FATOS DO BRASIL IMPÉRIO

Bem vindo ao blog FATOS DO BRASIL IMPÉRIO. Aqui são narrados fatos da época do Império, geralmente pouco conhecidos, extraídos do livro REVIVENDO O BRASIL-IMPÉRIO, que publiquei sob o pseudônimo Leopoldo Bibiano Xavier. Leitura muito útil, que dá uma visão realista do modo como o Imperador Pedro II conduzia os destinos do País.
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Leon Beaugeste

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11.6.08

18 - DOM PEDRO I, LIBERTADOR DA NAÇÃO

A personalidade de D. Pedro I nas vias da Independência

Quando veio ter a D. Pedro o decreto das Cortes portuguesas, ordenando-lhe o imediato regresso à pátria, a conspiração pela independência já estava feita. O resultado, logo o tivemos a 9 de janeiro de 1822:
— Se é para bem de todos e felicidade geral da Nação, diga ao povo que fico.
Estava começada a luta. Daí por diante, o Príncipe é de uma vigilância, de uma atividade, de uma decisão que nada consegue abater. D. Pedro tinha a atração dos perigos. Resolvido a adotar a causa brasileira, perdeu todas as vacilações que antes o prendiam nos seus movimentos. Seguiu o seu caminho resolutamente, impavidamente, até o desfecho de 7 de setembro.

A atitude das Cortes de Lisboa em relação ao Brasil havia congregado os patriotas, deliberados a emancipar a antiga colônia com ou sem o auxílio do Príncipe Regente. As combinações para isso marchavam céleres, multiplicando-se os emissários especiais entre São Paulo e Rio, estabelecendo ligações para o grande movimento libertador.
Incumbido pelos patriotas do Rio de ir a São Paulo com uma mensagem verbal aos conspiradores, o capitão Pedro Dias Pais Leme, que foi mais tarde Marquês de Quixeramobim, entendeu que era seu dever, como amigo do Príncipe, passar na Quinta da Boa Vista e narrar-lhe o que se tramava.
D. Pedro ouviu com calma a narrativa, e ao fim, em vez de agradecer-lhe ou dar-lhe qualquer ordem, pôs-se a falar de viagens e caçadas. Até que, a certa altura, chegando à janela, começou a olhar o horizonte, no rumo do Sul. E apontando-o a Pais Leme, disse:
— Que belo dia para se viajar!
O oficial compreendeu tudo. Beijou, comovido, a mão do Príncipe, desceu rapidamente as escadas, montou a cavalo, e partiu a galope.

Dentre as influências que recebeu D. Pedro I, conduzindo-o a proclamar a Independência, destaca-se a da Imperatriz. A convivência diária com D. Leopoldina ampliava muito o horizonte de D. Pedro I, que escutava atento, com interesse, o que ela contava de sua terra natal, da corte vienense, de Napoleão, da política e história européias, dos monarcas no Velho Mundo, etc. A cultura de D. Leopoldina impressionava D. Pedro. Era o meio que lhe garantira, após conquistar a confiança do marido, uma ascendência crescente sobre o seu irrequieto espírito. Para o bem da verdade histórica, convém frisar que D. Pedro, apesar da pouca instrução, não ficava alheio aos assuntos científicos e intelectuais.


D. Pedro I e o senso da oportunidade na política

O Brasil havia vencido a guerra da Independência, mas faltava Portugal reconhecê-la oficialmente. Travou-se então uma batalha diplomática, na qual a Inglaterra, maior potência de então, entrava como fiel da balança, e também impondo seus interesses. Para reconhecer a independência, a Inglaterra exigia que o Brasil lhe pagasse 1,4 milhão de libras esterlinas devidas por Portugal, e mais 600 mil libras de indenização a Portugal, além de um contrato comercial vantajoso. D. Pedro I reuniu o Conselho de Ministros, presidido pelo Visconde de Barbacena, e transmitiu a proposta. O ministro da Guerra objetou:
— Mas é um recuo, Majestade! Depois da luta, depois de vencidos todos os estorvos, e já senhores do País, vamos nós agora voltar para trás? Vamos pagar, em dinheiro, o que já conquistamos com sangue? Por quê? Não há motivo que justifique.
— Neste caso, Senhor Ministro, a Inglaterra intervém a favor de Portugal.
— E que mal há nisto, Majestade? Se a Inglaterra intervier, nós enfrentaremos a Inglaterra. Nós nos bateremos até a última gota de sangue.
— Mas enfrentar com o quê, Senhor Ministro? Nós não temos nada. Enfrentar com o quê?
— Enfrentar de qualquer jeito, Majestade.
D. Pedro ficou furioso. Viu nitidamente que o espírito brasileiro não admitia acordos. Se entre os próprios ministros havia aquela absurda atitude patrioteira, que barulhada não haviam de fomentar os deputados? À vista disso, D. Pedro resolveu o caso temerariamente. Assinou dois tratados. Um ostensivo, público, pelo qual D. João VI reconhecia simplesmente a independência do Brasil. Mas assinou também outro, secreto, pelo qual o Brasil se obrigava a pagar 2 milhões de libras e a fazer com a Inglaterra novo tratado de comércio.
D. Pedro cumpriu a palavra. Pagou a dívida e assinou o tratado. O seu ato se ressente de uma ilegalidade clamorosa. Mas essa ilegalidade foi a mais abençoada das que praticou, pois permitiu-lhe alicerçar a sua grande obra. Evitou a guerra, serenou as agitações patrióticas, não se derramou mais uma gota de sangue. E criou afinal um império. O Brasil, como por encanto, apareceu como nação livre aos olhos do mundo, e isto se deveu à ousadia e temeridade do Imperador.

O major Luiz Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, ofereceu a D. Pedro I, dias antes da abdicação deste em 7 de abril de 1831, os planos da reação contra as agitações que se avolumavam. O Imperador os recusou nos seguintes termos:
— O expediente proposto é digno do major Lima e Silva, mas não o aceito, porque não quero que por minha causa se derrame uma só gota de sangue brasileiro. Portanto, siga o major a sorte de seus camaradas reunidos no Campo de Santana.

No momento supremo da abdicação, quando era intimado a demitir o Ministério, D. Pedro I respondeu:
— Diga ao povo que recebi a representação. O Ministério passado não merece a minha confiança, e do atual farei o que entender. Sou constitucional, e caminho com a Constituição. Admitir o mesmo Ministério, de forma alguma. Isto seria contra a Constituição e contra a minha honra. Prefiro abdicar.
Foram os nossos dirigentes, depois de 15 de novembro de 1889, que implantaram o desrespeito à Constituição, e a infringiram tanto que acabaram reduzindo-a a um maço de papéis esfarrapados. Nenhum dos nossos presidentes da República teve o espírito constitucional de D. Pedro I ou de D. Pedro II, e foram eles que deram ao povo o exemplo de violar a Magna Carta do País.

Em 1831, se D. Pedro I desembainhasse sua invencível espada, a uma só palavra, a um só aceno seu, ondas de sangue tingiriam nossas praças, e as fúrias de uma indômita guerra civil invadiriam o Império inteiro, talvez por longos anos. A sua abdicação espontânea teve ainda a vantagem de arrancar o Brasil ao estigma de revolucionário. Foi a coroa devolvida na ordem da sucessão, segundo o direito fundamental, e por ato legal e voluntário do Imperante. Não houve combate, nem sangue nem resistência.
Testemunha ocular dos fatos afirma que durante os dias em que D. Pedro I esteve a bordo da nau inglesa, recebeu valiosíssimos oferecimentos de algumas das mais leais espadas. Agradecendo, pediu a todos que as reservassem para defesa do trono de seu filho, acrescentando:
— Desde que livremente abdiquei, o desembainhar a minha espada já não seria ato de rei, mas de rebelde.

O reinado de D. Pedro I figura, sem dúvida, como uma grande página da história nacional. A opinião de Armitage é expressiva: “Apesar de todos os erros do Imperador, durante os dez anos de sua administração o Brasil fez certamente mais progressos em inteligência do que nos três séculos decorridos do seu descobrimento à proclamação da Constituição Portuguesa de 1820”.
As fortunas não se originavam de favores recebidos da Coroa. Eram a conseqüência do esforço hercúleo, do trabalho, do cultivo do solo e da conquista das florestas e das terras do interior. E por isso a sociedade, no tempo de D. Pedro I, foi honesta, sem venalidade.


Cenas da vida de D. Pedro I em família

Naquela noite de 2 de dezembro de 1825, todo o Palácio de São Cristóvão estava ansioso e em grande expectativa. A Imperatriz Leopoldina ia dar à luz, e todos desejavam um príncipe, que seria o herdeiro da coroa. O Dr. Guimarães Peixoto saiu um pouco, para tranqüilizar a todos, e anunciou a D. Pedro:
— Tudo normal. Pode Vossa Majestade sossegar. Não há incidente nem complicação. Mais um pouquinho de paciência, e terá logo um novo príncipe nos braços.
— O seu palpite, doutor?
— Para mim, desta vez, é homem. Para mim, não resta dúvida. É príncipe.
— Príncipe?! Pois se for homem, meu caro doutor, pode pedir o que quiser, e lhe será concedido.
— Tenho a palavra de Vossa Majestade?
E voltou para os aposentos de D. Leopoldina. Algum tempo depois, sai o médico com brados de júbilo:
— É príncipe, Majestade! É príncipe!
Havia nascido D. Pedro II. O Dr. Guimarães Peixoto tinha a promessa de D. Pedro I. Podia pedir o que quisesse, mas foi muito modesto. Solicitou uma simples comenda para um filho. Fiel à palavra, o Imperador criou esse comendador de 6 anos de idade.

Chegando de uma viagem ao exterior, o Visconde de Barbacena foi ao Palácio de São Cristóvão visitar o Imperador. E um dos primeiros cuidados deste, com a amizade que votava ao discreto titular, foi mostrar-lhe o Príncipe Imperial, que seria Pedro II, e tinha apenas dois anos de idade:
— Este será bem educado, hás de ver. Eu e o mano Miguel havemos de ser os últimos malcriados da família.

D. Pedro I recebeu de Minas um belo cavalo, e resolveu dá-lo ao pai. Quando foi entregar o presente, D. João VI já havia sido prevenido pela maledicência dos adversários do Príncipe, que diziam que o cavalo era velhaco, e que o derrubaria na primeira ocasião. Disse então ao filho:
— Sim, Pedro. Já sei tudo. Queres dar-me um cavalo velhaco, que me derrube. Monta-o tu.
D. Pedro ofendeu-se. Montando o cavalo, gritou que ninguém mais o montaria, e saiu num galope furioso, até o arrebentar.

Depois da abdicação, e já a bordo da nau Warspite, que o levaria para a Europa, D. Pedro I escreveu ao seu filho D. Pedro II, que tinha apenas 6 anos: “Muito estimarei que esta o ache com saúde, e adiantado nos estudos. Sim, meu amado filho, isso é muito necessário, para que você possa fazer a felicidade do Brasil. Lembre-se sempre de seu pai, ame a sua e minha Pátria, siga os conselhos que lhe derem aqueles que cuidarem da sua educação, e conte que o mundo o há de admirar, e que eu me hei de encher de ufania por ter um filho digno da Pátria”.


Impetuoso e de bom coração, um Príncipe de medida incomum

Deveria partir para o Sul um corpo de caçadores alemães, a fim de reforçar o exército brasileiro que lá batalhava sob as ordens do Marquês de Barbacena. D. Pedro I ordenara que o Tesouro efetuasse o pagamento dos soldos atrasados dos mercenários. À última hora, estando já o batalhão embarcado, foi D. Pedro avisado pelo oficial encarregado de recolher a quantia do Tesouro, que os funcionários não queriam fazer o tal pagamento. D. Pedro se encolerizou e dirigiu-se para o Tesouro, empunhando grossa chibata. Momentos depois fazia entrada impressionante na sala onde se achavam os funcionários responsáveis pelo não cumprimento da ordem imperial. Sobre esses, que se encolhiam temerosos, despejou o Soberano uma avalanche de censuras, seguida de golpes de chicote.

D. Pedro I passeava pelos arrabaldes do Rio, seguido por grande escolta, quando o cavalo que montava perdeu uma das ferraduras. Procurou o ferrador mais próximo e confiou-lhe o trabalho. Apenas esse começara o serviço, sentiu-se rudemente empurrado pelo Imperador, que lhe disse numa voz irritada:
— Sai daí, porcalhão, que não sabes o teu ofício.
E ele mesmo, o Imperador, em pouco tempo ferrou o animal.

Resolvida a morte de João Guilherme Ratcliff, por sua participação na Confederação do Equador, o presidente do tribunal que o julgou levou a D. Pedro I a sentença de morte, para assinatura. Era um documento longo, minucioso e violento, em que a vítima era tratada com insolência e desprezo. Devolvendo o papel, para o alterarem, rugiu:
— Não assino! Morra o homem, que é quanto basta, mas não o insultem numa sentença!

Passeando a cavalo, em companhia da Imperatriz, D. Pedro I deparou com três homens, um dos quais estava no chão, sem sentidos. Eram marinheiros americanos, cujo navio estava ancorado no Rio. Um deles fora atirado ao chão pelo cavalo, e os outros dois não sabiam o que fazer. O Imperador se aproximou, prestando ao ferido os cuidados necessários. Quando o viu voltar a si, deu providências para que fosse internado num hospital, para tratamento mais adequado.

Fernando de Almeida, empresário teatral, havia mandado vir da Europa uma companhia dramática, que chegou ao Rio em 1829, no dia exato em que faleceu o empresário. Abandonada a companhia, os artistas lastimavam-se por toda parte, como um rebanho que tivesse perdido o pastor. Um desses atores se queixava, quando ouviu, de repente:
— E não estou eu aqui?
Era D. Pedro I. Nesse mesmo dia, nomeou uma comissão para dirigir oficialmente a companhia.

Quando soube da decisão de D. Pedro I de terminar a aventura com a Marquesa de Santos, o Marquês de Queluz foi um dos primeiros a patentear a sua alegria, dizendo ao Imperador:
— Caístes como homem, mas vos erguestes como herói, e a admiração da Europa será a vossa recompensa.

A bordo do navio Warspite, após a abdicação, D. Pedro I teve notícia das aclamações que o seu filho recebera no dia 9 de abril, nas ruas do Rio de Janeiro. E suspirou então:
— Há pouco, iguais vivas retumbaram em honra minha. Possa a fortuna ser mais fiel a meu filho.

Evaristo da Veiga, ao receber a notícia da morte de D. Pedro I, a quem ele tanto combatera, escreveu num julgamento que se antecipava ao da posteridade:
“O ex-Imperador do Brasil não foi um príncipe de ordinária medida, e a Providência o tornou um instrumento poderoso de libertação, quer no Brasil, quer em Portugal. Se existimos como corpo de Nação livre, se a nossa terra não foi retalhada em pequenas repúblicas inimigas, onde só dominasse a anarquia e o espírito militar, devemo-lo muito à resolução que tomou de ficar entre nós, de soltar o primeiro grito de nossa Independência”.
Não foi um príncipe de ordinária medida, mas uma prodigiosa natureza humana, um ser de escândalo e contradição, cuja vida, tão breve, se marcou de rasgos generosos que lhe redimem erros e pecados.

Ao tomar conhecimento da morte de D. Pedro I, em 1834, José Bonifácio exclamou:
— D. Pedro não morreu. Só morrem os homens vulgares, e não os heróis!

***

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4.6.08

12 - ALGUNS PERSONAGENS DO IMPÉRIO BRASILEIRO

Seriedade e honradez nos homens do Império

Na atualidade, há um consenso geral em torno de se evitar reconhecimento de mérito a tudo o que for expressão de elite. No entanto, é mais do que certo que país algum pode aspirar a crescer sem o concurso dos melhores, sem o aproveitamento de seus maiores talentos e capacidades. O rol dos talentos era tão grande, no Império, que tornava-se difícil apontar os que sobressaíam. Foi o que Machado de Assis imortalizou em “O Velho Senado”. Por isso mesmo o País havia assumido uma posição que em muitos aspectos causava inveja no exterior: éramos uma ilha de paz e progresso na América do Sul.

Em uma visita de D. Pedro II a Victor Hugo, este lhe perguntou se não tinha receio de deixar o seu Império por tanto tempo, ao que o Imperador respondeu:
— Não. Os negócios públicos fazem-se perfeitamente na minha ausência. Há na minha terra muitas pessoas que valem tanto ou mais do que eu. Além disso, aqui não perco o meu tempo. Reino sobre um povo jovem, e é para esclarecê-lo, torná-lo melhor, fazê-lo marchar para a frente, que uso dos meus direitos, ou do poder que me coube pelos acasos da fortuna e do nascimento.

Escrevendo sobre os ministros de Estado do Segundo Reinado, o Conde Afonso Celso acentuou: “Nenhum ascendeu ao Governo por mero favoritismo ou por capricho, nenhum comprometeu a dignidade governamental, nenhum foi vergonhosamente esmagado, nenhum se portou de maneira ignóbil nem deixou nome odioso na tradição popular. Nunca, um só que fosse, se aproveitou de suas funções para locupletar-se. Todos se exoneravam endividados ou menos ricos. Era um sacrifício ser ministro”.
Joaquim Manuel de Macedo, o célebre romancista autor de “A Moreninha”, era deputado e professor das princesas, filhas de D. Pedro II. O Conselheiro Francisco José Furtado, organizador do Gabinete de agosto de 1864, o convidou para a pasta de Estrangeiros. Recusado o convite, mandou o Imperador chamá-lo à sua presença, e indagou o motivo da recusa, tendo em vista que ele possuía tantas qualidades para ser um bom ministro. E a resposta:
— Admita-se que eu tenha as qualidades que Vossa Majestade me atribui. Mas eu não sou rico, e a riqueza é um requisito indispensável a um ministro que queira ser independente. E não quero sair do Ministério endividado ou ladrão!

O Governo republicano, com o intuito de minorar o infortúnio de alguns senadores do Império, ofereceu-lhes uma pensão. A isto reagiu o Visconde de Sinimbu com a seguinte carta: “Na solidão onde vim recolher-me e provisoriamente resido, retirado da vida pública após o cruciante golpe e a suprema desgraça com que aprouve a Deus ferir-me, enviuvando-me no próprio dia da abolição da Monarquia, chegou-me a notícia do decreto do Governo Provisório, concedendo-me a pensão mensal de 500 mil réis. Como resolução que me prescreve a consciência, me dita a dignidade e me impõe a honra, rejeito a graça; e, salva a intenção, repilo-a como afronta e como ultraje à minha obscura pessoa e à minha pobreza honrada”.


Alguns exemplos de desinteresse nos ministros do Império

Os ministros da regência de D. Pedro I reduziram seus ordenados à metade do que eram no tempo de D. João VI. Ficaram em quatro contos e oitocentos mil réis anuais, pagos mensalmente.
José Bonifácio recebeu certa vez o seu salário de quatrocentos mil réis, meteu as notas no fundo do chapéu, e no teatro lhe roubaram o chapéu e o conteúdo. No dia seguinte, achou-se sem ter com que mandar comprar o jantar. Não possuía nem um vintém mais, e seu sobrinho Belchior Fernandes Pinheiro foi quem pagou as despesas do dia.
Em reunião do Conselho, José Bonifácio referiu esta ocorrência e a extrema necessidade a que ela o reduziu e à sua família. O Imperador entendeu que o ministro, visto a penúria em que se achava, devia ser indenizado, pagando-se a ele outro mês de ordenado, e neste sentido deu ali suas ordens a Martim Francisco, irmão de José Bonifácio e ministro da Fazenda.
Martim Francisco não obedeceu. Argumentou com o Imperador que não havia lei que pusesse a cargo do Estado os descuidos dos empregados públicos; que o ano tinha doze meses para todos, e não treze para os protegidos; e, finalmente, pedia a Sua Majestade que retirasse a ordem, por ser inexeqüível, e porque ele, Martim Francisco, repartiria com o irmão o seu próprio ordenado, e viveriam ambos com mais parcimônia aquele mês. Isto seria melhor do que dar ao País o funesto exemplo de se pagar ao ministro duas vezes o ordenado de um só mês.

José Bernardino de Almeida Sodré era ministro da Fazenda, em 1828. Seu colega da pasta da Guerra lhe oficiou, pedindo o pagamento das despesas de transporte, e outras, de alguns operários que o Imperador mandara engajar na Alemanha. Recusado esse pagamento, mandou D. Pedro I chamar o ministro, interpelando-o. Sodré respondeu:
— Senhor, no orçamento que vigora não tenho verba que autorize essa despesa. Ela é, portanto, ilegal, e não a posso pagar.
— Mandei engajar esses homens, e quero que as despesas sejam pagas.
— E sê-lo-ão, Senhor, já que Vossa Majestade o quer.
Dias depois, indagado pelo Monarca sobre o cumprimento da sua ordem, o ministro informou:
— Em face da lei, o Tesouro Nacional não podia pagar a esses engajados. A ordem de Vossa Majestade tinha, porém, de ser cumprida.
— E então?
— Paguei-os do meu bolso particular.

Falando com o Visconde Nogueira da Gama sobre Frei Pedro de Santa Mariana, seu desinteressado professor, D. Pedro II comentava:
— Sabe quanto ele tem sido caluniado...
— Até alcunhado de Frei Malagrida!
— Pois bem. Assevero-lhe que nunca me pediu coisa alguma, sabendo que eu nada lhe negaria do que de mim dependesse.


Pequenos fatos marcantes da vida de Caxias

O major Miguel de Frias, derrotado a 3 de abril de 1832 pelo major Luiz Alves de Lima e Silva, pôs-se em fuga e tentou escapar. Indo ao seu encalço, Lima e Silva foi informado sobre a casa em que o chefe revoltoso se havia asilado. Aproximou-se, e o dono da casa lhe franqueou a residência, que Caxias percorreu. Ao fim de um corredor havia uma porta fechada a chave. Caxias a abriu, e no centro do quarto, de pé, o major Frias o esperava. Os dois se olharam, mudos. Ao fim de um instante Caxias se retirou, dizendo ao dono da casa:
— Desculpe-me. Não há ninguém...
No dia seguinte Miguel de Frias fugia, asilando-se nos Estados Unidos.

Caxias comprara em 1850 uma fazenda na província do Rio de Janeiro. Ao tomar posse, encontrou 60 escravos além do número ajustado. Sem demora, comunicou o fato ao vendedor, que respondeu:
— São escravos da Nação. Continue a desfrutar os seus serviços.
Caxias reuniu os negros e, sem a menor hesitação, lhes deu liberdade incondicional.

Durante a guerra do Paraguai, num dia chuvoso, Caxias estava molhado, a cavalo, debaixo de uma árvore. A cada instante a região era varada por balas de artilharia. Chegou-se a ele um ordenança de cavalaria, trazendo com cuidado uma xícara de café:
— O Sr. Bonifácio de Abreu manda isto a V. Exa. Recomendou-me que não deixasse cair uma só gota no chão.
Olhou-o o marechal calmamente, e disse:
— Eu não quero. Beba-a você, camarada.
Voltando depois para o seu estado-maior, observou:
— Quando os meus soldados estão morrendo na chuva, nesta saraivada de balas, não posso dar-me nenhuma regalia, por pequena que seja.

O Duque de Caxias era ministro da Guerra, quando o Imperador foi visitar, em sua companhia, um dos quartéis da capital. Percorreu o edifício todo, indo até a cozinha, onde se servia na ocasião o rancho dos soldados.
— Dê-me uma destas marmitas – disse o Soberano.
Foi atendido e tomou todo o conteúdo, declarando que, mesmo no Paço, jamais tomara sopa tão saborosa. Disciplinado e disciplinador, Caxias não gostou da singeleza do Monarca. Ao portão do quartel, disse-lhe:
— Desculpai a minha franqueza. Por esse processo, Vossa Majestade não se populariza, mas se vulgariza.

O Imperador admirou em Florença o quadro “Batalha do Avaí”, de Pedro Américo. Quando a obra chegou ao Brasil em 1877, foi vê-la novamente acompanhado de Caxias, então presidente do Conselho de Ministros. Os elogios eram unânimes, mas Caxias, que fora o comandante da batalha e era a figura dominante na tela, conservava-se mudo. Discretamente, o Imperador perguntou-lhe:
— Que diz, Sr. Caxias?
— Desejava saber onde o pintor me viu de farda desabotoada. Nem no meu quarto!


General Osório, o arrojado comandante de homens livres

O Visconde de Taunay foi levar ao general Osório, durante a guerra do Paraguai, uma carta do Conde d’Eu, e o encontrou a ler, sozinho, deitado numa rede. Ao vê-lo, Osório disse:
— Olha! Tu, que és bacharel, deves entender disto. Toma lá este livro e traduze-me este diabo de inglês, que está duro de roer.
Havia no início do livro alguns termos técnicos, que colocaram o improvisado tradutor em apuros, levando-o a muitas hesitações.
— Está bem! Vai bem! – repetia-lhe o general, rindo-se.
Algum tempo depois Osório caiu no sono, e Taunay se retirou de mansinho. No dia seguinte, o general interpelou o tradutor:
— Então, seu safadinho! Foste saindo à francesa, hein?!
— Mas V. Exa. estava dormindo profundamente!
— É verdade! E que sono delicioso! Cheio dos sonhos os mais agradáveis. Sonhei que estava traduzindo corrente e perfeitamente aquele inglês todo, incomparavelmente melhor do que tu, que és bacharel formado.

Em conselho de guerra, discutia-se como tomar certa posição ocupada pelas forças de Solano López. Queria o Conde d’Eu contorná-la, opinando o general Osório por um ataque de frente. Dizia o Conde:
— Mas isto, Sr. Osório, é o que se chama atacar o touro pelos chifres.
— Qual touro, alteza! Nem meio touro! Já foi touro, mas hoje não passa de vaca velha!

Durante a guerra do Paraguai, o general Osório procurou o chefe do corpo de engenheiros, que nada resolvia sem consultar o seu carregamento de livros, e avisou-o:
— Coronel, é preciso atravessar amanhã este rio, com todo o exército.
— Impossível, general.
— Não sei se é impossível, mas sei que é preciso.
— Mas, general, não me é possível dar-lhe os meios para isso.
— O senhor coronel vai ver se passamos ou não.
Osório mandou chamar um major de transportes, homem de espírito prático, que fazia verdadeiros milagres. Disse-lhe o que queria e como queria, e no dia seguinte todo o exército atravessou o rio, inclusive o chefe do corpo de engenheiros, com todo o seu carregamento de livros.

Aos companheiros de armas que o censuravam pela afoiteza com que enfrentava perigosos combates e situações difíceis, Osório respondia:
— Eu preciso provar aos meus comandados que o seu general é capaz de ir aonde os manda.

Grande parte dos soldados que combateram no Paraguai eram negros escravos. Na noite de 15 de abril de 1866, pouco antes de começar a travessia do Rio Paraná, o general Osório, fazendo-se acompanhar de cavaleiros riograndenses conduzindo archotes, passou em revista o seu exército, e disse:
— Soldados, é fácil a missão de comandar homens livres. Basta mostrar-lhes o caminho do dever. O nosso caminho está aí em frente!
Aquela bem escolhida e feliz expressão “homens livres” teve sobre a tropa o efeito de uma eletrização inesperada e irresistível. Os homens, sem distinção de cores ou de raças, abraçaram-se a rir e a chorar, e logo prorromperam em estrondosas aclamações ao seu general. A conseqüência foi o patriótico decreto de 6 de novembro, que deu liberdade gratuita aos escravos designados para o serviço militar.


Hombridade e coerência em políticos do Império

O general Osório, durante a guerra do Paraguai, foi procurado por um negociante que queria vender cavalos ao Exército, na maioria imprestáveis. Queria uma carta do general, recomendando-o à Comissão. Osório respondeu:
— Homem, você é entendido na matéria, e não desconhece as exigências do Governo. Se os seus cavalos são bons, para que quer recomendações?
— Para evitar injustiças.
— Pois, então, escreva você mesmo o que vou ditar. E ditou:
“Ilustríssimos senhores: O portador vai conduzindo uma cavalhada, que pretende vender ao Estado mediante o prévio exame da Comissão, de que V. Sas. são digníssimos membros. A primeira condição para a boa cavalaria é a velocidade, e esta depende da excelência dos cavalos. Portanto, seria escusado lembrar duas coisas: primeira, que os animais imprestáveis que o portador apresentar devem ser refugados; segunda, que V. Sas. devem ser rigorosos no cumprimento das ordens do Governo. Esta carta só tem por fim pedir que V. Sas. despachem com brevidade o portador”.
— Não, general. Esta carta não me serve.
— Pois dê-ma – disse Osório, tomando-a de cima da mesa e rasgando-a –. Que queria de mim? Uma indignidade? Que idéia faz o senhor da honra alheia? Se não a tem, respeite a dos outros.

Em junho de 1889, ao apresentar-se o novo ministério na Câmara dos Deputados, o deputado padre João Manuel declarou-se republicano, e concluiu o seu discurso bradando: “Viva a República!”
Levantando-se, o Visconde de Ouro Preto retrucou energicamente:
— Viva a República, não! Não e não! Pois é sob a Monarquia que temos obtido a liberdade que os outros países nos invejam, e podemos mantê-la em amplitude suficiente para satisfazer as aspirações do povo mais brioso. Viva a Monarquia! Forma de governo que a imensa maioria da Nação abraça, e a única que pode fazer a sua felicidade e a sua grandeza.

Preso na noite de 15 para 16 de novembro, o Visconde de Ouro Preto foi conduzido ao quartel do 1º Regimento, onde adormeceu. Alta noite, entrou no compartimento um oficial, o tenente Menna Barreto, que lhe gritou:
— Acorde e prepare-se, que mais tarde tem de ser fuzilado.
Ouro Preto se pôs de pé e replicou:
— Só se acorda um homem para o fuzilar, e não para o avisar de que vai ser fuzilado. O senhor verá que, para saber morrer, não é preciso vestir farda!

Exilado em Lisboa, o Visconde de Ouro Preto participava de uma roda de várias pessoas, em visita a um comerciante rico. Um dos visitantes, que fizera fortuna no Brasil e voltara para Portugal, resolveu interpelar o Visconde, em tom de agrado:
— Hein, Sr. Visconde! O povo daqui tem mais fibra que o de lá. Não presenciaria bestificado a queda do regime, conforme a expressão de um ministro da República. Nem deixaria, sem reação, ser expelido um soberano como D. Pedro II, e uma sumidade como V. Exa.
Com veemência, o Visconde respondeu:
— O senhor não tem competência para julgar a gente da minha terra. É tão digna, altiva e capaz de bravura quanto a portuguesa. Pelo menos, lá não há quem deixe o Brasil para vir ganhar dinheiro em Portugal, e depois regresse ao Brasil a falar mal dos portugueses.
Depois destas palavras, houve um longo silêncio. Então o Visconde ergueu-se, acrescentando:
— Já que ninguém mais protesta contra a injustiça feita a meu País, retiro-me como um novo protesto.


Amenidades entre políticos do Império

Em um folhetim de 1855, dizia José de Alencar:
“No salão recebem-se todas as visitas de cerimônia ou de intimidade; dão-se bailes, reuniões dançantes e concertos. Conversa-se ao som da música, conferencia-se a dois no meio de muita gente, de maneira que nem se fala em segredo, nem em público.
Se a palestra vai bem, procura-se alguma chaise-longue num canto de sala, e a pretexto de tomar sorvete ou gelados, faz-se uma transação, efetua-se um tratado de aliança. Se a conversa toma mau caminho, aí aparece uma quadrilha que se tem de dançar, uma senhora a que se devem fazer as honras, um terceiro que chega a propósito, e acaba-se a conferência. Livra-se assim o ministro do dilema em que se achava, do comprometimento de responder sim ou não”.
O Barão de Cotegipe definia pitorescamente a atividade social e política dos salões: Não se faz política sem bolinhos.

O Marquês de Abrantes nunca se convencera da surdez do Marquês de Olinda, seu amigo. Era uma surdez política, que melhorava ou piorava de acordo com a vontade do doente. Certo dia Abrantes resolveu pôr à prova o assunto. Enquanto jogavam cartas, disse em voz baixa, quase inaudível:
— Veja lá como joga, velho besta!
— Que diz?
— Digo que o senhor joga admiravelmente...
Terminada e ganha a partida, Olinda perguntou:
— Então, seu Abrantes, o velho besta jogou bem?
Dando uma gargalhada, Abrantes respondeu:
— Ah! seu Olinda, eu sempre desconfiei que o senhor só era surdo quando lhe convinha. E acertei!

Francisco Acaiaba Montezuma, Visconde de Jequitinhonha, foi senador pela Bahia depois de ter sido o seu nome levado à Coroa três vezes. O implacável “lápis fatídico” do Imperador tinha sobre ele anotações não muito favoráveis, e a indicação só foi conseguida pela insistência do Marquês de Paraná, presidente do Conselho de Ministros.
Morava em uma casa magnífica com grande chácara, no Rio Comprido. O Imperador uma vez lhe disse:
— Sr. Visconde, tenho ouvido falar muito de sua residência. Dizem que é uma bela vivenda.
— Vá Vossa Majestade almoçar lá, e poderá ver que, se não é digna de receber Vossa Majestade, é entretanto confortável para um homem como eu.
O Imperador aceitou o convite, e no dia marcado foi almoçar em casa do Visconde. Durante a refeição, perguntou a Montezuma:
— O Sr. é fatalista?
— Sem dúvida. E tenho motivos para o ser.
— Posso saber quais são?
— Olhe, Senhor. A primeira vez que meu nome veio a Vossa Majestade na lista para ser senador, ao voltar do sertão da Bahia o cavalo em que eu montava tropeçou e eu caí: Vossa Majestade não me escolheu. Da segunda vez deu-se o mesmo fato, e Vossa Majestade novamente não escolheu o meu nome. Pela terceira vez deram-se as mesmas ocorrências, e então Vossa Majestade me escolheu.
— Mas não vejo onde está a fatalidade.
— É que Vossa Majestade havia de me escolher, querendo ou não.

Em fins de 1877, o Duque de Caxias, que presidia o Ministério, ficou muito doente. Para certificar-se do estado de saúde do velho servidor, o Imperador foi visitá-lo na Fazenda de Santa Mônica, e verificou que ele não podia continuar incumbido de tarefa tão árdua. Para substituí-lo, foi indicado o Visconde de Sinimbu.
Combinado com o Imperador o programa do Gabinete, nos termos acerca dos quais estavam de acordo, Sinimbu tratou de formar a sua lista de ministros. A entrada de Silveira Martins no Ministério era não só o reconhecimento dos seus grandes serviços na oposição, mas também a satisfação de uma espécie de compromisso. O notável tribuno era assíduo freqüentador da casa de Sinimbu, onde por vezes repetia que este devia organizar o próximo gabinete liberal. Mas ouvia sempre a resposta:
— Qual! O senhor não pense nisto, pois bem deve saber que será o Nabuco.
Silveira Martins insistia. Um dia Sinimbu o atalhou:
— Pois bem, se eu organizar o Ministério, o senhor será o ministro da Fazenda.
O novo presidente do Conselho não quis que sua palavra voltasse atrás, e Silveira Martins foi para o Ministério.

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2.6.08

10 - A UNIDADE NACIONAL QUE RESULTOU DO IMPÉRIO

O Imperador-menino, pólo da unidade nacional

Auguste Saint-Hilaire escreveu em 1833, quando D. Pedro II tinha apenas 8 anos de idade: “Quanto ao Brasil, repousam hoje seus destinos sobre a cabeça de um menino, o único, entre os brasileiros, que une o presente ao passado. É uma criança que une ainda as províncias deste vasto Império, e somente a sua existência opõe uma barreira aos ambiciosos que surgem de todos os lados, de igual mediocridade e pretensões igualmente gigantescas. Idéias de federalismo foram semeadas entre todas as províncias do Brasil, mas os brasileiros não saberiam estabelecer no seu seio o sistema federal, sem começar por desfazer os fracos laços que os unem ainda”.

Escrevendo de Portugal ao seu filho e sucessor, felicitando-o pelo aniversário, D. Pedro I afirma:
“Todos os bons brasileiros que desejam de coração, como eu, ver feliz a Terra da Santa Cruz, não poderão deixar de celebrar este dia, com todo o entusiasmo, como o de maior interesse para o Império brasileiro. Da tua conservação dependerá a futura felicidade do Brasil. A ti está reservada a glória de o fazer chegar àquele grau de prosperidade de que é capaz.
Eu faria uma grande injustiça aos meus concidadãos, se não estivesse persuadido de que eles se acham penetrados destas verdades e se desvelam por sustentar-te no trono. Estou convencido de que, se não seguirem a Constituição e D. Pedro II, a mesma sorte da infeliz América espanhola os espera.
Não posso deixar de te pedir que cuides muito de te instruíres, de te fazeres digno do amor dos teus súditos e da admiração de todos”.

O grande orador sacro Mont’Alverne afirmou em um sermão, por ocasião do aniversário de D. Pedro II em 1833, depois que este se recuperara de uma doença grave: “Vós nos convenceis de que o Brasil está salvo, que o primogênito dos brasileiros está vivo. Não é só uma fiança de paz, que o Brasil possui no seu Imperador. Ele é ainda o símbolo da unidade nacional, que seria posta em risco por uma adversidade tão deplorável como a sua morte. A perda do Imperador, afrouxando todos os vínculos sociais, abriria uma vasta arena a empresas temerárias”.

O primeiro Imperador libertara o Brasil e tornara-o independente. O seu cetro e o do seu pai tinham impedido que a Nação se fragmentasse em tantas repúblicas quantas as províncias, dispersando a sua energia e valor, estilhaçando o astro em vinte pequenas estrelas.
O Brasil salvara as suas formosas províncias de se transformarem em outras tantas repúblicas, e amava os seus soberanos. Sem os Braganças, seria a pulverização da grande América, com suas repúblicas faltas de unidade, até a guerrearem-se.

Haviam caído em pedaços todas as possessões americanas da grande nação espanhola. Cada zona, cada palmo desse território se foi progressivamente destacando, como corpo moribundo invadido pela gangrena, e que vai sucessivamente pagando o seu tributo à dissolução e à morte. Todos esses destroços da nobre Espanha se foram atenuando e nulificando. A forma republicana implantou neles o gérmen da anarquia e a caudilhagem, e a desordem e o retrocesso campearam impunes nas plagas outrora regidas pelo leão da Ibéria.
Por um contraste esplêndido, o Brasil estabelecendo um cordão sanitário, único da América, contra as idéias e instituições demagógicas, lançou à terra, desde o dia da sua separação, a semente desta grandeza e prosperidade, que tornará nossos vindouros felizes e poderosos.

O trono brasileiro, pelo próprio fato da sua singularidade na América, repousava sobre uma base precária, e ter-se-ia certamente desmoronado sob o peso do seu novo ocupador se não fosse este uma criança de cinco para seis anos, e não representasse, portanto, um fardo levíssimo.
Esse infortúnio, pelo qual uma criança que já era órfã de mãe se tornava como que órfã com o pai ainda vivo, despertou em todo o País um movimento de afeição suave pelo Imperador-menino. A compaixão, mola poderosa num povo sentimental, tomou o lugar das amizades e dedicações dinásticas que faltavam, e o receio de ver despedaçar-se a bela unidade nacional, alcançada não sem esforço, agiu como se houvesse um partido organizado e disciplinado para manter as instituições monárquicas, ou uma classe verdadeiramente interessada em defendê-las.


Com a maioridade de D. Pedro II, o prestígio da Monarquia salvou o Brasil

Os nove anos de regência, que vão desde 1831 até 1840, constituem a fase mais agitada da nossa existência autônoma. A “experiência republicana” das regências não pudera dar seus frutos, não só pela dispersão das forças nacionais em choque, mas também pelo caráter extraordinariamente singular de Diogo Feijó. Sentia-se a falta de um homem-símbolo, de uma figura central que encarnasse a autoridade suprema e a pusesse a cavaleiro das revoltas periódicas ou das indisciplinas ousadas. O Imperador, com seus 15 anos, oferecia um pólo em redor do qual podiam evoluir as idéias, as aspirações, as forças políticas dispersas até então dentro do País.

Em 1839, quando se cogitava da grave questão da antecipação da maioridade, foi dito a D. Pedro II:
— Senhor, acha-se em risco tanto a paz do Império como a causa da Monarquia. Só um braço há que a ambas possa salvar: é o de Vossa Majestade. Antevemos desde já um porvir de venturas, confiado a tão alta sabedoria.
D. Pedro então perguntou:
— Será certo que com pouco mais de 14 anos possa haver sabedoria?
Os senadores se reuniram e formularam a D. Pedro a pergunta:
— Quererá Vossa Majestade assumir o Governo em 2 de dezembro, quando completa seus 15 anos, ou quer já?
— Quero já! – foi a sua resposta.

A campanha pela maioridade de D. Pedro II foi uma revolta do instinto de conservação nacional. Ninguém se preocupou com indagar propriamente dos méritos do régio adolescente. A confiança geral residia no princípio que ele encarnava, e que era o símbolo da paz e a garantia da segurança da nacionalidade. No dia 23 de julho de 1840, o prestígio da Monarquia salvou o Brasil. Salvou-o, e é fato que todos se voltaram para o Imperador-menino como se vissem nele o único recurso possível de salvação para o País. Somente um poder superior e inacessível às contingências dos partidos poderia pacificar e tranqüilizar os espíritos e robustecer os laços da unidade nacional. Com a sua investidura, conseguiu evitar a perturbação da ordem, senão a dissolução do Império.

Charles Reybaud conta que, em 1850, o Conselheiro Marques Lisboa, embaixador do Brasil em Londres, falava, diante do Duque de Wellington, sobre a situação do Império do Brasil e a vitalidade de suas instituições, que haviam permitido atravessar, sem confusão, o período tão tempestuoso de uma regência de dez anos. O Duque meditou alguns instantes. Depois, em voz lenta e grave, e como que pesando as palavras, respondeu:
— Podeis orgulhar-vos de vossa Constituição e de vosso país. Não conheço na Europa um único Estado que tivesse resistido a semelhante prova.

Visto no seu conjunto, o reinado de D. Pedro II é uma obra-prima de paciência humana e de dedicação patriótica. Nada era mais fácil do que inutilizar, no dia seguinte à Maioridade, a boa vontade e a esperança dos que não viam outro meio de sair da oligarquia senão a sua coroação. No entanto, ele teve a habilidade de conseguir, por perto de meio século, a quase unanimidade nacional em apoio do seu trono e de sua pessoa.


Firmeza e clemência do Imperador garantem a paz e o progresso

Não sabemos se D. Pedro II daria o grito do Ipiranga. Mas podemos afirmar que D. Pedro I não atravessaria tão prudentemente os perigos dos primeiros anos do Segundo Reinado, nem resolveria com tamanho acerto os árduos problemas de meio século de administração.
A desgraça mais temerosa de todas, naquele tempo, foi o desmembramento do Império. E esta possibilidade mais de uma vez se afigurou inevitável. A unidade se fez em volta do Imperador, e nesse sentido as manifestações separatistas deixaram de se produzir.91
Começando o seu reinado pela clemência, que por meio século lhe marcou o roteiro na alta administração do Império, concedeu plena anistia a todos os que estivessem presos por crimes políticos. O decreto, de 22 de agosto de 1840, continha também uma proclamação aos revoltosos do Rio Grande do Sul, chamando-os de novo ao grêmio da sociedade brasileira, em termos em que transpareciam a bondade que perdoa e a energia que ameaça: “A natureza deu-me um coração para perdoar-vos; o concurso da Nação inteira ministra-me forças para vos subjugar. Aproveitai-vos, enquanto é tempo, do que o coração vos oferece, e temei de arrostar as forças do Império”.
A guerra dos Farrapos, que ensangüentara por dez anos as campinas riograndenses, tivera termo graças à ação enérgica de Caxias, a quem não faltou força para vencer os rebeldes heróicos, nem benevolência para colher as suas propostas de paz. Visitando a província logo depois, D. Pedro II conseguiu, só com a sua presença, conciliá-la e conservá-la lealmente unida por todo o longo período do seu reinado.

A 13 de maio de 1842, em Sorocaba, estoura uma rebelião liderada por Rafael Tobias de Aguiar e pelo Padre Feijó. Em 10 de junho, os Otonis desfecham um golpe em Barbacena. A mão firme de Caxias susteve o edifício do Estado. Três anos antes, sem um Imperador, esses golpes seriam uma catástrofe, mas em 1842 não passaram de um sobressalto.

Em 1843, por ocasião das comemorações da Independência, D. Pedro II escreveu um soneto que termina com estes versos:
“Juro, nas aras da fidelidade:
De meu pai recebeste a Independência,
Receberás de mim a Liberdade!”

Em menos de dez anos o País entrou na ordem, e o que eleva extraordinariamente o nome de D. Pedro II, na gratidão nacional, é que conseguiu este enorme resultado sem repressões violentas, sem perseguições cruéis. Vencia as revoluções e perdoava aos revoltosos, completando a obra da justiça com a colaboração de sua magnanimidade.75
Foi incontestavelmente um estadista, que conseguiu, com a força moral de sua virtude, unir durante cinqüenta anos, no mesmo pensamento, interesses e homens tão diferentes, ainda apaixonados das lutas em que se haviam batido. O Brasil lhe deve sua unidade política, o seu prestígio no exterior, a rápida civilização do povo, que se exterioriza brilhantemente na capacidade e na moralidade dos seus homens públicos, e principalmente na brandura de nossos costumes, ao tempo em que os caudilhos de países vizinhos se revezavam no poder, reduzindo, de cada assentada, o número de cabeças de seus concidadãos.

Relatando suas impressões, após viagem ao Brasil em 1882, o Conde Alexandre Hübner afirma: “O Imperador possui, em alto grau, a arte de manejar os homens. É graças a essa arte que ele alcançou um resultado prodigioso. Cercado de repúblicas onde as revoluções se repetem periodicamente, o Brasil se beneficia há 32 anos de uma paz interna ininterrupta. Isso deve-se ao Imperador”.

D. Pedro nos deu meio século de progresso moderado, disciplinado, sadio. Meio século de paz, de tranqüilidade, de ordem. Meio século de legalidade, de justiça, de moralidade.


O Imperador consolida a nacionalidade brasileira

O maior milagre que já se registrou na crônica dos povos sul-americanos é, sem dúvida, a preservação da unidade política do Brasil. Tantas e tão variadas eram as dissensões que trabalhavam a vida interior do Império, que tudo fora de prever, menos que a Nação saísse ilesa do choque dos interesses e das ambições dos primeiros dias da independência. Alcançada em definitivo a emancipação sonhada pela alma brasileira, logo entrou o Brasil a pagar o tributo da sua própria felicidade, encontrando dentro de si mesmo maiores inimigos a vencer do que em terras estrangeiras.

Antes de completar dez anos de administração, o Imperador já havia aniquilado o espírito de caudilhismo que reinava em várias províncias brasileiras, desviando do campo da atividade patriótica algumas dezenas de militares e de paisanos, que passaram depois a prestigiar-lhe a autoridade, cheios de entusiasmo pelas suas qualidades de administrador justiceiro e clemente.

O Gabinete da Conciliação, organizado pelo Marquês de Paraná em 1853, assinala na história política do Segundo Reinado uma época cujos frutos permanecerão vivos até o fim do Império. Acabou com o espírito revolucionário e firmou definitivamente a paz dentro da qual prosperará o País. Preparou um punhado de homens novos para o futuro governo, selecionando os mais capazes, ensinando-lhes a escola da tolerância, do respeito mútuo e do interesse público, que passou a ser a característica do governo. E finalmente criou o ambiente constitucional em que passariam a se revezar, sem se excluírem, os dois grandes partidos da Monarquia.
Cercava o Imperador nessa época, ajudando-o na obra de consolidar a nossa nacionalidade em formação, uma brilhante coleção de homens públicos, sem dúvida a mais completa que já nos foi dado possuir. Nunca se vira, nem se veria depois no Brasil, como nesse período áureo da Monarquia, semelhante galeria de estadistas, notáveis pelo talento, pelo senso da medida, pelo amor à causa pública, pelo desinteresse pessoal, pela rigidez de costumes, pela austeridade de suas vidas privadas.

O grande serviço que o Imperador nos prestava não era tanto o de preparar um Brasil de amanhã, mas sobretudo o de consolidar o Brasil do presente, o Brasil do seu tempo, dar-lhe uma estrutura política e social bastante resistente, para que as gerações vindouras pudessem construir o grande edifício que seria o Brasil do futuro, sem receio de vê-lo um dia por terra. Ele era, neste particular, um dos grandes consolidadores dos alicerces da nossa nacionalidade. Durante cinqüenta anos de reinado, fez de sua vida um longo e constante dever cumprido sem impaciência, sem dilação, sem preguiça. Foi mais administrador do que estadista.
À atuação do Imperador, à sua habilidade política e espírito de longanimidade, atribui Gustavo Aimard a paz profundíssima que o Brasil desfrutava quando o visitou. O Soberano era ao mesmo tempo político e filósofo dotado de enorme benevolência, conhecedor de homens como ninguém, e animado pelo maior patriotismo.


A lógica inflexível do Imperador nos objetivos de longo prazo

A coerência, com a madura reflexão, era uma das virtudes de D. Pedro II. Uma vez adotado um sistema ou aceito um plano, não mudava facilmente. A tradição, a continuidade do governo, está com ele só. Como os gabinetes duram pouco e ele é permanente, só ele é capaz de política que demande tempo. Só ele pode esperar, contemporizar, continuar, adiar, semear para colher mais tarde, em tempo certo.

Durante a guerra do Paraguai os ministérios se sucederam, como também os chefes combatentes. Mudaram a política dos países amigos e as circunstâncias em que a luta se desdobrou. Mas permaneceu ele, seguro dos seus objetivos, sem esmorecer nem precipitar, árbitro das soluções, fiel ao programa. Se a política exterior do Brasil teve então uma lógica inflexível, foi porque a fez o Imperador.
No Brasil, ninguém se identificava mais com a campanha do Paraguai do que o Imperador. Ninguém a intensificava com maior interesse e mais acentuado patriotismo. Joaquim Nabuco afirma: “A influência do Imperador foi notável, nessa época. Cedeu para as despesas da guerra a quarta parte da sua verba pessoal. A sua atividade proverbial aumentou ainda mais. A sua solicitude não teve limites. O seu ardor em animar os que partiam dava às suas palavras a emoção da voz da Pátria. O Imperador arrastava atrás de si todos que o circundavam”.
Por vezes, sua insistência era quase uma súplica: “As circunstâncias são muito graves, e todos devem concorrer para o fim patriótico de concluir a guerra, como só posso admitir que ela termine, com honra para o Brasil. Caxias está animado. Porém ele merece, e o bem do Estado exige, que ele receba, como até agora, o maior apoio do Governo”.

A guerra do Paraguai envelheceu precocemente D. Pedro II. Foram cinco anos que valeram vinte.
Nunca, talvez, um rei o foi tão inteiramente como D. Pedro II, entre 1864 e 1870. Havia já construído o seu sistema de governo – a macia direção pessoal do Estado, em harmonia com um gabinete representativo – e imposto aos políticos a sua maneira de agir e de conciliar, de resolver e de negar, de conduzir e de orientar.
A luz perene das suas janelas, iluminadas até altas horas, projetava-se sobre os horizontes da nacionalidade. Sabia-se que o Imperador dormia pouco, empenhado em dar à sua terra o completo esforço, para que vencesse a tormenta com dignidade e glória.

Tomemos os Estados Unidos e o Brasil, frente ao mesmo problema: a abolição da escravatura. Tiveram os Estados Unidos a solução pela violência, pela força, pelo grande fragor da guerra fratricida. Teve o Brasil uma solução que todos vimos, solução que excedeu aos sonhos dos humanitários mais otimistas. Porventura deveremos envergonhar-nos da solução que soubemos e pudemos dar ao problema, e sentir o não termos imitado os Estados Unidos também nesse ponto?
“Se os Estados Unidos, em 1862, tivessem um monarca em vez de um presidente eleito por poucos anos, certamente lhes teria sido possível dirigir o problema servil para uma solução pacífica, evitando uma sangrenta guerra civil, cujos efeitos ainda perduram”.
Isto dizia Doellinger em 1880, e oito anos depois os fatos vieram dar-lhe razão, porque o único país monárquico da América foi também o único que pacificamente extinguiu a escravidão. O seu natural instinto de conservação leva as monarquias a procurarem resolver os problemas sociais, enquanto que as oligarquias republicanas temem esses problemas e adiam-lhes indefinidamente as soluções.

O Conde Afonso Celso, em visita ao Imperador exilado em Paris, contou-lhe minuciosamente as notícias da Pátria, algumas das quais desagradaram-no. Um dos presentes perguntou-lhe:
— O espírito patriótico de Vossa Majestade não se confrange com as desgraças que se desencadearam sobre o nosso País?
— Certamente! Sucedem ali fatos que me fazem sofrer muito. Por exemplo, a notícia de que pretendem ceder aos argentinos parte do território das Missões. Isso, nunca! Nem um palmo do nosso território, nem uma pedra das nossas fortalezas. Contamos a nosso favor com o direito e a força. Como transigir nessas condições? Foi o meu empenho sagrado conservar o Brasil unido e íntegro. Reside nessa homogeneidade individual a nossa grandeza.


Não pertencendo a partidos, o Monarca é Imperador de todos os brasileiros

Um dos maiores serviços que o Rei presta ao povo é a garantia da sua total independência em relação aos partidos políticos, e dum modo geral em relação aos interesses particulares das pessoas ou das associações, sejam de que tipo forem: políticas, econômicas, profissionais.

Em 1886, ao visitar as obras do Museu do Ipiranga, em São Paulo, o Imperador mandou a carruagem seguir pelo caminho histórico. Chegando ao local, comentou:
— Esta é a verdadeira arquitetura adequada a um monumento desta ordem.
E perguntou ao Conselheiro Ramalho:
— Ainda vive alguém do tempo da Independência?
— Há em Campinas um velho, chamado João Cintra, que fez parte da comitiva do augusto pai de Vossa Majestade.
Dias depois, quando chegou a Campinas, foi logo indagando onde morava o velho Cintra, cuja casa era fora da cidade. E seguiu para lá, acompanhado apenas de um jornalista e do seu velho negro Rafael. Encontrou João Cintra falando a meia voz, num grupo de velhos. Depois dos cumprimentos, perguntou:
— Que história estava aí contando? Continue, eu também quero ouvir. Quem é velho sempre sabe muitas histórias.
Não sabendo o que lhe haveria de dizer, o rude velhinho perguntou a Sua Majestade:
— Por que é que o Senhor não se muda para cá? Será por ser carioca?
— Eu não sei o que é ser carioca, paulista, gaúcho, mineiro ou pernambucano. Só sei que sou brasileiro.

No dia 10 de julho de 1888, os brasileiros residentes em Paris promoveram um banquete para comemorar a abolição da escravidão. Compareceram 169 personalidades do mundo oficial. Os organizadores desejavam convencer o Imperador, presente então na França, a presidir o banquete. Coerente com a sua situação de Imperador de uma maioria de abolicionistas, mas também da minoria não abolicionista, ele se recusou:
— Desejo continuar Imperador de todos os brasileiros, quaisquer que sejam os credos e convicções políticas.

Numa carta dirigida a D. Pedro II, Lamartine escreveu: “Todos os súditos de Vossa Majestade, que vêm do Brasil ou que daí nos escrevem, felicitam-se de viver sob o governo de um príncipe que extinguiu no Novo Mundo, por seu caráter e suas virtudes, a eterna disputa entre as naturezas do governo republicano ou monárquico: a liberdade das repúblicas sem a instabilidade, e a perpetuidade das monarquias sem o despotismo”.

Tivemos 67 anos de Monarquia que, além de nos trazer a Independência, trouxe a este País crescimento industrial e comercial, estabilidade política e ideológica, liberdade total, honestidade, probidade com as coisas públicas e identidade pátria, além de governos livres e independentes, sistema monetário forte, estruturas institucionais fortes e morais, estrutura partidária de grande potência e uma política exterior digna.


Na “questão religiosa”, atuação objetável do Imperador

Dos muitos fatos ocorridos no Segundo Reinado, nenhum houve que, sequer de longe, causasse tanta comoção no extenso Império do Brasil quanto a chamada “questão religiosa”, que se desenrolou de março de 1872 a setembro de 1875.
Herdeira e continuadora da Monarquia portuguesa, a Monarquia brasileira conservava o Estado unido à Igreja. A Religião Católica era a única oficialmente reconhecida como verdadeira pelo Império, conforme previa o artigo 5º da Constituição. A prática de cultos não católicos era tolerada, porém só o culto católico podia ser realizado em edifícios com forma externa de templo. Quando o Santíssimo Sacramento passava pelas ruas, a tropa recebia ordem de ajoelhar-se. Os membros do episcopado eram objeto de honras oficiais, como dignitários do Estado.
A estes justos privilégios se contrapunham, infelizmente, graves e injustos cerceamentos da liberdade da Igreja, entre os quais ressaltava o fato de que, segundo o entendimento de canonistas eclesiásticos e civis, as bulas e decretos do Soberano Pontífice, com vigência para o mundo inteiro, não podiam ser aplicadas em território brasileiro sem a aprovação – ou “placet” – do Imperador.
Assim, tendo o Papa Pio IX, então reinante, publicado decreto proibindo aos católicos filiarem-se à maçonaria, o Gabinete de então, presidido pelo Visconde do Rio Branco, grão-mestre da maçonaria brasileira, se declarou contrário à aplicação do documento pontifício em nosso País. E nisto foi apoiado pelo Imperador, que recusou seu “placet” ao mencionado ato pontifício.
Discordando dos canonistas que sustentavam a legitimidade do “placet” imperial, dois prelados brasileiros – D. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, Bispo de Olinda, e D. Antonio de Macedo Costa, Bispo de Belém do Pará – deliberaram aplicar nas respectivas dioceses aquele decreto, afirmando assim a obediência que, como bispos católicos, lhes cabia ter em relação a todos os atos emanados do Vigário de Cristo na Terra. Em conseqüência, determinaram que, sob penas canônicas, saíssem da maçonaria todos os eclesiásticos e leigos católicos a ela filiados.
À vista desse ato, que teve graves desdobramentos, o Governo Imperial decidiu levar presos ao Rio de Janeiro ambos os prelados, a fim de serem julgados. O Supremo Tribunal de Justiça, em maio de 1874, condenou os bispos a 4 anos de prisão com trabalhos forçados. Fazendo imediatamente uso da sua atribuição constitucional, D. Pedro II comutou a pena em prisão simples.
É difícil avaliar devidamente, em nossos dias, a comoção causada em todo o Brasil pela decisão do Tribunal. De todo o País afluíram católicos inconformados, para visitarem nos respectivos cárceres os valorosos prelados. E de todas as partes convergiam para a mesa de D. Pedro II os pedidos de anistia em favor destes. Entre as pessoas de maior destaque nesses pedidos, figuravam muitos membros do episcopado nacional e a Princesa Isabel.
O seguinte episódio, ao mesmo tempo que nos mostra um aspecto gracioso da intimidade entre as pessoas da Família Imperial, deixa reluzir a firme têmpera dessa grande dama católica que foi a Princesa Isabel.

Em visita à Princesa, em julho de 1875, o Imperador e a Imperatriz comunicaram-lhe que pretendiam viajar à Europa, para o tratamento de D. Teresa Cristina. Aproveitando o ensejo, a Princesa declarou que só aceitaria a Regência com satisfação se fossem anistiados D. Vital e D. Macedo Costa, então cumprindo pena de prisão. O Imperador não respondeu, mas ela voltou, decidida, ao assunto:
— Pois o papai fique certo de que, se até eu assumir a Regência o caso permanecer como está, eu anistiarei os bispos. Será o meu primeiro ato.

Afinal, no dia 3 de setembro de 1875, o novo Gabinete, presidido pelo Duque de Caxias, obteve do Imperador o decreto de anistia dos bispos.

Alguns anos mais tarde, quando visitou o Colégio do Caraça em abril de 1881, D. Pedro II percorreu as aulas do Seminário Maior. Depois de ouvir os alunos que eram interrogados sobre Teologia Dogmática, Moral, História, quis saber o que se ensinava ali sobre o “placet”. Foi chamado então um seminarista, que expôs a doutrina do Concílio Vaticano sobre o assunto:
— Há dois poderes, o eclesiástico e o civil, e ambos vêm de Deus. O primeiro, imediatamente de Deus. Sobre o segundo, as opiniões divergem se imediatamente ou mediante o povo. O poder eclesiástico é superior ao civil, porque tem objeto mais nobre, espiritual, sobrenatural – o bem das almas – e extensão territorial maior, pois abrange o mundo todo. O poder civil tem por objeto o bem temporal, e se limita a uma nação particular. Estes dois poderes são distintos e livres na sua esfera.
Houve um silêncio, e D. Pedro perguntou:
— E nas questões mistas?
O professor, Pe. Chanavat, tomou a palavra:
— Para estas, a decisão pertence à Igreja.
— Protesto! Como chefe do poder civil e defensor nato da Constituição Brasileira, protesto contra esta doutrina.
Com tato e delicadeza, o Superior, Pe. Clavelin, propôs outro assunto, desfazendo o incidente. Mais tarde, durante o recreio, D. Pedro passou com a comitiva perto do Pe. Chanavat, que se encontrava em uma roda de alunos, e este aproveitou para interpelar o Imperador:
— Não posso admitir o protesto de Vossa Majestade. É escandaloso um monarca católico protestar contra a doutrina da Igreja diante de um seminário maior.
Mais tarde, D. Pedro comentou com a comitiva:
— O Pe. Chanavat é um sacerdote digno da batina que veste e da cátedra que ocupa. É um homem!

O elogioso comentário do Monarca sobre a pessoa do Pe. Chanavat deixa claro o respeito com que considerava os sacerdotes e os católicos que se tinham oposto a ele tão firmemente, em defesa das inalienáveis prerrogativas do Papado. As suas atitudes, decorrência natural das doutrinas que lhe inculcaram os professores designados pela Regência, durante a menoridade, não se revestiam, portanto, de um caráter rigoroso e inflexível.

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