A Família Imperial a caminho do exílio
Martim Francisco de Andrada, quando D. Pedro II ainda era criança, vaticinou:
— Há de ser um digno e útil cidadão. Quando, porém, o Brasil não precisar mais dele, levá-lo-á ao embarcadouro e o despedirá. Os bons hão de chorá-lo, e os maus hão de insultá-lo.
Nos momentos angustiosos da partida para o exílio, D. Pedro II proferiu as seguintes palavras:
— Pois se tudo está perdido, haja calma. Eu não tenho medo do infortúnio!
Na sua viagem para o exílio, ao passar diante da última terra brasileira que veriam, os membros da Família Imperial decidiram enviar um pombo com uma mensagem, assinada por todos. Um criado escolheu um dos pombos mais vigorosos, que lhe pareceu capaz de transpor a distância que os separava da costa. D. Luiz de Orleans e Bragança, que tinha então 11 anos de idade, relatou depois, no livro “Sob o Cruzeiro do Sul”, as suas lembranças do episódio:
“Um pouco além de Cabo Frio – lembro-me como se fosse hoje – meu avô, querendo dar ao Brasil uma prova do seu inalterável amor, fez-nos soltar um pombo, em cujas asas ele próprio havia amarrado uma última mensagem. À vista da terra ainda próxima, a ave largou o vôo; mas um longo cativeiro lhe havia sem dúvida alquebrado as forças. Depois de haver lutado alguns momentos contra o vento, esmoreceu e vimo-lo cair nas ondas”.
O bilhete dizia: Saudades da Pátria.
No dia 2 de dezembro de 1889, o aniversário do Imperador foi comemorado a bordo do navio “Alagoas”, em que viajava para o exílio após a proclamação da República. Ao jantar, a mesa foi ornamentada com flores, gentileza do Comandante Pessoa, que bebeu pela saúde do Imperador. Este respondeu, brindando “à prosperidade do Brasil”. Do seu lugar, a Princesa Isabel levantava também a taça, brindando “ao papai”. Ele replicou:
— Menina! Ouça o meu brinde: À prosperidade do Brasil!
Já na Europa, D. Pedro II teve conhecimento da resolução do Governo Provisório de banir definitivamente a Família Imperial do território brasileiro. Perguntado se não pensava em lançar um manifesto, ele afirmou:
— O meu manifesto será a minha vida.
Ao repórter do “Tempo”, em Lisboa, repetiu:
— Manifesto? Sou eu, enquanto viver. É a minha pessoa. Sou eu próprio.
Ao chegar a Portugal, como exilado, Dom Pedro II ouviu de um jornalista:
— Vossa Majestade aqui não é um proscrito. Todos vos estimamos e respeitamos.
O Conde Afonso Celso narra a visita de condolências que ele e seu pai, o Visconde de Ouro Preto, fizeram a D. Pedro II por ocasião da morte da Imperatriz:
“Era modestíssimo o seu quarto. A um canto, cama desfeita. Em frente, um lavatório comum. No centro, larga mesa coberta de livros e papéis. Um sofá e algumas cadeiras completavam a mobília. Tudo frio, desolado e nu.
Os joelhos envoltos num cobertor ordinário, trajando velho sobretudo, D. Pedro II lia, sentado à mesa, um grande livro, apoiando a cabeça na mão. Ao nos avistar, acenou para que nos aproximássemos. Meu pai curvou-se para beijar-lhe a mão. O Imperador lançou-lhe os braços aos ombros e estreitou-o demoradamente contra o peito. Depois, ordenou que nos sentássemos perto dele. Notei-lhe a funda lividez.
Houve alguns minutos de doloroso silêncio. Sua Majestade o quebrou, apontando para o livro aberto e dizendo com voz cava:
— Eis o que me consola.
— Vossa Majestade é um espírito superior. Achará em si mesmo a força necessária.
D. Pedro não respondeu. Depois de novo silêncio, mostrou-nos o título da obra que estava lendo, uma edição recente da “Divina Comédia”. Então, com estranha vivacidade, pôs-se a falar de literatura, a propósito do livro de Dante Alighieri. Mudando de assunto, discorreu sobre várias matérias, enumerando as curiosidades do Porto, indicando-nos o que, de preferência, deveríamos visitar. Não aludiu uma única vez à Imperatriz. Só ao cabo de meia hora, quando nos retirávamos, observou baixinho:
— A câmara mortuária é aqui ao lado. Amanhã, às 8 horas, há missa de corpo presente.
Saímos. No corredor, verifiquei que o meu chapéu havia caído à entrada do aposento imperial. Voltei para apanhá-lo. Pela porta entreaberta, presenciei cena tocantíssima: ocultando o rosto com as mãos magras e pálidas, o Imperador chorava. Por entre os dedos escorriam-lhe as lágrimas, que caíam sobre as estrofes de Dante.
Falta-me o sol do Brasil
Em janeiro de 1891 o Conde Afonso Celso visitou o Imperador em Cannes, antes de iniciar uma viagem a vários países. D. Pedro o estimulou, dizendo:
— As viagens completam a educação, dilatando a inteligência, apurando as faculdades estéticas e afetivas, enriquecendo a observação e a experiência. E você vai verificar quão adiantado está em muitas coisas o nosso Brasil.
Depois, mudando de assunto, perguntou se havia recebido notícias do Brasil, vindas com o último navio que chegara.
— Sim, meu senhor.
— Então, conte-me as novidades todas.
O Imperador ouviu em silêncio tudo o que ele sabia. Em seguida, com um suspiro, comentou:
— Pois é singular. Não me chegou nenhuma notícia e nenhuma carta. É singular que ninguém mais se lembre de mim, para me dirigir duas linhas. Esqueceram-me mais depressa do que eu esperava.
— Não, meu senhor. O nome de Vossa Majestade jamais será olvidado no Brasil. Crescem cada dia o respeito e o amor públicos por Vossa Majestade.
— Mas então isso se dá de modo muito platônico e muito abstrato. Por que não me escrevem? Há pessoas cujas cartas me dariam tanto prazer...
— Talvez porque corre, e com fundamento, que o Governo ditatorial viola o sigilo da correspondência. Naturalmente as pessoas receiam comprometer-se, incorrer em punições.
— Qual! Há assuntos que não comprometem a ninguém. Nem acredito que o Governo levasse a mal que meus amigos indagassem, por exemplo, da minha saúde, e me enviassem notícias da própria. Não! É singular, é muito singular...
O Imperador exilado foi visitar seu velho amigo escritor Camilo Castelo Branco, que ficara cego.
— Console-se, meu Camilo. Há de voltar a ter vista.
— Meu senhor, a cegueira é a antecâmara da minha sepultura.
— Perdi o trono, Camilo, e estou exilado. Não voltar à Pátria é viver penando.
— Resigne-se Vossa Majestade. Tem luz nos seus olhos.
— Sim, meu Camilo, mas falta-me o sol de lá.
O embaixador do Brasil em Lisboa, Barão de Aguiar Andrade, aproximou-se do Imperador, para depor em suas mãos o cargo que dele recebera. Era uma delicada atenção, na hora da desgraça. Os olhos de D. Pedro fixaram-se nos do Barão, como a pesquisarem a sinceridade das suas palavras. Depois, na sua voz serena, o Monarca pediu ao representante do Brasil que se conservasse no seu posto, prosseguindo a sua carreira e servindo a Pátria.
Em Paris, após a proclamação da República, durante uma recepção na casa do Conde de Nioac, veio à baila o assunto da restauração do trono brasileiro. D. Pedro II interpelou o Conselheiro Ferreira Viana:
— Você acredita nisso?
— Sim, acredito. E tanto que, desde já, peço a Vossa Majestade que se comprometa a fazer-me uma graça nesse dia.
— Comprometo-me. Mas qual é a graça?
— O decreto do meu banimento, para não assistir a novo adesismo.
Certo pachá, literato muçulmano, anunciara uma conferência no Colégio Rudy, sobre literaturas orientais. Nos bilhetes de ingresso, mencionava-se que o ato seria honrado com o comparecimento de Sua Majestade D. Pedro de Alcântara, então exilado em Paris. Com efeito, à hora marcada, apareceu o Imperador, trazendo ao lado Daubrée e Levasseur, membros do Instituto de França. Houve na assembléia, já numerosa, um movimento de curiosidade e respeito. Duas meninas ofertaram-lhe um buquê com fitas verdes e amarelas. Encontrando-se com o Conde Afonso Celso, o Imperador o preveniu:
— Prepare-se para uma conferência maçante. Conheço esse pachá, e já o ouvi. Muito boa vontade, excelentes intenções, e mais nada. Vim, porque ele me convidou com empenho, e seria ofensa recusar. Como vê, não estou ainda totalmente liberto dos antigos percalços.
Durante cerca de duas horas o muçulmano, com crueldade inaudita, martirizou a paciência dos cristãos ali reunidos. Péssima pronúncia do francês, dicção incômoda, idéias corriqueiras e ênfase insuportável. À saída, o Soberano cochichou ao ouvido do Conde:
— Não lhe disse?! Confesse que sentiu saudades das conferências da Glória!
Funerais de Imperador na França republicana
Em 1891, num modesto quarto de um hotel de Paris, foi morar o ex-Imperador Pedro II. Levava consigo, num pequeno travesseiro, um punhado de terra do Brasil. Dizia que ao morrer queria que sua cabeça repousasse sobre ele. Quando sentiu que ia morrer, pediu o travesseiro, e com ele exalou o último suspiro, dizendo antes estas palavras, que foram o seu último pensamento:
— Nunca me esqueci do Brasil. Morro pensando nele. Que Deus o proteja!
O jornal “Le Jour”, por ocasião da morte de D. Pedro II, fez um elogio fúnebre em primeira página, insistindo na idéia de que era o momento de a França corresponder ao apoio que o Imperador lhe havia dado, pois fora ele “o primeiro soberano que, após nossos desastres de 1871, ousou nos visitar. Nossa derrota não o afastou de nós. A França lhe saberá ser agradecida”.
Sadi Carnot, presidente francês, decidiu prestar a D. Pedro II as honras de Chefe-de-Estado. A importância das exéquias públicas do Imperador deposto, decidida pelo governo francês, e as homenagens póstumas de que foi alvo, causaram a maior irritação no embaixador brasileiro, que representou ao Quai d’Orsay os protestos do governo republicano.
Enviados de todas as nações compareceram à fúnebre cerimônia. Na igreja da Madeleine, entre os membros do corpo diplomático, só se notou um lugar vazio – o do representante do nosso País. O Brasil oficial negou-se a tomar parte na maior glorificação do nome brasileiro!
No dia 9 de dezembro de 1891, muito cedo, apesar da chuva incessante e do vento frio, uma verdadeira multidão começou a ocupar a Praça da Madeleine e a invadir as ruas e avenidas adjacentes. Antes do meio-dia a multidão já se tornara tão compacta, que os correspondentes do “Daily Telegraph” e do “Daily Mail” escreveram: “Havia tanta gente nos funerais do Imperador quanto nos de Victor Hugo”.
Calcula-se em 200.000 as pessoas que assistiram à passagem do cortejo fúnebre.62
Joaquim Nabuco, correspondente do “Jornal do Brasil”, escreveu por ocasião das exéquias suntuosas de D. Pedro II em Paris:
“Mais do que isso, infinitamente, D. Pedro II preferia ser enterrado entre nós, e por certo que o tocante simbolismo de fazerem o seu corpo descansar no ataúde sobre uma camada de terra do Brasil interpreta o seu mais ardente desejo. Ao brilhante cortejo de Paris ele teria preferido o modesto acompanhamento dos mais obscuros de seus patrícios, e daria bem a presença de um dos primeiros exércitos do mundo em troca de alguns soldados e marinheiros que lhe recordassem as gloriosas campanhas nas quais o seu coração se enchera de todas as emoções nacionais.
Mas foi a sua sorte morrer longe da Pátria. É uma consolação, para todos os brasileiros que veneram o seu nome, ver que ele, na sua posição de banido, recebeu da gloriosa nação francesa as supremas honras que ela pôde tributar. No dia de hoje o coração brasileiro pulsa no peito da França”.
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FATOS DO BRASIL IMPÉRIO
Bem vindo ao blog FATOS DO BRASIL IMPÉRIO. Aqui são narrados fatos da época do Império, geralmente pouco conhecidos, extraídos do livro REVIVENDO O BRASIL-IMPÉRIO, que publiquei sob o pseudônimo Leopoldo Bibiano Xavier. Leitura muito útil, que dá uma visão realista do modo como o Imperador Pedro II conduzia os destinos do País.
Você está convidado a visitar também os sites referentes ao meu livro mais recente, A VOLTA AO MUNDO DA NOBREZA, que contém mais de 1.700 fatos mostrando a atuação da nobreza em diversos países e épocas:
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Leon Beaugeste
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29.5.08
06 - A CARIDADE NO TRONO BRASILEIRO
A Família Imperial utiliza grande parte da dotação para obras de caridade
Os pedidos de esmolas à Família Imperial eram constantes e numerosos. Muitos solicitantes não reapareciam na varanda de São Cristóvão, porque tinham ordem de ir direto à Mordomia, onde eram atendidos. Eram os pensionistas do “imperial bolsinho”. A Imperatriz tinha a fama de nunca deixar um pedido sem a sua esmola. Deduzidas as despesas da casa, que não eram grandes, todo o resto da dotação se escoava dessa maneira. Quando precisou de dinheiro para socorrer o irmão, a Imperatriz teve de recorrer a um empréstimo.
Na sua meninice, D. Pedro II foi sempre uma criança dócil, pacata, extremosa e de costumes exemplares. Aquelas virtudes de bondade, que foram as virtudes maiores do Monarca, revelou-as desde pequenino. Ainda de calças curtas, na sua extrema infância, quando saía a passeio, fazia questão de que lhe dessem muito dinheiro em moedas de prata. Ao voltar, trazia sempre os bolsinhos vazios. O dinheiro, distribuía-o todo aos soldados e aos pobres pelas ruas. Nunca lhe sobrava um vintém da mesada de 12 mil réis, que recebia do Tesouro da Casa Imperial.
Quando o Imperador voltou ao Brasil em 1877, grandes festejos tinham sido planejados para a sua chegada. Mas a satisfação de retornar ao lar foi diminuída pelas más notícias do Ceará, onde a fome rugia após prolongada seca. Dom Pedro cancelou as celebrações oficiais, dizendo que os fundos reservados para esse fim deviam ser empregados no trabalho de alívio aos flagelados. Apesar dos grandes gastos que tivera na viagem, ele destinou parte da sua dotação para a mesma finalidade. Durante uma reunião do Gabinete, o ministro da Fazenda informou:
— Majestade, não temos mais condições de socorrer o Ceará. Não há mais dinheiro no Tesouro.
O Imperador baixou a cabeça durante alguns instantes, e depois disse com firmeza:
— Se não há mais dinheiro, vamos vender as jóias da Coroa. Não quero que um só cearense morra de fome por falta de recursos.
No verão de 1855, percorreu o mundo uma epidemia de cólera-morbus, irrompendo no Rio com grande violência. O pânico logo se apoderou das famílias, que fugiram apavoradas para o interior, para as fazendas, para as casas dos amigos, para as cidades mais próximas do Rio. A fim de trazer a calma à capital, o Imperador resolveu conservar-se com a família em São Cristóvão, adiando a sua habitual subida para Petrópolis. Comentando os fatos, afirmou na ocasião o “Jornal do Comércio”:
“Os fluminenses viram com bem explicável susto, mas ao mesmo tempo com ufania, o Imperador permanecer impávido e firme, nos dias mais terríveis da epidemia, em São Cristóvão, um dos pontos mais fulminados pela peste. Viram-no conservar-se sempre na sua capital, no meio do teatro da desolação. Mais que tudo isso, viram o Imperador sair do seu palácio e fazer parar o seu carro à porta dos hospitais, e penetrando nesses focos de epidemia, aproximar-se dos leitos dos coléricos, falar a todos eles, robustecer a coragem dos fortes, inspirar valor e ânimo aos fracos e encher de esperanças, de fé e de gratidão os corações dos míseros doentes. A cada grito de alarma, respondia de pronto uma providência diligente e proveitosa”.
Com uma atividade desdobrada, mostrou-se incansável nas visitas aos hospitais, na assistência aos coléricos, nas providências de toda sorte que podiam minorar ou fazer cessar os padecimentos dos doentes.
De seu bolso particular, deu cerca de quinze contos de réis para a assistência aos necessitados. Acompanhavam-no várias senhoras da corte, que ajudavam a Imperatriz na instalação de hospitais, na confecção de roupas, na distribuição de alimentos e em outras obras de assistência.
Reconhecendo os inúmeros benefícios custeados pela Família Imperial, o Governo Provisório decretou após a proclamação da República: “Os necessitados, enfermos, viúvas e órfãos pensionados pelo Imperador deposto continuarão a perceber o mesmo subsídio, enquanto durar a respeito de cada um a indigência, a moléstia, a viuvez ou a menoridade em que se acham”.
Se o Imperador pudesse, os voluntários da Pátria não teriam do que se queixar
Ninguém prezou os combatentes da guerra do Paraguai mais do que o Imperador. Não sabia só a história da guerra, conhecia também a biografia do soldado. E o seu grande coração foi sempre tão fiel quanto a sua extraordinária memória. A maior garantia de quem lhe pedia favor ou justiça era a alegação de que fora voluntário. Para estes, estabeleceu certos e determinados empregos. E, nestes casos, a melhor carta de recomendação era a fé de ofício; a cicatriz, o mais valioso empenho.
Passeando a pé no Largo do Paço, o Imperador encontrou um velho mendigo negro, que lhe estendeu a mão. O homem lamentava-se:
— Quem pede é um servidor da Pátria! Derramei sangue no Paraguai, e o Governo me deixa na miséria.
O preto não conhecia D. Pedro, que se aproximou e perguntou-lhe:
— Você foi voluntário da Pátria?
— Sim, senhor. Podeis comprová-lo por estas feridas. Mas o Governo não se incomoda com isso.
— E você acharia o Imperador capaz de deixar ao desamparo os servidores da Pátria?
— Se o senhor pergunta isso, é porque não conhece o nosso Imperador. Ele é homem de grande coração. Se ele pudesse, todos nós, que estivemos no Paraguai, não teríamos do que nos queixar.
Dom Pedro deixou uma moeda nas mãos do preto e afastou-se. No dia seguinte mandou acomodá-lo em um dos quartos da criadagem do Palácio, onde ele permaneceu até morrer.
Foi na viagem de regresso ao Rio de Janeiro que sucedeu ao filho do capitão Gomes Carneiro o desastre que aproximou do Imperador o futuro general.
A bordo do “Manaus”, na ocasião do desembarque diante do Arsenal de Guerra, uma criança corria pelo convés. Era o momento em que a corrente do leme, com um estertor de ferro desembrulhado, trepidava, sacudida pela manobra. Um grito lancinante horrorizou os passageiros. Carneiro precipitou-se em procura do filho de três anos. E o oficial, que não pestanejara no brejal de Estero Bellaco e em outras batalhas na Guerra do Paraguai, cambaleou defronte do seu pequenino Mário, cujas pernas a engrenagem esmagara. Um colega de armas, o capitão Pego Júnior, levantou nos braços o menino arquejante. As pernas, trituradas, pendiam-lhe do corpinho tenro, como dois trapos sangrentos. Carneiro atirou-se a uma lancha, com o amigo, para levar à Santa Casa, ali perto, o filho inanimado.
Os cirurgiões mais ilustres se reuniram, deliberaram e executaram a operação. A administração do hospital teve ordem de reservar o melhor aposento e destacar os melhores enfermeiros para o entezinho mortalmente mutilado. Carneiro não indagou da procedência daquela ordem. Ficou à cabeceira de Mário, recolhendo-lhe um por um os gemidos, na ternura de sua vigília. No dia imediato, a porta se abriu para um homem corpulento e alto, cuja barba de neve dava à face corada e lisa um ar jovial de velhice bondosa. Carneiro perfilou-se, fazendo soar os calcanhares. Os seus olhos pardos reconheceram o visitante. O Brasil todo o reconheceria.
— Majestade...
O Imperador debruçou-se sobre o menino, passou-lhe pela testa lívida a mão de Habsburgo, afagou-lhe o rosto febril e sussurrou uma frase compassiva. Encarou depois o capitão, e disse-lhe:
— A saúde deste menino me interessa. Quero dar-lhe os aparelhos com que há de andar. Faço questão de custear-lhe todo o tratamento. Não me agradeça... Já sei. O senhor é um soldado de Uruguaiana e de Itororó. Bem... Voltarei para rever o menino.
E baixou os olhos da face pálida do capitão Gomes Carneiro, molhada pelas lágrimas que silenciosamente corriam.
Mesmo com sacrifícios pessoais, a ajuda imperial a quem precisa
Luiz Fignier dirigiu-se a D. Pedro II, pedindo-lhe auxílio para editar um dos seus últimos trabalhos de divulgação. Saindo da audiência, foi o Imperador entender-se com o tesoureiro da Casa Imperial, que lhe informou serem escassos os recursos, tornando-se impossível atender o pedido.
— Não faz mal. Comprimiremos as nossas despesas. O Fignier, coitado, precisa ser ajudado.
D. Pedro não sabia negar em tais casos.
No exílio, D. Pedro II teve notícia da morte do escritor Alphonse Karr, seu amigo. Logo depois, o jornal anunciava o leilão de sua biblioteca. Chamou então o seu médico Mota Maia, e perguntou:
— Quanto pode custar essa biblioteca? O Karr não era um erudito, nem um bibliófilo. Deve ser uma biblioteca escolhida e modesta. Quero adquiri-la.
As finanças do Imperador, no momento, estavam precárias, mas Mota Maia não podia assustá-lo, por causa da doença. Foi para Nice, arrematou a biblioteca por 8 mil francos e entregou-a à viúva de Alphonse Karr, pois esta era a intenção evidente de D. Pedro. Em agradecimento, a viúva ofereceu ao seu benfeitor uma bela coleção de obras de Santa Tereza de Jesus, com o que também homenageava a Imperatriz Teresa Cristina, falecida havia pouco.
Em Cannes, meses após a morte de D. Teresa Cristina, o ex-Imperador enlutado lia sentado junto a uma larga mesa atulhada de livros e jornais. O Conde de Mota Maia entrou e anunciou:
— Senhor, uma boa notícia do Brasil.
— Boa notícia do Brasil?... Diga depressa.
— Recebi uma ordem, mediante a qual será entregue a Vossa Majestade certa quantia. É a primeira que de lá vem, e chega muito a propósito.
Abrindo uma gaveta, D. Pedro tirou volumoso maço de papéis, contendo pedidos de esmolas, auxílios, subvenções. Ato contínuo, tomando um lápis, pôs-se a despachá-los, destinando 100 francos para uma, 500 francos para outra, e assim por diante.
Quando o Imperador acabou, o Conde empunhou um lápis e somou os números anotados por D. Pedro:
— Cinco mil e trezentos francos.
— Pouca coisa.
— Mas a ordem do Brasil representa apenas quatro mil.
— Devolva-me então os papéis, que retificarei os números.
— Mas Vossa Majestade não se recorda de que estamos quase sem recursos, devendo ao hotel, e constrangidos a fazer economias?
— Já sei, já sei! Mas ignorava que não pudesse atender a alguns pobres que me estendem a mão.
— Não pode, meu Senhor, não pode. Perdoe-me que o declare com franqueza: Vossa Majestade está obrigado a coibir-se nas esmolas. Nossa situação não é favorável, é má. Há de melhorar, acredito. Mas, por ora, cumpre-nos cortar as despesas não imprescindíveis. O dinheiro enviado do Brasil amortizará apenas a conta do hotel.
D. Pedro levantou-se lentamente e começou a passear pelo aposento. Por fim, soltou um suspiro, sentou-se e retomou o livro:
— Vá, Sr. Mota Maia. Receba o dinheiro e salde as nossas contas. Se, por acaso, sobrar alguma coisa, execute os despachos possíveis... Os mais módicos... Os dos mais necessitados.
Os benefícios do Imperador não são meros contratos interesseiros
Após o golpe de 15 de novembro, quando a Família Imperial já estava a bordo para a viagem ao exílio, começaram a chegar os jornais do dia. Lendo o nome de um dos revolucionários, que recebera grandes benefícios do Imperador, D. Teresa Cristina desabafou:
— Fulano! Quem diria!
Sereno e imperturbável, o Imperador respondeu:
— Senhora, se quando fazemos um benefício fosse já contando com a gratidão do beneficiado, então o ato perderia a sua nota principal, passando a ser um contrato interesseiro.
Viajando pelo interior do País, numa região onde não havia estalagens, o Imperador hospedou-se na casa de um homem bom, muito estimado, mas cujos negócios corriam mal. Era obrigado a pagar uma grande quantia, mas estava completamente impossibilitado. Uma pessoa desconhecida do proprietário deu esta informação ao Imperador. Quando ele partiu, deixou o recibo devidamente quitado e assinado pelo credor, numa gaveta da cômoda do quarto que ocupara. Ao se despedir, avisou:
— O senhor se esqueceu de trancar um papel importante que eu vi na gaveta da mesa do meu quarto. Cuidado para não perdê-lo.
Publicava-se no Rio de Janeiro uma folha diária intitulada “A República”, no decênio de 1870, sob a direção política de Salvador de Mendonça, ardoroso propagandista contrário à Monarquia. Falecendo a esposa deste, em ocasião de dificuldades materiais daquela empresa jornalística, nenhum dos seus amigos e companheiros de redação podia auxiliá-lo com a quantia necessária para as despesas do enterro. O Imperador ordenou ao seu mordomo que, com o maior sigilo, fizesse imediatamente chegar às mãos do jornalista a quantia de dois contos de réis, para as cerimônias fúnebres.
Por mais persistentes que fossem as indagações do interessado, jamais lhe passou pela cabeça o nome do seu real benfeitor. Tanto assim que ele continuou a atacar o Império e o seu Imperador. Algum tempo depois, quando já ninguém mais se lembrava disso, o beneficiado soube da verdade. Correu à Quinta de São Cristóvão, para agradecer a generosidade do Imperador. Vendo a inutilidade de negar a autoria do benefício, D. Pedro manifestou a sua simpatia, dizendo ao jornalista que poderia contar com o seu auxílio sempre que se visse em dificuldades de ordem material. O jornalista declarou então que fizera o propósito de nunca mais escrever uma linha sobre assuntos políticos, desde o momento em que tomara conhecimento do nome do seu magnânimo protetor.
Um professor acadêmico foi procurar o Imperador, dizendo-se sob a dolorosa ameaça de penhora, e pediu-lhe 5 contos de réis, a fim de evitar esse vexame. Foi atendido.
No dia seguinte, por ocasião da estréia de uma famosa companhia lírica, foi visto o dito professor, com toda a família, ocupando uma frisa bem em frente ao camarote imperial. Nogueira da Gama, mordomo do Imperador, várias vezes tocou no assunto, e não conseguiu ouvir dele sequer uma queixa.
Um repórter que participava de associações abolicionistas pediu ao Imperador uma quantia para libertar escravos. Foi dada a ordem para lhe ser entregue a quantia, sem precisar de recibo, mas a mordomo preferiu documentar-se.
Posteriormente, em uma discussão pela imprensa, o tal repórter declarou nunca ter ido ao Palácio, nem ter precisado do Imperador. No dia seguinte, um jornal publicava uma cópia autêntica do recibo assinado pelo repórter, cedido pelo mordomo da Casa Imperial. D. Pedro chamou às falas... o mordomo. Pois este havia exigido o recibo, quando lhe recomendara não pedi-lo.
— Mas, meu senhor, se eu não exigisse o recibo, pois sabia com quem lidava, todo o mundo acreditaria que esse senhor jamais procurara Vossa Majestade, e jamais recebera coisa alguma.
— Melhor seria. Preferia que não se soubesse. Além do mais, desobedeceste-me. O que faço na minha Casa não é para que o público saiba.
Em 1891, o Visconde de Taunay publicou no “Jornal do Comércio” um artigo, no qual perguntava: “De que acusam a Monarquia? Alguma vez ficou ela indiferente, alheia às mínimas dores da Pátria, inerte ante as suas aflições? Alguma vez representou ela a prodigalidade e o gozo, o parasitismo, a locupletação e o luxo, na diminuta dotação que recebia toda a Família Imperial? E que soma fabulosa, inimaginável, seria necessária para pagar e retribuir a paz e a tranqüilidade deste imenso Brasil desde 1840, a dignidade do seu nome, a sua honorabilidade no conceito de todas as nações do mundo, o respeito que, sem contestação, merece de todos?”
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Os pedidos de esmolas à Família Imperial eram constantes e numerosos. Muitos solicitantes não reapareciam na varanda de São Cristóvão, porque tinham ordem de ir direto à Mordomia, onde eram atendidos. Eram os pensionistas do “imperial bolsinho”. A Imperatriz tinha a fama de nunca deixar um pedido sem a sua esmola. Deduzidas as despesas da casa, que não eram grandes, todo o resto da dotação se escoava dessa maneira. Quando precisou de dinheiro para socorrer o irmão, a Imperatriz teve de recorrer a um empréstimo.
Na sua meninice, D. Pedro II foi sempre uma criança dócil, pacata, extremosa e de costumes exemplares. Aquelas virtudes de bondade, que foram as virtudes maiores do Monarca, revelou-as desde pequenino. Ainda de calças curtas, na sua extrema infância, quando saía a passeio, fazia questão de que lhe dessem muito dinheiro em moedas de prata. Ao voltar, trazia sempre os bolsinhos vazios. O dinheiro, distribuía-o todo aos soldados e aos pobres pelas ruas. Nunca lhe sobrava um vintém da mesada de 12 mil réis, que recebia do Tesouro da Casa Imperial.
Quando o Imperador voltou ao Brasil em 1877, grandes festejos tinham sido planejados para a sua chegada. Mas a satisfação de retornar ao lar foi diminuída pelas más notícias do Ceará, onde a fome rugia após prolongada seca. Dom Pedro cancelou as celebrações oficiais, dizendo que os fundos reservados para esse fim deviam ser empregados no trabalho de alívio aos flagelados. Apesar dos grandes gastos que tivera na viagem, ele destinou parte da sua dotação para a mesma finalidade. Durante uma reunião do Gabinete, o ministro da Fazenda informou:
— Majestade, não temos mais condições de socorrer o Ceará. Não há mais dinheiro no Tesouro.
O Imperador baixou a cabeça durante alguns instantes, e depois disse com firmeza:
— Se não há mais dinheiro, vamos vender as jóias da Coroa. Não quero que um só cearense morra de fome por falta de recursos.
No verão de 1855, percorreu o mundo uma epidemia de cólera-morbus, irrompendo no Rio com grande violência. O pânico logo se apoderou das famílias, que fugiram apavoradas para o interior, para as fazendas, para as casas dos amigos, para as cidades mais próximas do Rio. A fim de trazer a calma à capital, o Imperador resolveu conservar-se com a família em São Cristóvão, adiando a sua habitual subida para Petrópolis. Comentando os fatos, afirmou na ocasião o “Jornal do Comércio”:
“Os fluminenses viram com bem explicável susto, mas ao mesmo tempo com ufania, o Imperador permanecer impávido e firme, nos dias mais terríveis da epidemia, em São Cristóvão, um dos pontos mais fulminados pela peste. Viram-no conservar-se sempre na sua capital, no meio do teatro da desolação. Mais que tudo isso, viram o Imperador sair do seu palácio e fazer parar o seu carro à porta dos hospitais, e penetrando nesses focos de epidemia, aproximar-se dos leitos dos coléricos, falar a todos eles, robustecer a coragem dos fortes, inspirar valor e ânimo aos fracos e encher de esperanças, de fé e de gratidão os corações dos míseros doentes. A cada grito de alarma, respondia de pronto uma providência diligente e proveitosa”.
Com uma atividade desdobrada, mostrou-se incansável nas visitas aos hospitais, na assistência aos coléricos, nas providências de toda sorte que podiam minorar ou fazer cessar os padecimentos dos doentes.
De seu bolso particular, deu cerca de quinze contos de réis para a assistência aos necessitados. Acompanhavam-no várias senhoras da corte, que ajudavam a Imperatriz na instalação de hospitais, na confecção de roupas, na distribuição de alimentos e em outras obras de assistência.
Reconhecendo os inúmeros benefícios custeados pela Família Imperial, o Governo Provisório decretou após a proclamação da República: “Os necessitados, enfermos, viúvas e órfãos pensionados pelo Imperador deposto continuarão a perceber o mesmo subsídio, enquanto durar a respeito de cada um a indigência, a moléstia, a viuvez ou a menoridade em que se acham”.
Se o Imperador pudesse, os voluntários da Pátria não teriam do que se queixar
Ninguém prezou os combatentes da guerra do Paraguai mais do que o Imperador. Não sabia só a história da guerra, conhecia também a biografia do soldado. E o seu grande coração foi sempre tão fiel quanto a sua extraordinária memória. A maior garantia de quem lhe pedia favor ou justiça era a alegação de que fora voluntário. Para estes, estabeleceu certos e determinados empregos. E, nestes casos, a melhor carta de recomendação era a fé de ofício; a cicatriz, o mais valioso empenho.
Passeando a pé no Largo do Paço, o Imperador encontrou um velho mendigo negro, que lhe estendeu a mão. O homem lamentava-se:
— Quem pede é um servidor da Pátria! Derramei sangue no Paraguai, e o Governo me deixa na miséria.
O preto não conhecia D. Pedro, que se aproximou e perguntou-lhe:
— Você foi voluntário da Pátria?
— Sim, senhor. Podeis comprová-lo por estas feridas. Mas o Governo não se incomoda com isso.
— E você acharia o Imperador capaz de deixar ao desamparo os servidores da Pátria?
— Se o senhor pergunta isso, é porque não conhece o nosso Imperador. Ele é homem de grande coração. Se ele pudesse, todos nós, que estivemos no Paraguai, não teríamos do que nos queixar.
Dom Pedro deixou uma moeda nas mãos do preto e afastou-se. No dia seguinte mandou acomodá-lo em um dos quartos da criadagem do Palácio, onde ele permaneceu até morrer.
Foi na viagem de regresso ao Rio de Janeiro que sucedeu ao filho do capitão Gomes Carneiro o desastre que aproximou do Imperador o futuro general.
A bordo do “Manaus”, na ocasião do desembarque diante do Arsenal de Guerra, uma criança corria pelo convés. Era o momento em que a corrente do leme, com um estertor de ferro desembrulhado, trepidava, sacudida pela manobra. Um grito lancinante horrorizou os passageiros. Carneiro precipitou-se em procura do filho de três anos. E o oficial, que não pestanejara no brejal de Estero Bellaco e em outras batalhas na Guerra do Paraguai, cambaleou defronte do seu pequenino Mário, cujas pernas a engrenagem esmagara. Um colega de armas, o capitão Pego Júnior, levantou nos braços o menino arquejante. As pernas, trituradas, pendiam-lhe do corpinho tenro, como dois trapos sangrentos. Carneiro atirou-se a uma lancha, com o amigo, para levar à Santa Casa, ali perto, o filho inanimado.
Os cirurgiões mais ilustres se reuniram, deliberaram e executaram a operação. A administração do hospital teve ordem de reservar o melhor aposento e destacar os melhores enfermeiros para o entezinho mortalmente mutilado. Carneiro não indagou da procedência daquela ordem. Ficou à cabeceira de Mário, recolhendo-lhe um por um os gemidos, na ternura de sua vigília. No dia imediato, a porta se abriu para um homem corpulento e alto, cuja barba de neve dava à face corada e lisa um ar jovial de velhice bondosa. Carneiro perfilou-se, fazendo soar os calcanhares. Os seus olhos pardos reconheceram o visitante. O Brasil todo o reconheceria.
— Majestade...
O Imperador debruçou-se sobre o menino, passou-lhe pela testa lívida a mão de Habsburgo, afagou-lhe o rosto febril e sussurrou uma frase compassiva. Encarou depois o capitão, e disse-lhe:
— A saúde deste menino me interessa. Quero dar-lhe os aparelhos com que há de andar. Faço questão de custear-lhe todo o tratamento. Não me agradeça... Já sei. O senhor é um soldado de Uruguaiana e de Itororó. Bem... Voltarei para rever o menino.
E baixou os olhos da face pálida do capitão Gomes Carneiro, molhada pelas lágrimas que silenciosamente corriam.
Mesmo com sacrifícios pessoais, a ajuda imperial a quem precisa
Luiz Fignier dirigiu-se a D. Pedro II, pedindo-lhe auxílio para editar um dos seus últimos trabalhos de divulgação. Saindo da audiência, foi o Imperador entender-se com o tesoureiro da Casa Imperial, que lhe informou serem escassos os recursos, tornando-se impossível atender o pedido.
— Não faz mal. Comprimiremos as nossas despesas. O Fignier, coitado, precisa ser ajudado.
D. Pedro não sabia negar em tais casos.
No exílio, D. Pedro II teve notícia da morte do escritor Alphonse Karr, seu amigo. Logo depois, o jornal anunciava o leilão de sua biblioteca. Chamou então o seu médico Mota Maia, e perguntou:
— Quanto pode custar essa biblioteca? O Karr não era um erudito, nem um bibliófilo. Deve ser uma biblioteca escolhida e modesta. Quero adquiri-la.
As finanças do Imperador, no momento, estavam precárias, mas Mota Maia não podia assustá-lo, por causa da doença. Foi para Nice, arrematou a biblioteca por 8 mil francos e entregou-a à viúva de Alphonse Karr, pois esta era a intenção evidente de D. Pedro. Em agradecimento, a viúva ofereceu ao seu benfeitor uma bela coleção de obras de Santa Tereza de Jesus, com o que também homenageava a Imperatriz Teresa Cristina, falecida havia pouco.
Em Cannes, meses após a morte de D. Teresa Cristina, o ex-Imperador enlutado lia sentado junto a uma larga mesa atulhada de livros e jornais. O Conde de Mota Maia entrou e anunciou:
— Senhor, uma boa notícia do Brasil.
— Boa notícia do Brasil?... Diga depressa.
— Recebi uma ordem, mediante a qual será entregue a Vossa Majestade certa quantia. É a primeira que de lá vem, e chega muito a propósito.
Abrindo uma gaveta, D. Pedro tirou volumoso maço de papéis, contendo pedidos de esmolas, auxílios, subvenções. Ato contínuo, tomando um lápis, pôs-se a despachá-los, destinando 100 francos para uma, 500 francos para outra, e assim por diante.
Quando o Imperador acabou, o Conde empunhou um lápis e somou os números anotados por D. Pedro:
— Cinco mil e trezentos francos.
— Pouca coisa.
— Mas a ordem do Brasil representa apenas quatro mil.
— Devolva-me então os papéis, que retificarei os números.
— Mas Vossa Majestade não se recorda de que estamos quase sem recursos, devendo ao hotel, e constrangidos a fazer economias?
— Já sei, já sei! Mas ignorava que não pudesse atender a alguns pobres que me estendem a mão.
— Não pode, meu Senhor, não pode. Perdoe-me que o declare com franqueza: Vossa Majestade está obrigado a coibir-se nas esmolas. Nossa situação não é favorável, é má. Há de melhorar, acredito. Mas, por ora, cumpre-nos cortar as despesas não imprescindíveis. O dinheiro enviado do Brasil amortizará apenas a conta do hotel.
D. Pedro levantou-se lentamente e começou a passear pelo aposento. Por fim, soltou um suspiro, sentou-se e retomou o livro:
— Vá, Sr. Mota Maia. Receba o dinheiro e salde as nossas contas. Se, por acaso, sobrar alguma coisa, execute os despachos possíveis... Os mais módicos... Os dos mais necessitados.
Os benefícios do Imperador não são meros contratos interesseiros
Após o golpe de 15 de novembro, quando a Família Imperial já estava a bordo para a viagem ao exílio, começaram a chegar os jornais do dia. Lendo o nome de um dos revolucionários, que recebera grandes benefícios do Imperador, D. Teresa Cristina desabafou:
— Fulano! Quem diria!
Sereno e imperturbável, o Imperador respondeu:
— Senhora, se quando fazemos um benefício fosse já contando com a gratidão do beneficiado, então o ato perderia a sua nota principal, passando a ser um contrato interesseiro.
Viajando pelo interior do País, numa região onde não havia estalagens, o Imperador hospedou-se na casa de um homem bom, muito estimado, mas cujos negócios corriam mal. Era obrigado a pagar uma grande quantia, mas estava completamente impossibilitado. Uma pessoa desconhecida do proprietário deu esta informação ao Imperador. Quando ele partiu, deixou o recibo devidamente quitado e assinado pelo credor, numa gaveta da cômoda do quarto que ocupara. Ao se despedir, avisou:
— O senhor se esqueceu de trancar um papel importante que eu vi na gaveta da mesa do meu quarto. Cuidado para não perdê-lo.
Publicava-se no Rio de Janeiro uma folha diária intitulada “A República”, no decênio de 1870, sob a direção política de Salvador de Mendonça, ardoroso propagandista contrário à Monarquia. Falecendo a esposa deste, em ocasião de dificuldades materiais daquela empresa jornalística, nenhum dos seus amigos e companheiros de redação podia auxiliá-lo com a quantia necessária para as despesas do enterro. O Imperador ordenou ao seu mordomo que, com o maior sigilo, fizesse imediatamente chegar às mãos do jornalista a quantia de dois contos de réis, para as cerimônias fúnebres.
Por mais persistentes que fossem as indagações do interessado, jamais lhe passou pela cabeça o nome do seu real benfeitor. Tanto assim que ele continuou a atacar o Império e o seu Imperador. Algum tempo depois, quando já ninguém mais se lembrava disso, o beneficiado soube da verdade. Correu à Quinta de São Cristóvão, para agradecer a generosidade do Imperador. Vendo a inutilidade de negar a autoria do benefício, D. Pedro manifestou a sua simpatia, dizendo ao jornalista que poderia contar com o seu auxílio sempre que se visse em dificuldades de ordem material. O jornalista declarou então que fizera o propósito de nunca mais escrever uma linha sobre assuntos políticos, desde o momento em que tomara conhecimento do nome do seu magnânimo protetor.
Um professor acadêmico foi procurar o Imperador, dizendo-se sob a dolorosa ameaça de penhora, e pediu-lhe 5 contos de réis, a fim de evitar esse vexame. Foi atendido.
No dia seguinte, por ocasião da estréia de uma famosa companhia lírica, foi visto o dito professor, com toda a família, ocupando uma frisa bem em frente ao camarote imperial. Nogueira da Gama, mordomo do Imperador, várias vezes tocou no assunto, e não conseguiu ouvir dele sequer uma queixa.
Um repórter que participava de associações abolicionistas pediu ao Imperador uma quantia para libertar escravos. Foi dada a ordem para lhe ser entregue a quantia, sem precisar de recibo, mas a mordomo preferiu documentar-se.
Posteriormente, em uma discussão pela imprensa, o tal repórter declarou nunca ter ido ao Palácio, nem ter precisado do Imperador. No dia seguinte, um jornal publicava uma cópia autêntica do recibo assinado pelo repórter, cedido pelo mordomo da Casa Imperial. D. Pedro chamou às falas... o mordomo. Pois este havia exigido o recibo, quando lhe recomendara não pedi-lo.
— Mas, meu senhor, se eu não exigisse o recibo, pois sabia com quem lidava, todo o mundo acreditaria que esse senhor jamais procurara Vossa Majestade, e jamais recebera coisa alguma.
— Melhor seria. Preferia que não se soubesse. Além do mais, desobedeceste-me. O que faço na minha Casa não é para que o público saiba.
Em 1891, o Visconde de Taunay publicou no “Jornal do Comércio” um artigo, no qual perguntava: “De que acusam a Monarquia? Alguma vez ficou ela indiferente, alheia às mínimas dores da Pátria, inerte ante as suas aflições? Alguma vez representou ela a prodigalidade e o gozo, o parasitismo, a locupletação e o luxo, na diminuta dotação que recebia toda a Família Imperial? E que soma fabulosa, inimaginável, seria necessária para pagar e retribuir a paz e a tranqüilidade deste imenso Brasil desde 1840, a dignidade do seu nome, a sua honorabilidade no conceito de todas as nações do mundo, o respeito que, sem contestação, merece de todos?”
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25.5.08
01 - A MINHA FAMÍLIA BRASILEIRA
OUVINDO A TODOS SEM ENGANAR A NINGUÉM
A Família Imperial, modelo e apoio das famílias brasileiras
Se investigarmos bem a fundo as razões da popularidade que a Família Imperial conservou, mesmo depois da República, veremos que reside, em boa parte, no êxito de sua tarefa social. O velho Imperador, com a grande respeitabilidade de sua figura, seu porte grave, sua longa barba precocemente encanecida, sua afabilidade, representava bem o tipo ideal do excelente pai de família brasileiro daquela época, coluna do lar, protetor suave e varonil dos seus. O Imperador era como que o tipo exemplar que concentrava em si as virtudes que cada brasileiro estimava em seu próprio pai.
O mesmo se poderia dizer da Imperatriz, Dona Teresa Cristina. Era italiana, e adaptou-se ao nosso ambiente com a naturalidade com que o fazem os de sua terra. Feia, bondosa, acolhedora, era ela mesma o protótipo da dama brasileira, algum tanto desinteressada, naquele tempo, dos encargos de representação, mas exímia em tudo quanto dissesse respeito aos deveres do lar. Todo o mundo, consciente ou inconscientemente, se sentia um pouco parente daquela família-tipo.
Chamou a atenção do jornalista norte-americano James O’Kelly, do “New York Herald”, o cunho familiar da Monarquia brasileira e a enorme popularidade de que gozava o Imperador. Ele escreveu: “Os brasileiros comportam-se para com seu Imperador como uma grande e feliz família para com seu bem-amado pai”.
Ao relatar o embarque do Imperador para os Estados Unidos, observou: “Não era um chefe despedindo-se cerimoniosamente da nação que governa, era antes um casal adorado despedindo-se da família”.
Na Universidade Lehigh, por ocasião da viagem do Imperador aos Estados Unidos, havia alguns estudantes brasileiros, que ficaram encantados em vê-lo. A propósito do encontro com esses estudantes, o jornal “North American” comentou: “Os jovens se aglomeraram em torno dele, como filhos em torno de um pai, e ele parecia um pai tratando com seus filhos”.
O dia do seu regresso foi um dia de gala nacional. A emoção com que o acolheram assumia antes o tom carinhoso de uma família que revê o chefe estremecido do que o de uma nação que recebe o seu soberano.
Após a sua viagem ao Brasil, o Conde Alexandre Hübner, diplomata austríaco, publicou no “Le Figaro”, em 18/10/1882, um artigo sob forma de carta ao povo brasileiro, no qual diz:
“Oriunda de duas das mais ilustres e mais antigas famílias reinantes, a dinastia que vejo à vossa frente identifica-se convosco nos bons e nos maus dias. Aliando a simplicidade à dignidade, pode servir de modelo ao mais suntuoso como ao mais humilde lar.
Um fato, sobretudo, me impressionou. A 15 de agosto, a festa da Virgem foi celebrada com a pompa tradicional, na antiga igreja de Nossa Senhora da Glória. Quando chego, o templo já está cheio de fiéis. As poltronas reservadas para a Corte são as únicas ainda desocupadas. Diante da igreja, na plataforma de onde se domina a vista do golfo, amontoa-se uma multidão de diversas cores. Do branco mais puro ao negro mais escuro, todas as tonalidades da pele humana ali se achavam representadas.
O sol poente doura com seus últimos raios esse vasto lençol de rochedos fantásticos, todo esse conjunto de céu e de mar, de granito e de vegetação, que faz da baía do Rio uma das maravilhas do mundo. Os sinos todos dobram, soltam-se foguetes, e os petardos se juntam com seu barulho ensurdecedor. É a Corte que se aproxima.
Guiado pelo acaso, penetro por uma porta entreaberta num pequeno jardim dando para a plataforma, onde o proprietário e sua família recebem o desconhecido com hospitalidade verdadeiramente brasileira. Foi dali que pude lançar o olhar em profundidade e ver o Imperador dando o braço à Imperatriz, acompanhado da Princesa Imperial e do Conde d’Eu, subir a pé a rampa muito inclinada que conduz à igreja. Uma multidão compacta de povo o cerca. Nenhuma ala militar, nenhum policial”. Dom Pedro encontra-se no seio de sua grande família, e ali se sente bem. Espetáculo admirável que me impressionou vivamente, porque recordava-me cenas semelhantes do meu país”.
O Imperador, um pai respeitado e amado, que conhece todos os seus filhos brasileiros
Seria erro acreditar que os brasileiros prezavam no Imperador somente a suprema autoridade do Estado. Eles amaram antes de tudo nele o homem, e do homem as suas virtudes. Esta afeição tinha um cunho de ternura filial. E a virtude do Imperador que mais cativou o povo foi a bondade.
O historiógrafo João Ribeiro fez a seguinte apreciação sobre D. Pedro II: “Simples e modesto, mas sem perda da distinção pessoal. Generoso e desinteressado. Sábio, mas sem afetação. Exemplo de todas as virtudes domésticas. Melhor que a popularidade, granjeou a simpatia respeitosa da multidão. A opinião unânime a respeito do Soberano o fez protótipo das virtudes sociais”.
Ele não via no povo apenas a massa amorfa, em que as parcelas se confundem e se anulam na soma total. Ia além, buscava enxergar no todo o detalhe das fisionomias e a vida dos indivíduos. Sabia a história do País e a história de muitos de seus súditos.
Durante uma audiência pública, um ex-oficial de voluntários entregava um memorial ao Imperador. O Conde d’Eu, que estava presente, aproximou-se e perguntou ao oficial:
— O senhor não é o tenente tal, que serviu em tal batalhão?
O oficial confirmou, trocaram algumas palavras, e a audiência prosseguiu. Depois que este se retirou, o Conde d’Eu comentou com D. Pedro:
— Tenho o orgulho de conhecer todos os oficiais que serviram sob minhas ordens.
— Isto é uma grande coisa. E eu tenho procurado conhecer todos os brasileiros.
Numa viagem ao interior de Minas, o Imperador observou, no meio de uma multidão compacta, uma negra que fazia grande esforço para se aproximar dele, mas as pessoas à sua volta procuravam impedi-la. Compadecido, ordenou que a deixassem aproximar-se.
— Meu senhor, eu sou Eva, uma escrava fugida, e venho pedir a Vossa Majestade a minha liberdade.
O Imperador mandou tomar as notas necessárias, e prometeu dar-lhe a liberdade quando regressasse. E efetivamente entregou à cativa o documento de alforria.
Algum tempo depois, indo a uma das janelas do Palácio de São Cristóvão, viu um guarda tentando impedir que uma preta velha entrasse. Sua memória prodigiosa reconheceu imediatamente a ex-escrava de Minas, e ele ordenou:
— Entre aqui, Eva!
A preta precipitou-se porta adentro, e entregou ao seu protetor um saco de abacaxis, colhidos na roça que plantara depois de liberta.
A 7 de dezembro de 1889, a Família Imperial exilada chegava a Lisboa. Antes de ir para terra, o Imperador quis despedir-se de toda a oficialidade de bordo, entregando uma lembrança pessoal aos três oficiais mais graduados. Para a tripulação, reservou uma determinada quantia em dinheiro, tendo tido o cuidado de mandar organizar, para esse fim, uma lista com os nomes de todos os marinheiros e empregados de bordo. Como de costume, nenhum detalhe lhe escapou:
— Falta o homem que trata dos bois. Não o esqueça.
No gabinete de D. Pedro II havia um busto de Alexandre, o Grande. À vista dessa imagem, alguém lembrou-lhe as palavras de César ao contemplar outra semelhante:
— Ele não tinha ainda a minha idade, e já conquistara toda a terra.
— E eu conquistei o meu povo! – exclamou o Imperador.
O Palácio do Imperador está aberto a todos
Todo o mundo, sem exceção, podia ser facilmente admitido à presença do Monarca, não se precisando para isso nem de vestuário apropriado, nem de bilhete especial, nem de qualquer declaração ou outra formalidade, e muito menos de empenhos de políticos ou de gente do Paço. Bastava apresentar-se em palácio, declinar o nome, que era lançado num grande livro, e penetrar naquelas salas abertas a todos. Benjamim Mossé afirma: “Cada um pode apresentar-se como quiser, de casaca, de uniforme, de blusa, de roupa de trabalho; nem por isso deixa de ser recebido por Sua Majestade. O mais humilde negro, em chinelos ou pés descalços, pode falar ao Soberano”.
Escragnolle Dória, conhecido historiador e escritor, confirma:
“Era só chegar e esperar a sua vez, certo de ser atendido. Cada qual trazia o seu interesse, e dava o seu recado sem vexame, na sua gramática. O Imperador costumava referir-se a essas audiências públicas como receber a minha família brasileira.
“Certa vez, falava ao Imperador uma mulher de cor, já idosa, cabeça nua, mãos trêmulas, xale aos ombros, vestido de chita, sapatos e meias usados. Aproximou-se acanhada, dirigiu-se ao Soberano, e no perturbado da exposição deixou cair papéis, sem dúvida de apoio à modestíssima pretensão. Apanhou-os o Imperador, restituiu-os, continuou a ouvir por muito tempo, despedindo a suplicante com um sorriso de bondade e gesto de encorajamento, ficando a segurar os documentos que ela lhe confiara”.
O romancista Gustavo Aimard, que visitou o Brasil três vezes, escreveu sobre nosso País o livro “Brésil Nouveau”. Estava no Rio havia oito dias, em 1881, quando seu amigo Sohier lhe sugeriu que fosse ao Palácio da Boa Vista visitar o Imperador. Perguntou então qual seria a etiqueta. O amigo riu-se, e lhe deu a explicação:
— Nos sábados, as audiências imperiais são públicas, e duram de duas às cinco da tarde. Os candidatos a um encontro com o Soberano entram no Palácio, sobem ao segundo andar, atravessam uma longa galeria e entram na sala das audiências, sem ninguém para lhes embargar os passos.
— Então não há soldados, funcionários e veadores?
— Soldados, haverá uns vinte. Mas nenhum se ocupa de quem entra nem de quem sai.
Aimard narrou desta forma a entrevista:
“Entrei no Palácio, subi uma larga escadaria atapetada, no alto da qual encontrei uma pessoa que imaginei ser um porteiro, mas que era um camarista. Perguntei-lhe onde estava o Imperador: “Em frente, na segunda porta à esquerda”, respondeu-me sorrindo esse desconhecido. Atravessei um imenso salão, que parecia estreito por causa de seu extenso comprimento. Estava deserto, completamente sem móveis, não tendo nem mesmo um banco. Em compensação, as paredes se achavam cobertas de quadros, dos quais quase todos me pareceram ser de bons mestres e de várias escolas. Alguns deles chamaram minha atenção, parecendo-me de grande valor. Fiquei de tal modo absorvido por essas telas, que esqueci por muito tempo o que tinha ido fazer ali. Duas pessoas que saíam, conversando em voz alta, chamaram-me à realidade. Abri a porta que o desconhecido me tinha indicado, e achei-me noutro salão, este muito bem mobiliado, no qual se via uma meia dúzia de capuchinhos comodamente sentados, todos cochichando uns com os outros. Atravessei uma galeria bastante estreita, mas muito longa, cheia de gente. O Imperador se encontrava no fim da galeria. Reconheci-o logo pela sua elevada estatura, pela barba loura entremeada de fios de prata, e pela fisionomia sorridente”.
O Conde d’Ursel, secretário da legação belga no Brasil, aqui desembarcou em 9 de dezembro de 1873. Narra a visita a D. Pedro II:
“Estava o Palácio Imperial aberto a todo o mundo, e os veadores do Soberano acolhiam os visitantes com a maior cordialidade. Ao limiar daquele Paço, sentia-se que o dono da casa a todos recebia benévola e bondosamente.
Era sábado, dia de audiência pública, por assim dizer, pois toda e qualquer pessoa era admitida a falar a D. Pedro II. Na extremidade da longa galeria avistei o Imperador vestido de preto, parando em frente a pessoa por pessoa, estendendo freqüentemente a mão e ouvindo o interlocutor, sempre com visível atenção.
Nada mais impressionante do que o espetáculo ao mesmo tempo simples e comovedor, que eu tinha diante dos olhos. Havia pessoas de modesta posição, vestidas pobremente, esperando a vez para, sem intermediário algum, submeter ao Soberano a sua petição.
O Imperador, com benevolência e dignidade, deixa chegarem-se a ele todos dentre os seus súditos que têm uma reclamação a fazer ou um favor a pedir. É voz corrente que esta prática excelente serve por vezes de freio salutar aos funcionários que se deixam levar a arbitrariedades”.
Qualquer brasileiro pode falar com o Imperador e confiar na sua bondade
No Rio Grande do Sul, por ocasião dos contatos com os governantes dos países aliados Argentina e Uruguai, D. Pedro despira-se preliminarmente das exterioridades de sua hierarquia. Não era um rei entre burgueses, mas um chefe de Estado que procura equiparar-se aos outros dois. Na realidade, acentuava com isso a majestade que lhe é natural. Só os príncipes, educados para o trono, podem ser simples, familiares e agradáveis, sem que os demais ousem romper a zona de respeito de que insensivelmente se cercam. Silveira da Mota, secretário de Tamandaré, afirmou:
“Confesso que nunca vira, na pessoa de D. Pedro II, tanta força de sedução. Tudo o que havia de simpático e nobre na sua fisionomia, apresentava-se naquela época com o aspecto mais favorável. Parecia ser o Monarca da coxilha, idealizado pela gauchada. Ele não teve sequer o seu batismo de fogo, mas a fleuma com que se aproximava ao alcance do fuzil das trincheiras paraguaias foi o bastante para que os circunstantes fizessem uma alta idéia da sua coragem”.
Se D. Pedro II tinha um grande, um irremediável defeito, pode dizer-se que esse defeito era a sua bondade.27 Joaquim Nabuco, o famoso abolicionista, afirmou que durante cinqüenta anos o povo encontrou o Imperador sempre de pé, na galeria de São Cristóvão ou no Paço da Cidade, ouvindo a todos sem enganar a ninguém: “A sua porta esteve sempre mais franca do que qualquer outra no País. E quando se deixava de tratar com ele, para falar aos poderosos, todos sentiam que a vaidade da posição começava abaixo do trono”.
Na sua “Fé de Ofício”, o próprio Imperador afirmou: “O meu dia era todo ocupado no serviço público, e jamais deixei de ouvir e falar a quem quer que fosse”.
O conselheiro Nuno de Andrade descreveu uma audiência do Imperador:
“Às cinco horas em ponto desci do tílburi, junto à portinha baixa onde uma sentinela cochilava. Não se pedia licença para entrar. Tomei a escada da direita, e fui ter a um longo salão retangular quase sem móveis, com grandes quadros nas paredes. O Freire, criado da casa, meu conhecido, disse-me:
— O Imperador não tarda.
Cerca de quinze pessoas esperavam D. Pedro II, e entre elas um preto vestido de brim pardo, sem gravata, com uns grandes sapatos muito bem engraxados. Depreendia-se do lustro do calçado que o preto cuidara de parecer asseado; e, como era idoso, a intenção traduzia certa altivez nativa. Tinha ido a pé e sentia-se cansado, por isso sentara-se no chão da galeria. O Pederneiras, com sua barba branca, chegou-se a mim, indicou o preto e disse filosoficamente:
— Ainda querem mais liberdade nesta terra...
Instintivamente olhamos para as portas, constantemente abertas a todos os brasileiros.
O Imperador apareceu no extremo da galeria, e o preto levantou-se. Seria o primeiro a falar ao Soberano, e ninguém se lembrou de lhe disputar a precedência. O Imperador lhe perguntou:
— Então, como está? Que é que temos?
— Estou bom, sim senhor. E vosmecê? Eu venho dizer a vosmecê que fui voluntário na guerra do Paraguai. Na batalha, fiquei com um braço ferido por bala. Curei-me, e continuei até o fim de tudo. Depois voltei e caí no meu ofício de empalhador. Há um ano adoeci do fígado, e o Dr. Miranda, na Santa Casa, me fez uma operação. Nunca mais tive saúde. Agora, não posso mais trabalhar no ofício, e não tenho vintém para comprar farinha. Na secretaria do Império há falta de servente, e eu fui falar com o ministro. Mas o ministro não fala com toda a gente. Estão lá uns mulatinhos pernósticos, que me dizem sempre: Você espere. Eu espero, sim senhor; e depois os mulatinhos me mandam embora, porque o ministro não recebe mais ninguém. Já três vezes isso me aconteceu. Então fiquei zangado e pensei assim: vou falar ao Imperador, que é nosso pai; ele não manda a gente embora. Ora, pois, eu queria que vosmecê me desse um bilhetinho para o ministro...
O Imperador chamou o general Miranda Reis, que então o acompanhava, e disse-lhe algumas palavras. Voltando ao preto, exprimiu-se assim:
— Vá com Deus. Fico sendo seu procurador, e tratarei do seu negócio.
— Mas eu tinha vontade de mostrar àqueles mulatinhos pacholas...
— Não tem nada a mostrar. Vá para sua casa e espere.
Alguns dias depois, contou-me o general Miranda Reis que o Imperador mandara alojar o antigo voluntário numa casinha da Quinta, e ordenara ao comendador João Batista que lhe suprisse a mensalidade de 40 mil réis, pedindo desculpas de não poder dar mais. E o João Batista, honrado mineiro, prodigiosamente econômico, amofinava-se com as freqüentíssimas decisões desta espécie, sustentando, em voz fraca e lacrimosa, que das quatro operações o sábio Imperador só conhecia a de dividir”.
O Imperador é feliz quando cada brasileiro está contente
No “Figaro”, Gaston Calmette escrevera que Dom Pedro II se parecia com o escritor Arsène Houssaye, velho conhecido do Soberano. Dias depois, encontrando-se com Houssaye, Dom Pedro, risonhamente, conduziu-o para diante de um espelho, dizendo:
— Vejamos se de fato nos parecemos!
— Talvez – disse o poeta –, mas numa coisa não nos parecemos: é que eu, de vez em quando, gostaria de ser Dom Pedro II, e vós jamais gostaríeis de ser Arsène Houssaye.
— Quem sabe? Todo homem traz sua coroa de espinhos. Faríamos, contudo, uma troca inútil, pois não usaríamos a coroa do homem feliz.
— E Vossa Majestade já encontrou algum homem feliz?
— Sim! Eu mesmo, quando meu povo está contente!
No dia 16 de julho de 1865, quando chegou ao Rio Grande do Sul no limiar da guerra do Paraguai, o Imperador publicou uma patriótica proclamação, que termina com estas palavras:
— Riograndenses! Falo-vos como pai que zela a honra da família brasileira. Estou certo de que procedereis como irmãos que se amam ainda mais quando qualquer deles sofre.
D. Pedro se esforçava para obter o bem estar de cada súdito.
O Barão de Teffé narra um exame do qual participou na Academia de Marinha, na presença do Imperador. Era presidente da banca examinadora o Prof. Cristiano Otoni. No tom seco que lhe era peculiar, e que tanto assustava os alunos, chamou o examinando e ordenou:
— Exponha com clareza e precisão a matéria do seu ponto.
O rapaz titubeou, pois não tinha prática de fazer discursos. Gaguejou, empalideceu e guardou silêncio, enquanto organizava mentalmente algumas frases, para iniciar a exposição. Otoni se impacientou e intimou:
— Sua Majestade veio aqui para ouvi-lo e julgar do seu aproveitamento. Ou fale ou retire-se.
Nisto o Imperador tranqüilizou o rapaz, dizendo:
— Compreendo a sua perturbação, mas acalme o seu espírito, porque aqui não há juízes ferrenhos, e sim amigos dispostos a esperar que lhe volte o sangue frio.
Começou em seguida a conversar calmamente com Otoni. Isto bastou para conquistar o estudante tímido, porém bem preparado, que acabou fazendo brilhante exame e obteve aprovação plena.
Diante de uma escola, numa cidade do interior por onde passava o Imperador, uma menina se preparava para ler um discurso em sua homenagem.
— Nada, nada, minha filha! Eu não gosto de discursos.
Mas logo se arrependeu, porque a criança, contrariada, assumiu um ar de choro.
— Bem, bem! Uma vez que tanto quer falar, venha cá. Venha conversar comigo.
Para encorajá-la, acrescentou:
— Vejo que você é inteligente. Não tenha medo. Mostre-me que você é inteligente, porque eu gosto muito de crianças. Eu tenho netinhos da sua idade.
O Imperador tratava com especial atenção todos os servidores da Casa Imperial, inclusive os escravos, quando ainda os tinha, ou ex-escravos que, depois de libertos, continuavam a servi-lo como empregados pagos. Assistia aos casamentos dos seus servidores, quando previamente avisado.
Quando o Santíssimo Sacramento saía da capela da Quinta, para a casa de algum empregado doente, Dom Pedro II acompanhava o padre, de tocha na mão, até o carro que o conduzisse.
Em 1866, durante a guerra do Paraguai, D. Pedro escreveu ao Marquês de Paranaguá: “Lembro-lhe as providências para que não falte de comer e agasalho, assim como roupa, aos que forem designados. Cumpre não demorar essas medidas”.
De quem se tratava aí? De filhos de grandes do Império, que seguiam para os campos paludosos do Paraguai? Nada disso! Visava o conforto de simples escravos, que deixavam a Fazenda Imperial de Santa Cruz e partiam para a guerra.
Às quintas-feiras o Imperador costumava jantar com a Princesa Isabel, no Palácio Guanabara, para onde seguia com a Imperatriz às 4 horas da tarde, escoltado pela guarda imperial. Não estava previsto que os cadetes seriam alimentados pela cozinha do palácio, o que lhes causava não poucos transtornos, porém desconhecidos pelo Imperador.
Certo dia, um cadete resolveu arranjar algum alimento. Dirigiu-se aos fundos do Palácio e penetrou na sala de jantar. Pegou uma penca de bananas, e quando ia apanhar também uma garrafa de vinho, deparou com o Imperador. Não se desconcertou. Depôs sobre a mesa o que apanhara, fez continência e disse:
— Vossa Majestade me perdoe. Estava com fome, vi estas belas bananas e não me contive.
— Por que não esperou o jantar, seu cadete? Não demorava.
— Saiba Vossa Majestade que aqui não nos fornecem jantar, e os que não têm dinheiro para comprar alguma coisa passam fome.
O Imperador ficou carrancudo, e nada disse. Pouco depois vinha um bom jantar do Palácio, e daí em diante isto se tornou rotina.
Narrando fatos que comprovavam a brandura de trato do Imperador, um distinto servidor do Paço dizia:
— É coisa admirável! Eu às vezes não posso conter-me diante de faltas cometidas no Paço, mas o Imperador nunca se zanga! A que ponto isto chega, seria necessário ver para crer.
A popularidade do Imperador cantada em versos
Popularidade autêntica é a que se conquista na voz do povo, que não admite imposições. Principalmente na poesia popular, que é a própria alma do povo. Não são muitos os nomes de heróis e bandidos, de intelectuais e políticos, que aparecem na poesia popular do Brasil. Entre esses nomes, teve lugar de destaque o do magnânimo Imperador D. Pedro II. Logo após o seu nascimento, as mães cantavam em Minas Gerais, ninando as crianças:
“Lá vai o sol entrando
Arraiando pelo mundo;
No dia 2 de dezembro
Nasceu Dom Pedro Segundo”.
Por ocasião da campanha da maioridade, o povo se manifestou com uma quadra que ficou famosa:
“Queremos Pedro Segundo,
Embora não tenha idade.
A Nação dispensa a lei,
E viva a maioridade!”
A popularidade de D. Pedro II começou, mesmo, após a maioridade, pois cansado estava o povo das revoltas e experiências. Ansiava por outra coisa, e pôs no jovem Monarca, por isso, todas as esperanças:
“Suba ao trono o jovem Pedro,
Exulte toda a Nação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união.
Vista a seda, traje a púrpura,
Exulte toda a Nação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união.
Foi abaixo a camarilha,
De geral indignação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união”.
De Norte a Sul do País, cantava a musa popular, com variações regionais:
“Atirei um limão n’água
De tão alto foi ao fundo;
Os peixinhos responderam:
Viva Dom Pedro Segundo!”
No tempo de Canudos, cantava-se:
“Saiu D. Pedro Segundo
Para o reino de Lisboa,
Acabou-se a Monarquia,
O Brasil ficou à toa.
Este povo está perdido,
Está sem arrumação,
E o culpado disso tudo
É o chefe da Nação”.
***
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A Família Imperial, modelo e apoio das famílias brasileiras
Se investigarmos bem a fundo as razões da popularidade que a Família Imperial conservou, mesmo depois da República, veremos que reside, em boa parte, no êxito de sua tarefa social. O velho Imperador, com a grande respeitabilidade de sua figura, seu porte grave, sua longa barba precocemente encanecida, sua afabilidade, representava bem o tipo ideal do excelente pai de família brasileiro daquela época, coluna do lar, protetor suave e varonil dos seus. O Imperador era como que o tipo exemplar que concentrava em si as virtudes que cada brasileiro estimava em seu próprio pai.
O mesmo se poderia dizer da Imperatriz, Dona Teresa Cristina. Era italiana, e adaptou-se ao nosso ambiente com a naturalidade com que o fazem os de sua terra. Feia, bondosa, acolhedora, era ela mesma o protótipo da dama brasileira, algum tanto desinteressada, naquele tempo, dos encargos de representação, mas exímia em tudo quanto dissesse respeito aos deveres do lar. Todo o mundo, consciente ou inconscientemente, se sentia um pouco parente daquela família-tipo.
Chamou a atenção do jornalista norte-americano James O’Kelly, do “New York Herald”, o cunho familiar da Monarquia brasileira e a enorme popularidade de que gozava o Imperador. Ele escreveu: “Os brasileiros comportam-se para com seu Imperador como uma grande e feliz família para com seu bem-amado pai”.
Ao relatar o embarque do Imperador para os Estados Unidos, observou: “Não era um chefe despedindo-se cerimoniosamente da nação que governa, era antes um casal adorado despedindo-se da família”.
Na Universidade Lehigh, por ocasião da viagem do Imperador aos Estados Unidos, havia alguns estudantes brasileiros, que ficaram encantados em vê-lo. A propósito do encontro com esses estudantes, o jornal “North American” comentou: “Os jovens se aglomeraram em torno dele, como filhos em torno de um pai, e ele parecia um pai tratando com seus filhos”.
O dia do seu regresso foi um dia de gala nacional. A emoção com que o acolheram assumia antes o tom carinhoso de uma família que revê o chefe estremecido do que o de uma nação que recebe o seu soberano.
Após a sua viagem ao Brasil, o Conde Alexandre Hübner, diplomata austríaco, publicou no “Le Figaro”, em 18/10/1882, um artigo sob forma de carta ao povo brasileiro, no qual diz:
“Oriunda de duas das mais ilustres e mais antigas famílias reinantes, a dinastia que vejo à vossa frente identifica-se convosco nos bons e nos maus dias. Aliando a simplicidade à dignidade, pode servir de modelo ao mais suntuoso como ao mais humilde lar.
Um fato, sobretudo, me impressionou. A 15 de agosto, a festa da Virgem foi celebrada com a pompa tradicional, na antiga igreja de Nossa Senhora da Glória. Quando chego, o templo já está cheio de fiéis. As poltronas reservadas para a Corte são as únicas ainda desocupadas. Diante da igreja, na plataforma de onde se domina a vista do golfo, amontoa-se uma multidão de diversas cores. Do branco mais puro ao negro mais escuro, todas as tonalidades da pele humana ali se achavam representadas.
O sol poente doura com seus últimos raios esse vasto lençol de rochedos fantásticos, todo esse conjunto de céu e de mar, de granito e de vegetação, que faz da baía do Rio uma das maravilhas do mundo. Os sinos todos dobram, soltam-se foguetes, e os petardos se juntam com seu barulho ensurdecedor. É a Corte que se aproxima.
Guiado pelo acaso, penetro por uma porta entreaberta num pequeno jardim dando para a plataforma, onde o proprietário e sua família recebem o desconhecido com hospitalidade verdadeiramente brasileira. Foi dali que pude lançar o olhar em profundidade e ver o Imperador dando o braço à Imperatriz, acompanhado da Princesa Imperial e do Conde d’Eu, subir a pé a rampa muito inclinada que conduz à igreja. Uma multidão compacta de povo o cerca. Nenhuma ala militar, nenhum policial”. Dom Pedro encontra-se no seio de sua grande família, e ali se sente bem. Espetáculo admirável que me impressionou vivamente, porque recordava-me cenas semelhantes do meu país”.
O Imperador, um pai respeitado e amado, que conhece todos os seus filhos brasileiros
Seria erro acreditar que os brasileiros prezavam no Imperador somente a suprema autoridade do Estado. Eles amaram antes de tudo nele o homem, e do homem as suas virtudes. Esta afeição tinha um cunho de ternura filial. E a virtude do Imperador que mais cativou o povo foi a bondade.
O historiógrafo João Ribeiro fez a seguinte apreciação sobre D. Pedro II: “Simples e modesto, mas sem perda da distinção pessoal. Generoso e desinteressado. Sábio, mas sem afetação. Exemplo de todas as virtudes domésticas. Melhor que a popularidade, granjeou a simpatia respeitosa da multidão. A opinião unânime a respeito do Soberano o fez protótipo das virtudes sociais”.
Ele não via no povo apenas a massa amorfa, em que as parcelas se confundem e se anulam na soma total. Ia além, buscava enxergar no todo o detalhe das fisionomias e a vida dos indivíduos. Sabia a história do País e a história de muitos de seus súditos.
Durante uma audiência pública, um ex-oficial de voluntários entregava um memorial ao Imperador. O Conde d’Eu, que estava presente, aproximou-se e perguntou ao oficial:
— O senhor não é o tenente tal, que serviu em tal batalhão?
O oficial confirmou, trocaram algumas palavras, e a audiência prosseguiu. Depois que este se retirou, o Conde d’Eu comentou com D. Pedro:
— Tenho o orgulho de conhecer todos os oficiais que serviram sob minhas ordens.
— Isto é uma grande coisa. E eu tenho procurado conhecer todos os brasileiros.
Numa viagem ao interior de Minas, o Imperador observou, no meio de uma multidão compacta, uma negra que fazia grande esforço para se aproximar dele, mas as pessoas à sua volta procuravam impedi-la. Compadecido, ordenou que a deixassem aproximar-se.
— Meu senhor, eu sou Eva, uma escrava fugida, e venho pedir a Vossa Majestade a minha liberdade.
O Imperador mandou tomar as notas necessárias, e prometeu dar-lhe a liberdade quando regressasse. E efetivamente entregou à cativa o documento de alforria.
Algum tempo depois, indo a uma das janelas do Palácio de São Cristóvão, viu um guarda tentando impedir que uma preta velha entrasse. Sua memória prodigiosa reconheceu imediatamente a ex-escrava de Minas, e ele ordenou:
— Entre aqui, Eva!
A preta precipitou-se porta adentro, e entregou ao seu protetor um saco de abacaxis, colhidos na roça que plantara depois de liberta.
A 7 de dezembro de 1889, a Família Imperial exilada chegava a Lisboa. Antes de ir para terra, o Imperador quis despedir-se de toda a oficialidade de bordo, entregando uma lembrança pessoal aos três oficiais mais graduados. Para a tripulação, reservou uma determinada quantia em dinheiro, tendo tido o cuidado de mandar organizar, para esse fim, uma lista com os nomes de todos os marinheiros e empregados de bordo. Como de costume, nenhum detalhe lhe escapou:
— Falta o homem que trata dos bois. Não o esqueça.
No gabinete de D. Pedro II havia um busto de Alexandre, o Grande. À vista dessa imagem, alguém lembrou-lhe as palavras de César ao contemplar outra semelhante:
— Ele não tinha ainda a minha idade, e já conquistara toda a terra.
— E eu conquistei o meu povo! – exclamou o Imperador.
O Palácio do Imperador está aberto a todos
Todo o mundo, sem exceção, podia ser facilmente admitido à presença do Monarca, não se precisando para isso nem de vestuário apropriado, nem de bilhete especial, nem de qualquer declaração ou outra formalidade, e muito menos de empenhos de políticos ou de gente do Paço. Bastava apresentar-se em palácio, declinar o nome, que era lançado num grande livro, e penetrar naquelas salas abertas a todos. Benjamim Mossé afirma: “Cada um pode apresentar-se como quiser, de casaca, de uniforme, de blusa, de roupa de trabalho; nem por isso deixa de ser recebido por Sua Majestade. O mais humilde negro, em chinelos ou pés descalços, pode falar ao Soberano”.
Escragnolle Dória, conhecido historiador e escritor, confirma:
“Era só chegar e esperar a sua vez, certo de ser atendido. Cada qual trazia o seu interesse, e dava o seu recado sem vexame, na sua gramática. O Imperador costumava referir-se a essas audiências públicas como receber a minha família brasileira.
“Certa vez, falava ao Imperador uma mulher de cor, já idosa, cabeça nua, mãos trêmulas, xale aos ombros, vestido de chita, sapatos e meias usados. Aproximou-se acanhada, dirigiu-se ao Soberano, e no perturbado da exposição deixou cair papéis, sem dúvida de apoio à modestíssima pretensão. Apanhou-os o Imperador, restituiu-os, continuou a ouvir por muito tempo, despedindo a suplicante com um sorriso de bondade e gesto de encorajamento, ficando a segurar os documentos que ela lhe confiara”.
O romancista Gustavo Aimard, que visitou o Brasil três vezes, escreveu sobre nosso País o livro “Brésil Nouveau”. Estava no Rio havia oito dias, em 1881, quando seu amigo Sohier lhe sugeriu que fosse ao Palácio da Boa Vista visitar o Imperador. Perguntou então qual seria a etiqueta. O amigo riu-se, e lhe deu a explicação:
— Nos sábados, as audiências imperiais são públicas, e duram de duas às cinco da tarde. Os candidatos a um encontro com o Soberano entram no Palácio, sobem ao segundo andar, atravessam uma longa galeria e entram na sala das audiências, sem ninguém para lhes embargar os passos.
— Então não há soldados, funcionários e veadores?
— Soldados, haverá uns vinte. Mas nenhum se ocupa de quem entra nem de quem sai.
Aimard narrou desta forma a entrevista:
“Entrei no Palácio, subi uma larga escadaria atapetada, no alto da qual encontrei uma pessoa que imaginei ser um porteiro, mas que era um camarista. Perguntei-lhe onde estava o Imperador: “Em frente, na segunda porta à esquerda”, respondeu-me sorrindo esse desconhecido. Atravessei um imenso salão, que parecia estreito por causa de seu extenso comprimento. Estava deserto, completamente sem móveis, não tendo nem mesmo um banco. Em compensação, as paredes se achavam cobertas de quadros, dos quais quase todos me pareceram ser de bons mestres e de várias escolas. Alguns deles chamaram minha atenção, parecendo-me de grande valor. Fiquei de tal modo absorvido por essas telas, que esqueci por muito tempo o que tinha ido fazer ali. Duas pessoas que saíam, conversando em voz alta, chamaram-me à realidade. Abri a porta que o desconhecido me tinha indicado, e achei-me noutro salão, este muito bem mobiliado, no qual se via uma meia dúzia de capuchinhos comodamente sentados, todos cochichando uns com os outros. Atravessei uma galeria bastante estreita, mas muito longa, cheia de gente. O Imperador se encontrava no fim da galeria. Reconheci-o logo pela sua elevada estatura, pela barba loura entremeada de fios de prata, e pela fisionomia sorridente”.
O Conde d’Ursel, secretário da legação belga no Brasil, aqui desembarcou em 9 de dezembro de 1873. Narra a visita a D. Pedro II:
“Estava o Palácio Imperial aberto a todo o mundo, e os veadores do Soberano acolhiam os visitantes com a maior cordialidade. Ao limiar daquele Paço, sentia-se que o dono da casa a todos recebia benévola e bondosamente.
Era sábado, dia de audiência pública, por assim dizer, pois toda e qualquer pessoa era admitida a falar a D. Pedro II. Na extremidade da longa galeria avistei o Imperador vestido de preto, parando em frente a pessoa por pessoa, estendendo freqüentemente a mão e ouvindo o interlocutor, sempre com visível atenção.
Nada mais impressionante do que o espetáculo ao mesmo tempo simples e comovedor, que eu tinha diante dos olhos. Havia pessoas de modesta posição, vestidas pobremente, esperando a vez para, sem intermediário algum, submeter ao Soberano a sua petição.
O Imperador, com benevolência e dignidade, deixa chegarem-se a ele todos dentre os seus súditos que têm uma reclamação a fazer ou um favor a pedir. É voz corrente que esta prática excelente serve por vezes de freio salutar aos funcionários que se deixam levar a arbitrariedades”.
Qualquer brasileiro pode falar com o Imperador e confiar na sua bondade
No Rio Grande do Sul, por ocasião dos contatos com os governantes dos países aliados Argentina e Uruguai, D. Pedro despira-se preliminarmente das exterioridades de sua hierarquia. Não era um rei entre burgueses, mas um chefe de Estado que procura equiparar-se aos outros dois. Na realidade, acentuava com isso a majestade que lhe é natural. Só os príncipes, educados para o trono, podem ser simples, familiares e agradáveis, sem que os demais ousem romper a zona de respeito de que insensivelmente se cercam. Silveira da Mota, secretário de Tamandaré, afirmou:
“Confesso que nunca vira, na pessoa de D. Pedro II, tanta força de sedução. Tudo o que havia de simpático e nobre na sua fisionomia, apresentava-se naquela época com o aspecto mais favorável. Parecia ser o Monarca da coxilha, idealizado pela gauchada. Ele não teve sequer o seu batismo de fogo, mas a fleuma com que se aproximava ao alcance do fuzil das trincheiras paraguaias foi o bastante para que os circunstantes fizessem uma alta idéia da sua coragem”.
Se D. Pedro II tinha um grande, um irremediável defeito, pode dizer-se que esse defeito era a sua bondade.27 Joaquim Nabuco, o famoso abolicionista, afirmou que durante cinqüenta anos o povo encontrou o Imperador sempre de pé, na galeria de São Cristóvão ou no Paço da Cidade, ouvindo a todos sem enganar a ninguém: “A sua porta esteve sempre mais franca do que qualquer outra no País. E quando se deixava de tratar com ele, para falar aos poderosos, todos sentiam que a vaidade da posição começava abaixo do trono”.
Na sua “Fé de Ofício”, o próprio Imperador afirmou: “O meu dia era todo ocupado no serviço público, e jamais deixei de ouvir e falar a quem quer que fosse”.
O conselheiro Nuno de Andrade descreveu uma audiência do Imperador:
“Às cinco horas em ponto desci do tílburi, junto à portinha baixa onde uma sentinela cochilava. Não se pedia licença para entrar. Tomei a escada da direita, e fui ter a um longo salão retangular quase sem móveis, com grandes quadros nas paredes. O Freire, criado da casa, meu conhecido, disse-me:
— O Imperador não tarda.
Cerca de quinze pessoas esperavam D. Pedro II, e entre elas um preto vestido de brim pardo, sem gravata, com uns grandes sapatos muito bem engraxados. Depreendia-se do lustro do calçado que o preto cuidara de parecer asseado; e, como era idoso, a intenção traduzia certa altivez nativa. Tinha ido a pé e sentia-se cansado, por isso sentara-se no chão da galeria. O Pederneiras, com sua barba branca, chegou-se a mim, indicou o preto e disse filosoficamente:
— Ainda querem mais liberdade nesta terra...
Instintivamente olhamos para as portas, constantemente abertas a todos os brasileiros.
O Imperador apareceu no extremo da galeria, e o preto levantou-se. Seria o primeiro a falar ao Soberano, e ninguém se lembrou de lhe disputar a precedência. O Imperador lhe perguntou:
— Então, como está? Que é que temos?
— Estou bom, sim senhor. E vosmecê? Eu venho dizer a vosmecê que fui voluntário na guerra do Paraguai. Na batalha, fiquei com um braço ferido por bala. Curei-me, e continuei até o fim de tudo. Depois voltei e caí no meu ofício de empalhador. Há um ano adoeci do fígado, e o Dr. Miranda, na Santa Casa, me fez uma operação. Nunca mais tive saúde. Agora, não posso mais trabalhar no ofício, e não tenho vintém para comprar farinha. Na secretaria do Império há falta de servente, e eu fui falar com o ministro. Mas o ministro não fala com toda a gente. Estão lá uns mulatinhos pernósticos, que me dizem sempre: Você espere. Eu espero, sim senhor; e depois os mulatinhos me mandam embora, porque o ministro não recebe mais ninguém. Já três vezes isso me aconteceu. Então fiquei zangado e pensei assim: vou falar ao Imperador, que é nosso pai; ele não manda a gente embora. Ora, pois, eu queria que vosmecê me desse um bilhetinho para o ministro...
O Imperador chamou o general Miranda Reis, que então o acompanhava, e disse-lhe algumas palavras. Voltando ao preto, exprimiu-se assim:
— Vá com Deus. Fico sendo seu procurador, e tratarei do seu negócio.
— Mas eu tinha vontade de mostrar àqueles mulatinhos pacholas...
— Não tem nada a mostrar. Vá para sua casa e espere.
Alguns dias depois, contou-me o general Miranda Reis que o Imperador mandara alojar o antigo voluntário numa casinha da Quinta, e ordenara ao comendador João Batista que lhe suprisse a mensalidade de 40 mil réis, pedindo desculpas de não poder dar mais. E o João Batista, honrado mineiro, prodigiosamente econômico, amofinava-se com as freqüentíssimas decisões desta espécie, sustentando, em voz fraca e lacrimosa, que das quatro operações o sábio Imperador só conhecia a de dividir”.
O Imperador é feliz quando cada brasileiro está contente
No “Figaro”, Gaston Calmette escrevera que Dom Pedro II se parecia com o escritor Arsène Houssaye, velho conhecido do Soberano. Dias depois, encontrando-se com Houssaye, Dom Pedro, risonhamente, conduziu-o para diante de um espelho, dizendo:
— Vejamos se de fato nos parecemos!
— Talvez – disse o poeta –, mas numa coisa não nos parecemos: é que eu, de vez em quando, gostaria de ser Dom Pedro II, e vós jamais gostaríeis de ser Arsène Houssaye.
— Quem sabe? Todo homem traz sua coroa de espinhos. Faríamos, contudo, uma troca inútil, pois não usaríamos a coroa do homem feliz.
— E Vossa Majestade já encontrou algum homem feliz?
— Sim! Eu mesmo, quando meu povo está contente!
No dia 16 de julho de 1865, quando chegou ao Rio Grande do Sul no limiar da guerra do Paraguai, o Imperador publicou uma patriótica proclamação, que termina com estas palavras:
— Riograndenses! Falo-vos como pai que zela a honra da família brasileira. Estou certo de que procedereis como irmãos que se amam ainda mais quando qualquer deles sofre.
D. Pedro se esforçava para obter o bem estar de cada súdito.
O Barão de Teffé narra um exame do qual participou na Academia de Marinha, na presença do Imperador. Era presidente da banca examinadora o Prof. Cristiano Otoni. No tom seco que lhe era peculiar, e que tanto assustava os alunos, chamou o examinando e ordenou:
— Exponha com clareza e precisão a matéria do seu ponto.
O rapaz titubeou, pois não tinha prática de fazer discursos. Gaguejou, empalideceu e guardou silêncio, enquanto organizava mentalmente algumas frases, para iniciar a exposição. Otoni se impacientou e intimou:
— Sua Majestade veio aqui para ouvi-lo e julgar do seu aproveitamento. Ou fale ou retire-se.
Nisto o Imperador tranqüilizou o rapaz, dizendo:
— Compreendo a sua perturbação, mas acalme o seu espírito, porque aqui não há juízes ferrenhos, e sim amigos dispostos a esperar que lhe volte o sangue frio.
Começou em seguida a conversar calmamente com Otoni. Isto bastou para conquistar o estudante tímido, porém bem preparado, que acabou fazendo brilhante exame e obteve aprovação plena.
Diante de uma escola, numa cidade do interior por onde passava o Imperador, uma menina se preparava para ler um discurso em sua homenagem.
— Nada, nada, minha filha! Eu não gosto de discursos.
Mas logo se arrependeu, porque a criança, contrariada, assumiu um ar de choro.
— Bem, bem! Uma vez que tanto quer falar, venha cá. Venha conversar comigo.
Para encorajá-la, acrescentou:
— Vejo que você é inteligente. Não tenha medo. Mostre-me que você é inteligente, porque eu gosto muito de crianças. Eu tenho netinhos da sua idade.
O Imperador tratava com especial atenção todos os servidores da Casa Imperial, inclusive os escravos, quando ainda os tinha, ou ex-escravos que, depois de libertos, continuavam a servi-lo como empregados pagos. Assistia aos casamentos dos seus servidores, quando previamente avisado.
Quando o Santíssimo Sacramento saía da capela da Quinta, para a casa de algum empregado doente, Dom Pedro II acompanhava o padre, de tocha na mão, até o carro que o conduzisse.
Em 1866, durante a guerra do Paraguai, D. Pedro escreveu ao Marquês de Paranaguá: “Lembro-lhe as providências para que não falte de comer e agasalho, assim como roupa, aos que forem designados. Cumpre não demorar essas medidas”.
De quem se tratava aí? De filhos de grandes do Império, que seguiam para os campos paludosos do Paraguai? Nada disso! Visava o conforto de simples escravos, que deixavam a Fazenda Imperial de Santa Cruz e partiam para a guerra.
Às quintas-feiras o Imperador costumava jantar com a Princesa Isabel, no Palácio Guanabara, para onde seguia com a Imperatriz às 4 horas da tarde, escoltado pela guarda imperial. Não estava previsto que os cadetes seriam alimentados pela cozinha do palácio, o que lhes causava não poucos transtornos, porém desconhecidos pelo Imperador.
Certo dia, um cadete resolveu arranjar algum alimento. Dirigiu-se aos fundos do Palácio e penetrou na sala de jantar. Pegou uma penca de bananas, e quando ia apanhar também uma garrafa de vinho, deparou com o Imperador. Não se desconcertou. Depôs sobre a mesa o que apanhara, fez continência e disse:
— Vossa Majestade me perdoe. Estava com fome, vi estas belas bananas e não me contive.
— Por que não esperou o jantar, seu cadete? Não demorava.
— Saiba Vossa Majestade que aqui não nos fornecem jantar, e os que não têm dinheiro para comprar alguma coisa passam fome.
O Imperador ficou carrancudo, e nada disse. Pouco depois vinha um bom jantar do Palácio, e daí em diante isto se tornou rotina.
Narrando fatos que comprovavam a brandura de trato do Imperador, um distinto servidor do Paço dizia:
— É coisa admirável! Eu às vezes não posso conter-me diante de faltas cometidas no Paço, mas o Imperador nunca se zanga! A que ponto isto chega, seria necessário ver para crer.
A popularidade do Imperador cantada em versos
Popularidade autêntica é a que se conquista na voz do povo, que não admite imposições. Principalmente na poesia popular, que é a própria alma do povo. Não são muitos os nomes de heróis e bandidos, de intelectuais e políticos, que aparecem na poesia popular do Brasil. Entre esses nomes, teve lugar de destaque o do magnânimo Imperador D. Pedro II. Logo após o seu nascimento, as mães cantavam em Minas Gerais, ninando as crianças:
“Lá vai o sol entrando
Arraiando pelo mundo;
No dia 2 de dezembro
Nasceu Dom Pedro Segundo”.
Por ocasião da campanha da maioridade, o povo se manifestou com uma quadra que ficou famosa:
“Queremos Pedro Segundo,
Embora não tenha idade.
A Nação dispensa a lei,
E viva a maioridade!”
A popularidade de D. Pedro II começou, mesmo, após a maioridade, pois cansado estava o povo das revoltas e experiências. Ansiava por outra coisa, e pôs no jovem Monarca, por isso, todas as esperanças:
“Suba ao trono o jovem Pedro,
Exulte toda a Nação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união.
Vista a seda, traje a púrpura,
Exulte toda a Nação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união.
Foi abaixo a camarilha,
De geral indignação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união”.
De Norte a Sul do País, cantava a musa popular, com variações regionais:
“Atirei um limão n’água
De tão alto foi ao fundo;
Os peixinhos responderam:
Viva Dom Pedro Segundo!”
No tempo de Canudos, cantava-se:
“Saiu D. Pedro Segundo
Para o reino de Lisboa,
Acabou-se a Monarquia,
O Brasil ficou à toa.
Este povo está perdido,
Está sem arrumação,
E o culpado disso tudo
É o chefe da Nação”.
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