarda Republicana passa a noite a orquestrá-lo, e no dia seguinte a honra da república estava salva.
No exílio, em 1890, alguém disse ao Imperador:
— Acabo de ler nos jornais que Rui Barbosa, num elogio a Deodoro, comparou-o a Washington.
— Verdade? Todos poderiam ter feito semelhante paralelo, menos esse, que sabe tão bem História e conhece as coisas do Brasil.
— E quem mais se assemelha a Washington do que Vossa Majestade?
— Oh! Não, não! Washington é um dos maiores homens da História. Um só ponto nos aproxima um do outro: o amor da pátria. Ele dos seus Estados Unidos, eu do meu Brasil.
— Pois a História colocará as duas figuras no mesmo pedestal, reconhecendo maiores virtudes talvez na brasileira, para orgulho nosso.
— Não diga isso. Arrasta-o o ardor da imaginação.
— A Washington, senhor, faltou a apoteose do infortúnio. Sempre um feliz. Os seus predicados jamais foram submetidos à contra-prova dos reveses pessoais. Viveu à luz de benigna sorte. Nunca perdeu filhos queridos. Educado por mãe extremosíssima, mulher superior que o viu ascender à chefia da sua nação e morreu em avançada idade. Extraordinários, na verdade, são os seus serviços, porém mais extraordinário ainda o reconhecimento dos seus concidadãos para com ele. Rico, adorado dos contemporâneos, Washington não tragou o fel das ingratidões e das injustiças. Não se viu expelido do solo natal pela soldadesca, como um bandido, após cinqüenta anos de honesto governo.
O Imperador ouvia pensativo, abanando de leve a cabeça. No fim, murmurou apenas, com melancolia:
— Na verdade, eu não conheci minha mãe. Tinha menos de um ano quando ela expirou...
Sem a vaidade da posição, gestos simples do Imperador
D. Pedro II gostava de caminhar pelas ruas do Rio, como simples transeunte. Certo dia ele se encontrou com um negro, que manifestamente não desejava fazer o esforço de ceder passagem. Muito tranqüilamente, desceu do passeio e seguiu caminho. O secretário, que o acompanhava, disse:
— Como Vossa Majestade pode se rebaixar assim diante de um negro?
— Se eu não aproveito a ocasião para lhe ensinar algo de educação, quem é que o fará?
Com freqüência o Imperador visitava as oficinas de máquinas e estaleiros do Arsenal de Marinha. Numa dessas visitas, procurou pelo tenente José Carlos de Carvalho, e foi informado de que se encontrava trabalhando nas caldeiras. Lá chegando, estendeu a mão ao tenente, que o cumprimentou, mas logo se desconcertou por ter sujado a mão de D. Pedro, e pediu uma bacia com água e uma toalha. O Imperador disse:
— Não precisa. É a melhor lembrança que posso levar da visita de hoje, onde encontro o tenente Carvalho com a blusa de operário das oficinas deste arsenal.
Descendo a pé uma das alamedas internas da sua Quinta de São Cristóvão, D. Pedro II viu de longe alguns garotos trepados nos galhos das árvores, para furtarem frutas do pomar imperial. Sem dizer nada, deu meia-volta e tomou um outro caminho bem mais longo. O secretário que o acompanhava perguntou:
— Esqueceu alguma coisa, meu senhor?
— Não. Vou dar volta por ali. Se eu prosseguisse por este lado, aqueles meninos ficariam amedrontados, e poderiam jogar-se das árvores e machucar-se. É preferível andarmos um pouco mais.
Nos Estados Unidos, Dom Pedro II foi a sós ao monumento Bunker Hill. Levantando-se cedo, como de costume, chegou às 6 horas, acordou o vigia e pediu permissão para entrar. Demonstrando muito pouco entusiasmo a essa hora da manhã, o vigia cobrou:
— São cinqüenta centavos a entrada.
Dom Pedro não tinha dinheiro, que ficava com o mordomo. Mas recorreu a um empréstimo do cocheiro da carruagem que o trouxera, pagou a entrada, inscreveu seu nome no livro de visitantes e entrou.
À tarde do mesmo dia, o historiador Richard Frothingham também compareceu ao monumento, inscrevendo seu nome na mesma página. Olhando para as assinaturas acima da sua, reconheceu a de Dom Pedro e disse:
— Vejo que você teve aqui o Imperador do Brasil.
— Aquele velho que não tinha um níquel?! Não me deixo enganar por um sujeito que não tem dinheiro nem para pagar uma entrada!
Amenidade e cortesia em ditos de ocasião
Visitando o Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, em Itu, em 1888, D. Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina tiveram uma brilhante recepção. No pátio, as alunas perfiladas e uniformizadas fizeram ao casal imperial as três reverências de estilo, provocando esta exclamação do Imperador:
— Oh! Tal como na Europa. Um imenso trigal balançando suas espigas ao sopro da brisa.
O professor norte-americano David Todd mostrava a D. Pedro II um novo instrumento do observatório, no qual havia um espelho rotativo que dava não sei quantas voltas por minuto. D. Pedro comentou:
— Quase tantas como numa república sul-americana.
Em visita de D. Pedro II ao escritor Whittier, em Boston, este perguntou o que mais lhe agradara na cidade. D. Pedro explicou que estava sempre à procura de idéias novas, e acrescentou:
— O senhor sabe, eu sou doutor em doenças do Estado...
Em uma viagem do Imperador a Campos, o abolicionista José do Patrocínio torceu o pé, ao subir para o vagão imperial, e D. Pedro II correu a ele, indagando sobre seu estado. Quando se certificou de que não era grave o acidente, disse-lhe risonho:
— O Sr. Patrocínio parece que não pisou no carro da Monarquia com o pé direito.
D. Pedro II, em São Paulo, entrou com sua comitiva numa câmara frigorífica, onde a temperatura era de cinco graus abaixo de zero. O senador Marquês de Paranaguá ficou de fora, aguardando. Ao sair, e notando a posição desse membro do Senado – instituição que o espírito popular denominava “Sibéria” – o Imperador gracejou:
— Oh! Nem me lembrava de que o senhor está à prova de temperatura mais fria...
Em Petrópolis, D. Pedro II encontrou-se na rua com o Barão de São Victor, negociante português. Perguntado pela esposa, este lhe afirmou que ela ficara em casa, mas logo depois viu-a passar diante deles. E comentou em francês:
— Souvent femme varie...
— Onde se escreveu esta frase?
O Barão não sabia, e logo D. Pedro completou:
— Francisco I a escreveu numa janela.
Nos últimos dias da guerra contra Rosas, com suas atrocidades e execuções, D. Pedro II pediu a Andrés Lamas, em Petrópolis, notícias do Rio de Janeiro.
— Morre-se de febre amarela...
— Que quer! Nem todos têm a mesma sorte, de morrer degolados...
Frei Fidelis d’Avola insistiu com D. Pedro II para que permitisse a reabertura do noviciado no convento de Santo Antonio. Um tanto jocosamente, D. Pedro argumentou:
— Qual! A época dos frades já passou!
— Majestade, não diga assim, porque andam também dizendo por aí que já passou o tempo das cabeças coroadas...
No limiar da guerra, um pouco da vida de caserna
Ao se iniciar a guerra do Paraguai, o Imperador foi a Uruguaiana, a fim de conferenciar com os presidentes dos países aliados. Ao longo das estradas precárias daqueles tempos, em veículos desprovidos de qualquer conforto, a comitiva de D. Pedro II deslocava-se como podia, sujeita ao mau tempo e a imprevistos. O Conde d’Eu narrou essa viagem em um livro, onde escreveu:
“Certo dia, de chuva torrencial e continuada, a comitiva lutou horas seguidas para poder ir adiante. Opunham-se-lhe todas as dificuldades: os caminhos encharcados, quase intransitáveis; o frio, o vento, o nevoeiro, que mal deixava ver cinco passos adiante; e, sobretudo, aquela maldita chuva, cada vez mais inclemente, cada vez mais copiosa!
De repente, no mais forte do temporal, a comitiva sentiu que estava desnorteada. Perdera-se naqueles campos sem fim, onde tudo se confundia: solo, horizonte, céu... Na região circunvizinha, nem o menor sinal de vida. Parar? Era impossível! Prosseguir? Mas em que direção? Procurou-se o capitão Morais, a única pessoa que conhecia a região. Mas onde estava o capitão Morais? Tinha ficado para trás, com todas as viaturas.
O momento era realmente de consternação geral. Pouco depois, porém, começa a aparecer um luar de esperança. Descobriu-se à direita, a pequena distância, uma sombra que parecia uma casa. Caminhou-se um pouco mais e a sombra precisou-se: era de fato uma casa.
Para lá nos dirigimos, e foi com indizível alegria que nos apeamos e nos abrigamos da água do céu. A casa era habitada por uma viúva e suas três filhas, uma das quais, casada, tinha o marido na guerra. Não possuía a família senão duas pobres camas e três compartimentos, aos quais era impossível dar-se o nome de quartos. Em um deles estavam pendurados a uma corda, em todo o seu comprimento, pedaços de um boi morto na véspera. Como era o quarto mais espaçoso, nele nos alojamos, à espera de que a chegada dos carros nos permitisse mudar de botas. E cada um se pôs a fazer considerações mais ou menos filosóficas sobre o resultado pouco brilhante da jornada.
Às quatro horas apareciam os carros tão ardentemente desejados. Mas, ai! Se as pernas iam ter com que se enxugar, os estômagos ficavam logrados: o carro que trazia o jantar quebrara-se, e todos os alimentos se haviam espalhado pelo charco. Tínhamos pois de aceitar com reconhecimento a carne de vaca meio assada, que a dona da casa nos trazia espetada num pau. O general Cabral apoderou-se dela, e distribuía os bocados que ia cortando com uma faca. A operação podia ser suja, mas, realmente, o sabor era excelente.
No dia seguinte, a situação não era mais promissora. Passa-se o dia nas carretilhas. Almoça-se churrasco, porque das carretas que trazem a cozinha e os cozinheiros não há vestígio. Para o jantar, a boa dona da casa encontra meio de acrescentar ao churrasco uma galinha cozida e uma tigela de pirão, massa de farinha de mandioca, sem sal, que eu acho sem sabor, mas que o Imperador declara deliciosa.
Enfim, pela madrugada do outro dia, a chuva cessou de cair. Horas depois apareceu o sol, que foi recebido com uma alegria geral e comunicativa. E, como afinal haviam chegado as carretas tidas como perdidas, a comitiva tocou novamente a marchar, para a frente, sempre para a frente”.
“A comitiva do Imperador, nas proximidades de São Gabriel, desviou-se para visitar o campo onde se dera, trinta e três anos antes, a batalha de Ituzaingó. Apenas duas cruzes toscas, de madeira, assinalavam o antigo campo de luta.
O general Cabral, que participara da batalha, tomou a iniciativa de explicar ao Imperador o seu desenrolar. Natureza exaltada, pouco simpático aos rio-grandenses, Cabral atribuía todo o insucesso do combate à cavalaria dos gaúchos, que na sua opinião se comportara desordenada e ineficientemente.
Nessa altura de seu discurso, o Barão de Saicam, ali também presente, saiu em defesa da honra da cavalaria rio-grandense. Para ele, o resultado pouco brilhante da batalha deveu-se à imperícia de Barbacena e do seu estado-maior. Acendeu-se entre os dois uma acalorada controvérsia. A tal ponto se embrulhou, que por fim já nem sequer sabíamos qual fora o ribeiro do campo de batalha, nem de que direção tinham vindo os dois exércitos. O Imperador, paciente, tolerante, sorria calado, um tanto cético, em meio a esse terrível combate verbal”.
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