A personalidade de D. Pedro I nas vias da Independência
Quando veio ter a D. Pedro o decreto das Cortes portuguesas, ordenando-lhe o imediato regresso à pátria, a conspiração pela independência já estava feita. O resultado, logo o tivemos a 9 de janeiro de 1822:
— Se é para bem de todos e felicidade geral da Nação, diga ao povo que fico.
Estava começada a luta. Daí por diante, o Príncipe é de uma vigilância, de uma atividade, de uma decisão que nada consegue abater. D. Pedro tinha a atração dos perigos. Resolvido a adotar a causa brasileira, perdeu todas as vacilações que antes o prendiam nos seus movimentos. Seguiu o seu caminho resolutamente, impavidamente, até o desfecho de 7 de setembro.
A atitude das Cortes de Lisboa em relação ao Brasil havia congregado os patriotas, deliberados a emancipar a antiga colônia com ou sem o auxílio do Príncipe Regente. As combinações para isso marchavam céleres, multiplicando-se os emissários especiais entre São Paulo e Rio, estabelecendo ligações para o grande movimento libertador.
Incumbido pelos patriotas do Rio de ir a São Paulo com uma mensagem verbal aos conspiradores, o capitão Pedro Dias Pais Leme, que foi mais tarde Marquês de Quixeramobim, entendeu que era seu dever, como amigo do Príncipe, passar na Quinta da Boa Vista e narrar-lhe o que se tramava.
D. Pedro ouviu com calma a narrativa, e ao fim, em vez de agradecer-lhe ou dar-lhe qualquer ordem, pôs-se a falar de viagens e caçadas. Até que, a certa altura, chegando à janela, começou a olhar o horizonte, no rumo do Sul. E apontando-o a Pais Leme, disse:
— Que belo dia para se viajar!
O oficial compreendeu tudo. Beijou, comovido, a mão do Príncipe, desceu rapidamente as escadas, montou a cavalo, e partiu a galope.
Dentre as influências que recebeu D. Pedro I, conduzindo-o a proclamar a Independência, destaca-se a da Imperatriz. A convivência diária com D. Leopoldina ampliava muito o horizonte de D. Pedro I, que escutava atento, com interesse, o que ela contava de sua terra natal, da corte vienense, de Napoleão, da política e história européias, dos monarcas no Velho Mundo, etc. A cultura de D. Leopoldina impressionava D. Pedro. Era o meio que lhe garantira, após conquistar a confiança do marido, uma ascendência crescente sobre o seu irrequieto espírito. Para o bem da verdade histórica, convém frisar que D. Pedro, apesar da pouca instrução, não ficava alheio aos assuntos científicos e intelectuais.
D. Pedro I e o senso da oportunidade na política
O Brasil havia vencido a guerra da Independência, mas faltava Portugal reconhecê-la oficialmente. Travou-se então uma batalha diplomática, na qual a Inglaterra, maior potência de então, entrava como fiel da balança, e também impondo seus interesses. Para reconhecer a independência, a Inglaterra exigia que o Brasil lhe pagasse 1,4 milhão de libras esterlinas devidas por Portugal, e mais 600 mil libras de indenização a Portugal, além de um contrato comercial vantajoso. D. Pedro I reuniu o Conselho de Ministros, presidido pelo Visconde de Barbacena, e transmitiu a proposta. O ministro da Guerra objetou:
— Mas é um recuo, Majestade! Depois da luta, depois de vencidos todos os estorvos, e já senhores do País, vamos nós agora voltar para trás? Vamos pagar, em dinheiro, o que já conquistamos com sangue? Por quê? Não há motivo que justifique.
— Neste caso, Senhor Ministro, a Inglaterra intervém a favor de Portugal.
— E que mal há nisto, Majestade? Se a Inglaterra intervier, nós enfrentaremos a Inglaterra. Nós nos bateremos até a última gota de sangue.
— Mas enfrentar com o quê, Senhor Ministro? Nós não temos nada. Enfrentar com o quê?
— Enfrentar de qualquer jeito, Majestade.
D. Pedro ficou furioso. Viu nitidamente que o espírito brasileiro não admitia acordos. Se entre os próprios ministros havia aquela absurda atitude patrioteira, que barulhada não haviam de fomentar os deputados? À vista disso, D. Pedro resolveu o caso temerariamente. Assinou dois tratados. Um ostensivo, público, pelo qual D. João VI reconhecia simplesmente a independência do Brasil. Mas assinou também outro, secreto, pelo qual o Brasil se obrigava a pagar 2 milhões de libras e a fazer com a Inglaterra novo tratado de comércio.
D. Pedro cumpriu a palavra. Pagou a dívida e assinou o tratado. O seu ato se ressente de uma ilegalidade clamorosa. Mas essa ilegalidade foi a mais abençoada das que praticou, pois permitiu-lhe alicerçar a sua grande obra. Evitou a guerra, serenou as agitações patrióticas, não se derramou mais uma gota de sangue. E criou afinal um império. O Brasil, como por encanto, apareceu como nação livre aos olhos do mundo, e isto se deveu à ousadia e temeridade do Imperador.
O major Luiz Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, ofereceu a D. Pedro I, dias antes da abdicação deste em 7 de abril de 1831, os planos da reação contra as agitações que se avolumavam. O Imperador os recusou nos seguintes termos:
— O expediente proposto é digno do major Lima e Silva, mas não o aceito, porque não quero que por minha causa se derrame uma só gota de sangue brasileiro. Portanto, siga o major a sorte de seus camaradas reunidos no Campo de Santana.
No momento supremo da abdicação, quando era intimado a demitir o Ministério, D. Pedro I respondeu:
— Diga ao povo que recebi a representação. O Ministério passado não merece a minha confiança, e do atual farei o que entender. Sou constitucional, e caminho com a Constituição. Admitir o mesmo Ministério, de forma alguma. Isto seria contra a Constituição e contra a minha honra. Prefiro abdicar.
Foram os nossos dirigentes, depois de 15 de novembro de 1889, que implantaram o desrespeito à Constituição, e a infringiram tanto que acabaram reduzindo-a a um maço de papéis esfarrapados. Nenhum dos nossos presidentes da República teve o espírito constitucional de D. Pedro I ou de D. Pedro II, e foram eles que deram ao povo o exemplo de violar a Magna Carta do País.
Em 1831, se D. Pedro I desembainhasse sua invencível espada, a uma só palavra, a um só aceno seu, ondas de sangue tingiriam nossas praças, e as fúrias de uma indômita guerra civil invadiriam o Império inteiro, talvez por longos anos. A sua abdicação espontânea teve ainda a vantagem de arrancar o Brasil ao estigma de revolucionário. Foi a coroa devolvida na ordem da sucessão, segundo o direito fundamental, e por ato legal e voluntário do Imperante. Não houve combate, nem sangue nem resistência.
Testemunha ocular dos fatos afirma que durante os dias em que D. Pedro I esteve a bordo da nau inglesa, recebeu valiosíssimos oferecimentos de algumas das mais leais espadas. Agradecendo, pediu a todos que as reservassem para defesa do trono de seu filho, acrescentando:
— Desde que livremente abdiquei, o desembainhar a minha espada já não seria ato de rei, mas de rebelde.
O reinado de D. Pedro I figura, sem dúvida, como uma grande página da história nacional. A opinião de Armitage é expressiva: “Apesar de todos os erros do Imperador, durante os dez anos de sua administração o Brasil fez certamente mais progressos em inteligência do que nos três séculos decorridos do seu descobrimento à proclamação da Constituição Portuguesa de 1820”.
As fortunas não se originavam de favores recebidos da Coroa. Eram a conseqüência do esforço hercúleo, do trabalho, do cultivo do solo e da conquista das florestas e das terras do interior. E por isso a sociedade, no tempo de D. Pedro I, foi honesta, sem venalidade.
Cenas da vida de D. Pedro I em família
Naquela noite de 2 de dezembro de 1825, todo o Palácio de São Cristóvão estava ansioso e em grande expectativa. A Imperatriz Leopoldina ia dar à luz, e todos desejavam um príncipe, que seria o herdeiro da coroa. O Dr. Guimarães Peixoto saiu um pouco, para tranqüilizar a todos, e anunciou a D. Pedro:
— Tudo normal. Pode Vossa Majestade sossegar. Não há incidente nem complicação. Mais um pouquinho de paciência, e terá logo um novo príncipe nos braços.
— O seu palpite, doutor?
— Para mim, desta vez, é homem. Para mim, não resta dúvida. É príncipe.
— Príncipe?! Pois se for homem, meu caro doutor, pode pedir o que quiser, e lhe será concedido.
— Tenho a palavra de Vossa Majestade?
E voltou para os aposentos de D. Leopoldina. Algum tempo depois, sai o médico com brados de júbilo:
— É príncipe, Majestade! É príncipe!
Havia nascido D. Pedro II. O Dr. Guimarães Peixoto tinha a promessa de D. Pedro I. Podia pedir o que quisesse, mas foi muito modesto. Solicitou uma simples comenda para um filho. Fiel à palavra, o Imperador criou esse comendador de 6 anos de idade.
Chegando de uma viagem ao exterior, o Visconde de Barbacena foi ao Palácio de São Cristóvão visitar o Imperador. E um dos primeiros cuidados deste, com a amizade que votava ao discreto titular, foi mostrar-lhe o Príncipe Imperial, que seria Pedro II, e tinha apenas dois anos de idade:
— Este será bem educado, hás de ver. Eu e o mano Miguel havemos de ser os últimos malcriados da família.
D. Pedro I recebeu de Minas um belo cavalo, e resolveu dá-lo ao pai. Quando foi entregar o presente, D. João VI já havia sido prevenido pela maledicência dos adversários do Príncipe, que diziam que o cavalo era velhaco, e que o derrubaria na primeira ocasião. Disse então ao filho:
— Sim, Pedro. Já sei tudo. Queres dar-me um cavalo velhaco, que me derrube. Monta-o tu.
D. Pedro ofendeu-se. Montando o cavalo, gritou que ninguém mais o montaria, e saiu num galope furioso, até o arrebentar.
Depois da abdicação, e já a bordo da nau Warspite, que o levaria para a Europa, D. Pedro I escreveu ao seu filho D. Pedro II, que tinha apenas 6 anos: “Muito estimarei que esta o ache com saúde, e adiantado nos estudos. Sim, meu amado filho, isso é muito necessário, para que você possa fazer a felicidade do Brasil. Lembre-se sempre de seu pai, ame a sua e minha Pátria, siga os conselhos que lhe derem aqueles que cuidarem da sua educação, e conte que o mundo o há de admirar, e que eu me hei de encher de ufania por ter um filho digno da Pátria”.
Impetuoso e de bom coração, um Príncipe de medida incomum
Deveria partir para o Sul um corpo de caçadores alemães, a fim de reforçar o exército brasileiro que lá batalhava sob as ordens do Marquês de Barbacena. D. Pedro I ordenara que o Tesouro efetuasse o pagamento dos soldos atrasados dos mercenários. À última hora, estando já o batalhão embarcado, foi D. Pedro avisado pelo oficial encarregado de recolher a quantia do Tesouro, que os funcionários não queriam fazer o tal pagamento. D. Pedro se encolerizou e dirigiu-se para o Tesouro, empunhando grossa chibata. Momentos depois fazia entrada impressionante na sala onde se achavam os funcionários responsáveis pelo não cumprimento da ordem imperial. Sobre esses, que se encolhiam temerosos, despejou o Soberano uma avalanche de censuras, seguida de golpes de chicote.
D. Pedro I passeava pelos arrabaldes do Rio, seguido por grande escolta, quando o cavalo que montava perdeu uma das ferraduras. Procurou o ferrador mais próximo e confiou-lhe o trabalho. Apenas esse começara o serviço, sentiu-se rudemente empurrado pelo Imperador, que lhe disse numa voz irritada:
— Sai daí, porcalhão, que não sabes o teu ofício.
E ele mesmo, o Imperador, em pouco tempo ferrou o animal.
Resolvida a morte de João Guilherme Ratcliff, por sua participação na Confederação do Equador, o presidente do tribunal que o julgou levou a D. Pedro I a sentença de morte, para assinatura. Era um documento longo, minucioso e violento, em que a vítima era tratada com insolência e desprezo. Devolvendo o papel, para o alterarem, rugiu:
— Não assino! Morra o homem, que é quanto basta, mas não o insultem numa sentença!
Passeando a cavalo, em companhia da Imperatriz, D. Pedro I deparou com três homens, um dos quais estava no chão, sem sentidos. Eram marinheiros americanos, cujo navio estava ancorado no Rio. Um deles fora atirado ao chão pelo cavalo, e os outros dois não sabiam o que fazer. O Imperador se aproximou, prestando ao ferido os cuidados necessários. Quando o viu voltar a si, deu providências para que fosse internado num hospital, para tratamento mais adequado.
Fernando de Almeida, empresário teatral, havia mandado vir da Europa uma companhia dramática, que chegou ao Rio em 1829, no dia exato em que faleceu o empresário. Abandonada a companhia, os artistas lastimavam-se por toda parte, como um rebanho que tivesse perdido o pastor. Um desses atores se queixava, quando ouviu, de repente:
— E não estou eu aqui?
Era D. Pedro I. Nesse mesmo dia, nomeou uma comissão para dirigir oficialmente a companhia.
Quando soube da decisão de D. Pedro I de terminar a aventura com a Marquesa de Santos, o Marquês de Queluz foi um dos primeiros a patentear a sua alegria, dizendo ao Imperador:
— Caístes como homem, mas vos erguestes como herói, e a admiração da Europa será a vossa recompensa.
A bordo do navio Warspite, após a abdicação, D. Pedro I teve notícia das aclamações que o seu filho recebera no dia 9 de abril, nas ruas do Rio de Janeiro. E suspirou então:
— Há pouco, iguais vivas retumbaram em honra minha. Possa a fortuna ser mais fiel a meu filho.
Evaristo da Veiga, ao receber a notícia da morte de D. Pedro I, a quem ele tanto combatera, escreveu num julgamento que se antecipava ao da posteridade:
“O ex-Imperador do Brasil não foi um príncipe de ordinária medida, e a Providência o tornou um instrumento poderoso de libertação, quer no Brasil, quer em Portugal. Se existimos como corpo de Nação livre, se a nossa terra não foi retalhada em pequenas repúblicas inimigas, onde só dominasse a anarquia e o espírito militar, devemo-lo muito à resolução que tomou de ficar entre nós, de soltar o primeiro grito de nossa Independência”.
Não foi um príncipe de ordinária medida, mas uma prodigiosa natureza humana, um ser de escândalo e contradição, cuja vida, tão breve, se marcou de rasgos generosos que lhe redimem erros e pecados.
Ao tomar conhecimento da morte de D. Pedro I, em 1834, José Bonifácio exclamou:
— D. Pedro não morreu. Só morrem os homens vulgares, e não os heróis!
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FATOS DO BRASIL IMPÉRIO
Bem vindo ao blog FATOS DO BRASIL IMPÉRIO. Aqui são narrados fatos da época do Império, geralmente pouco conhecidos, extraídos do livro REVIVENDO O BRASIL-IMPÉRIO, que publiquei sob o pseudônimo Leopoldo Bibiano Xavier. Leitura muito útil, que dá uma visão realista do modo como o Imperador Pedro II conduzia os destinos do País.
Você está convidado a visitar também os sites referentes ao meu livro mais recente, A VOLTA AO MUNDO DA NOBREZA, que contém mais de 1.700 fatos mostrando a atuação da nobreza em diversos países e épocas:
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12 - ALGUNS PERSONAGENS DO IMPÉRIO BRASILEIRO
Seriedade e honradez nos homens do Império
Na atualidade, há um consenso geral em torno de se evitar reconhecimento de mérito a tudo o que for expressão de elite. No entanto, é mais do que certo que país algum pode aspirar a crescer sem o concurso dos melhores, sem o aproveitamento de seus maiores talentos e capacidades. O rol dos talentos era tão grande, no Império, que tornava-se difícil apontar os que sobressaíam. Foi o que Machado de Assis imortalizou em “O Velho Senado”. Por isso mesmo o País havia assumido uma posição que em muitos aspectos causava inveja no exterior: éramos uma ilha de paz e progresso na América do Sul.
Em uma visita de D. Pedro II a Victor Hugo, este lhe perguntou se não tinha receio de deixar o seu Império por tanto tempo, ao que o Imperador respondeu:
— Não. Os negócios públicos fazem-se perfeitamente na minha ausência. Há na minha terra muitas pessoas que valem tanto ou mais do que eu. Além disso, aqui não perco o meu tempo. Reino sobre um povo jovem, e é para esclarecê-lo, torná-lo melhor, fazê-lo marchar para a frente, que uso dos meus direitos, ou do poder que me coube pelos acasos da fortuna e do nascimento.
Escrevendo sobre os ministros de Estado do Segundo Reinado, o Conde Afonso Celso acentuou: “Nenhum ascendeu ao Governo por mero favoritismo ou por capricho, nenhum comprometeu a dignidade governamental, nenhum foi vergonhosamente esmagado, nenhum se portou de maneira ignóbil nem deixou nome odioso na tradição popular. Nunca, um só que fosse, se aproveitou de suas funções para locupletar-se. Todos se exoneravam endividados ou menos ricos. Era um sacrifício ser ministro”.
Joaquim Manuel de Macedo, o célebre romancista autor de “A Moreninha”, era deputado e professor das princesas, filhas de D. Pedro II. O Conselheiro Francisco José Furtado, organizador do Gabinete de agosto de 1864, o convidou para a pasta de Estrangeiros. Recusado o convite, mandou o Imperador chamá-lo à sua presença, e indagou o motivo da recusa, tendo em vista que ele possuía tantas qualidades para ser um bom ministro. E a resposta:
— Admita-se que eu tenha as qualidades que Vossa Majestade me atribui. Mas eu não sou rico, e a riqueza é um requisito indispensável a um ministro que queira ser independente. E não quero sair do Ministério endividado ou ladrão!
O Governo republicano, com o intuito de minorar o infortúnio de alguns senadores do Império, ofereceu-lhes uma pensão. A isto reagiu o Visconde de Sinimbu com a seguinte carta: “Na solidão onde vim recolher-me e provisoriamente resido, retirado da vida pública após o cruciante golpe e a suprema desgraça com que aprouve a Deus ferir-me, enviuvando-me no próprio dia da abolição da Monarquia, chegou-me a notícia do decreto do Governo Provisório, concedendo-me a pensão mensal de 500 mil réis. Como resolução que me prescreve a consciência, me dita a dignidade e me impõe a honra, rejeito a graça; e, salva a intenção, repilo-a como afronta e como ultraje à minha obscura pessoa e à minha pobreza honrada”.
Alguns exemplos de desinteresse nos ministros do Império
Os ministros da regência de D. Pedro I reduziram seus ordenados à metade do que eram no tempo de D. João VI. Ficaram em quatro contos e oitocentos mil réis anuais, pagos mensalmente.
José Bonifácio recebeu certa vez o seu salário de quatrocentos mil réis, meteu as notas no fundo do chapéu, e no teatro lhe roubaram o chapéu e o conteúdo. No dia seguinte, achou-se sem ter com que mandar comprar o jantar. Não possuía nem um vintém mais, e seu sobrinho Belchior Fernandes Pinheiro foi quem pagou as despesas do dia.
Em reunião do Conselho, José Bonifácio referiu esta ocorrência e a extrema necessidade a que ela o reduziu e à sua família. O Imperador entendeu que o ministro, visto a penúria em que se achava, devia ser indenizado, pagando-se a ele outro mês de ordenado, e neste sentido deu ali suas ordens a Martim Francisco, irmão de José Bonifácio e ministro da Fazenda.
Martim Francisco não obedeceu. Argumentou com o Imperador que não havia lei que pusesse a cargo do Estado os descuidos dos empregados públicos; que o ano tinha doze meses para todos, e não treze para os protegidos; e, finalmente, pedia a Sua Majestade que retirasse a ordem, por ser inexeqüível, e porque ele, Martim Francisco, repartiria com o irmão o seu próprio ordenado, e viveriam ambos com mais parcimônia aquele mês. Isto seria melhor do que dar ao País o funesto exemplo de se pagar ao ministro duas vezes o ordenado de um só mês.
José Bernardino de Almeida Sodré era ministro da Fazenda, em 1828. Seu colega da pasta da Guerra lhe oficiou, pedindo o pagamento das despesas de transporte, e outras, de alguns operários que o Imperador mandara engajar na Alemanha. Recusado esse pagamento, mandou D. Pedro I chamar o ministro, interpelando-o. Sodré respondeu:
— Senhor, no orçamento que vigora não tenho verba que autorize essa despesa. Ela é, portanto, ilegal, e não a posso pagar.
— Mandei engajar esses homens, e quero que as despesas sejam pagas.
— E sê-lo-ão, Senhor, já que Vossa Majestade o quer.
Dias depois, indagado pelo Monarca sobre o cumprimento da sua ordem, o ministro informou:
— Em face da lei, o Tesouro Nacional não podia pagar a esses engajados. A ordem de Vossa Majestade tinha, porém, de ser cumprida.
— E então?
— Paguei-os do meu bolso particular.
Falando com o Visconde Nogueira da Gama sobre Frei Pedro de Santa Mariana, seu desinteressado professor, D. Pedro II comentava:
— Sabe quanto ele tem sido caluniado...
— Até alcunhado de Frei Malagrida!
— Pois bem. Assevero-lhe que nunca me pediu coisa alguma, sabendo que eu nada lhe negaria do que de mim dependesse.
Pequenos fatos marcantes da vida de Caxias
O major Miguel de Frias, derrotado a 3 de abril de 1832 pelo major Luiz Alves de Lima e Silva, pôs-se em fuga e tentou escapar. Indo ao seu encalço, Lima e Silva foi informado sobre a casa em que o chefe revoltoso se havia asilado. Aproximou-se, e o dono da casa lhe franqueou a residência, que Caxias percorreu. Ao fim de um corredor havia uma porta fechada a chave. Caxias a abriu, e no centro do quarto, de pé, o major Frias o esperava. Os dois se olharam, mudos. Ao fim de um instante Caxias se retirou, dizendo ao dono da casa:
— Desculpe-me. Não há ninguém...
No dia seguinte Miguel de Frias fugia, asilando-se nos Estados Unidos.
Caxias comprara em 1850 uma fazenda na província do Rio de Janeiro. Ao tomar posse, encontrou 60 escravos além do número ajustado. Sem demora, comunicou o fato ao vendedor, que respondeu:
— São escravos da Nação. Continue a desfrutar os seus serviços.
Caxias reuniu os negros e, sem a menor hesitação, lhes deu liberdade incondicional.
Durante a guerra do Paraguai, num dia chuvoso, Caxias estava molhado, a cavalo, debaixo de uma árvore. A cada instante a região era varada por balas de artilharia. Chegou-se a ele um ordenança de cavalaria, trazendo com cuidado uma xícara de café:
— O Sr. Bonifácio de Abreu manda isto a V. Exa. Recomendou-me que não deixasse cair uma só gota no chão.
Olhou-o o marechal calmamente, e disse:
— Eu não quero. Beba-a você, camarada.
Voltando depois para o seu estado-maior, observou:
— Quando os meus soldados estão morrendo na chuva, nesta saraivada de balas, não posso dar-me nenhuma regalia, por pequena que seja.
O Duque de Caxias era ministro da Guerra, quando o Imperador foi visitar, em sua companhia, um dos quartéis da capital. Percorreu o edifício todo, indo até a cozinha, onde se servia na ocasião o rancho dos soldados.
— Dê-me uma destas marmitas – disse o Soberano.
Foi atendido e tomou todo o conteúdo, declarando que, mesmo no Paço, jamais tomara sopa tão saborosa. Disciplinado e disciplinador, Caxias não gostou da singeleza do Monarca. Ao portão do quartel, disse-lhe:
— Desculpai a minha franqueza. Por esse processo, Vossa Majestade não se populariza, mas se vulgariza.
O Imperador admirou em Florença o quadro “Batalha do Avaí”, de Pedro Américo. Quando a obra chegou ao Brasil em 1877, foi vê-la novamente acompanhado de Caxias, então presidente do Conselho de Ministros. Os elogios eram unânimes, mas Caxias, que fora o comandante da batalha e era a figura dominante na tela, conservava-se mudo. Discretamente, o Imperador perguntou-lhe:
— Que diz, Sr. Caxias?
— Desejava saber onde o pintor me viu de farda desabotoada. Nem no meu quarto!
General Osório, o arrojado comandante de homens livres
O Visconde de Taunay foi levar ao general Osório, durante a guerra do Paraguai, uma carta do Conde d’Eu, e o encontrou a ler, sozinho, deitado numa rede. Ao vê-lo, Osório disse:
— Olha! Tu, que és bacharel, deves entender disto. Toma lá este livro e traduze-me este diabo de inglês, que está duro de roer.
Havia no início do livro alguns termos técnicos, que colocaram o improvisado tradutor em apuros, levando-o a muitas hesitações.
— Está bem! Vai bem! – repetia-lhe o general, rindo-se.
Algum tempo depois Osório caiu no sono, e Taunay se retirou de mansinho. No dia seguinte, o general interpelou o tradutor:
— Então, seu safadinho! Foste saindo à francesa, hein?!
— Mas V. Exa. estava dormindo profundamente!
— É verdade! E que sono delicioso! Cheio dos sonhos os mais agradáveis. Sonhei que estava traduzindo corrente e perfeitamente aquele inglês todo, incomparavelmente melhor do que tu, que és bacharel formado.
Em conselho de guerra, discutia-se como tomar certa posição ocupada pelas forças de Solano López. Queria o Conde d’Eu contorná-la, opinando o general Osório por um ataque de frente. Dizia o Conde:
— Mas isto, Sr. Osório, é o que se chama atacar o touro pelos chifres.
— Qual touro, alteza! Nem meio touro! Já foi touro, mas hoje não passa de vaca velha!
Durante a guerra do Paraguai, o general Osório procurou o chefe do corpo de engenheiros, que nada resolvia sem consultar o seu carregamento de livros, e avisou-o:
— Coronel, é preciso atravessar amanhã este rio, com todo o exército.
— Impossível, general.
— Não sei se é impossível, mas sei que é preciso.
— Mas, general, não me é possível dar-lhe os meios para isso.
— O senhor coronel vai ver se passamos ou não.
Osório mandou chamar um major de transportes, homem de espírito prático, que fazia verdadeiros milagres. Disse-lhe o que queria e como queria, e no dia seguinte todo o exército atravessou o rio, inclusive o chefe do corpo de engenheiros, com todo o seu carregamento de livros.
Aos companheiros de armas que o censuravam pela afoiteza com que enfrentava perigosos combates e situações difíceis, Osório respondia:
— Eu preciso provar aos meus comandados que o seu general é capaz de ir aonde os manda.
Grande parte dos soldados que combateram no Paraguai eram negros escravos. Na noite de 15 de abril de 1866, pouco antes de começar a travessia do Rio Paraná, o general Osório, fazendo-se acompanhar de cavaleiros riograndenses conduzindo archotes, passou em revista o seu exército, e disse:
— Soldados, é fácil a missão de comandar homens livres. Basta mostrar-lhes o caminho do dever. O nosso caminho está aí em frente!
Aquela bem escolhida e feliz expressão “homens livres” teve sobre a tropa o efeito de uma eletrização inesperada e irresistível. Os homens, sem distinção de cores ou de raças, abraçaram-se a rir e a chorar, e logo prorromperam em estrondosas aclamações ao seu general. A conseqüência foi o patriótico decreto de 6 de novembro, que deu liberdade gratuita aos escravos designados para o serviço militar.
Hombridade e coerência em políticos do Império
O general Osório, durante a guerra do Paraguai, foi procurado por um negociante que queria vender cavalos ao Exército, na maioria imprestáveis. Queria uma carta do general, recomendando-o à Comissão. Osório respondeu:
— Homem, você é entendido na matéria, e não desconhece as exigências do Governo. Se os seus cavalos são bons, para que quer recomendações?
— Para evitar injustiças.
— Pois, então, escreva você mesmo o que vou ditar. E ditou:
“Ilustríssimos senhores: O portador vai conduzindo uma cavalhada, que pretende vender ao Estado mediante o prévio exame da Comissão, de que V. Sas. são digníssimos membros. A primeira condição para a boa cavalaria é a velocidade, e esta depende da excelência dos cavalos. Portanto, seria escusado lembrar duas coisas: primeira, que os animais imprestáveis que o portador apresentar devem ser refugados; segunda, que V. Sas. devem ser rigorosos no cumprimento das ordens do Governo. Esta carta só tem por fim pedir que V. Sas. despachem com brevidade o portador”.
— Não, general. Esta carta não me serve.
— Pois dê-ma – disse Osório, tomando-a de cima da mesa e rasgando-a –. Que queria de mim? Uma indignidade? Que idéia faz o senhor da honra alheia? Se não a tem, respeite a dos outros.
Em junho de 1889, ao apresentar-se o novo ministério na Câmara dos Deputados, o deputado padre João Manuel declarou-se republicano, e concluiu o seu discurso bradando: “Viva a República!”
Levantando-se, o Visconde de Ouro Preto retrucou energicamente:
— Viva a República, não! Não e não! Pois é sob a Monarquia que temos obtido a liberdade que os outros países nos invejam, e podemos mantê-la em amplitude suficiente para satisfazer as aspirações do povo mais brioso. Viva a Monarquia! Forma de governo que a imensa maioria da Nação abraça, e a única que pode fazer a sua felicidade e a sua grandeza.
Preso na noite de 15 para 16 de novembro, o Visconde de Ouro Preto foi conduzido ao quartel do 1º Regimento, onde adormeceu. Alta noite, entrou no compartimento um oficial, o tenente Menna Barreto, que lhe gritou:
— Acorde e prepare-se, que mais tarde tem de ser fuzilado.
Ouro Preto se pôs de pé e replicou:
— Só se acorda um homem para o fuzilar, e não para o avisar de que vai ser fuzilado. O senhor verá que, para saber morrer, não é preciso vestir farda!
Exilado em Lisboa, o Visconde de Ouro Preto participava de uma roda de várias pessoas, em visita a um comerciante rico. Um dos visitantes, que fizera fortuna no Brasil e voltara para Portugal, resolveu interpelar o Visconde, em tom de agrado:
— Hein, Sr. Visconde! O povo daqui tem mais fibra que o de lá. Não presenciaria bestificado a queda do regime, conforme a expressão de um ministro da República. Nem deixaria, sem reação, ser expelido um soberano como D. Pedro II, e uma sumidade como V. Exa.
Com veemência, o Visconde respondeu:
— O senhor não tem competência para julgar a gente da minha terra. É tão digna, altiva e capaz de bravura quanto a portuguesa. Pelo menos, lá não há quem deixe o Brasil para vir ganhar dinheiro em Portugal, e depois regresse ao Brasil a falar mal dos portugueses.
Depois destas palavras, houve um longo silêncio. Então o Visconde ergueu-se, acrescentando:
— Já que ninguém mais protesta contra a injustiça feita a meu País, retiro-me como um novo protesto.
Amenidades entre políticos do Império
Em um folhetim de 1855, dizia José de Alencar:
“No salão recebem-se todas as visitas de cerimônia ou de intimidade; dão-se bailes, reuniões dançantes e concertos. Conversa-se ao som da música, conferencia-se a dois no meio de muita gente, de maneira que nem se fala em segredo, nem em público.
Se a palestra vai bem, procura-se alguma chaise-longue num canto de sala, e a pretexto de tomar sorvete ou gelados, faz-se uma transação, efetua-se um tratado de aliança. Se a conversa toma mau caminho, aí aparece uma quadrilha que se tem de dançar, uma senhora a que se devem fazer as honras, um terceiro que chega a propósito, e acaba-se a conferência. Livra-se assim o ministro do dilema em que se achava, do comprometimento de responder sim ou não”.
O Barão de Cotegipe definia pitorescamente a atividade social e política dos salões: Não se faz política sem bolinhos.
O Marquês de Abrantes nunca se convencera da surdez do Marquês de Olinda, seu amigo. Era uma surdez política, que melhorava ou piorava de acordo com a vontade do doente. Certo dia Abrantes resolveu pôr à prova o assunto. Enquanto jogavam cartas, disse em voz baixa, quase inaudível:
— Veja lá como joga, velho besta!
— Que diz?
— Digo que o senhor joga admiravelmente...
Terminada e ganha a partida, Olinda perguntou:
— Então, seu Abrantes, o velho besta jogou bem?
Dando uma gargalhada, Abrantes respondeu:
— Ah! seu Olinda, eu sempre desconfiei que o senhor só era surdo quando lhe convinha. E acertei!
Francisco Acaiaba Montezuma, Visconde de Jequitinhonha, foi senador pela Bahia depois de ter sido o seu nome levado à Coroa três vezes. O implacável “lápis fatídico” do Imperador tinha sobre ele anotações não muito favoráveis, e a indicação só foi conseguida pela insistência do Marquês de Paraná, presidente do Conselho de Ministros.
Morava em uma casa magnífica com grande chácara, no Rio Comprido. O Imperador uma vez lhe disse:
— Sr. Visconde, tenho ouvido falar muito de sua residência. Dizem que é uma bela vivenda.
— Vá Vossa Majestade almoçar lá, e poderá ver que, se não é digna de receber Vossa Majestade, é entretanto confortável para um homem como eu.
O Imperador aceitou o convite, e no dia marcado foi almoçar em casa do Visconde. Durante a refeição, perguntou a Montezuma:
— O Sr. é fatalista?
— Sem dúvida. E tenho motivos para o ser.
— Posso saber quais são?
— Olhe, Senhor. A primeira vez que meu nome veio a Vossa Majestade na lista para ser senador, ao voltar do sertão da Bahia o cavalo em que eu montava tropeçou e eu caí: Vossa Majestade não me escolheu. Da segunda vez deu-se o mesmo fato, e Vossa Majestade novamente não escolheu o meu nome. Pela terceira vez deram-se as mesmas ocorrências, e então Vossa Majestade me escolheu.
— Mas não vejo onde está a fatalidade.
— É que Vossa Majestade havia de me escolher, querendo ou não.
Em fins de 1877, o Duque de Caxias, que presidia o Ministério, ficou muito doente. Para certificar-se do estado de saúde do velho servidor, o Imperador foi visitá-lo na Fazenda de Santa Mônica, e verificou que ele não podia continuar incumbido de tarefa tão árdua. Para substituí-lo, foi indicado o Visconde de Sinimbu.
Combinado com o Imperador o programa do Gabinete, nos termos acerca dos quais estavam de acordo, Sinimbu tratou de formar a sua lista de ministros. A entrada de Silveira Martins no Ministério era não só o reconhecimento dos seus grandes serviços na oposição, mas também a satisfação de uma espécie de compromisso. O notável tribuno era assíduo freqüentador da casa de Sinimbu, onde por vezes repetia que este devia organizar o próximo gabinete liberal. Mas ouvia sempre a resposta:
— Qual! O senhor não pense nisto, pois bem deve saber que será o Nabuco.
Silveira Martins insistia. Um dia Sinimbu o atalhou:
— Pois bem, se eu organizar o Ministério, o senhor será o ministro da Fazenda.
O novo presidente do Conselho não quis que sua palavra voltasse atrás, e Silveira Martins foi para o Ministério.
***
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Na atualidade, há um consenso geral em torno de se evitar reconhecimento de mérito a tudo o que for expressão de elite. No entanto, é mais do que certo que país algum pode aspirar a crescer sem o concurso dos melhores, sem o aproveitamento de seus maiores talentos e capacidades. O rol dos talentos era tão grande, no Império, que tornava-se difícil apontar os que sobressaíam. Foi o que Machado de Assis imortalizou em “O Velho Senado”. Por isso mesmo o País havia assumido uma posição que em muitos aspectos causava inveja no exterior: éramos uma ilha de paz e progresso na América do Sul.
Em uma visita de D. Pedro II a Victor Hugo, este lhe perguntou se não tinha receio de deixar o seu Império por tanto tempo, ao que o Imperador respondeu:
— Não. Os negócios públicos fazem-se perfeitamente na minha ausência. Há na minha terra muitas pessoas que valem tanto ou mais do que eu. Além disso, aqui não perco o meu tempo. Reino sobre um povo jovem, e é para esclarecê-lo, torná-lo melhor, fazê-lo marchar para a frente, que uso dos meus direitos, ou do poder que me coube pelos acasos da fortuna e do nascimento.
Escrevendo sobre os ministros de Estado do Segundo Reinado, o Conde Afonso Celso acentuou: “Nenhum ascendeu ao Governo por mero favoritismo ou por capricho, nenhum comprometeu a dignidade governamental, nenhum foi vergonhosamente esmagado, nenhum se portou de maneira ignóbil nem deixou nome odioso na tradição popular. Nunca, um só que fosse, se aproveitou de suas funções para locupletar-se. Todos se exoneravam endividados ou menos ricos. Era um sacrifício ser ministro”.
Joaquim Manuel de Macedo, o célebre romancista autor de “A Moreninha”, era deputado e professor das princesas, filhas de D. Pedro II. O Conselheiro Francisco José Furtado, organizador do Gabinete de agosto de 1864, o convidou para a pasta de Estrangeiros. Recusado o convite, mandou o Imperador chamá-lo à sua presença, e indagou o motivo da recusa, tendo em vista que ele possuía tantas qualidades para ser um bom ministro. E a resposta:
— Admita-se que eu tenha as qualidades que Vossa Majestade me atribui. Mas eu não sou rico, e a riqueza é um requisito indispensável a um ministro que queira ser independente. E não quero sair do Ministério endividado ou ladrão!
O Governo republicano, com o intuito de minorar o infortúnio de alguns senadores do Império, ofereceu-lhes uma pensão. A isto reagiu o Visconde de Sinimbu com a seguinte carta: “Na solidão onde vim recolher-me e provisoriamente resido, retirado da vida pública após o cruciante golpe e a suprema desgraça com que aprouve a Deus ferir-me, enviuvando-me no próprio dia da abolição da Monarquia, chegou-me a notícia do decreto do Governo Provisório, concedendo-me a pensão mensal de 500 mil réis. Como resolução que me prescreve a consciência, me dita a dignidade e me impõe a honra, rejeito a graça; e, salva a intenção, repilo-a como afronta e como ultraje à minha obscura pessoa e à minha pobreza honrada”.
Alguns exemplos de desinteresse nos ministros do Império
Os ministros da regência de D. Pedro I reduziram seus ordenados à metade do que eram no tempo de D. João VI. Ficaram em quatro contos e oitocentos mil réis anuais, pagos mensalmente.
José Bonifácio recebeu certa vez o seu salário de quatrocentos mil réis, meteu as notas no fundo do chapéu, e no teatro lhe roubaram o chapéu e o conteúdo. No dia seguinte, achou-se sem ter com que mandar comprar o jantar. Não possuía nem um vintém mais, e seu sobrinho Belchior Fernandes Pinheiro foi quem pagou as despesas do dia.
Em reunião do Conselho, José Bonifácio referiu esta ocorrência e a extrema necessidade a que ela o reduziu e à sua família. O Imperador entendeu que o ministro, visto a penúria em que se achava, devia ser indenizado, pagando-se a ele outro mês de ordenado, e neste sentido deu ali suas ordens a Martim Francisco, irmão de José Bonifácio e ministro da Fazenda.
Martim Francisco não obedeceu. Argumentou com o Imperador que não havia lei que pusesse a cargo do Estado os descuidos dos empregados públicos; que o ano tinha doze meses para todos, e não treze para os protegidos; e, finalmente, pedia a Sua Majestade que retirasse a ordem, por ser inexeqüível, e porque ele, Martim Francisco, repartiria com o irmão o seu próprio ordenado, e viveriam ambos com mais parcimônia aquele mês. Isto seria melhor do que dar ao País o funesto exemplo de se pagar ao ministro duas vezes o ordenado de um só mês.
José Bernardino de Almeida Sodré era ministro da Fazenda, em 1828. Seu colega da pasta da Guerra lhe oficiou, pedindo o pagamento das despesas de transporte, e outras, de alguns operários que o Imperador mandara engajar na Alemanha. Recusado esse pagamento, mandou D. Pedro I chamar o ministro, interpelando-o. Sodré respondeu:
— Senhor, no orçamento que vigora não tenho verba que autorize essa despesa. Ela é, portanto, ilegal, e não a posso pagar.
— Mandei engajar esses homens, e quero que as despesas sejam pagas.
— E sê-lo-ão, Senhor, já que Vossa Majestade o quer.
Dias depois, indagado pelo Monarca sobre o cumprimento da sua ordem, o ministro informou:
— Em face da lei, o Tesouro Nacional não podia pagar a esses engajados. A ordem de Vossa Majestade tinha, porém, de ser cumprida.
— E então?
— Paguei-os do meu bolso particular.
Falando com o Visconde Nogueira da Gama sobre Frei Pedro de Santa Mariana, seu desinteressado professor, D. Pedro II comentava:
— Sabe quanto ele tem sido caluniado...
— Até alcunhado de Frei Malagrida!
— Pois bem. Assevero-lhe que nunca me pediu coisa alguma, sabendo que eu nada lhe negaria do que de mim dependesse.
Pequenos fatos marcantes da vida de Caxias
O major Miguel de Frias, derrotado a 3 de abril de 1832 pelo major Luiz Alves de Lima e Silva, pôs-se em fuga e tentou escapar. Indo ao seu encalço, Lima e Silva foi informado sobre a casa em que o chefe revoltoso se havia asilado. Aproximou-se, e o dono da casa lhe franqueou a residência, que Caxias percorreu. Ao fim de um corredor havia uma porta fechada a chave. Caxias a abriu, e no centro do quarto, de pé, o major Frias o esperava. Os dois se olharam, mudos. Ao fim de um instante Caxias se retirou, dizendo ao dono da casa:
— Desculpe-me. Não há ninguém...
No dia seguinte Miguel de Frias fugia, asilando-se nos Estados Unidos.
Caxias comprara em 1850 uma fazenda na província do Rio de Janeiro. Ao tomar posse, encontrou 60 escravos além do número ajustado. Sem demora, comunicou o fato ao vendedor, que respondeu:
— São escravos da Nação. Continue a desfrutar os seus serviços.
Caxias reuniu os negros e, sem a menor hesitação, lhes deu liberdade incondicional.
Durante a guerra do Paraguai, num dia chuvoso, Caxias estava molhado, a cavalo, debaixo de uma árvore. A cada instante a região era varada por balas de artilharia. Chegou-se a ele um ordenança de cavalaria, trazendo com cuidado uma xícara de café:
— O Sr. Bonifácio de Abreu manda isto a V. Exa. Recomendou-me que não deixasse cair uma só gota no chão.
Olhou-o o marechal calmamente, e disse:
— Eu não quero. Beba-a você, camarada.
Voltando depois para o seu estado-maior, observou:
— Quando os meus soldados estão morrendo na chuva, nesta saraivada de balas, não posso dar-me nenhuma regalia, por pequena que seja.
O Duque de Caxias era ministro da Guerra, quando o Imperador foi visitar, em sua companhia, um dos quartéis da capital. Percorreu o edifício todo, indo até a cozinha, onde se servia na ocasião o rancho dos soldados.
— Dê-me uma destas marmitas – disse o Soberano.
Foi atendido e tomou todo o conteúdo, declarando que, mesmo no Paço, jamais tomara sopa tão saborosa. Disciplinado e disciplinador, Caxias não gostou da singeleza do Monarca. Ao portão do quartel, disse-lhe:
— Desculpai a minha franqueza. Por esse processo, Vossa Majestade não se populariza, mas se vulgariza.
O Imperador admirou em Florença o quadro “Batalha do Avaí”, de Pedro Américo. Quando a obra chegou ao Brasil em 1877, foi vê-la novamente acompanhado de Caxias, então presidente do Conselho de Ministros. Os elogios eram unânimes, mas Caxias, que fora o comandante da batalha e era a figura dominante na tela, conservava-se mudo. Discretamente, o Imperador perguntou-lhe:
— Que diz, Sr. Caxias?
— Desejava saber onde o pintor me viu de farda desabotoada. Nem no meu quarto!
General Osório, o arrojado comandante de homens livres
O Visconde de Taunay foi levar ao general Osório, durante a guerra do Paraguai, uma carta do Conde d’Eu, e o encontrou a ler, sozinho, deitado numa rede. Ao vê-lo, Osório disse:
— Olha! Tu, que és bacharel, deves entender disto. Toma lá este livro e traduze-me este diabo de inglês, que está duro de roer.
Havia no início do livro alguns termos técnicos, que colocaram o improvisado tradutor em apuros, levando-o a muitas hesitações.
— Está bem! Vai bem! – repetia-lhe o general, rindo-se.
Algum tempo depois Osório caiu no sono, e Taunay se retirou de mansinho. No dia seguinte, o general interpelou o tradutor:
— Então, seu safadinho! Foste saindo à francesa, hein?!
— Mas V. Exa. estava dormindo profundamente!
— É verdade! E que sono delicioso! Cheio dos sonhos os mais agradáveis. Sonhei que estava traduzindo corrente e perfeitamente aquele inglês todo, incomparavelmente melhor do que tu, que és bacharel formado.
Em conselho de guerra, discutia-se como tomar certa posição ocupada pelas forças de Solano López. Queria o Conde d’Eu contorná-la, opinando o general Osório por um ataque de frente. Dizia o Conde:
— Mas isto, Sr. Osório, é o que se chama atacar o touro pelos chifres.
— Qual touro, alteza! Nem meio touro! Já foi touro, mas hoje não passa de vaca velha!
Durante a guerra do Paraguai, o general Osório procurou o chefe do corpo de engenheiros, que nada resolvia sem consultar o seu carregamento de livros, e avisou-o:
— Coronel, é preciso atravessar amanhã este rio, com todo o exército.
— Impossível, general.
— Não sei se é impossível, mas sei que é preciso.
— Mas, general, não me é possível dar-lhe os meios para isso.
— O senhor coronel vai ver se passamos ou não.
Osório mandou chamar um major de transportes, homem de espírito prático, que fazia verdadeiros milagres. Disse-lhe o que queria e como queria, e no dia seguinte todo o exército atravessou o rio, inclusive o chefe do corpo de engenheiros, com todo o seu carregamento de livros.
Aos companheiros de armas que o censuravam pela afoiteza com que enfrentava perigosos combates e situações difíceis, Osório respondia:
— Eu preciso provar aos meus comandados que o seu general é capaz de ir aonde os manda.
Grande parte dos soldados que combateram no Paraguai eram negros escravos. Na noite de 15 de abril de 1866, pouco antes de começar a travessia do Rio Paraná, o general Osório, fazendo-se acompanhar de cavaleiros riograndenses conduzindo archotes, passou em revista o seu exército, e disse:
— Soldados, é fácil a missão de comandar homens livres. Basta mostrar-lhes o caminho do dever. O nosso caminho está aí em frente!
Aquela bem escolhida e feliz expressão “homens livres” teve sobre a tropa o efeito de uma eletrização inesperada e irresistível. Os homens, sem distinção de cores ou de raças, abraçaram-se a rir e a chorar, e logo prorromperam em estrondosas aclamações ao seu general. A conseqüência foi o patriótico decreto de 6 de novembro, que deu liberdade gratuita aos escravos designados para o serviço militar.
Hombridade e coerência em políticos do Império
O general Osório, durante a guerra do Paraguai, foi procurado por um negociante que queria vender cavalos ao Exército, na maioria imprestáveis. Queria uma carta do general, recomendando-o à Comissão. Osório respondeu:
— Homem, você é entendido na matéria, e não desconhece as exigências do Governo. Se os seus cavalos são bons, para que quer recomendações?
— Para evitar injustiças.
— Pois, então, escreva você mesmo o que vou ditar. E ditou:
“Ilustríssimos senhores: O portador vai conduzindo uma cavalhada, que pretende vender ao Estado mediante o prévio exame da Comissão, de que V. Sas. são digníssimos membros. A primeira condição para a boa cavalaria é a velocidade, e esta depende da excelência dos cavalos. Portanto, seria escusado lembrar duas coisas: primeira, que os animais imprestáveis que o portador apresentar devem ser refugados; segunda, que V. Sas. devem ser rigorosos no cumprimento das ordens do Governo. Esta carta só tem por fim pedir que V. Sas. despachem com brevidade o portador”.
— Não, general. Esta carta não me serve.
— Pois dê-ma – disse Osório, tomando-a de cima da mesa e rasgando-a –. Que queria de mim? Uma indignidade? Que idéia faz o senhor da honra alheia? Se não a tem, respeite a dos outros.
Em junho de 1889, ao apresentar-se o novo ministério na Câmara dos Deputados, o deputado padre João Manuel declarou-se republicano, e concluiu o seu discurso bradando: “Viva a República!”
Levantando-se, o Visconde de Ouro Preto retrucou energicamente:
— Viva a República, não! Não e não! Pois é sob a Monarquia que temos obtido a liberdade que os outros países nos invejam, e podemos mantê-la em amplitude suficiente para satisfazer as aspirações do povo mais brioso. Viva a Monarquia! Forma de governo que a imensa maioria da Nação abraça, e a única que pode fazer a sua felicidade e a sua grandeza.
Preso na noite de 15 para 16 de novembro, o Visconde de Ouro Preto foi conduzido ao quartel do 1º Regimento, onde adormeceu. Alta noite, entrou no compartimento um oficial, o tenente Menna Barreto, que lhe gritou:
— Acorde e prepare-se, que mais tarde tem de ser fuzilado.
Ouro Preto se pôs de pé e replicou:
— Só se acorda um homem para o fuzilar, e não para o avisar de que vai ser fuzilado. O senhor verá que, para saber morrer, não é preciso vestir farda!
Exilado em Lisboa, o Visconde de Ouro Preto participava de uma roda de várias pessoas, em visita a um comerciante rico. Um dos visitantes, que fizera fortuna no Brasil e voltara para Portugal, resolveu interpelar o Visconde, em tom de agrado:
— Hein, Sr. Visconde! O povo daqui tem mais fibra que o de lá. Não presenciaria bestificado a queda do regime, conforme a expressão de um ministro da República. Nem deixaria, sem reação, ser expelido um soberano como D. Pedro II, e uma sumidade como V. Exa.
Com veemência, o Visconde respondeu:
— O senhor não tem competência para julgar a gente da minha terra. É tão digna, altiva e capaz de bravura quanto a portuguesa. Pelo menos, lá não há quem deixe o Brasil para vir ganhar dinheiro em Portugal, e depois regresse ao Brasil a falar mal dos portugueses.
Depois destas palavras, houve um longo silêncio. Então o Visconde ergueu-se, acrescentando:
— Já que ninguém mais protesta contra a injustiça feita a meu País, retiro-me como um novo protesto.
Amenidades entre políticos do Império
Em um folhetim de 1855, dizia José de Alencar:
“No salão recebem-se todas as visitas de cerimônia ou de intimidade; dão-se bailes, reuniões dançantes e concertos. Conversa-se ao som da música, conferencia-se a dois no meio de muita gente, de maneira que nem se fala em segredo, nem em público.
Se a palestra vai bem, procura-se alguma chaise-longue num canto de sala, e a pretexto de tomar sorvete ou gelados, faz-se uma transação, efetua-se um tratado de aliança. Se a conversa toma mau caminho, aí aparece uma quadrilha que se tem de dançar, uma senhora a que se devem fazer as honras, um terceiro que chega a propósito, e acaba-se a conferência. Livra-se assim o ministro do dilema em que se achava, do comprometimento de responder sim ou não”.
O Barão de Cotegipe definia pitorescamente a atividade social e política dos salões: Não se faz política sem bolinhos.
O Marquês de Abrantes nunca se convencera da surdez do Marquês de Olinda, seu amigo. Era uma surdez política, que melhorava ou piorava de acordo com a vontade do doente. Certo dia Abrantes resolveu pôr à prova o assunto. Enquanto jogavam cartas, disse em voz baixa, quase inaudível:
— Veja lá como joga, velho besta!
— Que diz?
— Digo que o senhor joga admiravelmente...
Terminada e ganha a partida, Olinda perguntou:
— Então, seu Abrantes, o velho besta jogou bem?
Dando uma gargalhada, Abrantes respondeu:
— Ah! seu Olinda, eu sempre desconfiei que o senhor só era surdo quando lhe convinha. E acertei!
Francisco Acaiaba Montezuma, Visconde de Jequitinhonha, foi senador pela Bahia depois de ter sido o seu nome levado à Coroa três vezes. O implacável “lápis fatídico” do Imperador tinha sobre ele anotações não muito favoráveis, e a indicação só foi conseguida pela insistência do Marquês de Paraná, presidente do Conselho de Ministros.
Morava em uma casa magnífica com grande chácara, no Rio Comprido. O Imperador uma vez lhe disse:
— Sr. Visconde, tenho ouvido falar muito de sua residência. Dizem que é uma bela vivenda.
— Vá Vossa Majestade almoçar lá, e poderá ver que, se não é digna de receber Vossa Majestade, é entretanto confortável para um homem como eu.
O Imperador aceitou o convite, e no dia marcado foi almoçar em casa do Visconde. Durante a refeição, perguntou a Montezuma:
— O Sr. é fatalista?
— Sem dúvida. E tenho motivos para o ser.
— Posso saber quais são?
— Olhe, Senhor. A primeira vez que meu nome veio a Vossa Majestade na lista para ser senador, ao voltar do sertão da Bahia o cavalo em que eu montava tropeçou e eu caí: Vossa Majestade não me escolheu. Da segunda vez deu-se o mesmo fato, e Vossa Majestade novamente não escolheu o meu nome. Pela terceira vez deram-se as mesmas ocorrências, e então Vossa Majestade me escolheu.
— Mas não vejo onde está a fatalidade.
— É que Vossa Majestade havia de me escolher, querendo ou não.
Em fins de 1877, o Duque de Caxias, que presidia o Ministério, ficou muito doente. Para certificar-se do estado de saúde do velho servidor, o Imperador foi visitá-lo na Fazenda de Santa Mônica, e verificou que ele não podia continuar incumbido de tarefa tão árdua. Para substituí-lo, foi indicado o Visconde de Sinimbu.
Combinado com o Imperador o programa do Gabinete, nos termos acerca dos quais estavam de acordo, Sinimbu tratou de formar a sua lista de ministros. A entrada de Silveira Martins no Ministério era não só o reconhecimento dos seus grandes serviços na oposição, mas também a satisfação de uma espécie de compromisso. O notável tribuno era assíduo freqüentador da casa de Sinimbu, onde por vezes repetia que este devia organizar o próximo gabinete liberal. Mas ouvia sempre a resposta:
— Qual! O senhor não pense nisto, pois bem deve saber que será o Nabuco.
Silveira Martins insistia. Um dia Sinimbu o atalhou:
— Pois bem, se eu organizar o Ministério, o senhor será o ministro da Fazenda.
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25.5.08
00 - INTRODUÇÃO
No dia em que D. Pedro I abdicou, e os brasileiros proclamaram Dom Pedro II Imperador com a idade de 5 anos, o seu preceptor foi encontrá-lo em local distante alguns quilômetros do Rio de Janeiro. Anunciou-lhe solenemente que horas antes ele se transformara em Majestade, e o conduziu de volta ao Rio.
No caminho, começa a chover. Dom Pedro corre até o casebre mais próximo, e bate à porta com ansiedade, como faria qualquer monarca sem guarda-chuva. A voz trêmula de uma velhinha pergunta lá de dentro:
— Quem é?
Ofegante, devido à corrida, o Imperador estreante proclamou compassadamente, um a um, os seus 15 nomes:
— Abra logo, vovó! Eu sou Pedro, João, Carlos, Leopoldo, Salvador, Bibiano, Francisco, Xavier, de Paula, Leocádio, Miguel, Gabriel, Rafael, Gonzaga, de Alcântara.
— Minha Nossa Senhora! Como é que eu vou arranjar lugar aqui para tanta gente?!
Este episódio pitoresco, adaptado de uma narrativa do famoso romancista francês Honoré de Balzac, publicada em junho de 1831, pode não ser verídico em todos os seus detalhes. Os romancistas têm lá os seus direitos de usar a imaginação... Nada me impede, no entanto, de transcrevê-lo neste início de introdução a um livro com tantos episódios da vida do nosso Imperador, para explicar uma dificuldade semelhante à da boa velhinha, que me ocorreu enquanto preparava este texto: como colocar o Brasil-Império dentro de um simples livro?
Não era minha intenção, desde o início, fazer uma história completa e metódica do Império brasileiro. Para isso seriam necessários numerosos e grossos volumes. Fadados, por isso mesmo, a serem lidos apenas pelos especialistas, se tanto. Meu objetivo era coletar fatos pequenos, grandes, e até imensos, narrados em linguagem simples e acessível. Fatos pitorescos, fatos comoventes, fatos dramáticos, formando um conjunto que ajude a desfazer a imagem distorcida e negativa que em geral se tem do período imperial.
Mas queria também que o livro fosse pequeno. E aí se apresentou a dificuldade. São tantos os fatos nos 66 anos de vida de D. Pedro II, dos quais 49 como Imperador, que o texto se tornaria necessariamente longo. Tanto mais que o plano da obra incluía também fatos relativos a outros personagens do Império, especialmente os demais membros da Família Imperial. Onde arranjar lugar para tantos fatos? Não houve recurso senão limitar-me aos mais significativos. Já que não cabem todos, muitos ficaram de fora. E daí resultou o presente livro.
É possível, caro leitor, que alguns dos fatos aqui narrados lhe sejam familiares. É pouco provável que os conheça todos. Para muitos, tudo aqui será novidade. Até pensei em dar a esta coletânea o título “novidades do passado brasileiro”.
Todos os textos foram transcritos das fontes bibliográficas relacionadas ao final do livro. Em alguns casos, fiz pequenas adaptações, necessárias para atualização de linguagem ou para situar o leitor no contexto histórico em que a ação se passa. No mais, tudo está como nos originais. O número entre parênteses, ao final de cada relato, corresponde ao número da fonte, conforme a relação que consta nas últimas páginas. Em muitos casos, o episódio narrado se encontra em mais de um autor, e daí constar mais de uma fonte. Por vezes, os dados apresentados por um autor foram completados com os de outro.
Preferi não usar a ordem cronológica, por ser mais abundante o material referente ao extenso reinado de D. Pedro II, que aparece em primeiro lugar.
Como se trata de uma coletânea, com textos compilados de mais de cem autores, não é possível conseguir-se homogeneidade de estilo. Pelo mesmo motivo, alguns princípios, idéias ou apreciações enunciados a propósito de determinados fatos não correspondem necessariamente aos que o autor deste livro emitiria em redação própria. Também não se confundem necessariamente com posições ou programas de pessoas ou grupos monarquistas.
A História do Brasil, do modo como quase todos nós a estudamos, acaba sendo desinteressante, pesadona, desvinculada da realidade. E até falsa, muitas vezes. Por isso mesmo, facilmente esquecida.
Para muitos, por exemplo, só terá ficado na memória, sobre D. Pedro II, que um golpe militar o depôs, que ele morreu no exílio, e que foi sepultado junto a um pouco de terra do Brasil. E mais aquela imagem de velhinho bondoso, inevitável nos livros didáticos que todos conhecemos.
Poucos sabem, e quase ninguém se pergunta, o que fez esse homem antes de ser um velhinho. Ninguém afirma, mas fica um tanto subentendido, que ele sempre foi mais ou menos um velhinho, sem qualquer influência nos destinos do País. No entanto, ao longo de 66 anos, quantas decisões importantes, quanta dedicação infatigável, quantos benefícios enormes. A ponto de se poder afirmar que sem ele o Brasil não existiria, e em seu lugar as ambições políticas teriam produzido um mosaico de países, à moda da América espanhola. Bastaria essa impressionante unidade nacional para imortalizar um soberano e um reinado.
Neste ano em que se comemora o centenário da morte de D. Pedro II, é um dever de gratidão nacional homenagear o maior personagem da nossa história. Nesta coletânea, que se insere no conjunto dessas homenagens, os fatos falam por si; e os comentários sobre o Imperador, emitidos por seus contemporâneos ou por historiadores idôneos, não deixam a menor dúvida sobre os grandes benefícios que a Nação hauriu durante os 49 anos do seu reinado.
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No caminho, começa a chover. Dom Pedro corre até o casebre mais próximo, e bate à porta com ansiedade, como faria qualquer monarca sem guarda-chuva. A voz trêmula de uma velhinha pergunta lá de dentro:
— Quem é?
Ofegante, devido à corrida, o Imperador estreante proclamou compassadamente, um a um, os seus 15 nomes:
— Abra logo, vovó! Eu sou Pedro, João, Carlos, Leopoldo, Salvador, Bibiano, Francisco, Xavier, de Paula, Leocádio, Miguel, Gabriel, Rafael, Gonzaga, de Alcântara.
— Minha Nossa Senhora! Como é que eu vou arranjar lugar aqui para tanta gente?!
Este episódio pitoresco, adaptado de uma narrativa do famoso romancista francês Honoré de Balzac, publicada em junho de 1831, pode não ser verídico em todos os seus detalhes. Os romancistas têm lá os seus direitos de usar a imaginação... Nada me impede, no entanto, de transcrevê-lo neste início de introdução a um livro com tantos episódios da vida do nosso Imperador, para explicar uma dificuldade semelhante à da boa velhinha, que me ocorreu enquanto preparava este texto: como colocar o Brasil-Império dentro de um simples livro?
Não era minha intenção, desde o início, fazer uma história completa e metódica do Império brasileiro. Para isso seriam necessários numerosos e grossos volumes. Fadados, por isso mesmo, a serem lidos apenas pelos especialistas, se tanto. Meu objetivo era coletar fatos pequenos, grandes, e até imensos, narrados em linguagem simples e acessível. Fatos pitorescos, fatos comoventes, fatos dramáticos, formando um conjunto que ajude a desfazer a imagem distorcida e negativa que em geral se tem do período imperial.
Mas queria também que o livro fosse pequeno. E aí se apresentou a dificuldade. São tantos os fatos nos 66 anos de vida de D. Pedro II, dos quais 49 como Imperador, que o texto se tornaria necessariamente longo. Tanto mais que o plano da obra incluía também fatos relativos a outros personagens do Império, especialmente os demais membros da Família Imperial. Onde arranjar lugar para tantos fatos? Não houve recurso senão limitar-me aos mais significativos. Já que não cabem todos, muitos ficaram de fora. E daí resultou o presente livro.
É possível, caro leitor, que alguns dos fatos aqui narrados lhe sejam familiares. É pouco provável que os conheça todos. Para muitos, tudo aqui será novidade. Até pensei em dar a esta coletânea o título “novidades do passado brasileiro”.
Todos os textos foram transcritos das fontes bibliográficas relacionadas ao final do livro. Em alguns casos, fiz pequenas adaptações, necessárias para atualização de linguagem ou para situar o leitor no contexto histórico em que a ação se passa. No mais, tudo está como nos originais. O número entre parênteses, ao final de cada relato, corresponde ao número da fonte, conforme a relação que consta nas últimas páginas. Em muitos casos, o episódio narrado se encontra em mais de um autor, e daí constar mais de uma fonte. Por vezes, os dados apresentados por um autor foram completados com os de outro.
Preferi não usar a ordem cronológica, por ser mais abundante o material referente ao extenso reinado de D. Pedro II, que aparece em primeiro lugar.
Como se trata de uma coletânea, com textos compilados de mais de cem autores, não é possível conseguir-se homogeneidade de estilo. Pelo mesmo motivo, alguns princípios, idéias ou apreciações enunciados a propósito de determinados fatos não correspondem necessariamente aos que o autor deste livro emitiria em redação própria. Também não se confundem necessariamente com posições ou programas de pessoas ou grupos monarquistas.
A História do Brasil, do modo como quase todos nós a estudamos, acaba sendo desinteressante, pesadona, desvinculada da realidade. E até falsa, muitas vezes. Por isso mesmo, facilmente esquecida.
Para muitos, por exemplo, só terá ficado na memória, sobre D. Pedro II, que um golpe militar o depôs, que ele morreu no exílio, e que foi sepultado junto a um pouco de terra do Brasil. E mais aquela imagem de velhinho bondoso, inevitável nos livros didáticos que todos conhecemos.
Poucos sabem, e quase ninguém se pergunta, o que fez esse homem antes de ser um velhinho. Ninguém afirma, mas fica um tanto subentendido, que ele sempre foi mais ou menos um velhinho, sem qualquer influência nos destinos do País. No entanto, ao longo de 66 anos, quantas decisões importantes, quanta dedicação infatigável, quantos benefícios enormes. A ponto de se poder afirmar que sem ele o Brasil não existiria, e em seu lugar as ambições políticas teriam produzido um mosaico de países, à moda da América espanhola. Bastaria essa impressionante unidade nacional para imortalizar um soberano e um reinado.
Neste ano em que se comemora o centenário da morte de D. Pedro II, é um dever de gratidão nacional homenagear o maior personagem da nossa história. Nesta coletânea, que se insere no conjunto dessas homenagens, os fatos falam por si; e os comentários sobre o Imperador, emitidos por seus contemporâneos ou por historiadores idôneos, não deixam a menor dúvida sobre os grandes benefícios que a Nação hauriu durante os 49 anos do seu reinado.
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