Cumprimento do dever e amor à justiça, qualidades do Conde d’Eu
Nas três vezes em que a Princesa Isabel assumiu a Regência do Império, a atitude que manteve o Conde d’Eu foi a mais correta. Nunca nenhum político que foi ministro nesses períodos disse o contrário. Um constituinte republicano afirmou: “O que era possível fazer para conquistar o título de brasileiro, ele o fez: regulamentos, projetos de lei para melhor organização do Exército e aperfeiçoamento do seu material de guerra; escolas, bibliotecas, colônias orfanológicas para a infância desamparada; tudo enfim quanto podia falar à gratidão das massas mais desprotegidas da sorte ou às diversas classes da sociedade, ele planejou ou executou na maior parte”.
Durante a campanha do Paraguai, se as circunstâncias militares e políticas não lhe permitiram – mau grado dele, aliás – combater o inimigo do Brasil desde o início das hostilidades, sua ação de comandante-chefe, na última fase da guerra, quando os nossos melhores generais escasseavam já, por doentes ou cansados, foi cheia de heroísmo e de dignidade, e nunca se soube que tivesse se exercido em desabono das tradições do exército brasileiro.
Em suas “Memórias”, Taunay enumera as qualidades do Conde d’Eu: “Gosto pelo trabalho, amor sincero ao estudo, consciência no saber, espírito inimigo da futilidade e cheio de modéstia. Muita ordem na vida econômica, aborrecimento à intriga e aos mexericos. Desconfiança de si mesmo, desejo de servir bem e cumprir o dever. Absoluta simplicidade nos modos. Amigo da justiça nos conceitos, pouco propenso a ouvir e aceitar bajulações. Esposo exemplar, de fidelidade intangível, escrupulosíssima. Excelente pai de família, impossível melhor, exagerado até no amor aos filhos e nos cuidados de que os rodeia incessantemente. Crença viva na Religião. Discrição no falar, nenhum arrebatamento, paciente e nobremente resignado”.
Desejava ardentemente o Conde d’Eu participar da guerra no Paraguai, desde o início, mas encontrava invencível resistência em D. Pedro II, como também nos ministros. Contudo ele insistia. Tendo ido jantar com o Imperador, encontrou-se com o Marquês de Caxias, que acabava de ser promovido a Marechal do Exército e nomeado comandante geral das tropas brasileiras. Num dos corredores do Palácio, não se conteve e indagou sem rodeios:
— Marechal, o senhor consentiria em que eu fosse servir no Paraguai, sob suas ordens?
— Oh, senhor! Isso é muita honra para mim. Eu é que desejava ir sob as ordens de Vossa Alteza. Mas... isso depende do Governo.
Só bem mais tarde, quando Caxias retornou do campo de batalha, pôde o Conde d’Eu combater, agora como comandante geral, com a idade de 27 anos.
O general Osório, Marquês de Herval, em saudação ao Conde d’Eu durante banquete em sua homenagem, a 25 de maio de 1877, afirmou:
— Brindo ao Sr. Conde d’Eu, meu companheiro de armas, que sempre prodigalizou-me as maiores provas de consideração. Brindo-o pelo seu valor, pela sua coragem e pela justiça com que administrou o Exército. Brindo-o porque no Paraguai deu sempre provas de amar o Brasil e devotar-se de alma ao seu serviço, como os brasileiros que lá serviam.
A caminho do campo de batalha, as preocupações humanitárias do Conde d’Eu
Um interessante exemplo da preocupação humanitária do Conde d’Eu se encontra no seu diário da viagem a Uruguaiana, em 1865, quando se iniciava a guerra do Paraguai:
“Os corpos do exército de Flores e do general argentino Paunero bateram e aniquilaram hoje (17/8/65), nas alturas de Uruguaiana, os paraguaios da margem direita, em número de 4.000. Segundo estas notícias, que ainda não são oficiais, só teriam escapado 300, dos quais 50 ficaram prisioneiros dos aliados.
A vitória das forças aliadas está, pois, fora de toda a dúvida. Para saber pormenores positivos, será necessário aguardar o relatório oficial de Flores. Parece incrível, à primeira vista, que um corpo de 4.000 homens tenha quase totalmente perecido, e no curto espaço de hora e meia. Querem alguns, sem esperar explicação, enxergar nisto crime dos generais orientais, que nem sempre se têm distinguido por sua generosidade para com os vencidos. Quanto a mim, prefiro, até mais amplas informações, ter melhor opinião dos nossos aliados e explicar esse morticínio pela coragem cega, ou antes, fanatismo, que por ora têm mostrado nos combates os soldados paraguaios, o que torna muito difícil conservar-lhes a vida”.
Uma semana depois, relata: “Recebemos o relatório oficial da batalha e as quatro bandeiras paraguaias, que no dia 17 caíram nas mãos dos aliados. Por fim, e é o mais importante, a carta vem pôr termo à cruel dúvida em que ainda nos encontrávamos a respeito da sorte dos inimigos vencidos. Não são só 50, como se dizia, os prisioneiros que se encontram em poder dos aliados, porém 1.200. Tanto melhor para a humanidade e para a honra dos exércitos aliados”.
O Conde d’Eu anotou no diário o seguinte episódio da sua viagem a Uruguaiana:
“O jantar do Sr. Eufrásio fez-se esperar, mas resgatou a demora com o esplendor: grande mesa luxuosamente posta, cozinha francesa delicada e abundante. Não tardei a descobrir que as pessoas da estimável família Eufrásio eram grandes viajantes. Aos meus primeiros cumprimentos a propósito da sua casa, a senhora Eufrásia respondeu-me com modéstia:
— Mas para quem tem andado pela Europa, tudo isto é muito feio.
Não entendi que nisto houvesse segunda intenção. Porém, ao ver que esta palavra Europa lhe voltava freqüentemente aos lábios, ousei perguntar-lhe:
— A senhora esteve na Europa?
— Sim, senhor! Dois meses em Paris, e mês e meio em Londres.
Estava dado o primeiro passo. Nunca mais se esgotou a conversação”.
Ainda algumas anotações do diário do Conde d’Eu:
“Pelo fato de se ter deixado aprisionar, um soldado paraguaio que interrogávamos sabia muito bem que, para o seu governo, ele é agora um grande criminoso. Quando o Imperador lhe perguntou se desejava regressar ao seu país, a fisionomia, ordinariamente risonha, tornou-se logo sombria, e respondeu, com voz apavorada, que se o queriam mandar para lá, era melhor morto do que vivo, pois tinha a certeza de que lhe fariam sofrer algum cruel suplício.
Os homens do Norte, esses homens de pequena estatura, trigueiros, muitos deles mestiços, que deixaram as suas residências tropicais para virem, a 800 ou a 1.000 léguas de distância, defender a Pátria comum num clima para eles inóspito, inspiram-me profunda simpatia. Amando muito o Brasil, agrada-me também muitíssimo o Brasil tropical, a sua perpétua primavera, as suas imensas florestas e as suas esplêndidas montanhas revestidas de eterna verdura.
O que é digno de admiração é a paciência do Imperador, que pára ao pé de cada um daqueles 89 doentes, a perguntar ele próprio de que se queixa, de que província é e, sempre que o seu rosto mostra excessiva mocidade, que idade tem. Infelizmente, mais de um revela ter menos que a idade legal de 18 anos”.
Conde d’Eu, o único que pode dar esperanças e animar a todos
Com a entrada do exército brasileiro em Assunção e a fuga de Solano López, Caxias dava por concluída a guerra do Paraguai. Adoentado, e a conselho médico, retornara ao Rio de Janeiro, deixando o exército acéfalo. Porém o Imperador só concordaria em dar por encerrada a guerra após a rendição incondicional do ditador ou a sua morte em batalha, ou ainda a sua fuga do Paraguai. Depois de maduras reflexões, D. Pedro decidira enviar o Conde d’Eu, marechal do Exército, para comandar as tropas. Mas não adiantou a ninguém a sua decisão. Em reunião do Conselho de Ministros, a mesma idéia ocorreu simultaneamente a mais de um.
O Barão de Cotegipe afirmou, em carta ao Visconde do Rio Branco: “O Conde d’Eu é o único que, por sua posição, pode conter uma espécie de debandada, dar esperanças a uns e animar a todos”.
Em resposta, comentou o Visconde do Rio Branco: “Não me surpreendeu a idéia que aí tiveram quanto ao comando em chefe. Passou-me ela pela mente, tanto pela necessidade quanto pela insistência do indicado. Não vejo hoje nenhum inconveniente”.
Em carta ao general Dumas, seu antigo preceptor, o Conde d’Eu comenta: “Esta expulsão de López da região do Prata não é somente uma questão de honra nacional para o Brasil, mas é também uma questão de vida ou morte para a organização pacífica das repúblicas nossas aliadas. Para elas, ainda mais do que para nós, a existência de López será sempre uma espada de Dâmocles”.
Como se sabe, o comando da última fase da guerra foi conduzido magistralmente, culminando com a morte em batalha do ditador paraguaio. Ao voltar para o Rio, desacompanhado de regimentos, música e bandeiras, a população acolheu o Conde d’Eu com estupenda manifestação. Nenhum outro general fora ainda recebido assim, após lutar no Paraguai, o que deu origem a melindres injustificáveis.
Logo que se instalou em Assunção um governo provisório, após a vitória do Brasil e seus aliados na guerra do Paraguai, o Conde d’Eu dirigiu a esse governo uma carta pedindo a emancipação dos escravos ainda existentes naquele país:
“Em vários pontos do território desta República, que percorri à frente das forças brasileiras em operações contra o ditador López, tive ocasião de encontrar indivíduos que se diziam escravos, e muitos deles a mim se dirigiram pedindo que lhes concedesse a liberdade. Teriam assim motivo para se associar à alegria que experimenta a nação paraguaia, ao se ver livre do governo que a oprimia. Conceder-lhes o que pediam seria para mim uma agradável ocasião de satisfazer meus sentimentos, se tivesse poder para fazê-lo.
Estando agora constituído o governo provisório de que estais encarregados, é a ele que compete decidir sobre todas as questões que interessam à administração civil do país. O melhor que posso fazer é dirigir-me a vós, como o faço, para chamar a atenção sobre a sorte desses infortunados, no momento da emancipação de todo o Paraguai.
Se lhes concederdes a liberdade pedida, rompereis solenemente com uma instituição que infelizmente foi legada a diversos povos da livre América. Tomando esta resolução, que pouco influirá sobre a produção e os recursos materiais deste país, tereis inaugurado dignamente um governo destinado a reparar todos os males causados por uma longa tirania, e a dirigir a nação paraguaia para esta civilização que felicita os outros povos”.
Em conseqüência do pedido, o governo provisório do Paraguai decretou, a 2 de outubro de 1869, a abolição total e imediata da escravidão.
Como um Príncipe comanda a guerra
O testemunho dos companheiros de armas do Conde d’Eu basta para demonstrar que não se pode escrever a história da guerra do Paraguai sem lembrar devidamente o seu nome, honrando-o.
João da Fonseca Varela, veterano da guerra do Paraguai, contou que corria nos acampamentos a lenda de que o Conde d’Eu dormia com um olho fechado e o outro aberto. E quase sempre vestido. Havia ordem para qualquer pessoa procurá-lo, e instituíra as audiências públicas semanais. Nunca um soldado deixou de ser recebido por ele.
Durante a guerra do Paraguai, quando a fome e as doenças desgastavam o ânimo dos soldados brasileiros, um oficial se queixou da situação ao Conde d’Eu. O Príncipe o chamou a participar da sua mesa, e disse-lhe:
— Veja como eu passo. Tenhamos paciência e coragem, salvemos a nossa honra e a do nosso País, indo adiante.
Relata o Visconde de Taunay, testemunha ocular:
Nos incessantes reconhecimentos, às vezes seguidos um dia após outro, mostrou o Príncipe grande habilidade estratégica, paciência de experimentado capitão, indiscutível coragem e notável sangue-frio. Uma vez, diante da picada de Ascurra, cuja artilharia enfrentávamos, convidou alguns oficiais para nos aproximarmos o mais que fosse possível. Observei então:
— Pelo menos, convém pormos as capas dos bonés, para ocultarmos as nossas divisas de oficiais, já que nos vamos expor tanto.
O Príncipe concordou:
— Com efeito. É precaução bem lembrada.
Tão perto chegamos, que distingui perfeitamente as feições e barbas dos artilheiros inimigos. Desta forma o comandante em chefe patenteou bem claramente ao seu exército que sabia também ser valente, e não tinha medo da morte.
Quando o exército comandado pelo Conde d’Eu atravessava um riacho, sob a fuzilaria dos adversários, o general Menna Barreto correu ao seu encontro e lhe disse:
— Não há necessidade de se expor tanto. A batalha está ganha. Se precisássemos de um grande exemplo por parte do Príncipe e general em chefe, eu não impediria Vossa Alteza de o dar, a bem da vitória de nossas armas.
No entusiasmo do combate, o Conde d’Eu galopava, acompanhado do seu estado-maior, avançando sempre, até ficar ao alcance da fuzilaria inimiga, sem sequer cogitar do perigo que a sua pessoa corria. O capitão Francisco Joaquim de Almeida Castro o alcança, e com grande esforço contém o cavalo do Príncipe. Enraivecido, este ordena:
— Está preso, capitão!
— Quero ser preso, senhor, mas também quero salvar a vossa vida!
O marechal Deodoro costumava declarar:
— Não gosto do Conde d’Eu, solenemente antipatizo com ele. Mas a verdade me obriga a dizer: foi um dos mais ilustres generais sob os quais servi.
Exílio do Conde d’Eu e suas lembranças do Brasil
Seria necessário encher grossos volumes, para relatar tudo quanto se propalava no sentido de indispor o príncipe consorte com a opinião pública.
No dia 17 de novembro de 1889, a bordo do navio que levaria a Família Imperial para o exílio, o Conde d’Eu escreveu a seguinte carta:
“A todos os amigos que nessa terra me favoreceram com sua sincera e por mim tão apreciada afeição; aos companheiros que, há longos anos já, partilharam comigo as agruras da vida de campanha, prestando-me inestimável auxílio em prol da honra e segurança da Pátria brasileira; a todos que, na vida militar ou na civil, até há pouco se dignaram comigo colaborar; a todos aqueles a quem, em quase todas as províncias do Brasil, devo finezas sem número e generosa hospitalidade; e a todos os brasileiros em geral, um saudosíssimo adeus e a mais cordial gratidão.
Não guardo rancor a ninguém; e não me acusa a consciência de ter cientemente a ninguém feito mal. Sempre procurei servir lealmente ao Brasil na medida de minhas forças. Desculpo as acusações menos justas e juízos infundados, de que por vezes fui alvo.
A todos ofereço minha boa vontade, em qualquer ponto a que o destino me leve. Com a mais profunda saudade e intenso pesar afasto-me deste País, ao qual devi, no lar doméstico ou nos trabalhos públicos, tantos dias felizes e momentos de imorredoura lembrança. Nestes sentimentos acompanham-me minha muito amada esposa e nossos ternos filhinhos que, debulhados em lágrimas, conosco empreendem hoje a viagem do exílio.
Praza a Deus que, mesmo de longe, ainda me seja dado ser em alguma coisa útil aos brasileiros e ao Brasil”.
Em 1921, quando visitou o Brasil pouco antes de sua morte, o Conde d’Eu foi recepcionado e acompanhado pelo historiador Max Fleiuss, que deixou narrados alguns episódios ocorridos na ocasião:
“No Palace Hotel, onde se achava hospedado, assisti a várias cenas que confirmavam a sua estupenda memória. Certa manhã foi visitá-lo um cavalheiro da família Miranda Montenegro. Ao entrar, fez uma reverência. O Conde encarou-o, e de pronto chamou-o pelo nome de batismo. Disse-nos havê-lo conhecido menino, na fazenda de seus genitores, contando pitorescamente vários incidentes, um dos quais foi a passagem numa pequena ponte carcomida, do que resultou um banho nada confortável.
Outra visita foi a de um ancião de grandes barbas brancas, calças da mesma cor e um fraque antigo. Ao vê-lo, o Conde abraçou-o com enternecimento e, pondo-lhe a mão na cabeça, exclamou:
— Cá está ela!
Era uma depressão produzida por bala, na batalha de Campo Grande. O velho chorou de prazer”.
O Conde d’Eu insistiu em visitar o Palácio Guanabara, que fora a residência oficial da Princesa Isabel e dele. Ao se aproximar, comentou:
— Como está mudado!
Descendo do automóvel, ficou diante do portão, silencioso, estático, os olhos molhados, rolando saudosamente à direita e à esquerda, como numa evocação. Depois, voltou-se. O seu olhar estendeu-se por toda a Rua Paissandu, e ele caminhou para as três palmeiras do começo da rua:
— Está aqui! São estas! São estas! Estas três foram plantadas por Isabel. E aquelas outras foram plantadas por mim.
Pediu-me que o levasse à Igreja da Glória.
Ao chegarmos ao pátio do templo tradicional, a igreja estava de portas fechadas. Um homem varria a escadaria exterior. Saltei do automóvel e pedi permissão para entrarmos.
— Agora não é possível, patrão.
Insisti, alegando que estava ali o Conde d’Eu. Ao ouvir o nome de Sua Alteza, o varredor arregalou os olhos, e a vassoura caiu-lhe das mãos. O homem sumiu-se, e minutos depois a porta da igreja abria-se. Entramos. O templo estava vazio, mudo, mergulhado numa penumbra que era escuridão para os nossos olhos acostumados à claridade exterior. O Conde encaminhou-se para o altar-mor, e ali ficou, num esforço de pupilas, a olhar a imagem. Subitamente, para nossa surpresa, a igreja iluminou-se. É que o varredor correra a avisar o sacristão, e a surpresa da luz fora um gesto gentil do sacristão, para com o marido da Redentora”.
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FATOS DO BRASIL IMPÉRIO
Bem vindo ao blog FATOS DO BRASIL IMPÉRIO. Aqui são narrados fatos da época do Império, geralmente pouco conhecidos, extraídos do livro REVIVENDO O BRASIL-IMPÉRIO, que publiquei sob o pseudônimo Leopoldo Bibiano Xavier. Leitura muito útil, que dá uma visão realista do modo como o Imperador Pedro II conduzia os destinos do País.
Você está convidado a visitar também os sites referentes ao meu livro mais recente, A VOLTA AO MUNDO DA NOBREZA, que contém mais de 1.700 fatos mostrando a atuação da nobreza em diversos países e épocas:
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12 - ALGUNS PERSONAGENS DO IMPÉRIO BRASILEIRO
Seriedade e honradez nos homens do Império
Na atualidade, há um consenso geral em torno de se evitar reconhecimento de mérito a tudo o que for expressão de elite. No entanto, é mais do que certo que país algum pode aspirar a crescer sem o concurso dos melhores, sem o aproveitamento de seus maiores talentos e capacidades. O rol dos talentos era tão grande, no Império, que tornava-se difícil apontar os que sobressaíam. Foi o que Machado de Assis imortalizou em “O Velho Senado”. Por isso mesmo o País havia assumido uma posição que em muitos aspectos causava inveja no exterior: éramos uma ilha de paz e progresso na América do Sul.
Em uma visita de D. Pedro II a Victor Hugo, este lhe perguntou se não tinha receio de deixar o seu Império por tanto tempo, ao que o Imperador respondeu:
— Não. Os negócios públicos fazem-se perfeitamente na minha ausência. Há na minha terra muitas pessoas que valem tanto ou mais do que eu. Além disso, aqui não perco o meu tempo. Reino sobre um povo jovem, e é para esclarecê-lo, torná-lo melhor, fazê-lo marchar para a frente, que uso dos meus direitos, ou do poder que me coube pelos acasos da fortuna e do nascimento.
Escrevendo sobre os ministros de Estado do Segundo Reinado, o Conde Afonso Celso acentuou: “Nenhum ascendeu ao Governo por mero favoritismo ou por capricho, nenhum comprometeu a dignidade governamental, nenhum foi vergonhosamente esmagado, nenhum se portou de maneira ignóbil nem deixou nome odioso na tradição popular. Nunca, um só que fosse, se aproveitou de suas funções para locupletar-se. Todos se exoneravam endividados ou menos ricos. Era um sacrifício ser ministro”.
Joaquim Manuel de Macedo, o célebre romancista autor de “A Moreninha”, era deputado e professor das princesas, filhas de D. Pedro II. O Conselheiro Francisco José Furtado, organizador do Gabinete de agosto de 1864, o convidou para a pasta de Estrangeiros. Recusado o convite, mandou o Imperador chamá-lo à sua presença, e indagou o motivo da recusa, tendo em vista que ele possuía tantas qualidades para ser um bom ministro. E a resposta:
— Admita-se que eu tenha as qualidades que Vossa Majestade me atribui. Mas eu não sou rico, e a riqueza é um requisito indispensável a um ministro que queira ser independente. E não quero sair do Ministério endividado ou ladrão!
O Governo republicano, com o intuito de minorar o infortúnio de alguns senadores do Império, ofereceu-lhes uma pensão. A isto reagiu o Visconde de Sinimbu com a seguinte carta: “Na solidão onde vim recolher-me e provisoriamente resido, retirado da vida pública após o cruciante golpe e a suprema desgraça com que aprouve a Deus ferir-me, enviuvando-me no próprio dia da abolição da Monarquia, chegou-me a notícia do decreto do Governo Provisório, concedendo-me a pensão mensal de 500 mil réis. Como resolução que me prescreve a consciência, me dita a dignidade e me impõe a honra, rejeito a graça; e, salva a intenção, repilo-a como afronta e como ultraje à minha obscura pessoa e à minha pobreza honrada”.
Alguns exemplos de desinteresse nos ministros do Império
Os ministros da regência de D. Pedro I reduziram seus ordenados à metade do que eram no tempo de D. João VI. Ficaram em quatro contos e oitocentos mil réis anuais, pagos mensalmente.
José Bonifácio recebeu certa vez o seu salário de quatrocentos mil réis, meteu as notas no fundo do chapéu, e no teatro lhe roubaram o chapéu e o conteúdo. No dia seguinte, achou-se sem ter com que mandar comprar o jantar. Não possuía nem um vintém mais, e seu sobrinho Belchior Fernandes Pinheiro foi quem pagou as despesas do dia.
Em reunião do Conselho, José Bonifácio referiu esta ocorrência e a extrema necessidade a que ela o reduziu e à sua família. O Imperador entendeu que o ministro, visto a penúria em que se achava, devia ser indenizado, pagando-se a ele outro mês de ordenado, e neste sentido deu ali suas ordens a Martim Francisco, irmão de José Bonifácio e ministro da Fazenda.
Martim Francisco não obedeceu. Argumentou com o Imperador que não havia lei que pusesse a cargo do Estado os descuidos dos empregados públicos; que o ano tinha doze meses para todos, e não treze para os protegidos; e, finalmente, pedia a Sua Majestade que retirasse a ordem, por ser inexeqüível, e porque ele, Martim Francisco, repartiria com o irmão o seu próprio ordenado, e viveriam ambos com mais parcimônia aquele mês. Isto seria melhor do que dar ao País o funesto exemplo de se pagar ao ministro duas vezes o ordenado de um só mês.
José Bernardino de Almeida Sodré era ministro da Fazenda, em 1828. Seu colega da pasta da Guerra lhe oficiou, pedindo o pagamento das despesas de transporte, e outras, de alguns operários que o Imperador mandara engajar na Alemanha. Recusado esse pagamento, mandou D. Pedro I chamar o ministro, interpelando-o. Sodré respondeu:
— Senhor, no orçamento que vigora não tenho verba que autorize essa despesa. Ela é, portanto, ilegal, e não a posso pagar.
— Mandei engajar esses homens, e quero que as despesas sejam pagas.
— E sê-lo-ão, Senhor, já que Vossa Majestade o quer.
Dias depois, indagado pelo Monarca sobre o cumprimento da sua ordem, o ministro informou:
— Em face da lei, o Tesouro Nacional não podia pagar a esses engajados. A ordem de Vossa Majestade tinha, porém, de ser cumprida.
— E então?
— Paguei-os do meu bolso particular.
Falando com o Visconde Nogueira da Gama sobre Frei Pedro de Santa Mariana, seu desinteressado professor, D. Pedro II comentava:
— Sabe quanto ele tem sido caluniado...
— Até alcunhado de Frei Malagrida!
— Pois bem. Assevero-lhe que nunca me pediu coisa alguma, sabendo que eu nada lhe negaria do que de mim dependesse.
Pequenos fatos marcantes da vida de Caxias
O major Miguel de Frias, derrotado a 3 de abril de 1832 pelo major Luiz Alves de Lima e Silva, pôs-se em fuga e tentou escapar. Indo ao seu encalço, Lima e Silva foi informado sobre a casa em que o chefe revoltoso se havia asilado. Aproximou-se, e o dono da casa lhe franqueou a residência, que Caxias percorreu. Ao fim de um corredor havia uma porta fechada a chave. Caxias a abriu, e no centro do quarto, de pé, o major Frias o esperava. Os dois se olharam, mudos. Ao fim de um instante Caxias se retirou, dizendo ao dono da casa:
— Desculpe-me. Não há ninguém...
No dia seguinte Miguel de Frias fugia, asilando-se nos Estados Unidos.
Caxias comprara em 1850 uma fazenda na província do Rio de Janeiro. Ao tomar posse, encontrou 60 escravos além do número ajustado. Sem demora, comunicou o fato ao vendedor, que respondeu:
— São escravos da Nação. Continue a desfrutar os seus serviços.
Caxias reuniu os negros e, sem a menor hesitação, lhes deu liberdade incondicional.
Durante a guerra do Paraguai, num dia chuvoso, Caxias estava molhado, a cavalo, debaixo de uma árvore. A cada instante a região era varada por balas de artilharia. Chegou-se a ele um ordenança de cavalaria, trazendo com cuidado uma xícara de café:
— O Sr. Bonifácio de Abreu manda isto a V. Exa. Recomendou-me que não deixasse cair uma só gota no chão.
Olhou-o o marechal calmamente, e disse:
— Eu não quero. Beba-a você, camarada.
Voltando depois para o seu estado-maior, observou:
— Quando os meus soldados estão morrendo na chuva, nesta saraivada de balas, não posso dar-me nenhuma regalia, por pequena que seja.
O Duque de Caxias era ministro da Guerra, quando o Imperador foi visitar, em sua companhia, um dos quartéis da capital. Percorreu o edifício todo, indo até a cozinha, onde se servia na ocasião o rancho dos soldados.
— Dê-me uma destas marmitas – disse o Soberano.
Foi atendido e tomou todo o conteúdo, declarando que, mesmo no Paço, jamais tomara sopa tão saborosa. Disciplinado e disciplinador, Caxias não gostou da singeleza do Monarca. Ao portão do quartel, disse-lhe:
— Desculpai a minha franqueza. Por esse processo, Vossa Majestade não se populariza, mas se vulgariza.
O Imperador admirou em Florença o quadro “Batalha do Avaí”, de Pedro Américo. Quando a obra chegou ao Brasil em 1877, foi vê-la novamente acompanhado de Caxias, então presidente do Conselho de Ministros. Os elogios eram unânimes, mas Caxias, que fora o comandante da batalha e era a figura dominante na tela, conservava-se mudo. Discretamente, o Imperador perguntou-lhe:
— Que diz, Sr. Caxias?
— Desejava saber onde o pintor me viu de farda desabotoada. Nem no meu quarto!
General Osório, o arrojado comandante de homens livres
O Visconde de Taunay foi levar ao general Osório, durante a guerra do Paraguai, uma carta do Conde d’Eu, e o encontrou a ler, sozinho, deitado numa rede. Ao vê-lo, Osório disse:
— Olha! Tu, que és bacharel, deves entender disto. Toma lá este livro e traduze-me este diabo de inglês, que está duro de roer.
Havia no início do livro alguns termos técnicos, que colocaram o improvisado tradutor em apuros, levando-o a muitas hesitações.
— Está bem! Vai bem! – repetia-lhe o general, rindo-se.
Algum tempo depois Osório caiu no sono, e Taunay se retirou de mansinho. No dia seguinte, o general interpelou o tradutor:
— Então, seu safadinho! Foste saindo à francesa, hein?!
— Mas V. Exa. estava dormindo profundamente!
— É verdade! E que sono delicioso! Cheio dos sonhos os mais agradáveis. Sonhei que estava traduzindo corrente e perfeitamente aquele inglês todo, incomparavelmente melhor do que tu, que és bacharel formado.
Em conselho de guerra, discutia-se como tomar certa posição ocupada pelas forças de Solano López. Queria o Conde d’Eu contorná-la, opinando o general Osório por um ataque de frente. Dizia o Conde:
— Mas isto, Sr. Osório, é o que se chama atacar o touro pelos chifres.
— Qual touro, alteza! Nem meio touro! Já foi touro, mas hoje não passa de vaca velha!
Durante a guerra do Paraguai, o general Osório procurou o chefe do corpo de engenheiros, que nada resolvia sem consultar o seu carregamento de livros, e avisou-o:
— Coronel, é preciso atravessar amanhã este rio, com todo o exército.
— Impossível, general.
— Não sei se é impossível, mas sei que é preciso.
— Mas, general, não me é possível dar-lhe os meios para isso.
— O senhor coronel vai ver se passamos ou não.
Osório mandou chamar um major de transportes, homem de espírito prático, que fazia verdadeiros milagres. Disse-lhe o que queria e como queria, e no dia seguinte todo o exército atravessou o rio, inclusive o chefe do corpo de engenheiros, com todo o seu carregamento de livros.
Aos companheiros de armas que o censuravam pela afoiteza com que enfrentava perigosos combates e situações difíceis, Osório respondia:
— Eu preciso provar aos meus comandados que o seu general é capaz de ir aonde os manda.
Grande parte dos soldados que combateram no Paraguai eram negros escravos. Na noite de 15 de abril de 1866, pouco antes de começar a travessia do Rio Paraná, o general Osório, fazendo-se acompanhar de cavaleiros riograndenses conduzindo archotes, passou em revista o seu exército, e disse:
— Soldados, é fácil a missão de comandar homens livres. Basta mostrar-lhes o caminho do dever. O nosso caminho está aí em frente!
Aquela bem escolhida e feliz expressão “homens livres” teve sobre a tropa o efeito de uma eletrização inesperada e irresistível. Os homens, sem distinção de cores ou de raças, abraçaram-se a rir e a chorar, e logo prorromperam em estrondosas aclamações ao seu general. A conseqüência foi o patriótico decreto de 6 de novembro, que deu liberdade gratuita aos escravos designados para o serviço militar.
Hombridade e coerência em políticos do Império
O general Osório, durante a guerra do Paraguai, foi procurado por um negociante que queria vender cavalos ao Exército, na maioria imprestáveis. Queria uma carta do general, recomendando-o à Comissão. Osório respondeu:
— Homem, você é entendido na matéria, e não desconhece as exigências do Governo. Se os seus cavalos são bons, para que quer recomendações?
— Para evitar injustiças.
— Pois, então, escreva você mesmo o que vou ditar. E ditou:
“Ilustríssimos senhores: O portador vai conduzindo uma cavalhada, que pretende vender ao Estado mediante o prévio exame da Comissão, de que V. Sas. são digníssimos membros. A primeira condição para a boa cavalaria é a velocidade, e esta depende da excelência dos cavalos. Portanto, seria escusado lembrar duas coisas: primeira, que os animais imprestáveis que o portador apresentar devem ser refugados; segunda, que V. Sas. devem ser rigorosos no cumprimento das ordens do Governo. Esta carta só tem por fim pedir que V. Sas. despachem com brevidade o portador”.
— Não, general. Esta carta não me serve.
— Pois dê-ma – disse Osório, tomando-a de cima da mesa e rasgando-a –. Que queria de mim? Uma indignidade? Que idéia faz o senhor da honra alheia? Se não a tem, respeite a dos outros.
Em junho de 1889, ao apresentar-se o novo ministério na Câmara dos Deputados, o deputado padre João Manuel declarou-se republicano, e concluiu o seu discurso bradando: “Viva a República!”
Levantando-se, o Visconde de Ouro Preto retrucou energicamente:
— Viva a República, não! Não e não! Pois é sob a Monarquia que temos obtido a liberdade que os outros países nos invejam, e podemos mantê-la em amplitude suficiente para satisfazer as aspirações do povo mais brioso. Viva a Monarquia! Forma de governo que a imensa maioria da Nação abraça, e a única que pode fazer a sua felicidade e a sua grandeza.
Preso na noite de 15 para 16 de novembro, o Visconde de Ouro Preto foi conduzido ao quartel do 1º Regimento, onde adormeceu. Alta noite, entrou no compartimento um oficial, o tenente Menna Barreto, que lhe gritou:
— Acorde e prepare-se, que mais tarde tem de ser fuzilado.
Ouro Preto se pôs de pé e replicou:
— Só se acorda um homem para o fuzilar, e não para o avisar de que vai ser fuzilado. O senhor verá que, para saber morrer, não é preciso vestir farda!
Exilado em Lisboa, o Visconde de Ouro Preto participava de uma roda de várias pessoas, em visita a um comerciante rico. Um dos visitantes, que fizera fortuna no Brasil e voltara para Portugal, resolveu interpelar o Visconde, em tom de agrado:
— Hein, Sr. Visconde! O povo daqui tem mais fibra que o de lá. Não presenciaria bestificado a queda do regime, conforme a expressão de um ministro da República. Nem deixaria, sem reação, ser expelido um soberano como D. Pedro II, e uma sumidade como V. Exa.
Com veemência, o Visconde respondeu:
— O senhor não tem competência para julgar a gente da minha terra. É tão digna, altiva e capaz de bravura quanto a portuguesa. Pelo menos, lá não há quem deixe o Brasil para vir ganhar dinheiro em Portugal, e depois regresse ao Brasil a falar mal dos portugueses.
Depois destas palavras, houve um longo silêncio. Então o Visconde ergueu-se, acrescentando:
— Já que ninguém mais protesta contra a injustiça feita a meu País, retiro-me como um novo protesto.
Amenidades entre políticos do Império
Em um folhetim de 1855, dizia José de Alencar:
“No salão recebem-se todas as visitas de cerimônia ou de intimidade; dão-se bailes, reuniões dançantes e concertos. Conversa-se ao som da música, conferencia-se a dois no meio de muita gente, de maneira que nem se fala em segredo, nem em público.
Se a palestra vai bem, procura-se alguma chaise-longue num canto de sala, e a pretexto de tomar sorvete ou gelados, faz-se uma transação, efetua-se um tratado de aliança. Se a conversa toma mau caminho, aí aparece uma quadrilha que se tem de dançar, uma senhora a que se devem fazer as honras, um terceiro que chega a propósito, e acaba-se a conferência. Livra-se assim o ministro do dilema em que se achava, do comprometimento de responder sim ou não”.
O Barão de Cotegipe definia pitorescamente a atividade social e política dos salões: Não se faz política sem bolinhos.
O Marquês de Abrantes nunca se convencera da surdez do Marquês de Olinda, seu amigo. Era uma surdez política, que melhorava ou piorava de acordo com a vontade do doente. Certo dia Abrantes resolveu pôr à prova o assunto. Enquanto jogavam cartas, disse em voz baixa, quase inaudível:
— Veja lá como joga, velho besta!
— Que diz?
— Digo que o senhor joga admiravelmente...
Terminada e ganha a partida, Olinda perguntou:
— Então, seu Abrantes, o velho besta jogou bem?
Dando uma gargalhada, Abrantes respondeu:
— Ah! seu Olinda, eu sempre desconfiei que o senhor só era surdo quando lhe convinha. E acertei!
Francisco Acaiaba Montezuma, Visconde de Jequitinhonha, foi senador pela Bahia depois de ter sido o seu nome levado à Coroa três vezes. O implacável “lápis fatídico” do Imperador tinha sobre ele anotações não muito favoráveis, e a indicação só foi conseguida pela insistência do Marquês de Paraná, presidente do Conselho de Ministros.
Morava em uma casa magnífica com grande chácara, no Rio Comprido. O Imperador uma vez lhe disse:
— Sr. Visconde, tenho ouvido falar muito de sua residência. Dizem que é uma bela vivenda.
— Vá Vossa Majestade almoçar lá, e poderá ver que, se não é digna de receber Vossa Majestade, é entretanto confortável para um homem como eu.
O Imperador aceitou o convite, e no dia marcado foi almoçar em casa do Visconde. Durante a refeição, perguntou a Montezuma:
— O Sr. é fatalista?
— Sem dúvida. E tenho motivos para o ser.
— Posso saber quais são?
— Olhe, Senhor. A primeira vez que meu nome veio a Vossa Majestade na lista para ser senador, ao voltar do sertão da Bahia o cavalo em que eu montava tropeçou e eu caí: Vossa Majestade não me escolheu. Da segunda vez deu-se o mesmo fato, e Vossa Majestade novamente não escolheu o meu nome. Pela terceira vez deram-se as mesmas ocorrências, e então Vossa Majestade me escolheu.
— Mas não vejo onde está a fatalidade.
— É que Vossa Majestade havia de me escolher, querendo ou não.
Em fins de 1877, o Duque de Caxias, que presidia o Ministério, ficou muito doente. Para certificar-se do estado de saúde do velho servidor, o Imperador foi visitá-lo na Fazenda de Santa Mônica, e verificou que ele não podia continuar incumbido de tarefa tão árdua. Para substituí-lo, foi indicado o Visconde de Sinimbu.
Combinado com o Imperador o programa do Gabinete, nos termos acerca dos quais estavam de acordo, Sinimbu tratou de formar a sua lista de ministros. A entrada de Silveira Martins no Ministério era não só o reconhecimento dos seus grandes serviços na oposição, mas também a satisfação de uma espécie de compromisso. O notável tribuno era assíduo freqüentador da casa de Sinimbu, onde por vezes repetia que este devia organizar o próximo gabinete liberal. Mas ouvia sempre a resposta:
— Qual! O senhor não pense nisto, pois bem deve saber que será o Nabuco.
Silveira Martins insistia. Um dia Sinimbu o atalhou:
— Pois bem, se eu organizar o Ministério, o senhor será o ministro da Fazenda.
O novo presidente do Conselho não quis que sua palavra voltasse atrás, e Silveira Martins foi para o Ministério.
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Na atualidade, há um consenso geral em torno de se evitar reconhecimento de mérito a tudo o que for expressão de elite. No entanto, é mais do que certo que país algum pode aspirar a crescer sem o concurso dos melhores, sem o aproveitamento de seus maiores talentos e capacidades. O rol dos talentos era tão grande, no Império, que tornava-se difícil apontar os que sobressaíam. Foi o que Machado de Assis imortalizou em “O Velho Senado”. Por isso mesmo o País havia assumido uma posição que em muitos aspectos causava inveja no exterior: éramos uma ilha de paz e progresso na América do Sul.
Em uma visita de D. Pedro II a Victor Hugo, este lhe perguntou se não tinha receio de deixar o seu Império por tanto tempo, ao que o Imperador respondeu:
— Não. Os negócios públicos fazem-se perfeitamente na minha ausência. Há na minha terra muitas pessoas que valem tanto ou mais do que eu. Além disso, aqui não perco o meu tempo. Reino sobre um povo jovem, e é para esclarecê-lo, torná-lo melhor, fazê-lo marchar para a frente, que uso dos meus direitos, ou do poder que me coube pelos acasos da fortuna e do nascimento.
Escrevendo sobre os ministros de Estado do Segundo Reinado, o Conde Afonso Celso acentuou: “Nenhum ascendeu ao Governo por mero favoritismo ou por capricho, nenhum comprometeu a dignidade governamental, nenhum foi vergonhosamente esmagado, nenhum se portou de maneira ignóbil nem deixou nome odioso na tradição popular. Nunca, um só que fosse, se aproveitou de suas funções para locupletar-se. Todos se exoneravam endividados ou menos ricos. Era um sacrifício ser ministro”.
Joaquim Manuel de Macedo, o célebre romancista autor de “A Moreninha”, era deputado e professor das princesas, filhas de D. Pedro II. O Conselheiro Francisco José Furtado, organizador do Gabinete de agosto de 1864, o convidou para a pasta de Estrangeiros. Recusado o convite, mandou o Imperador chamá-lo à sua presença, e indagou o motivo da recusa, tendo em vista que ele possuía tantas qualidades para ser um bom ministro. E a resposta:
— Admita-se que eu tenha as qualidades que Vossa Majestade me atribui. Mas eu não sou rico, e a riqueza é um requisito indispensável a um ministro que queira ser independente. E não quero sair do Ministério endividado ou ladrão!
O Governo republicano, com o intuito de minorar o infortúnio de alguns senadores do Império, ofereceu-lhes uma pensão. A isto reagiu o Visconde de Sinimbu com a seguinte carta: “Na solidão onde vim recolher-me e provisoriamente resido, retirado da vida pública após o cruciante golpe e a suprema desgraça com que aprouve a Deus ferir-me, enviuvando-me no próprio dia da abolição da Monarquia, chegou-me a notícia do decreto do Governo Provisório, concedendo-me a pensão mensal de 500 mil réis. Como resolução que me prescreve a consciência, me dita a dignidade e me impõe a honra, rejeito a graça; e, salva a intenção, repilo-a como afronta e como ultraje à minha obscura pessoa e à minha pobreza honrada”.
Alguns exemplos de desinteresse nos ministros do Império
Os ministros da regência de D. Pedro I reduziram seus ordenados à metade do que eram no tempo de D. João VI. Ficaram em quatro contos e oitocentos mil réis anuais, pagos mensalmente.
José Bonifácio recebeu certa vez o seu salário de quatrocentos mil réis, meteu as notas no fundo do chapéu, e no teatro lhe roubaram o chapéu e o conteúdo. No dia seguinte, achou-se sem ter com que mandar comprar o jantar. Não possuía nem um vintém mais, e seu sobrinho Belchior Fernandes Pinheiro foi quem pagou as despesas do dia.
Em reunião do Conselho, José Bonifácio referiu esta ocorrência e a extrema necessidade a que ela o reduziu e à sua família. O Imperador entendeu que o ministro, visto a penúria em que se achava, devia ser indenizado, pagando-se a ele outro mês de ordenado, e neste sentido deu ali suas ordens a Martim Francisco, irmão de José Bonifácio e ministro da Fazenda.
Martim Francisco não obedeceu. Argumentou com o Imperador que não havia lei que pusesse a cargo do Estado os descuidos dos empregados públicos; que o ano tinha doze meses para todos, e não treze para os protegidos; e, finalmente, pedia a Sua Majestade que retirasse a ordem, por ser inexeqüível, e porque ele, Martim Francisco, repartiria com o irmão o seu próprio ordenado, e viveriam ambos com mais parcimônia aquele mês. Isto seria melhor do que dar ao País o funesto exemplo de se pagar ao ministro duas vezes o ordenado de um só mês.
José Bernardino de Almeida Sodré era ministro da Fazenda, em 1828. Seu colega da pasta da Guerra lhe oficiou, pedindo o pagamento das despesas de transporte, e outras, de alguns operários que o Imperador mandara engajar na Alemanha. Recusado esse pagamento, mandou D. Pedro I chamar o ministro, interpelando-o. Sodré respondeu:
— Senhor, no orçamento que vigora não tenho verba que autorize essa despesa. Ela é, portanto, ilegal, e não a posso pagar.
— Mandei engajar esses homens, e quero que as despesas sejam pagas.
— E sê-lo-ão, Senhor, já que Vossa Majestade o quer.
Dias depois, indagado pelo Monarca sobre o cumprimento da sua ordem, o ministro informou:
— Em face da lei, o Tesouro Nacional não podia pagar a esses engajados. A ordem de Vossa Majestade tinha, porém, de ser cumprida.
— E então?
— Paguei-os do meu bolso particular.
Falando com o Visconde Nogueira da Gama sobre Frei Pedro de Santa Mariana, seu desinteressado professor, D. Pedro II comentava:
— Sabe quanto ele tem sido caluniado...
— Até alcunhado de Frei Malagrida!
— Pois bem. Assevero-lhe que nunca me pediu coisa alguma, sabendo que eu nada lhe negaria do que de mim dependesse.
Pequenos fatos marcantes da vida de Caxias
O major Miguel de Frias, derrotado a 3 de abril de 1832 pelo major Luiz Alves de Lima e Silva, pôs-se em fuga e tentou escapar. Indo ao seu encalço, Lima e Silva foi informado sobre a casa em que o chefe revoltoso se havia asilado. Aproximou-se, e o dono da casa lhe franqueou a residência, que Caxias percorreu. Ao fim de um corredor havia uma porta fechada a chave. Caxias a abriu, e no centro do quarto, de pé, o major Frias o esperava. Os dois se olharam, mudos. Ao fim de um instante Caxias se retirou, dizendo ao dono da casa:
— Desculpe-me. Não há ninguém...
No dia seguinte Miguel de Frias fugia, asilando-se nos Estados Unidos.
Caxias comprara em 1850 uma fazenda na província do Rio de Janeiro. Ao tomar posse, encontrou 60 escravos além do número ajustado. Sem demora, comunicou o fato ao vendedor, que respondeu:
— São escravos da Nação. Continue a desfrutar os seus serviços.
Caxias reuniu os negros e, sem a menor hesitação, lhes deu liberdade incondicional.
Durante a guerra do Paraguai, num dia chuvoso, Caxias estava molhado, a cavalo, debaixo de uma árvore. A cada instante a região era varada por balas de artilharia. Chegou-se a ele um ordenança de cavalaria, trazendo com cuidado uma xícara de café:
— O Sr. Bonifácio de Abreu manda isto a V. Exa. Recomendou-me que não deixasse cair uma só gota no chão.
Olhou-o o marechal calmamente, e disse:
— Eu não quero. Beba-a você, camarada.
Voltando depois para o seu estado-maior, observou:
— Quando os meus soldados estão morrendo na chuva, nesta saraivada de balas, não posso dar-me nenhuma regalia, por pequena que seja.
O Duque de Caxias era ministro da Guerra, quando o Imperador foi visitar, em sua companhia, um dos quartéis da capital. Percorreu o edifício todo, indo até a cozinha, onde se servia na ocasião o rancho dos soldados.
— Dê-me uma destas marmitas – disse o Soberano.
Foi atendido e tomou todo o conteúdo, declarando que, mesmo no Paço, jamais tomara sopa tão saborosa. Disciplinado e disciplinador, Caxias não gostou da singeleza do Monarca. Ao portão do quartel, disse-lhe:
— Desculpai a minha franqueza. Por esse processo, Vossa Majestade não se populariza, mas se vulgariza.
O Imperador admirou em Florença o quadro “Batalha do Avaí”, de Pedro Américo. Quando a obra chegou ao Brasil em 1877, foi vê-la novamente acompanhado de Caxias, então presidente do Conselho de Ministros. Os elogios eram unânimes, mas Caxias, que fora o comandante da batalha e era a figura dominante na tela, conservava-se mudo. Discretamente, o Imperador perguntou-lhe:
— Que diz, Sr. Caxias?
— Desejava saber onde o pintor me viu de farda desabotoada. Nem no meu quarto!
General Osório, o arrojado comandante de homens livres
O Visconde de Taunay foi levar ao general Osório, durante a guerra do Paraguai, uma carta do Conde d’Eu, e o encontrou a ler, sozinho, deitado numa rede. Ao vê-lo, Osório disse:
— Olha! Tu, que és bacharel, deves entender disto. Toma lá este livro e traduze-me este diabo de inglês, que está duro de roer.
Havia no início do livro alguns termos técnicos, que colocaram o improvisado tradutor em apuros, levando-o a muitas hesitações.
— Está bem! Vai bem! – repetia-lhe o general, rindo-se.
Algum tempo depois Osório caiu no sono, e Taunay se retirou de mansinho. No dia seguinte, o general interpelou o tradutor:
— Então, seu safadinho! Foste saindo à francesa, hein?!
— Mas V. Exa. estava dormindo profundamente!
— É verdade! E que sono delicioso! Cheio dos sonhos os mais agradáveis. Sonhei que estava traduzindo corrente e perfeitamente aquele inglês todo, incomparavelmente melhor do que tu, que és bacharel formado.
Em conselho de guerra, discutia-se como tomar certa posição ocupada pelas forças de Solano López. Queria o Conde d’Eu contorná-la, opinando o general Osório por um ataque de frente. Dizia o Conde:
— Mas isto, Sr. Osório, é o que se chama atacar o touro pelos chifres.
— Qual touro, alteza! Nem meio touro! Já foi touro, mas hoje não passa de vaca velha!
Durante a guerra do Paraguai, o general Osório procurou o chefe do corpo de engenheiros, que nada resolvia sem consultar o seu carregamento de livros, e avisou-o:
— Coronel, é preciso atravessar amanhã este rio, com todo o exército.
— Impossível, general.
— Não sei se é impossível, mas sei que é preciso.
— Mas, general, não me é possível dar-lhe os meios para isso.
— O senhor coronel vai ver se passamos ou não.
Osório mandou chamar um major de transportes, homem de espírito prático, que fazia verdadeiros milagres. Disse-lhe o que queria e como queria, e no dia seguinte todo o exército atravessou o rio, inclusive o chefe do corpo de engenheiros, com todo o seu carregamento de livros.
Aos companheiros de armas que o censuravam pela afoiteza com que enfrentava perigosos combates e situações difíceis, Osório respondia:
— Eu preciso provar aos meus comandados que o seu general é capaz de ir aonde os manda.
Grande parte dos soldados que combateram no Paraguai eram negros escravos. Na noite de 15 de abril de 1866, pouco antes de começar a travessia do Rio Paraná, o general Osório, fazendo-se acompanhar de cavaleiros riograndenses conduzindo archotes, passou em revista o seu exército, e disse:
— Soldados, é fácil a missão de comandar homens livres. Basta mostrar-lhes o caminho do dever. O nosso caminho está aí em frente!
Aquela bem escolhida e feliz expressão “homens livres” teve sobre a tropa o efeito de uma eletrização inesperada e irresistível. Os homens, sem distinção de cores ou de raças, abraçaram-se a rir e a chorar, e logo prorromperam em estrondosas aclamações ao seu general. A conseqüência foi o patriótico decreto de 6 de novembro, que deu liberdade gratuita aos escravos designados para o serviço militar.
Hombridade e coerência em políticos do Império
O general Osório, durante a guerra do Paraguai, foi procurado por um negociante que queria vender cavalos ao Exército, na maioria imprestáveis. Queria uma carta do general, recomendando-o à Comissão. Osório respondeu:
— Homem, você é entendido na matéria, e não desconhece as exigências do Governo. Se os seus cavalos são bons, para que quer recomendações?
— Para evitar injustiças.
— Pois, então, escreva você mesmo o que vou ditar. E ditou:
“Ilustríssimos senhores: O portador vai conduzindo uma cavalhada, que pretende vender ao Estado mediante o prévio exame da Comissão, de que V. Sas. são digníssimos membros. A primeira condição para a boa cavalaria é a velocidade, e esta depende da excelência dos cavalos. Portanto, seria escusado lembrar duas coisas: primeira, que os animais imprestáveis que o portador apresentar devem ser refugados; segunda, que V. Sas. devem ser rigorosos no cumprimento das ordens do Governo. Esta carta só tem por fim pedir que V. Sas. despachem com brevidade o portador”.
— Não, general. Esta carta não me serve.
— Pois dê-ma – disse Osório, tomando-a de cima da mesa e rasgando-a –. Que queria de mim? Uma indignidade? Que idéia faz o senhor da honra alheia? Se não a tem, respeite a dos outros.
Em junho de 1889, ao apresentar-se o novo ministério na Câmara dos Deputados, o deputado padre João Manuel declarou-se republicano, e concluiu o seu discurso bradando: “Viva a República!”
Levantando-se, o Visconde de Ouro Preto retrucou energicamente:
— Viva a República, não! Não e não! Pois é sob a Monarquia que temos obtido a liberdade que os outros países nos invejam, e podemos mantê-la em amplitude suficiente para satisfazer as aspirações do povo mais brioso. Viva a Monarquia! Forma de governo que a imensa maioria da Nação abraça, e a única que pode fazer a sua felicidade e a sua grandeza.
Preso na noite de 15 para 16 de novembro, o Visconde de Ouro Preto foi conduzido ao quartel do 1º Regimento, onde adormeceu. Alta noite, entrou no compartimento um oficial, o tenente Menna Barreto, que lhe gritou:
— Acorde e prepare-se, que mais tarde tem de ser fuzilado.
Ouro Preto se pôs de pé e replicou:
— Só se acorda um homem para o fuzilar, e não para o avisar de que vai ser fuzilado. O senhor verá que, para saber morrer, não é preciso vestir farda!
Exilado em Lisboa, o Visconde de Ouro Preto participava de uma roda de várias pessoas, em visita a um comerciante rico. Um dos visitantes, que fizera fortuna no Brasil e voltara para Portugal, resolveu interpelar o Visconde, em tom de agrado:
— Hein, Sr. Visconde! O povo daqui tem mais fibra que o de lá. Não presenciaria bestificado a queda do regime, conforme a expressão de um ministro da República. Nem deixaria, sem reação, ser expelido um soberano como D. Pedro II, e uma sumidade como V. Exa.
Com veemência, o Visconde respondeu:
— O senhor não tem competência para julgar a gente da minha terra. É tão digna, altiva e capaz de bravura quanto a portuguesa. Pelo menos, lá não há quem deixe o Brasil para vir ganhar dinheiro em Portugal, e depois regresse ao Brasil a falar mal dos portugueses.
Depois destas palavras, houve um longo silêncio. Então o Visconde ergueu-se, acrescentando:
— Já que ninguém mais protesta contra a injustiça feita a meu País, retiro-me como um novo protesto.
Amenidades entre políticos do Império
Em um folhetim de 1855, dizia José de Alencar:
“No salão recebem-se todas as visitas de cerimônia ou de intimidade; dão-se bailes, reuniões dançantes e concertos. Conversa-se ao som da música, conferencia-se a dois no meio de muita gente, de maneira que nem se fala em segredo, nem em público.
Se a palestra vai bem, procura-se alguma chaise-longue num canto de sala, e a pretexto de tomar sorvete ou gelados, faz-se uma transação, efetua-se um tratado de aliança. Se a conversa toma mau caminho, aí aparece uma quadrilha que se tem de dançar, uma senhora a que se devem fazer as honras, um terceiro que chega a propósito, e acaba-se a conferência. Livra-se assim o ministro do dilema em que se achava, do comprometimento de responder sim ou não”.
O Barão de Cotegipe definia pitorescamente a atividade social e política dos salões: Não se faz política sem bolinhos.
O Marquês de Abrantes nunca se convencera da surdez do Marquês de Olinda, seu amigo. Era uma surdez política, que melhorava ou piorava de acordo com a vontade do doente. Certo dia Abrantes resolveu pôr à prova o assunto. Enquanto jogavam cartas, disse em voz baixa, quase inaudível:
— Veja lá como joga, velho besta!
— Que diz?
— Digo que o senhor joga admiravelmente...
Terminada e ganha a partida, Olinda perguntou:
— Então, seu Abrantes, o velho besta jogou bem?
Dando uma gargalhada, Abrantes respondeu:
— Ah! seu Olinda, eu sempre desconfiei que o senhor só era surdo quando lhe convinha. E acertei!
Francisco Acaiaba Montezuma, Visconde de Jequitinhonha, foi senador pela Bahia depois de ter sido o seu nome levado à Coroa três vezes. O implacável “lápis fatídico” do Imperador tinha sobre ele anotações não muito favoráveis, e a indicação só foi conseguida pela insistência do Marquês de Paraná, presidente do Conselho de Ministros.
Morava em uma casa magnífica com grande chácara, no Rio Comprido. O Imperador uma vez lhe disse:
— Sr. Visconde, tenho ouvido falar muito de sua residência. Dizem que é uma bela vivenda.
— Vá Vossa Majestade almoçar lá, e poderá ver que, se não é digna de receber Vossa Majestade, é entretanto confortável para um homem como eu.
O Imperador aceitou o convite, e no dia marcado foi almoçar em casa do Visconde. Durante a refeição, perguntou a Montezuma:
— O Sr. é fatalista?
— Sem dúvida. E tenho motivos para o ser.
— Posso saber quais são?
— Olhe, Senhor. A primeira vez que meu nome veio a Vossa Majestade na lista para ser senador, ao voltar do sertão da Bahia o cavalo em que eu montava tropeçou e eu caí: Vossa Majestade não me escolheu. Da segunda vez deu-se o mesmo fato, e Vossa Majestade novamente não escolheu o meu nome. Pela terceira vez deram-se as mesmas ocorrências, e então Vossa Majestade me escolheu.
— Mas não vejo onde está a fatalidade.
— É que Vossa Majestade havia de me escolher, querendo ou não.
Em fins de 1877, o Duque de Caxias, que presidia o Ministério, ficou muito doente. Para certificar-se do estado de saúde do velho servidor, o Imperador foi visitá-lo na Fazenda de Santa Mônica, e verificou que ele não podia continuar incumbido de tarefa tão árdua. Para substituí-lo, foi indicado o Visconde de Sinimbu.
Combinado com o Imperador o programa do Gabinete, nos termos acerca dos quais estavam de acordo, Sinimbu tratou de formar a sua lista de ministros. A entrada de Silveira Martins no Ministério era não só o reconhecimento dos seus grandes serviços na oposição, mas também a satisfação de uma espécie de compromisso. O notável tribuno era assíduo freqüentador da casa de Sinimbu, onde por vezes repetia que este devia organizar o próximo gabinete liberal. Mas ouvia sempre a resposta:
— Qual! O senhor não pense nisto, pois bem deve saber que será o Nabuco.
Silveira Martins insistia. Um dia Sinimbu o atalhou:
— Pois bem, se eu organizar o Ministério, o senhor será o ministro da Fazenda.
O novo presidente do Conselho não quis que sua palavra voltasse atrás, e Silveira Martins foi para o Ministério.
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