Nobreza de alma e simplicidade na vida da Princesa Isabel
A Princesa Isabel, menina ainda, saiu a passeio com D. Pedro II. Todos se curvavam diante da carruagem em que estavam. Em dado momento, a princesinha perguntou:
— Papai, toda essa gente constitui o povo?
— Sim, uma parte do povo – respondeu o Monarca.
— E algum dia esse povo me pertencerá?
— Não, minha filha. Você é que pertencerá ao povo.
A Princesa Isabel e Amanda Paranaguá, futura Baronesa de Loreto, brincavam, quando crianças. Com uma machadinha de brinquedo em punho, a Princesa empenhava-se em decepar um pequeno tronco de árvore. Num gesto de afetuosidade, Amanda veio por detrás, para abraçá-la. No instante em que ia abraçá-la, Isabel levantara a machadinha, atingindo o olho da amiga. Não foi um ferimento grave, mas gerou uma indelével cicatriz, e acabou reforçando um elo de amizade que as uniu por toda a vida. Tinham tão grande afeição e dedicação mútuas, que a Baronesa decidiu acompanhar a Princesa Isabel no exílio.
O embaixador argentino Vicente Quesada descreveu o ambiente que cercava a Família Imperial do Brasil: “A Princesa herdeira era de trato simples, amável e bondosa, como também era seriamente lhano e sem altivez o Conde d’Eu. Mais de uma vez me receberam rodeados de seus filhos pequeninos”.
No dia 24 de novembro de 1868, a Princesa Isabel e o Conde d’Eu visitaram a cidade mineira de Baependi, hospedando-se no palacete do comendador José Pedro Américo de Matos, que era pessoa muito rica e muito benquista na cidade. No entanto, por ser mulato, procurava não freqüentar as festas sociais, para evitar constrangimento a certas damas da sociedade, especialmente nos bailes. Notara mesmo certa resistência, quando se tratava de dançar com algumas delas.
Como anfitrião do casal imperial, era-lhe impossível deixar de comparecer ao grande baile de homenagem, que a cidade ofereceu. Mas enquanto todos se divertiam com a primeira dança, uma quadrilha, o comendador permaneceu alheio, olimpicamente indiferente e distraindo-se em contemplar, ora os dançarinos, ora a multidão que se comprimia na rua.
À Princesa Isabel não passaram despercebidas a situação e a atitude do comendador. Quando a orquestra iniciou a primeira valsa, o Conde d’Eu tomou a Princesa pela mão, levou-a ostensivamente, pelo meio do salão, até em frente do seu anfitrião, e ofereceu-lha como par. A Princesa sorria, fitando-o. E o sorriso era de tal modo um convite irrecusável, que ele logo se refez da surpresa, iniciando com ela aquela primeira valsa. Tal foi a estupefação, que durante alguns instantes o par dançou sozinho.
Depois dessa bela atitude do casal imperial, todas as atenções se voltaram para o comendador. A uma dama das mais elegantes, que insinuara sentir imenso prazer em tê-lo como par, respondeu:
— Não, minha senhora, muito obrigado. Queira desculpar-me, mas quem dançou com a Princesa não pode mais dançar com outra mulher.
Esse gesto de nobreza repetiu-se no Palácio São Cristóvão, com o famoso engenheiro negro André Rebouças. O historiador Luís da Câmara Cascudo comenta: “A gratidão do Dr. Rebouças ficou brilhantemente provada a 16 de novembro de 1889, quando voluntariamente se exilou, embarcando junto com a Família Imperial”.
Sayão Lobato, ministro da Justiça em 1871, solicitou a assinatura da Princesa Isabel para uma sentença de morte contra um escravo que matara o senhor. Para movê-la a assinar, estudou um discurso. E desfechou-o na sessão do despacho, contando o episódio de D. Maria I – a louca –, que se vira em igual situação. À mãe do condenado, que lhe implorava a vida do réu, dissera:
— A minha bondade e o meu coração de mulher perdoariam. Mas a minha cabeça de rainha manda condená-lo.
Depois dessa narrativa, o ministro julgou ter vencido a obstinação da Princesa. Mas ela sorriu, e muito simples, muito ligeira, exclamou:
— Mas, Sr. Sayão, minha tataravó era maluca!...
E não assinou.
A atuação da Princesa Isabel na causa abolicionista
Os brasileiros, na sua quase totalidade, imaginam que a Princesa Isabel apenas assinou a Lei Áurea, e que ela teria apenas consentido em assiná-la. Esse é o mérito único que lhe atribuem. Entretanto, não foi só isso o que ela fez. Podemos afirmar hoje que, se não fosse o seu empenho em levar avante essa questão, não teríamos chegado, da maneira pacífica como chegamos, ao termo de tão formosa campanha. Por colocar a paz doméstica, a satisfação íntima do lar à altura das mais legítimas aspirações humanas, foi que incentivou os defensores da Lei do Ventre Livre, seguindo as pegadas do Visconde do Rio Branco. Preparou o ambiente para a Lei dos Sexagenários, e terminou apressando a vitória da libertação total dos cativos, embora sabendo que daria em troca de sua maravilhosa atitude o trono que lhe pertencia.
Discutia-se nas Câmaras a Lei do Ventre Livre, com discursos empenhados do Visconde do Rio Branco e de outros abolicionistas. Cinco meses duraram as discussões, com momentos de desânimo e de entusiasmo. A Princesa Isabel se empenhava com os ministros, para que apoiassem a aprovação da lei. O próprio Rio Branco, sempre que conferenciava com a Princesa, parecia voltar a plenário mais disposto, mais animado, mais fortalecido para continuar a batalha. Numa dessas vezes, quando ele se achava especialmente receoso, a Redentora fez o que pôde para animá-lo. Logo após a entrevista, encaminhou-se para o seu oratório, ajoelhou-se e implorou insistentemente a proteção divina para os que trabalhavam pela aprovação da lei.
Após a votação da Lei do Ventre Livre, em 28 de setembro de 1871, o povo em massa esperou o Visconde do Rio Branco. Quando ele apareceu à porta do Senado, recebeu a manifestação mais ruidosa e comovente que já se fez a um homem público no Brasil. A Princesa Isabel foi-lhe ao encontro, com a fisionomia radiante, e cumprimentou-o com efusão:
— Bravos, Visconde! A sua vitória foi o mais belo exemplo em que os nossos homens de Estado se devem mirar.
— Perdão, Princesa! Se venci, é porque tinha apoio em Vossa Alteza e nos meus luminosos pares legislativos. Logo, o mérito é menos meu que da ilustre e humanitária Regente e dos insignes representantes do País.
— Que diz, agora, da situação dos nossos irmãos cativos?
— O cativeiro, praticamente, não mais existe no Brasil. A religiosidade da combativa Regente já o aboliu convenientemente.
A Princesa Isabel insistia com o Barão de Cotegipe para que o Ministério assumisse uma posição mais decidida na questão da abolição, sem o que sua força moral cada vez mais se perdia. Cotegipe aconselhou-a a manter-se neutra “como a Rainha Vitória”, numa disputa que dividia tão profundamente os partidos. Ela retorquiu:
— Mas eu tenho o direito de manifestar-me, e a Rainha Vitória é justamente acusada por sua neutralidade, prejudicial aos interesses da Inglaterra.
Em março de 1888, a propósito da prisão de um oficial do Exército pela polícia, a Princesa Isabel tomou uma posição francamente contrária à do presidente do Conselho, que em conseqüência propôs a demissão do Gabinete, logo aceita pela Regente. Ao se demitir, Cotegipe perguntou:
— A quem Vossa Alteza quer que eu chame para organizar o novo Gabinete?
— O Sr. João Alfredo – respondeu sem hesitação.
Mais tarde ela revelou:
— Conhecendo as idéias do Sr. João Alfredo, estava convencida de que o que ele fizesse seria bom. Ele assumiu a presidência do Gabinete com a promessa de tentar qualquer coisa pela sorte dos escravos.52
De fato, dois meses depois apresentou um projeto de abolição total, que afinal resultou na Lei Áurea.
Entusiasmada pela veneração com que a saudavam os abolicionistas jubilosos, após a assinatura da Lei Áurea, a Princesa Isabel se encontrou com o Barão de Cotegipe, que fora o chefe do gabinete de 1886-1888, e que, nessas funções, lhe observara os riscos que corria a sorte do Império com a providência radical que os abolicionistas pleiteavam:
— Então, Sr. Cotegipe! A abolição se fez com flores e festas. Ganhei ou não a partida?
O Barão, cujas previsões políticas o haviam apeado do poder, mas que continuara a opor-se de corpo e alma à extinção do cativeiro, pelo colapso econômico que disso sobreviria, fitou-a e respondeu:
— É verdade. Vossa Alteza ganhou a partida, mas perdeu o trono.
Pouco tempo depois foi proclamada a República.
A Princesa Isabel, ferida pelo destronamento, ao passar pela sala do Paço onde assinara a Lei Áurea, bateu com energia na mesa em que a subscrevera, e disse:
— Se tudo o que está acontecendo provém do decreto que assinei, não me arrependo um só momento. Ainda hoje o assinaria!
No exílio, a Princesa Isabel manteve inalteráveis seu amor e sua dedicação ao Brasil
Depois de proclamada a República, os revoltosos queriam a todo custo ver-se livres da Família Imperial, para que o golpe pudesse caminhar sem tropeços. O Governo Provisório decidiu então oferecer a vultosa quantia de 5.000 contos de réis, para suas despesas na Europa. O Coronel Mallet compareceu à presença do Conde d’Eu e da Princesa Isabel, transmitindo-lhes a notícia:
— Agora, ao subir, fui informado de que a esta hora está sendo lavrado o decreto que concede a Sua Majestade o Imperador 5.000 contos de réis para as suas despesas.
— Nós não fazemos questão de dinheiro – disse a Princesa. O que me custa é deixar a Pátria, onde fui criada e tenho as minhas afeições. É isto o que mais lamento perder. Não o trono, nem ambições, que não tenho.
Em 13 de julho de 1901, quando Santos Dumont contornou a torre Eiffel com o seu balão, a Princesa Isabel o convidou a ir à sua casa, para narrar-lhe a aventura. O próprio Santos Dumont conta o episódio:
“Quando acabei a minha história, a Princesa me disse:
— Suas evoluções aéreas fazem-me recordar o vôo dos nossos grandes pássaros do Brasil. Oxalá possa o senhor tirar do seu aparelho o partido que aqueles tiram das próprias asas, e triunfar, para glória da nossa querida Pátria!”
Alguns dias depois, a Princesa mandava-lhe esta carta: “Envio-lhe uma medalha de São Bento, que protege contra acidentes. Aceite e use-a na corrente do seu relógio, na sua carteira ou no pescoço. Ofereço-lha pensando na sua boa mãe, e pedindo a Deus que o socorra sempre e o ajude a trabalhar para a glória da nossa Pátria”.
Ao saber que o Dr. Ricardo Gumbleton Daunt não queria aceitar a cadeira de deputado que lhe coubera numa das eleições, por ser visceralmente monarquista e não querer, portanto, ocupar posto algum de saliência no Brasil sob outra forma de governo, a Princesa Isabel escreveu à irmã do eleito: “Diga ao seu irmão que ele deve aceitar a cadeira de deputado e propugnar pela grandeza moral, econômica e intelectual de nossa Pátria. Não aceitando, ele estará procedendo de maneira contrária aos interesses da coletividade. De homens como ele é que o Brasil precisa para ascender mais, para fortalecer-se mais. Faça-lhe, pois, sentir que reprovo sua recusa”.
A sensibilidade e o patriotismo da Princesa Isabel se revelam num documento íntimo, onde escreveu: “A idéia de deixar os amigos, o País, tanta coisa que amo e que me lembra mil felicidades que gozei, faz-me romper em soluços. Nem por um momento, porém, desejei uma menor felicidade para minha Pátria. Mas o golpe foi duro”.
Este sentimento de identidade com o seu povo, ela o possuiu de tal modo, que além de viver na tradição popular, ela ficou figurando no folclore da Abolição. Estas quadrinhas, cantadas pelas crianças brasileiras, confirmam esse sentimento popular:
“Princesa Dona Isabel,
Mamãe disse que a Senhora
Perdeu seu trono na terra,
Mas tem um mais lindo agora.
No céu está esse trono
Que agora a Senhora tem,
Que além de ser mais bonito
Ninguém lho tira, ninguém”.
***
Visite agora os sites:
www.fatoshistoricos.com.br
www.mundodanobreza.com.br
FATOS DO BRASIL IMPÉRIO
Bem vindo ao blog FATOS DO BRASIL IMPÉRIO. Aqui são narrados fatos da época do Império, geralmente pouco conhecidos, extraídos do livro REVIVENDO O BRASIL-IMPÉRIO, que publiquei sob o pseudônimo Leopoldo Bibiano Xavier. Leitura muito útil, que dá uma visão realista do modo como o Imperador Pedro II conduzia os destinos do País.
Você está convidado a visitar também os sites referentes ao meu livro mais recente, A VOLTA AO MUNDO DA NOBREZA, que contém mais de 1.700 fatos mostrando a atuação da nobreza em diversos países e épocas:
www.mundodanobreza.com.br
www.fatoshistoricos.com.br
Leon Beaugeste
Você está convidado a visitar também os sites referentes ao meu livro mais recente, A VOLTA AO MUNDO DA NOBREZA, que contém mais de 1.700 fatos mostrando a atuação da nobreza em diversos países e épocas:
www.mundodanobreza.com.br
www.fatoshistoricos.com.br
Leon Beaugeste
Arquivo do blog
-
▼
2008
(26)
-
▼
06
(17)
- 09 - HONRA E DIGNIDADE - A IMAGEM DO BRASIL
- 10 - A UNIDADE NACIONAL QUE RESULTOU DO IMPÉRIO
- 11 - O SISTEMA POLÍTICO DO IMPÉRIO
- 12 - ALGUNS PERSONAGENS DO IMPÉRIO BRASILEIRO
- 13 - A IMPERATRIZ TERESA CRISTINA, MÃE DOS BRASILE...
- 14 - PRINCESA ISABEL, A REDENTORA
- 15 - CONDE D’EU - ELE CONQUISTOU O TÍTULO DE BRASI...
- 16 - SAUDADES DA PÁTRIA - A FAMÍLIA IMPERIAL NO EX...
- 17 - DOM JOÃO VI - BOM ADMINISTRADOR E GRANDE AMIG...
- 18 - DOM PEDRO I, LIBERTADOR DA NAÇÃO
- 19 - IMPERATRIZ LEOPOLDINA - O BRASIL INDEPENDENTE...
- 20 - DONA AMÉLIA DE LEUCHTENBERG - NOSSA SEGUNDA I...
- 21 - A REPÚBLICA NASCEU COM DISPNÉIA
- 22 - AÍ VEM O IMPERADOR!
- 23 - BIBLIOGRAFIA
- CRONOLOGIA DO IMPÉRIO BRASILEIRO
-
▼
06
(17)
Mostrando postagens com marcador Princesa Isabel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Princesa Isabel. Mostrar todas as postagens
6.6.08
29.5.08
07 - A ESCRAVIDÃO - EXTINGUINDO UMA HERANÇA INGRATA
Abolir a escravidão, desejo ardente do Imperador
A Princesa Isabel, ao abolir a escravidão, era a intérprete dos sentimentos do seu pai.
O literato e diplomata argentino Hector Varela ouviu do Imperador:
— A escravidão! Acredita o senhor que haja no Brasil algum compatriota que deseje mais ardentemente do que eu a abolição? Nenhum! E os primeiros a saber como eu penso são os que trabalham à frente do belo movimento de emancipação. Alguns me atacam, com marcada injustiça, afirmando que eu retardo a hora, que no entanto será a mais feliz do meu reinado, em que não haja um só escravo em minha Pátria, e que o último desses infelizes seja tão livre quanto eu.
A ação do Imperador para promover e preparar a liberdade dos escravos não podia deixar de ser lenta, e só poderia ser eficaz se fosse constante. Ele precisava convencer os homens políticos e atrair o concurso da Nação. Percebe-se hoje que nesse trabalho as interrupções não foram senão aparentes, mas, para chegar aos resultados, ele não quebrou os moldes que a Constituição lhe traçara.
Em 1850, quando se discutia a lei de repressão do tráfico de escravos, e se mostrava ao Imperador os perigos a que a lei exporia o trono, D. Pedro II, então com 25 anos, replicou com energia:
— Prefiro perder a coroa a tolerar a continuação do tráfico de escravos.
Em 1870, durante uma reunião do Imperador com o Conselho de Ministros, o Barão de Cotegipe argumentava:
— A questão da emancipação é semelhante à pedra que rola da montanha. Nós não a devemos precipitar, porque seremos esmagados.
— Não duvidarei de me expor à queda da pedra, ainda que seja esmagado – replicou D. Pedro II.
Durante a viagem à Europa, em 1871, D. Pedro II disse ao Visconde Nogueira da Gama:
— Nunca deixei de ser grato à sua avó pela delicadeza com que, em fevereiro de 1845, hospedou-me em sua fazenda de S. Mateus. Principalmente por ter festejado a minha chegada libertando, nesse mesmo dia, uma família que era sua escrava. Pois ninguém melhor do que o senhor conhece quais foram sempre os meus sentimentos a respeito da escravidão.
Votava-se no Senado a Lei do Ventre Livre, a 28 de setembro de 1871. Nas galerias repletas, apareciam as figuras mais eminentes do mundo diplomático. A discussão do projeto foi brilhante e vigorosa, sob a presidência do Visconde de Abaeté. Quando se verificou, pela votação, a vitória do Visconde do Rio Branco, que defendera a aprovação da lei, o povo que enchia as galerias irrompeu em manifestações ao grande estadista, lançando-lhe sobre a cabeça braçadas e braçadas de flores.
Terminada a sessão, o embaixador dos Estados Unidos, James Rudolph Partridge, desceu ao recinto para felicitar o presidente do Conselho e os senadores que haviam votado o projeto. Colhendo algumas flores, das que o povo atirara a Rio Branco, declarou:
— Vou mandar estas flores ao meu país, para mostrar como aqui se fez, deste modo, uma lei que lá custou tanto sangue!
Foi em Alexandria, no Egito, que D. Pedro II soube que em seu vasto Império, a partir de 28 de setembro de 1871, todas as crianças nasceriam livres. O Visconde de Itaúna, camarista de D. Pedro, anotou em uma carta:
— Eu nunca vi o Imperador tão satisfeito.
A ação abolicionista do Imperador: constante e imensa
O Imperador foi o emancipacionista mais pertinaz e mais constante que o Brasil possuiu. Foi abolicionista tanto quanto pode ser um rei compenetrado da sua missão de chefe de Estado, incompatível com a de chefe de partido, por mais simpático que seja o seu programa. Consagrou ao abolicionismo uma atividade de herói, incompatibilizando-se com os políticos, atraindo antipatias e, por fim, sacrificando-lhe a coroa.
Joaquim Nabuco, após as lutas abolicionistas, avaliou a ação do Imperador no processo de emancipação dos escravos: “É certo que a ação pessoal do Imperador se exerceu principalmente, desde 1845 até 1850, no sentido da supressão do tráfico, e desde 1866 até 1871, em favor da emancipação dos filhos nascidos de mulher escrava. A parte que tocou ao Imperador, em tudo o que foi feito em prol da libertação, foi imensa, foi essencial”.
Em 1840, o Imperador libertou todos os escravos que herdara. Além disso, tomou emprestada a quantia de sessenta contos de réis, que entregou ao seu mordomo para comprar anonimamente um lote de escravos. Em seguida libertou-os e os empregou no serviço da imperial quinta de Santa Cruz, dando-lhes salário mensal, assistência médica e educação dos filhos.
O Imperador tinha o usufruto de alguns cativos chamados “escravos da coroa”, dos quais não podia dispor livremente, por não serem de sua propriedade particular. Porém sempre os considerou como seus protegidos. Eles recebiam salário mensal, e os filhos freqüentavam a escola que fundara para os empregados da imperial quinta de São Cristóvão.
Durante a guerra do Paraguai, favoreceu a libertação dos escravos que quisessem tomar armas. Na fazenda de Santa Cruz, encarregou-se da educação dos filhos dos libertos que partiram para a guerra, e libertou às suas custas as mulheres e filhos desses defensores da Pátria.
Zacarias de Góis e Vasconcelos, presidente do Gabinete em 1864, recebeu de D. Pedro II estas instruções: “A medida que me tem parecido profícua é a liberdade dos filhos dos escravos, que nascerem daqui a um certo número de anos. Tenho refletido sobre o modo de executar a medida, porém é da ordem das que cumpre realizar com firmeza, conforme as circunstâncias o permitirem, remediando os males que ela necessariamente originará”.
Em 1886, visitando D. Pedro II a província de São Paulo, e vendo em uma cadeia um escravo, disse-lhe:
— Espere, meu preto, tenha paciência, que eu vou tratar já da sua liberdade.
Voltou-se então para o presidente da Câmara Municipal, que o acompanhava, e acrescentou:
— Faça um requerimento em nome desse infeliz, dizendo que tem a quantia necessária para a sua alforria.
Vendo porém que o vereador continuava a acompanhá-lo, exclamou:
— Ande, que eu tenho pressa, e não quero sair daqui sem ver isso feito.
E mandou o mordomo remeter ao possuidor daquele escravo a quantia necessária para libertá-lo.
Em uma das suas audiências do sábado, em que atendia a toda a gente, recebeu D. Pedro II no Paço da Boa Vista um preto velho, que se queixava dos maus tratos de que era vítima:
— Ah, meu Senhor grande, como é duro ser escravo!
— Tenha paciência, meu filho. Eu também sou escravo das minhas obrigações, e elas são muito pesadas. As tuas desgraças vão diminuir.
E mandou alforriar o preto.
Em 1866, em visita à cidade de Lorena, em São Paulo, o Imperador foi convidado a entregar a dois escravos as suas cartas de alforria, e comentou na ocasião:
— Nada me poderia ser mais agradável, para comemorar a minha visita, do que conceder liberdade a cativos.
Em Campinas, ao acabar de emancipar um escravo, o Imperador, com surpresa para todos, apertou a mão do negro e encorajou-o com sua palavra amiga.
Visitando a cadeia de Taubaté, viu o Imperador um alçapão, cautelosamente fechado com antecedência, e indagou o que havia lá embaixo. Ao saber que nesse antro se encontravam cinco escravos, por ordem dos respectivos senhores, desceu e ali encontrou uns miseráveis pretos, que eram “atrevidos e incorrigíveis”, segundo a explicação do inconsciente carcereiro.
A cadeia era no pavimento térreo do edifício da Câmara Municipal, e o Imperador logo perguntou ao respectivo presidente se achava que o possuidor de escravos devia ser auxiliado pelas autoridades em corrigir fora de casa esses infelizes. E acrescentou:
— Entendo que o senhor de escravos não pode castigá-los fora de sua casa.
O episódio foi divulgado por um jornalista que o acompanhava. Durante todo o resto da viagem, o Imperador alegrou-se por não encontrar mais nenhum negro naquelas condições, provavelmente como resultado da sua intervenção.
Premiando os libertadores de escravos, o Imperador incentiva o processo de abolição
Na cidade de Ponta Grossa, por ocasião de sua viagem ao Paraná, foi D. Pedro II recebido por um cidadão, que o cativou por sua hospedagem fidalga, mas despida das exigências protocolares. Após o almoço, no dia da partida, o anfitrião disse:
— Senhor Imperador, eu podia ter feito mais alguma coisa. Podia ter matado mais uma vitela, mais um peru, mas preferi assinalar por outro modo a vossa passagem por esta terra e a honra de vir a esta vossa casa. Libertei todos os meus escravos, que são mais de setenta, e peço a Vossa Majestade o favor de lhes entregar as cartas de liberdade.
Essa alocução tão simples quanto eloqüente emocionou profundamente o Monarca, que agradeceu o gesto de benemerência do digno paranaense. Por ocasião das graças, o Governo levou ao Imperador o decreto fazendo-o oficial da Ordem da Rosa. Ao apresentarem-lhe o decreto, disse o Monarca ao ministro do Império:
— Isto é pouco para esse benemérito. Faça-o barão!
— Mas, Majestade, ele é quase analfabeto!
— Não será o primeiro. E este é muito digno. Mande-me o decreto fazendo-o Barão dos Campos Gerais.
Quando a Ordem dos Beneditinos, em 1866, proclamou a liberdade dos filhos de seus escravos, o Imperador foi pessoalmente ao Mosteiro de São Bento felicitar o Abade Geral, a quem entregou em mão própria uma condecoração.
D. Pedro II tinha uma antipatia visceral contra os que se haviam envolvido no degradante tráfico de negros. A condescendência que sobre isso tiveram alguns políticos, mesmo aqueles tidos então ou posteriormente como abolicionistas, ele nunca a teve. Joaquim Nabuco diz que, se não fosse o Imperador, os piores traficantes de escravos teriam sido feitos condes e marqueses do Império. Pereira Marinho, por exemplo, tornou-se opulento às custas do tráfico. Depois de deixá-lo, envidou todos os esforços para obter uma condecoração, um título, uma fita. O Imperador nunca transigiu. Afinal Pereira Marinho conseguiu fazer-se conde, mas em Portugal.
Quando foi promulgada a Lei Áurea, Dom Pedro II se encontrava em Milão, gravemente enfermo. Fora atacado de uma pleurisia, complicada com febre palustre. Os médicos aconselharam a ocultar do paciente as notícias que chegavam do Rio diariamente.
A 22 de maio os médicos perderam as esperanças de salvá-lo, e declararam à Imperatriz que chegara o momento de chamar o sacerdote. O Arcebispo de Milão assistiu D. Pedro II, que após a confissão recebeu os últimos sacramentos da Igreja Católica. Ele estava de tal modo enfraquecido, que mal podia falar. A Imperatriz achou conveniente, então, informá-lo da grande notícia recebida no dia 13. Imediatamente seu olhar se reanimou.
— Não há então mais escravos no Brasil?
— Não. Votou-se a lei em 13 de maio. A escravidão foi abolida.
— Rendamos graças a Deus! Telegrafem imediatamente à Isabel, enviando-lhe a minha bênção com os meus agradecimentos à Nação e às Câmaras.
Depois, voltou-se ligeiramente. Os que o cercavam julgaram que estivesse moribundo. Mas seu patriotismo deu-lhe forças para pronunciar estas tocantes palavras:
— Grande povo! Grande povo!...
E correram lágrimas de seus olhos.
A alegria profunda que sentiu, ao saber que todos os seus súditos seriam livres para o futuro, produziu em todo o seu ser uma comoção eficaz e salutar. Desde então se acentuaram as melhoras. Aos poucos desapareceu o perigo, e ele não tardou a restabelecer-se.
Quando D. Pedro II chegou de sua viagem à Europa, após a Lei Áurea, o Conselheiro João Alfredo, presidente do Gabinete, apresentou-lhe o texto da “Fala do Trono”, que o Imperador deveria ler diante das Câmaras. No tópico em que se aludia à lei de 13 de maio, intercalou Sua Majestade, com a própria letra, estas palavras significativas: “...cuja decretação tanto me consolou das saudades da Pátria, minorando os meus sofrimentos físicos”.
Assistindo à leitura destas palavras, a Princesa Isabel acolheu-as como o único elemento de tranqüilidade que lhe faltava:
— Fico muito contente que a lei de 13 de maio tenha tido esta última sanção.
***
Visite agora os sites:
http://www.fatoshistoricos.com.br/
http://www.mundodanobreza.com.br/
A Princesa Isabel, ao abolir a escravidão, era a intérprete dos sentimentos do seu pai.
O literato e diplomata argentino Hector Varela ouviu do Imperador:
— A escravidão! Acredita o senhor que haja no Brasil algum compatriota que deseje mais ardentemente do que eu a abolição? Nenhum! E os primeiros a saber como eu penso são os que trabalham à frente do belo movimento de emancipação. Alguns me atacam, com marcada injustiça, afirmando que eu retardo a hora, que no entanto será a mais feliz do meu reinado, em que não haja um só escravo em minha Pátria, e que o último desses infelizes seja tão livre quanto eu.
A ação do Imperador para promover e preparar a liberdade dos escravos não podia deixar de ser lenta, e só poderia ser eficaz se fosse constante. Ele precisava convencer os homens políticos e atrair o concurso da Nação. Percebe-se hoje que nesse trabalho as interrupções não foram senão aparentes, mas, para chegar aos resultados, ele não quebrou os moldes que a Constituição lhe traçara.
Em 1850, quando se discutia a lei de repressão do tráfico de escravos, e se mostrava ao Imperador os perigos a que a lei exporia o trono, D. Pedro II, então com 25 anos, replicou com energia:
— Prefiro perder a coroa a tolerar a continuação do tráfico de escravos.
Em 1870, durante uma reunião do Imperador com o Conselho de Ministros, o Barão de Cotegipe argumentava:
— A questão da emancipação é semelhante à pedra que rola da montanha. Nós não a devemos precipitar, porque seremos esmagados.
— Não duvidarei de me expor à queda da pedra, ainda que seja esmagado – replicou D. Pedro II.
Durante a viagem à Europa, em 1871, D. Pedro II disse ao Visconde Nogueira da Gama:
— Nunca deixei de ser grato à sua avó pela delicadeza com que, em fevereiro de 1845, hospedou-me em sua fazenda de S. Mateus. Principalmente por ter festejado a minha chegada libertando, nesse mesmo dia, uma família que era sua escrava. Pois ninguém melhor do que o senhor conhece quais foram sempre os meus sentimentos a respeito da escravidão.
Votava-se no Senado a Lei do Ventre Livre, a 28 de setembro de 1871. Nas galerias repletas, apareciam as figuras mais eminentes do mundo diplomático. A discussão do projeto foi brilhante e vigorosa, sob a presidência do Visconde de Abaeté. Quando se verificou, pela votação, a vitória do Visconde do Rio Branco, que defendera a aprovação da lei, o povo que enchia as galerias irrompeu em manifestações ao grande estadista, lançando-lhe sobre a cabeça braçadas e braçadas de flores.
Terminada a sessão, o embaixador dos Estados Unidos, James Rudolph Partridge, desceu ao recinto para felicitar o presidente do Conselho e os senadores que haviam votado o projeto. Colhendo algumas flores, das que o povo atirara a Rio Branco, declarou:
— Vou mandar estas flores ao meu país, para mostrar como aqui se fez, deste modo, uma lei que lá custou tanto sangue!
Foi em Alexandria, no Egito, que D. Pedro II soube que em seu vasto Império, a partir de 28 de setembro de 1871, todas as crianças nasceriam livres. O Visconde de Itaúna, camarista de D. Pedro, anotou em uma carta:
— Eu nunca vi o Imperador tão satisfeito.
A ação abolicionista do Imperador: constante e imensa
O Imperador foi o emancipacionista mais pertinaz e mais constante que o Brasil possuiu. Foi abolicionista tanto quanto pode ser um rei compenetrado da sua missão de chefe de Estado, incompatível com a de chefe de partido, por mais simpático que seja o seu programa. Consagrou ao abolicionismo uma atividade de herói, incompatibilizando-se com os políticos, atraindo antipatias e, por fim, sacrificando-lhe a coroa.
Joaquim Nabuco, após as lutas abolicionistas, avaliou a ação do Imperador no processo de emancipação dos escravos: “É certo que a ação pessoal do Imperador se exerceu principalmente, desde 1845 até 1850, no sentido da supressão do tráfico, e desde 1866 até 1871, em favor da emancipação dos filhos nascidos de mulher escrava. A parte que tocou ao Imperador, em tudo o que foi feito em prol da libertação, foi imensa, foi essencial”.
Em 1840, o Imperador libertou todos os escravos que herdara. Além disso, tomou emprestada a quantia de sessenta contos de réis, que entregou ao seu mordomo para comprar anonimamente um lote de escravos. Em seguida libertou-os e os empregou no serviço da imperial quinta de Santa Cruz, dando-lhes salário mensal, assistência médica e educação dos filhos.
O Imperador tinha o usufruto de alguns cativos chamados “escravos da coroa”, dos quais não podia dispor livremente, por não serem de sua propriedade particular. Porém sempre os considerou como seus protegidos. Eles recebiam salário mensal, e os filhos freqüentavam a escola que fundara para os empregados da imperial quinta de São Cristóvão.
Durante a guerra do Paraguai, favoreceu a libertação dos escravos que quisessem tomar armas. Na fazenda de Santa Cruz, encarregou-se da educação dos filhos dos libertos que partiram para a guerra, e libertou às suas custas as mulheres e filhos desses defensores da Pátria.
Zacarias de Góis e Vasconcelos, presidente do Gabinete em 1864, recebeu de D. Pedro II estas instruções: “A medida que me tem parecido profícua é a liberdade dos filhos dos escravos, que nascerem daqui a um certo número de anos. Tenho refletido sobre o modo de executar a medida, porém é da ordem das que cumpre realizar com firmeza, conforme as circunstâncias o permitirem, remediando os males que ela necessariamente originará”.
Em 1886, visitando D. Pedro II a província de São Paulo, e vendo em uma cadeia um escravo, disse-lhe:
— Espere, meu preto, tenha paciência, que eu vou tratar já da sua liberdade.
Voltou-se então para o presidente da Câmara Municipal, que o acompanhava, e acrescentou:
— Faça um requerimento em nome desse infeliz, dizendo que tem a quantia necessária para a sua alforria.
Vendo porém que o vereador continuava a acompanhá-lo, exclamou:
— Ande, que eu tenho pressa, e não quero sair daqui sem ver isso feito.
E mandou o mordomo remeter ao possuidor daquele escravo a quantia necessária para libertá-lo.
Em uma das suas audiências do sábado, em que atendia a toda a gente, recebeu D. Pedro II no Paço da Boa Vista um preto velho, que se queixava dos maus tratos de que era vítima:
— Ah, meu Senhor grande, como é duro ser escravo!
— Tenha paciência, meu filho. Eu também sou escravo das minhas obrigações, e elas são muito pesadas. As tuas desgraças vão diminuir.
E mandou alforriar o preto.
Em 1866, em visita à cidade de Lorena, em São Paulo, o Imperador foi convidado a entregar a dois escravos as suas cartas de alforria, e comentou na ocasião:
— Nada me poderia ser mais agradável, para comemorar a minha visita, do que conceder liberdade a cativos.
Em Campinas, ao acabar de emancipar um escravo, o Imperador, com surpresa para todos, apertou a mão do negro e encorajou-o com sua palavra amiga.
Visitando a cadeia de Taubaté, viu o Imperador um alçapão, cautelosamente fechado com antecedência, e indagou o que havia lá embaixo. Ao saber que nesse antro se encontravam cinco escravos, por ordem dos respectivos senhores, desceu e ali encontrou uns miseráveis pretos, que eram “atrevidos e incorrigíveis”, segundo a explicação do inconsciente carcereiro.
A cadeia era no pavimento térreo do edifício da Câmara Municipal, e o Imperador logo perguntou ao respectivo presidente se achava que o possuidor de escravos devia ser auxiliado pelas autoridades em corrigir fora de casa esses infelizes. E acrescentou:
— Entendo que o senhor de escravos não pode castigá-los fora de sua casa.
O episódio foi divulgado por um jornalista que o acompanhava. Durante todo o resto da viagem, o Imperador alegrou-se por não encontrar mais nenhum negro naquelas condições, provavelmente como resultado da sua intervenção.
Premiando os libertadores de escravos, o Imperador incentiva o processo de abolição
Na cidade de Ponta Grossa, por ocasião de sua viagem ao Paraná, foi D. Pedro II recebido por um cidadão, que o cativou por sua hospedagem fidalga, mas despida das exigências protocolares. Após o almoço, no dia da partida, o anfitrião disse:
— Senhor Imperador, eu podia ter feito mais alguma coisa. Podia ter matado mais uma vitela, mais um peru, mas preferi assinalar por outro modo a vossa passagem por esta terra e a honra de vir a esta vossa casa. Libertei todos os meus escravos, que são mais de setenta, e peço a Vossa Majestade o favor de lhes entregar as cartas de liberdade.
Essa alocução tão simples quanto eloqüente emocionou profundamente o Monarca, que agradeceu o gesto de benemerência do digno paranaense. Por ocasião das graças, o Governo levou ao Imperador o decreto fazendo-o oficial da Ordem da Rosa. Ao apresentarem-lhe o decreto, disse o Monarca ao ministro do Império:
— Isto é pouco para esse benemérito. Faça-o barão!
— Mas, Majestade, ele é quase analfabeto!
— Não será o primeiro. E este é muito digno. Mande-me o decreto fazendo-o Barão dos Campos Gerais.
Quando a Ordem dos Beneditinos, em 1866, proclamou a liberdade dos filhos de seus escravos, o Imperador foi pessoalmente ao Mosteiro de São Bento felicitar o Abade Geral, a quem entregou em mão própria uma condecoração.
D. Pedro II tinha uma antipatia visceral contra os que se haviam envolvido no degradante tráfico de negros. A condescendência que sobre isso tiveram alguns políticos, mesmo aqueles tidos então ou posteriormente como abolicionistas, ele nunca a teve. Joaquim Nabuco diz que, se não fosse o Imperador, os piores traficantes de escravos teriam sido feitos condes e marqueses do Império. Pereira Marinho, por exemplo, tornou-se opulento às custas do tráfico. Depois de deixá-lo, envidou todos os esforços para obter uma condecoração, um título, uma fita. O Imperador nunca transigiu. Afinal Pereira Marinho conseguiu fazer-se conde, mas em Portugal.
Quando foi promulgada a Lei Áurea, Dom Pedro II se encontrava em Milão, gravemente enfermo. Fora atacado de uma pleurisia, complicada com febre palustre. Os médicos aconselharam a ocultar do paciente as notícias que chegavam do Rio diariamente.
A 22 de maio os médicos perderam as esperanças de salvá-lo, e declararam à Imperatriz que chegara o momento de chamar o sacerdote. O Arcebispo de Milão assistiu D. Pedro II, que após a confissão recebeu os últimos sacramentos da Igreja Católica. Ele estava de tal modo enfraquecido, que mal podia falar. A Imperatriz achou conveniente, então, informá-lo da grande notícia recebida no dia 13. Imediatamente seu olhar se reanimou.
— Não há então mais escravos no Brasil?
— Não. Votou-se a lei em 13 de maio. A escravidão foi abolida.
— Rendamos graças a Deus! Telegrafem imediatamente à Isabel, enviando-lhe a minha bênção com os meus agradecimentos à Nação e às Câmaras.
Depois, voltou-se ligeiramente. Os que o cercavam julgaram que estivesse moribundo. Mas seu patriotismo deu-lhe forças para pronunciar estas tocantes palavras:
— Grande povo! Grande povo!...
E correram lágrimas de seus olhos.
A alegria profunda que sentiu, ao saber que todos os seus súditos seriam livres para o futuro, produziu em todo o seu ser uma comoção eficaz e salutar. Desde então se acentuaram as melhoras. Aos poucos desapareceu o perigo, e ele não tardou a restabelecer-se.
Quando D. Pedro II chegou de sua viagem à Europa, após a Lei Áurea, o Conselheiro João Alfredo, presidente do Gabinete, apresentou-lhe o texto da “Fala do Trono”, que o Imperador deveria ler diante das Câmaras. No tópico em que se aludia à lei de 13 de maio, intercalou Sua Majestade, com a própria letra, estas palavras significativas: “...cuja decretação tanto me consolou das saudades da Pátria, minorando os meus sofrimentos físicos”.
Assistindo à leitura destas palavras, a Princesa Isabel acolheu-as como o único elemento de tranqüilidade que lhe faltava:
— Fico muito contente que a lei de 13 de maio tenha tido esta última sanção.
***
Visite agora os sites:
http://www.fatoshistoricos.com.br/
http://www.mundodanobreza.com.br/
25.5.08
01 - A MINHA FAMÍLIA BRASILEIRA
OUVINDO A TODOS SEM ENGANAR A NINGUÉM
A Família Imperial, modelo e apoio das famílias brasileiras
Se investigarmos bem a fundo as razões da popularidade que a Família Imperial conservou, mesmo depois da República, veremos que reside, em boa parte, no êxito de sua tarefa social. O velho Imperador, com a grande respeitabilidade de sua figura, seu porte grave, sua longa barba precocemente encanecida, sua afabilidade, representava bem o tipo ideal do excelente pai de família brasileiro daquela época, coluna do lar, protetor suave e varonil dos seus. O Imperador era como que o tipo exemplar que concentrava em si as virtudes que cada brasileiro estimava em seu próprio pai.
O mesmo se poderia dizer da Imperatriz, Dona Teresa Cristina. Era italiana, e adaptou-se ao nosso ambiente com a naturalidade com que o fazem os de sua terra. Feia, bondosa, acolhedora, era ela mesma o protótipo da dama brasileira, algum tanto desinteressada, naquele tempo, dos encargos de representação, mas exímia em tudo quanto dissesse respeito aos deveres do lar. Todo o mundo, consciente ou inconscientemente, se sentia um pouco parente daquela família-tipo.
Chamou a atenção do jornalista norte-americano James O’Kelly, do “New York Herald”, o cunho familiar da Monarquia brasileira e a enorme popularidade de que gozava o Imperador. Ele escreveu: “Os brasileiros comportam-se para com seu Imperador como uma grande e feliz família para com seu bem-amado pai”.
Ao relatar o embarque do Imperador para os Estados Unidos, observou: “Não era um chefe despedindo-se cerimoniosamente da nação que governa, era antes um casal adorado despedindo-se da família”.
Na Universidade Lehigh, por ocasião da viagem do Imperador aos Estados Unidos, havia alguns estudantes brasileiros, que ficaram encantados em vê-lo. A propósito do encontro com esses estudantes, o jornal “North American” comentou: “Os jovens se aglomeraram em torno dele, como filhos em torno de um pai, e ele parecia um pai tratando com seus filhos”.
O dia do seu regresso foi um dia de gala nacional. A emoção com que o acolheram assumia antes o tom carinhoso de uma família que revê o chefe estremecido do que o de uma nação que recebe o seu soberano.
Após a sua viagem ao Brasil, o Conde Alexandre Hübner, diplomata austríaco, publicou no “Le Figaro”, em 18/10/1882, um artigo sob forma de carta ao povo brasileiro, no qual diz:
“Oriunda de duas das mais ilustres e mais antigas famílias reinantes, a dinastia que vejo à vossa frente identifica-se convosco nos bons e nos maus dias. Aliando a simplicidade à dignidade, pode servir de modelo ao mais suntuoso como ao mais humilde lar.
Um fato, sobretudo, me impressionou. A 15 de agosto, a festa da Virgem foi celebrada com a pompa tradicional, na antiga igreja de Nossa Senhora da Glória. Quando chego, o templo já está cheio de fiéis. As poltronas reservadas para a Corte são as únicas ainda desocupadas. Diante da igreja, na plataforma de onde se domina a vista do golfo, amontoa-se uma multidão de diversas cores. Do branco mais puro ao negro mais escuro, todas as tonalidades da pele humana ali se achavam representadas.
O sol poente doura com seus últimos raios esse vasto lençol de rochedos fantásticos, todo esse conjunto de céu e de mar, de granito e de vegetação, que faz da baía do Rio uma das maravilhas do mundo. Os sinos todos dobram, soltam-se foguetes, e os petardos se juntam com seu barulho ensurdecedor. É a Corte que se aproxima.
Guiado pelo acaso, penetro por uma porta entreaberta num pequeno jardim dando para a plataforma, onde o proprietário e sua família recebem o desconhecido com hospitalidade verdadeiramente brasileira. Foi dali que pude lançar o olhar em profundidade e ver o Imperador dando o braço à Imperatriz, acompanhado da Princesa Imperial e do Conde d’Eu, subir a pé a rampa muito inclinada que conduz à igreja. Uma multidão compacta de povo o cerca. Nenhuma ala militar, nenhum policial”. Dom Pedro encontra-se no seio de sua grande família, e ali se sente bem. Espetáculo admirável que me impressionou vivamente, porque recordava-me cenas semelhantes do meu país”.
O Imperador, um pai respeitado e amado, que conhece todos os seus filhos brasileiros
Seria erro acreditar que os brasileiros prezavam no Imperador somente a suprema autoridade do Estado. Eles amaram antes de tudo nele o homem, e do homem as suas virtudes. Esta afeição tinha um cunho de ternura filial. E a virtude do Imperador que mais cativou o povo foi a bondade.
O historiógrafo João Ribeiro fez a seguinte apreciação sobre D. Pedro II: “Simples e modesto, mas sem perda da distinção pessoal. Generoso e desinteressado. Sábio, mas sem afetação. Exemplo de todas as virtudes domésticas. Melhor que a popularidade, granjeou a simpatia respeitosa da multidão. A opinião unânime a respeito do Soberano o fez protótipo das virtudes sociais”.
Ele não via no povo apenas a massa amorfa, em que as parcelas se confundem e se anulam na soma total. Ia além, buscava enxergar no todo o detalhe das fisionomias e a vida dos indivíduos. Sabia a história do País e a história de muitos de seus súditos.
Durante uma audiência pública, um ex-oficial de voluntários entregava um memorial ao Imperador. O Conde d’Eu, que estava presente, aproximou-se e perguntou ao oficial:
— O senhor não é o tenente tal, que serviu em tal batalhão?
O oficial confirmou, trocaram algumas palavras, e a audiência prosseguiu. Depois que este se retirou, o Conde d’Eu comentou com D. Pedro:
— Tenho o orgulho de conhecer todos os oficiais que serviram sob minhas ordens.
— Isto é uma grande coisa. E eu tenho procurado conhecer todos os brasileiros.
Numa viagem ao interior de Minas, o Imperador observou, no meio de uma multidão compacta, uma negra que fazia grande esforço para se aproximar dele, mas as pessoas à sua volta procuravam impedi-la. Compadecido, ordenou que a deixassem aproximar-se.
— Meu senhor, eu sou Eva, uma escrava fugida, e venho pedir a Vossa Majestade a minha liberdade.
O Imperador mandou tomar as notas necessárias, e prometeu dar-lhe a liberdade quando regressasse. E efetivamente entregou à cativa o documento de alforria.
Algum tempo depois, indo a uma das janelas do Palácio de São Cristóvão, viu um guarda tentando impedir que uma preta velha entrasse. Sua memória prodigiosa reconheceu imediatamente a ex-escrava de Minas, e ele ordenou:
— Entre aqui, Eva!
A preta precipitou-se porta adentro, e entregou ao seu protetor um saco de abacaxis, colhidos na roça que plantara depois de liberta.
A 7 de dezembro de 1889, a Família Imperial exilada chegava a Lisboa. Antes de ir para terra, o Imperador quis despedir-se de toda a oficialidade de bordo, entregando uma lembrança pessoal aos três oficiais mais graduados. Para a tripulação, reservou uma determinada quantia em dinheiro, tendo tido o cuidado de mandar organizar, para esse fim, uma lista com os nomes de todos os marinheiros e empregados de bordo. Como de costume, nenhum detalhe lhe escapou:
— Falta o homem que trata dos bois. Não o esqueça.
No gabinete de D. Pedro II havia um busto de Alexandre, o Grande. À vista dessa imagem, alguém lembrou-lhe as palavras de César ao contemplar outra semelhante:
— Ele não tinha ainda a minha idade, e já conquistara toda a terra.
— E eu conquistei o meu povo! – exclamou o Imperador.
O Palácio do Imperador está aberto a todos
Todo o mundo, sem exceção, podia ser facilmente admitido à presença do Monarca, não se precisando para isso nem de vestuário apropriado, nem de bilhete especial, nem de qualquer declaração ou outra formalidade, e muito menos de empenhos de políticos ou de gente do Paço. Bastava apresentar-se em palácio, declinar o nome, que era lançado num grande livro, e penetrar naquelas salas abertas a todos. Benjamim Mossé afirma: “Cada um pode apresentar-se como quiser, de casaca, de uniforme, de blusa, de roupa de trabalho; nem por isso deixa de ser recebido por Sua Majestade. O mais humilde negro, em chinelos ou pés descalços, pode falar ao Soberano”.
Escragnolle Dória, conhecido historiador e escritor, confirma:
“Era só chegar e esperar a sua vez, certo de ser atendido. Cada qual trazia o seu interesse, e dava o seu recado sem vexame, na sua gramática. O Imperador costumava referir-se a essas audiências públicas como receber a minha família brasileira.
“Certa vez, falava ao Imperador uma mulher de cor, já idosa, cabeça nua, mãos trêmulas, xale aos ombros, vestido de chita, sapatos e meias usados. Aproximou-se acanhada, dirigiu-se ao Soberano, e no perturbado da exposição deixou cair papéis, sem dúvida de apoio à modestíssima pretensão. Apanhou-os o Imperador, restituiu-os, continuou a ouvir por muito tempo, despedindo a suplicante com um sorriso de bondade e gesto de encorajamento, ficando a segurar os documentos que ela lhe confiara”.
O romancista Gustavo Aimard, que visitou o Brasil três vezes, escreveu sobre nosso País o livro “Brésil Nouveau”. Estava no Rio havia oito dias, em 1881, quando seu amigo Sohier lhe sugeriu que fosse ao Palácio da Boa Vista visitar o Imperador. Perguntou então qual seria a etiqueta. O amigo riu-se, e lhe deu a explicação:
— Nos sábados, as audiências imperiais são públicas, e duram de duas às cinco da tarde. Os candidatos a um encontro com o Soberano entram no Palácio, sobem ao segundo andar, atravessam uma longa galeria e entram na sala das audiências, sem ninguém para lhes embargar os passos.
— Então não há soldados, funcionários e veadores?
— Soldados, haverá uns vinte. Mas nenhum se ocupa de quem entra nem de quem sai.
Aimard narrou desta forma a entrevista:
“Entrei no Palácio, subi uma larga escadaria atapetada, no alto da qual encontrei uma pessoa que imaginei ser um porteiro, mas que era um camarista. Perguntei-lhe onde estava o Imperador: “Em frente, na segunda porta à esquerda”, respondeu-me sorrindo esse desconhecido. Atravessei um imenso salão, que parecia estreito por causa de seu extenso comprimento. Estava deserto, completamente sem móveis, não tendo nem mesmo um banco. Em compensação, as paredes se achavam cobertas de quadros, dos quais quase todos me pareceram ser de bons mestres e de várias escolas. Alguns deles chamaram minha atenção, parecendo-me de grande valor. Fiquei de tal modo absorvido por essas telas, que esqueci por muito tempo o que tinha ido fazer ali. Duas pessoas que saíam, conversando em voz alta, chamaram-me à realidade. Abri a porta que o desconhecido me tinha indicado, e achei-me noutro salão, este muito bem mobiliado, no qual se via uma meia dúzia de capuchinhos comodamente sentados, todos cochichando uns com os outros. Atravessei uma galeria bastante estreita, mas muito longa, cheia de gente. O Imperador se encontrava no fim da galeria. Reconheci-o logo pela sua elevada estatura, pela barba loura entremeada de fios de prata, e pela fisionomia sorridente”.
O Conde d’Ursel, secretário da legação belga no Brasil, aqui desembarcou em 9 de dezembro de 1873. Narra a visita a D. Pedro II:
“Estava o Palácio Imperial aberto a todo o mundo, e os veadores do Soberano acolhiam os visitantes com a maior cordialidade. Ao limiar daquele Paço, sentia-se que o dono da casa a todos recebia benévola e bondosamente.
Era sábado, dia de audiência pública, por assim dizer, pois toda e qualquer pessoa era admitida a falar a D. Pedro II. Na extremidade da longa galeria avistei o Imperador vestido de preto, parando em frente a pessoa por pessoa, estendendo freqüentemente a mão e ouvindo o interlocutor, sempre com visível atenção.
Nada mais impressionante do que o espetáculo ao mesmo tempo simples e comovedor, que eu tinha diante dos olhos. Havia pessoas de modesta posição, vestidas pobremente, esperando a vez para, sem intermediário algum, submeter ao Soberano a sua petição.
O Imperador, com benevolência e dignidade, deixa chegarem-se a ele todos dentre os seus súditos que têm uma reclamação a fazer ou um favor a pedir. É voz corrente que esta prática excelente serve por vezes de freio salutar aos funcionários que se deixam levar a arbitrariedades”.
Qualquer brasileiro pode falar com o Imperador e confiar na sua bondade
No Rio Grande do Sul, por ocasião dos contatos com os governantes dos países aliados Argentina e Uruguai, D. Pedro despira-se preliminarmente das exterioridades de sua hierarquia. Não era um rei entre burgueses, mas um chefe de Estado que procura equiparar-se aos outros dois. Na realidade, acentuava com isso a majestade que lhe é natural. Só os príncipes, educados para o trono, podem ser simples, familiares e agradáveis, sem que os demais ousem romper a zona de respeito de que insensivelmente se cercam. Silveira da Mota, secretário de Tamandaré, afirmou:
“Confesso que nunca vira, na pessoa de D. Pedro II, tanta força de sedução. Tudo o que havia de simpático e nobre na sua fisionomia, apresentava-se naquela época com o aspecto mais favorável. Parecia ser o Monarca da coxilha, idealizado pela gauchada. Ele não teve sequer o seu batismo de fogo, mas a fleuma com que se aproximava ao alcance do fuzil das trincheiras paraguaias foi o bastante para que os circunstantes fizessem uma alta idéia da sua coragem”.
Se D. Pedro II tinha um grande, um irremediável defeito, pode dizer-se que esse defeito era a sua bondade.27 Joaquim Nabuco, o famoso abolicionista, afirmou que durante cinqüenta anos o povo encontrou o Imperador sempre de pé, na galeria de São Cristóvão ou no Paço da Cidade, ouvindo a todos sem enganar a ninguém: “A sua porta esteve sempre mais franca do que qualquer outra no País. E quando se deixava de tratar com ele, para falar aos poderosos, todos sentiam que a vaidade da posição começava abaixo do trono”.
Na sua “Fé de Ofício”, o próprio Imperador afirmou: “O meu dia era todo ocupado no serviço público, e jamais deixei de ouvir e falar a quem quer que fosse”.
O conselheiro Nuno de Andrade descreveu uma audiência do Imperador:
“Às cinco horas em ponto desci do tílburi, junto à portinha baixa onde uma sentinela cochilava. Não se pedia licença para entrar. Tomei a escada da direita, e fui ter a um longo salão retangular quase sem móveis, com grandes quadros nas paredes. O Freire, criado da casa, meu conhecido, disse-me:
— O Imperador não tarda.
Cerca de quinze pessoas esperavam D. Pedro II, e entre elas um preto vestido de brim pardo, sem gravata, com uns grandes sapatos muito bem engraxados. Depreendia-se do lustro do calçado que o preto cuidara de parecer asseado; e, como era idoso, a intenção traduzia certa altivez nativa. Tinha ido a pé e sentia-se cansado, por isso sentara-se no chão da galeria. O Pederneiras, com sua barba branca, chegou-se a mim, indicou o preto e disse filosoficamente:
— Ainda querem mais liberdade nesta terra...
Instintivamente olhamos para as portas, constantemente abertas a todos os brasileiros.
O Imperador apareceu no extremo da galeria, e o preto levantou-se. Seria o primeiro a falar ao Soberano, e ninguém se lembrou de lhe disputar a precedência. O Imperador lhe perguntou:
— Então, como está? Que é que temos?
— Estou bom, sim senhor. E vosmecê? Eu venho dizer a vosmecê que fui voluntário na guerra do Paraguai. Na batalha, fiquei com um braço ferido por bala. Curei-me, e continuei até o fim de tudo. Depois voltei e caí no meu ofício de empalhador. Há um ano adoeci do fígado, e o Dr. Miranda, na Santa Casa, me fez uma operação. Nunca mais tive saúde. Agora, não posso mais trabalhar no ofício, e não tenho vintém para comprar farinha. Na secretaria do Império há falta de servente, e eu fui falar com o ministro. Mas o ministro não fala com toda a gente. Estão lá uns mulatinhos pernósticos, que me dizem sempre: Você espere. Eu espero, sim senhor; e depois os mulatinhos me mandam embora, porque o ministro não recebe mais ninguém. Já três vezes isso me aconteceu. Então fiquei zangado e pensei assim: vou falar ao Imperador, que é nosso pai; ele não manda a gente embora. Ora, pois, eu queria que vosmecê me desse um bilhetinho para o ministro...
O Imperador chamou o general Miranda Reis, que então o acompanhava, e disse-lhe algumas palavras. Voltando ao preto, exprimiu-se assim:
— Vá com Deus. Fico sendo seu procurador, e tratarei do seu negócio.
— Mas eu tinha vontade de mostrar àqueles mulatinhos pacholas...
— Não tem nada a mostrar. Vá para sua casa e espere.
Alguns dias depois, contou-me o general Miranda Reis que o Imperador mandara alojar o antigo voluntário numa casinha da Quinta, e ordenara ao comendador João Batista que lhe suprisse a mensalidade de 40 mil réis, pedindo desculpas de não poder dar mais. E o João Batista, honrado mineiro, prodigiosamente econômico, amofinava-se com as freqüentíssimas decisões desta espécie, sustentando, em voz fraca e lacrimosa, que das quatro operações o sábio Imperador só conhecia a de dividir”.
O Imperador é feliz quando cada brasileiro está contente
No “Figaro”, Gaston Calmette escrevera que Dom Pedro II se parecia com o escritor Arsène Houssaye, velho conhecido do Soberano. Dias depois, encontrando-se com Houssaye, Dom Pedro, risonhamente, conduziu-o para diante de um espelho, dizendo:
— Vejamos se de fato nos parecemos!
— Talvez – disse o poeta –, mas numa coisa não nos parecemos: é que eu, de vez em quando, gostaria de ser Dom Pedro II, e vós jamais gostaríeis de ser Arsène Houssaye.
— Quem sabe? Todo homem traz sua coroa de espinhos. Faríamos, contudo, uma troca inútil, pois não usaríamos a coroa do homem feliz.
— E Vossa Majestade já encontrou algum homem feliz?
— Sim! Eu mesmo, quando meu povo está contente!
No dia 16 de julho de 1865, quando chegou ao Rio Grande do Sul no limiar da guerra do Paraguai, o Imperador publicou uma patriótica proclamação, que termina com estas palavras:
— Riograndenses! Falo-vos como pai que zela a honra da família brasileira. Estou certo de que procedereis como irmãos que se amam ainda mais quando qualquer deles sofre.
D. Pedro se esforçava para obter o bem estar de cada súdito.
O Barão de Teffé narra um exame do qual participou na Academia de Marinha, na presença do Imperador. Era presidente da banca examinadora o Prof. Cristiano Otoni. No tom seco que lhe era peculiar, e que tanto assustava os alunos, chamou o examinando e ordenou:
— Exponha com clareza e precisão a matéria do seu ponto.
O rapaz titubeou, pois não tinha prática de fazer discursos. Gaguejou, empalideceu e guardou silêncio, enquanto organizava mentalmente algumas frases, para iniciar a exposição. Otoni se impacientou e intimou:
— Sua Majestade veio aqui para ouvi-lo e julgar do seu aproveitamento. Ou fale ou retire-se.
Nisto o Imperador tranqüilizou o rapaz, dizendo:
— Compreendo a sua perturbação, mas acalme o seu espírito, porque aqui não há juízes ferrenhos, e sim amigos dispostos a esperar que lhe volte o sangue frio.
Começou em seguida a conversar calmamente com Otoni. Isto bastou para conquistar o estudante tímido, porém bem preparado, que acabou fazendo brilhante exame e obteve aprovação plena.
Diante de uma escola, numa cidade do interior por onde passava o Imperador, uma menina se preparava para ler um discurso em sua homenagem.
— Nada, nada, minha filha! Eu não gosto de discursos.
Mas logo se arrependeu, porque a criança, contrariada, assumiu um ar de choro.
— Bem, bem! Uma vez que tanto quer falar, venha cá. Venha conversar comigo.
Para encorajá-la, acrescentou:
— Vejo que você é inteligente. Não tenha medo. Mostre-me que você é inteligente, porque eu gosto muito de crianças. Eu tenho netinhos da sua idade.
O Imperador tratava com especial atenção todos os servidores da Casa Imperial, inclusive os escravos, quando ainda os tinha, ou ex-escravos que, depois de libertos, continuavam a servi-lo como empregados pagos. Assistia aos casamentos dos seus servidores, quando previamente avisado.
Quando o Santíssimo Sacramento saía da capela da Quinta, para a casa de algum empregado doente, Dom Pedro II acompanhava o padre, de tocha na mão, até o carro que o conduzisse.
Em 1866, durante a guerra do Paraguai, D. Pedro escreveu ao Marquês de Paranaguá: “Lembro-lhe as providências para que não falte de comer e agasalho, assim como roupa, aos que forem designados. Cumpre não demorar essas medidas”.
De quem se tratava aí? De filhos de grandes do Império, que seguiam para os campos paludosos do Paraguai? Nada disso! Visava o conforto de simples escravos, que deixavam a Fazenda Imperial de Santa Cruz e partiam para a guerra.
Às quintas-feiras o Imperador costumava jantar com a Princesa Isabel, no Palácio Guanabara, para onde seguia com a Imperatriz às 4 horas da tarde, escoltado pela guarda imperial. Não estava previsto que os cadetes seriam alimentados pela cozinha do palácio, o que lhes causava não poucos transtornos, porém desconhecidos pelo Imperador.
Certo dia, um cadete resolveu arranjar algum alimento. Dirigiu-se aos fundos do Palácio e penetrou na sala de jantar. Pegou uma penca de bananas, e quando ia apanhar também uma garrafa de vinho, deparou com o Imperador. Não se desconcertou. Depôs sobre a mesa o que apanhara, fez continência e disse:
— Vossa Majestade me perdoe. Estava com fome, vi estas belas bananas e não me contive.
— Por que não esperou o jantar, seu cadete? Não demorava.
— Saiba Vossa Majestade que aqui não nos fornecem jantar, e os que não têm dinheiro para comprar alguma coisa passam fome.
O Imperador ficou carrancudo, e nada disse. Pouco depois vinha um bom jantar do Palácio, e daí em diante isto se tornou rotina.
Narrando fatos que comprovavam a brandura de trato do Imperador, um distinto servidor do Paço dizia:
— É coisa admirável! Eu às vezes não posso conter-me diante de faltas cometidas no Paço, mas o Imperador nunca se zanga! A que ponto isto chega, seria necessário ver para crer.
A popularidade do Imperador cantada em versos
Popularidade autêntica é a que se conquista na voz do povo, que não admite imposições. Principalmente na poesia popular, que é a própria alma do povo. Não são muitos os nomes de heróis e bandidos, de intelectuais e políticos, que aparecem na poesia popular do Brasil. Entre esses nomes, teve lugar de destaque o do magnânimo Imperador D. Pedro II. Logo após o seu nascimento, as mães cantavam em Minas Gerais, ninando as crianças:
“Lá vai o sol entrando
Arraiando pelo mundo;
No dia 2 de dezembro
Nasceu Dom Pedro Segundo”.
Por ocasião da campanha da maioridade, o povo se manifestou com uma quadra que ficou famosa:
“Queremos Pedro Segundo,
Embora não tenha idade.
A Nação dispensa a lei,
E viva a maioridade!”
A popularidade de D. Pedro II começou, mesmo, após a maioridade, pois cansado estava o povo das revoltas e experiências. Ansiava por outra coisa, e pôs no jovem Monarca, por isso, todas as esperanças:
“Suba ao trono o jovem Pedro,
Exulte toda a Nação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união.
Vista a seda, traje a púrpura,
Exulte toda a Nação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união.
Foi abaixo a camarilha,
De geral indignação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união”.
De Norte a Sul do País, cantava a musa popular, com variações regionais:
“Atirei um limão n’água
De tão alto foi ao fundo;
Os peixinhos responderam:
Viva Dom Pedro Segundo!”
No tempo de Canudos, cantava-se:
“Saiu D. Pedro Segundo
Para o reino de Lisboa,
Acabou-se a Monarquia,
O Brasil ficou à toa.
Este povo está perdido,
Está sem arrumação,
E o culpado disso tudo
É o chefe da Nação”.
***
Visite agora os sites:
www.fatoshistoricos.com.br
www.mundodanobreza.com.br
A Família Imperial, modelo e apoio das famílias brasileiras
Se investigarmos bem a fundo as razões da popularidade que a Família Imperial conservou, mesmo depois da República, veremos que reside, em boa parte, no êxito de sua tarefa social. O velho Imperador, com a grande respeitabilidade de sua figura, seu porte grave, sua longa barba precocemente encanecida, sua afabilidade, representava bem o tipo ideal do excelente pai de família brasileiro daquela época, coluna do lar, protetor suave e varonil dos seus. O Imperador era como que o tipo exemplar que concentrava em si as virtudes que cada brasileiro estimava em seu próprio pai.
O mesmo se poderia dizer da Imperatriz, Dona Teresa Cristina. Era italiana, e adaptou-se ao nosso ambiente com a naturalidade com que o fazem os de sua terra. Feia, bondosa, acolhedora, era ela mesma o protótipo da dama brasileira, algum tanto desinteressada, naquele tempo, dos encargos de representação, mas exímia em tudo quanto dissesse respeito aos deveres do lar. Todo o mundo, consciente ou inconscientemente, se sentia um pouco parente daquela família-tipo.
Chamou a atenção do jornalista norte-americano James O’Kelly, do “New York Herald”, o cunho familiar da Monarquia brasileira e a enorme popularidade de que gozava o Imperador. Ele escreveu: “Os brasileiros comportam-se para com seu Imperador como uma grande e feliz família para com seu bem-amado pai”.
Ao relatar o embarque do Imperador para os Estados Unidos, observou: “Não era um chefe despedindo-se cerimoniosamente da nação que governa, era antes um casal adorado despedindo-se da família”.
Na Universidade Lehigh, por ocasião da viagem do Imperador aos Estados Unidos, havia alguns estudantes brasileiros, que ficaram encantados em vê-lo. A propósito do encontro com esses estudantes, o jornal “North American” comentou: “Os jovens se aglomeraram em torno dele, como filhos em torno de um pai, e ele parecia um pai tratando com seus filhos”.
O dia do seu regresso foi um dia de gala nacional. A emoção com que o acolheram assumia antes o tom carinhoso de uma família que revê o chefe estremecido do que o de uma nação que recebe o seu soberano.
Após a sua viagem ao Brasil, o Conde Alexandre Hübner, diplomata austríaco, publicou no “Le Figaro”, em 18/10/1882, um artigo sob forma de carta ao povo brasileiro, no qual diz:
“Oriunda de duas das mais ilustres e mais antigas famílias reinantes, a dinastia que vejo à vossa frente identifica-se convosco nos bons e nos maus dias. Aliando a simplicidade à dignidade, pode servir de modelo ao mais suntuoso como ao mais humilde lar.
Um fato, sobretudo, me impressionou. A 15 de agosto, a festa da Virgem foi celebrada com a pompa tradicional, na antiga igreja de Nossa Senhora da Glória. Quando chego, o templo já está cheio de fiéis. As poltronas reservadas para a Corte são as únicas ainda desocupadas. Diante da igreja, na plataforma de onde se domina a vista do golfo, amontoa-se uma multidão de diversas cores. Do branco mais puro ao negro mais escuro, todas as tonalidades da pele humana ali se achavam representadas.
O sol poente doura com seus últimos raios esse vasto lençol de rochedos fantásticos, todo esse conjunto de céu e de mar, de granito e de vegetação, que faz da baía do Rio uma das maravilhas do mundo. Os sinos todos dobram, soltam-se foguetes, e os petardos se juntam com seu barulho ensurdecedor. É a Corte que se aproxima.
Guiado pelo acaso, penetro por uma porta entreaberta num pequeno jardim dando para a plataforma, onde o proprietário e sua família recebem o desconhecido com hospitalidade verdadeiramente brasileira. Foi dali que pude lançar o olhar em profundidade e ver o Imperador dando o braço à Imperatriz, acompanhado da Princesa Imperial e do Conde d’Eu, subir a pé a rampa muito inclinada que conduz à igreja. Uma multidão compacta de povo o cerca. Nenhuma ala militar, nenhum policial”. Dom Pedro encontra-se no seio de sua grande família, e ali se sente bem. Espetáculo admirável que me impressionou vivamente, porque recordava-me cenas semelhantes do meu país”.
O Imperador, um pai respeitado e amado, que conhece todos os seus filhos brasileiros
Seria erro acreditar que os brasileiros prezavam no Imperador somente a suprema autoridade do Estado. Eles amaram antes de tudo nele o homem, e do homem as suas virtudes. Esta afeição tinha um cunho de ternura filial. E a virtude do Imperador que mais cativou o povo foi a bondade.
O historiógrafo João Ribeiro fez a seguinte apreciação sobre D. Pedro II: “Simples e modesto, mas sem perda da distinção pessoal. Generoso e desinteressado. Sábio, mas sem afetação. Exemplo de todas as virtudes domésticas. Melhor que a popularidade, granjeou a simpatia respeitosa da multidão. A opinião unânime a respeito do Soberano o fez protótipo das virtudes sociais”.
Ele não via no povo apenas a massa amorfa, em que as parcelas se confundem e se anulam na soma total. Ia além, buscava enxergar no todo o detalhe das fisionomias e a vida dos indivíduos. Sabia a história do País e a história de muitos de seus súditos.
Durante uma audiência pública, um ex-oficial de voluntários entregava um memorial ao Imperador. O Conde d’Eu, que estava presente, aproximou-se e perguntou ao oficial:
— O senhor não é o tenente tal, que serviu em tal batalhão?
O oficial confirmou, trocaram algumas palavras, e a audiência prosseguiu. Depois que este se retirou, o Conde d’Eu comentou com D. Pedro:
— Tenho o orgulho de conhecer todos os oficiais que serviram sob minhas ordens.
— Isto é uma grande coisa. E eu tenho procurado conhecer todos os brasileiros.
Numa viagem ao interior de Minas, o Imperador observou, no meio de uma multidão compacta, uma negra que fazia grande esforço para se aproximar dele, mas as pessoas à sua volta procuravam impedi-la. Compadecido, ordenou que a deixassem aproximar-se.
— Meu senhor, eu sou Eva, uma escrava fugida, e venho pedir a Vossa Majestade a minha liberdade.
O Imperador mandou tomar as notas necessárias, e prometeu dar-lhe a liberdade quando regressasse. E efetivamente entregou à cativa o documento de alforria.
Algum tempo depois, indo a uma das janelas do Palácio de São Cristóvão, viu um guarda tentando impedir que uma preta velha entrasse. Sua memória prodigiosa reconheceu imediatamente a ex-escrava de Minas, e ele ordenou:
— Entre aqui, Eva!
A preta precipitou-se porta adentro, e entregou ao seu protetor um saco de abacaxis, colhidos na roça que plantara depois de liberta.
A 7 de dezembro de 1889, a Família Imperial exilada chegava a Lisboa. Antes de ir para terra, o Imperador quis despedir-se de toda a oficialidade de bordo, entregando uma lembrança pessoal aos três oficiais mais graduados. Para a tripulação, reservou uma determinada quantia em dinheiro, tendo tido o cuidado de mandar organizar, para esse fim, uma lista com os nomes de todos os marinheiros e empregados de bordo. Como de costume, nenhum detalhe lhe escapou:
— Falta o homem que trata dos bois. Não o esqueça.
No gabinete de D. Pedro II havia um busto de Alexandre, o Grande. À vista dessa imagem, alguém lembrou-lhe as palavras de César ao contemplar outra semelhante:
— Ele não tinha ainda a minha idade, e já conquistara toda a terra.
— E eu conquistei o meu povo! – exclamou o Imperador.
O Palácio do Imperador está aberto a todos
Todo o mundo, sem exceção, podia ser facilmente admitido à presença do Monarca, não se precisando para isso nem de vestuário apropriado, nem de bilhete especial, nem de qualquer declaração ou outra formalidade, e muito menos de empenhos de políticos ou de gente do Paço. Bastava apresentar-se em palácio, declinar o nome, que era lançado num grande livro, e penetrar naquelas salas abertas a todos. Benjamim Mossé afirma: “Cada um pode apresentar-se como quiser, de casaca, de uniforme, de blusa, de roupa de trabalho; nem por isso deixa de ser recebido por Sua Majestade. O mais humilde negro, em chinelos ou pés descalços, pode falar ao Soberano”.
Escragnolle Dória, conhecido historiador e escritor, confirma:
“Era só chegar e esperar a sua vez, certo de ser atendido. Cada qual trazia o seu interesse, e dava o seu recado sem vexame, na sua gramática. O Imperador costumava referir-se a essas audiências públicas como receber a minha família brasileira.
“Certa vez, falava ao Imperador uma mulher de cor, já idosa, cabeça nua, mãos trêmulas, xale aos ombros, vestido de chita, sapatos e meias usados. Aproximou-se acanhada, dirigiu-se ao Soberano, e no perturbado da exposição deixou cair papéis, sem dúvida de apoio à modestíssima pretensão. Apanhou-os o Imperador, restituiu-os, continuou a ouvir por muito tempo, despedindo a suplicante com um sorriso de bondade e gesto de encorajamento, ficando a segurar os documentos que ela lhe confiara”.
O romancista Gustavo Aimard, que visitou o Brasil três vezes, escreveu sobre nosso País o livro “Brésil Nouveau”. Estava no Rio havia oito dias, em 1881, quando seu amigo Sohier lhe sugeriu que fosse ao Palácio da Boa Vista visitar o Imperador. Perguntou então qual seria a etiqueta. O amigo riu-se, e lhe deu a explicação:
— Nos sábados, as audiências imperiais são públicas, e duram de duas às cinco da tarde. Os candidatos a um encontro com o Soberano entram no Palácio, sobem ao segundo andar, atravessam uma longa galeria e entram na sala das audiências, sem ninguém para lhes embargar os passos.
— Então não há soldados, funcionários e veadores?
— Soldados, haverá uns vinte. Mas nenhum se ocupa de quem entra nem de quem sai.
Aimard narrou desta forma a entrevista:
“Entrei no Palácio, subi uma larga escadaria atapetada, no alto da qual encontrei uma pessoa que imaginei ser um porteiro, mas que era um camarista. Perguntei-lhe onde estava o Imperador: “Em frente, na segunda porta à esquerda”, respondeu-me sorrindo esse desconhecido. Atravessei um imenso salão, que parecia estreito por causa de seu extenso comprimento. Estava deserto, completamente sem móveis, não tendo nem mesmo um banco. Em compensação, as paredes se achavam cobertas de quadros, dos quais quase todos me pareceram ser de bons mestres e de várias escolas. Alguns deles chamaram minha atenção, parecendo-me de grande valor. Fiquei de tal modo absorvido por essas telas, que esqueci por muito tempo o que tinha ido fazer ali. Duas pessoas que saíam, conversando em voz alta, chamaram-me à realidade. Abri a porta que o desconhecido me tinha indicado, e achei-me noutro salão, este muito bem mobiliado, no qual se via uma meia dúzia de capuchinhos comodamente sentados, todos cochichando uns com os outros. Atravessei uma galeria bastante estreita, mas muito longa, cheia de gente. O Imperador se encontrava no fim da galeria. Reconheci-o logo pela sua elevada estatura, pela barba loura entremeada de fios de prata, e pela fisionomia sorridente”.
O Conde d’Ursel, secretário da legação belga no Brasil, aqui desembarcou em 9 de dezembro de 1873. Narra a visita a D. Pedro II:
“Estava o Palácio Imperial aberto a todo o mundo, e os veadores do Soberano acolhiam os visitantes com a maior cordialidade. Ao limiar daquele Paço, sentia-se que o dono da casa a todos recebia benévola e bondosamente.
Era sábado, dia de audiência pública, por assim dizer, pois toda e qualquer pessoa era admitida a falar a D. Pedro II. Na extremidade da longa galeria avistei o Imperador vestido de preto, parando em frente a pessoa por pessoa, estendendo freqüentemente a mão e ouvindo o interlocutor, sempre com visível atenção.
Nada mais impressionante do que o espetáculo ao mesmo tempo simples e comovedor, que eu tinha diante dos olhos. Havia pessoas de modesta posição, vestidas pobremente, esperando a vez para, sem intermediário algum, submeter ao Soberano a sua petição.
O Imperador, com benevolência e dignidade, deixa chegarem-se a ele todos dentre os seus súditos que têm uma reclamação a fazer ou um favor a pedir. É voz corrente que esta prática excelente serve por vezes de freio salutar aos funcionários que se deixam levar a arbitrariedades”.
Qualquer brasileiro pode falar com o Imperador e confiar na sua bondade
No Rio Grande do Sul, por ocasião dos contatos com os governantes dos países aliados Argentina e Uruguai, D. Pedro despira-se preliminarmente das exterioridades de sua hierarquia. Não era um rei entre burgueses, mas um chefe de Estado que procura equiparar-se aos outros dois. Na realidade, acentuava com isso a majestade que lhe é natural. Só os príncipes, educados para o trono, podem ser simples, familiares e agradáveis, sem que os demais ousem romper a zona de respeito de que insensivelmente se cercam. Silveira da Mota, secretário de Tamandaré, afirmou:
“Confesso que nunca vira, na pessoa de D. Pedro II, tanta força de sedução. Tudo o que havia de simpático e nobre na sua fisionomia, apresentava-se naquela época com o aspecto mais favorável. Parecia ser o Monarca da coxilha, idealizado pela gauchada. Ele não teve sequer o seu batismo de fogo, mas a fleuma com que se aproximava ao alcance do fuzil das trincheiras paraguaias foi o bastante para que os circunstantes fizessem uma alta idéia da sua coragem”.
Se D. Pedro II tinha um grande, um irremediável defeito, pode dizer-se que esse defeito era a sua bondade.27 Joaquim Nabuco, o famoso abolicionista, afirmou que durante cinqüenta anos o povo encontrou o Imperador sempre de pé, na galeria de São Cristóvão ou no Paço da Cidade, ouvindo a todos sem enganar a ninguém: “A sua porta esteve sempre mais franca do que qualquer outra no País. E quando se deixava de tratar com ele, para falar aos poderosos, todos sentiam que a vaidade da posição começava abaixo do trono”.
Na sua “Fé de Ofício”, o próprio Imperador afirmou: “O meu dia era todo ocupado no serviço público, e jamais deixei de ouvir e falar a quem quer que fosse”.
O conselheiro Nuno de Andrade descreveu uma audiência do Imperador:
“Às cinco horas em ponto desci do tílburi, junto à portinha baixa onde uma sentinela cochilava. Não se pedia licença para entrar. Tomei a escada da direita, e fui ter a um longo salão retangular quase sem móveis, com grandes quadros nas paredes. O Freire, criado da casa, meu conhecido, disse-me:
— O Imperador não tarda.
Cerca de quinze pessoas esperavam D. Pedro II, e entre elas um preto vestido de brim pardo, sem gravata, com uns grandes sapatos muito bem engraxados. Depreendia-se do lustro do calçado que o preto cuidara de parecer asseado; e, como era idoso, a intenção traduzia certa altivez nativa. Tinha ido a pé e sentia-se cansado, por isso sentara-se no chão da galeria. O Pederneiras, com sua barba branca, chegou-se a mim, indicou o preto e disse filosoficamente:
— Ainda querem mais liberdade nesta terra...
Instintivamente olhamos para as portas, constantemente abertas a todos os brasileiros.
O Imperador apareceu no extremo da galeria, e o preto levantou-se. Seria o primeiro a falar ao Soberano, e ninguém se lembrou de lhe disputar a precedência. O Imperador lhe perguntou:
— Então, como está? Que é que temos?
— Estou bom, sim senhor. E vosmecê? Eu venho dizer a vosmecê que fui voluntário na guerra do Paraguai. Na batalha, fiquei com um braço ferido por bala. Curei-me, e continuei até o fim de tudo. Depois voltei e caí no meu ofício de empalhador. Há um ano adoeci do fígado, e o Dr. Miranda, na Santa Casa, me fez uma operação. Nunca mais tive saúde. Agora, não posso mais trabalhar no ofício, e não tenho vintém para comprar farinha. Na secretaria do Império há falta de servente, e eu fui falar com o ministro. Mas o ministro não fala com toda a gente. Estão lá uns mulatinhos pernósticos, que me dizem sempre: Você espere. Eu espero, sim senhor; e depois os mulatinhos me mandam embora, porque o ministro não recebe mais ninguém. Já três vezes isso me aconteceu. Então fiquei zangado e pensei assim: vou falar ao Imperador, que é nosso pai; ele não manda a gente embora. Ora, pois, eu queria que vosmecê me desse um bilhetinho para o ministro...
O Imperador chamou o general Miranda Reis, que então o acompanhava, e disse-lhe algumas palavras. Voltando ao preto, exprimiu-se assim:
— Vá com Deus. Fico sendo seu procurador, e tratarei do seu negócio.
— Mas eu tinha vontade de mostrar àqueles mulatinhos pacholas...
— Não tem nada a mostrar. Vá para sua casa e espere.
Alguns dias depois, contou-me o general Miranda Reis que o Imperador mandara alojar o antigo voluntário numa casinha da Quinta, e ordenara ao comendador João Batista que lhe suprisse a mensalidade de 40 mil réis, pedindo desculpas de não poder dar mais. E o João Batista, honrado mineiro, prodigiosamente econômico, amofinava-se com as freqüentíssimas decisões desta espécie, sustentando, em voz fraca e lacrimosa, que das quatro operações o sábio Imperador só conhecia a de dividir”.
O Imperador é feliz quando cada brasileiro está contente
No “Figaro”, Gaston Calmette escrevera que Dom Pedro II se parecia com o escritor Arsène Houssaye, velho conhecido do Soberano. Dias depois, encontrando-se com Houssaye, Dom Pedro, risonhamente, conduziu-o para diante de um espelho, dizendo:
— Vejamos se de fato nos parecemos!
— Talvez – disse o poeta –, mas numa coisa não nos parecemos: é que eu, de vez em quando, gostaria de ser Dom Pedro II, e vós jamais gostaríeis de ser Arsène Houssaye.
— Quem sabe? Todo homem traz sua coroa de espinhos. Faríamos, contudo, uma troca inútil, pois não usaríamos a coroa do homem feliz.
— E Vossa Majestade já encontrou algum homem feliz?
— Sim! Eu mesmo, quando meu povo está contente!
No dia 16 de julho de 1865, quando chegou ao Rio Grande do Sul no limiar da guerra do Paraguai, o Imperador publicou uma patriótica proclamação, que termina com estas palavras:
— Riograndenses! Falo-vos como pai que zela a honra da família brasileira. Estou certo de que procedereis como irmãos que se amam ainda mais quando qualquer deles sofre.
D. Pedro se esforçava para obter o bem estar de cada súdito.
O Barão de Teffé narra um exame do qual participou na Academia de Marinha, na presença do Imperador. Era presidente da banca examinadora o Prof. Cristiano Otoni. No tom seco que lhe era peculiar, e que tanto assustava os alunos, chamou o examinando e ordenou:
— Exponha com clareza e precisão a matéria do seu ponto.
O rapaz titubeou, pois não tinha prática de fazer discursos. Gaguejou, empalideceu e guardou silêncio, enquanto organizava mentalmente algumas frases, para iniciar a exposição. Otoni se impacientou e intimou:
— Sua Majestade veio aqui para ouvi-lo e julgar do seu aproveitamento. Ou fale ou retire-se.
Nisto o Imperador tranqüilizou o rapaz, dizendo:
— Compreendo a sua perturbação, mas acalme o seu espírito, porque aqui não há juízes ferrenhos, e sim amigos dispostos a esperar que lhe volte o sangue frio.
Começou em seguida a conversar calmamente com Otoni. Isto bastou para conquistar o estudante tímido, porém bem preparado, que acabou fazendo brilhante exame e obteve aprovação plena.
Diante de uma escola, numa cidade do interior por onde passava o Imperador, uma menina se preparava para ler um discurso em sua homenagem.
— Nada, nada, minha filha! Eu não gosto de discursos.
Mas logo se arrependeu, porque a criança, contrariada, assumiu um ar de choro.
— Bem, bem! Uma vez que tanto quer falar, venha cá. Venha conversar comigo.
Para encorajá-la, acrescentou:
— Vejo que você é inteligente. Não tenha medo. Mostre-me que você é inteligente, porque eu gosto muito de crianças. Eu tenho netinhos da sua idade.
O Imperador tratava com especial atenção todos os servidores da Casa Imperial, inclusive os escravos, quando ainda os tinha, ou ex-escravos que, depois de libertos, continuavam a servi-lo como empregados pagos. Assistia aos casamentos dos seus servidores, quando previamente avisado.
Quando o Santíssimo Sacramento saía da capela da Quinta, para a casa de algum empregado doente, Dom Pedro II acompanhava o padre, de tocha na mão, até o carro que o conduzisse.
Em 1866, durante a guerra do Paraguai, D. Pedro escreveu ao Marquês de Paranaguá: “Lembro-lhe as providências para que não falte de comer e agasalho, assim como roupa, aos que forem designados. Cumpre não demorar essas medidas”.
De quem se tratava aí? De filhos de grandes do Império, que seguiam para os campos paludosos do Paraguai? Nada disso! Visava o conforto de simples escravos, que deixavam a Fazenda Imperial de Santa Cruz e partiam para a guerra.
Às quintas-feiras o Imperador costumava jantar com a Princesa Isabel, no Palácio Guanabara, para onde seguia com a Imperatriz às 4 horas da tarde, escoltado pela guarda imperial. Não estava previsto que os cadetes seriam alimentados pela cozinha do palácio, o que lhes causava não poucos transtornos, porém desconhecidos pelo Imperador.
Certo dia, um cadete resolveu arranjar algum alimento. Dirigiu-se aos fundos do Palácio e penetrou na sala de jantar. Pegou uma penca de bananas, e quando ia apanhar também uma garrafa de vinho, deparou com o Imperador. Não se desconcertou. Depôs sobre a mesa o que apanhara, fez continência e disse:
— Vossa Majestade me perdoe. Estava com fome, vi estas belas bananas e não me contive.
— Por que não esperou o jantar, seu cadete? Não demorava.
— Saiba Vossa Majestade que aqui não nos fornecem jantar, e os que não têm dinheiro para comprar alguma coisa passam fome.
O Imperador ficou carrancudo, e nada disse. Pouco depois vinha um bom jantar do Palácio, e daí em diante isto se tornou rotina.
Narrando fatos que comprovavam a brandura de trato do Imperador, um distinto servidor do Paço dizia:
— É coisa admirável! Eu às vezes não posso conter-me diante de faltas cometidas no Paço, mas o Imperador nunca se zanga! A que ponto isto chega, seria necessário ver para crer.
A popularidade do Imperador cantada em versos
Popularidade autêntica é a que se conquista na voz do povo, que não admite imposições. Principalmente na poesia popular, que é a própria alma do povo. Não são muitos os nomes de heróis e bandidos, de intelectuais e políticos, que aparecem na poesia popular do Brasil. Entre esses nomes, teve lugar de destaque o do magnânimo Imperador D. Pedro II. Logo após o seu nascimento, as mães cantavam em Minas Gerais, ninando as crianças:
“Lá vai o sol entrando
Arraiando pelo mundo;
No dia 2 de dezembro
Nasceu Dom Pedro Segundo”.
Por ocasião da campanha da maioridade, o povo se manifestou com uma quadra que ficou famosa:
“Queremos Pedro Segundo,
Embora não tenha idade.
A Nação dispensa a lei,
E viva a maioridade!”
A popularidade de D. Pedro II começou, mesmo, após a maioridade, pois cansado estava o povo das revoltas e experiências. Ansiava por outra coisa, e pôs no jovem Monarca, por isso, todas as esperanças:
“Suba ao trono o jovem Pedro,
Exulte toda a Nação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união.
Vista a seda, traje a púrpura,
Exulte toda a Nação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união.
Foi abaixo a camarilha,
De geral indignação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união”.
De Norte a Sul do País, cantava a musa popular, com variações regionais:
“Atirei um limão n’água
De tão alto foi ao fundo;
Os peixinhos responderam:
Viva Dom Pedro Segundo!”
No tempo de Canudos, cantava-se:
“Saiu D. Pedro Segundo
Para o reino de Lisboa,
Acabou-se a Monarquia,
O Brasil ficou à toa.
Este povo está perdido,
Está sem arrumação,
E o culpado disso tudo
É o chefe da Nação”.
***
Visite agora os sites:
www.fatoshistoricos.com.br
www.mundodanobreza.com.br
Assinar:
Postagens (Atom)