FATOS DO BRASIL IMPÉRIO

Bem vindo ao blog FATOS DO BRASIL IMPÉRIO. Aqui são narrados fatos da época do Império, geralmente pouco conhecidos, extraídos do livro REVIVENDO O BRASIL-IMPÉRIO, que publiquei sob o pseudônimo Leopoldo Bibiano Xavier. Leitura muito útil, que dá uma visão realista do modo como o Imperador Pedro II conduzia os destinos do País.
Você está convidado a visitar também os sites referentes ao meu livro mais recente, A VOLTA AO MUNDO DA NOBREZA, que contém mais de 1.700 fatos mostrando a atuação da nobreza em diversos países e épocas:
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Leon Beaugeste

25.5.08

01 - A MINHA FAMÍLIA BRASILEIRA

OUVINDO A TODOS SEM ENGANAR A NINGUÉM


A Família Imperial, modelo e apoio das famílias brasileiras

Se investigarmos bem a fundo as razões da popularidade que a Família Imperial conservou, mesmo depois da República, veremos que reside, em boa parte, no êxito de sua tarefa social. O velho Imperador, com a grande respeitabilidade de sua figura, seu porte grave, sua longa barba precocemente encanecida, sua afabilidade, representava bem o tipo ideal do excelente pai de família brasileiro daquela época, coluna do lar, protetor suave e varonil dos seus. O Imperador era como que o tipo exemplar que concentrava em si as virtudes que cada brasileiro estimava em seu próprio pai.
O mesmo se poderia dizer da Imperatriz, Dona Teresa Cristina. Era italiana, e adaptou-se ao nosso ambiente com a naturalidade com que o fazem os de sua terra. Feia, bondosa, acolhedora, era ela mesma o protótipo da dama brasileira, algum tanto desinteressada, naquele tempo, dos encargos de representação, mas exímia em tudo quanto dissesse respeito aos deveres do lar. Todo o mundo, consciente ou inconscientemente, se sentia um pouco parente daquela família-tipo.

Chamou a atenção do jornalista norte-americano James O’Kelly, do “New York Herald”, o cunho familiar da Monarquia brasileira e a enorme popularidade de que gozava o Imperador. Ele escreveu: “Os brasileiros comportam-se para com seu Imperador como uma grande e feliz família para com seu bem-amado pai”.
Ao relatar o embarque do Imperador para os Estados Unidos, observou: “Não era um chefe despedindo-se cerimoniosamente da nação que governa, era antes um casal adorado despedindo-se da família”.

Na Universidade Lehigh, por ocasião da viagem do Imperador aos Estados Unidos, havia alguns estudantes brasileiros, que ficaram encantados em vê-lo. A propósito do encontro com esses estudantes, o jornal “North American” comentou: “Os jovens se aglomeraram em torno dele, como filhos em torno de um pai, e ele parecia um pai tratando com seus filhos”.

O dia do seu regresso foi um dia de gala nacional. A emoção com que o acolheram assumia antes o tom carinhoso de uma família que revê o chefe estremecido do que o de uma nação que recebe o seu soberano.

Após a sua viagem ao Brasil, o Conde Alexandre Hübner, diplomata austríaco, publicou no “Le Figaro”, em 18/10/1882, um artigo sob forma de carta ao povo brasileiro, no qual diz:
“Oriunda de duas das mais ilustres e mais antigas famílias reinantes, a dinastia que vejo à vossa frente identifica-se convosco nos bons e nos maus dias. Aliando a simplicidade à dignidade, pode servir de modelo ao mais suntuoso como ao mais humilde lar.
Um fato, sobretudo, me impressionou. A 15 de agosto, a festa da Virgem foi celebrada com a pompa tradicional, na antiga igreja de Nossa Senhora da Glória. Quando chego, o templo já está cheio de fiéis. As poltronas reservadas para a Corte são as únicas ainda desocupadas. Diante da igreja, na plataforma de onde se domina a vista do golfo, amontoa-se uma multidão de diversas cores. Do branco mais puro ao negro mais escuro, todas as tonalidades da pele humana ali se achavam representadas.
O sol poente doura com seus últimos raios esse vasto lençol de rochedos fantásticos, todo esse conjunto de céu e de mar, de granito e de vegetação, que faz da baía do Rio uma das maravilhas do mundo. Os sinos todos dobram, soltam-se foguetes, e os petardos se juntam com seu barulho ensurdecedor. É a Corte que se aproxima.
Guiado pelo acaso, penetro por uma porta entreaberta num pequeno jardim dando para a plataforma, onde o proprietário e sua família recebem o desconhecido com hospitalidade verdadeiramente brasileira. Foi dali que pude lançar o olhar em profundidade e ver o Imperador dando o braço à Imperatriz, acompanhado da Princesa Imperial e do Conde d’Eu, subir a pé a rampa muito inclinada que conduz à igreja. Uma multidão compacta de povo o cerca. Nenhuma ala militar, nenhum policial”. Dom Pedro encontra-se no seio de sua grande família, e ali se sente bem. Espetáculo admirável que me impressionou vivamente, porque recordava-me cenas semelhantes do meu país”.


O Imperador, um pai respeitado e amado, que conhece todos os seus filhos brasileiros

Seria erro acreditar que os brasileiros prezavam no Imperador somente a suprema autoridade do Estado. Eles amaram antes de tudo nele o homem, e do homem as suas virtudes. Esta afeição tinha um cunho de ternura filial. E a virtude do Imperador que mais cativou o povo foi a bondade.

O historiógrafo João Ribeiro fez a seguinte apreciação sobre D. Pedro II: “Simples e modesto, mas sem perda da distinção pessoal. Generoso e desinteressado. Sábio, mas sem afetação. Exemplo de todas as virtudes domésticas. Melhor que a popularidade, granjeou a simpatia respeitosa da multidão. A opinião unânime a respeito do Soberano o fez protótipo das virtudes sociais”.
Ele não via no povo apenas a massa amorfa, em que as parcelas se confundem e se anulam na soma total. Ia além, buscava enxergar no todo o detalhe das fisionomias e a vida dos indivíduos. Sabia a história do País e a história de muitos de seus súditos.

Durante uma audiência pública, um ex-oficial de voluntários entregava um memorial ao Imperador. O Conde d’Eu, que estava presente, aproximou-se e perguntou ao oficial:
— O senhor não é o tenente tal, que serviu em tal batalhão?
O oficial confirmou, trocaram algumas palavras, e a audiência prosseguiu. Depois que este se retirou, o Conde d’Eu comentou com D. Pedro:
— Tenho o orgulho de conhecer todos os oficiais que serviram sob minhas ordens.
— Isto é uma grande coisa. E eu tenho procurado conhecer todos os brasileiros.

Numa viagem ao interior de Minas, o Imperador observou, no meio de uma multidão compacta, uma negra que fazia grande esforço para se aproximar dele, mas as pessoas à sua volta procuravam impedi-la. Compadecido, ordenou que a deixassem aproximar-se.
— Meu senhor, eu sou Eva, uma escrava fugida, e venho pedir a Vossa Majestade a minha liberdade.
O Imperador mandou tomar as notas necessárias, e prometeu dar-lhe a liberdade quando regressasse. E efetivamente entregou à cativa o documento de alforria.
Algum tempo depois, indo a uma das janelas do Palácio de São Cristóvão, viu um guarda tentando impedir que uma preta velha entrasse. Sua memória prodigiosa reconheceu imediatamente a ex-escrava de Minas, e ele ordenou:
— Entre aqui, Eva!
A preta precipitou-se porta adentro, e entregou ao seu protetor um saco de abacaxis, colhidos na roça que plantara depois de liberta.

A 7 de dezembro de 1889, a Família Imperial exilada chegava a Lisboa. Antes de ir para terra, o Imperador quis despedir-se de toda a oficialidade de bordo, entregando uma lembrança pessoal aos três oficiais mais graduados. Para a tripulação, reservou uma determinada quantia em dinheiro, tendo tido o cuidado de mandar organizar, para esse fim, uma lista com os nomes de todos os marinheiros e empregados de bordo. Como de costume, nenhum detalhe lhe escapou:
— Falta o homem que trata dos bois. Não o esqueça.

No gabinete de D. Pedro II havia um busto de Alexandre, o Grande. À vista dessa imagem, alguém lembrou-lhe as palavras de César ao contemplar outra semelhante:
— Ele não tinha ainda a minha idade, e já conquistara toda a terra.
— E eu conquistei o meu povo! – exclamou o Imperador.


O Palácio do Imperador está aberto a todos

Todo o mundo, sem exceção, podia ser facilmente admitido à presença do Monarca, não se precisando para isso nem de vestuário apropriado, nem de bilhete especial, nem de qualquer declaração ou outra formalidade, e muito menos de empenhos de políticos ou de gente do Paço. Bastava apresentar-se em palácio, declinar o nome, que era lançado num grande livro, e penetrar naquelas salas abertas a todos. Benjamim Mossé afirma: “Cada um pode apresentar-se como quiser, de casaca, de uniforme, de blusa, de roupa de trabalho; nem por isso deixa de ser recebido por Sua Majestade. O mais humilde negro, em chinelos ou pés descalços, pode falar ao Soberano”.

Escragnolle Dória, conhecido historiador e escritor, confirma:
“Era só chegar e esperar a sua vez, certo de ser atendido. Cada qual trazia o seu interesse, e dava o seu recado sem vexame, na sua gramática. O Imperador costumava referir-se a essas audiências públicas como receber a minha família brasileira.
“Certa vez, falava ao Imperador uma mulher de cor, já idosa, cabeça nua, mãos trêmulas, xale aos ombros, vestido de chita, sapatos e meias usados. Aproximou-se acanhada, dirigiu-se ao Soberano, e no perturbado da exposição deixou cair papéis, sem dúvida de apoio à modestíssima pretensão. Apanhou-os o Imperador, restituiu-os, continuou a ouvir por muito tempo, despedindo a suplicante com um sorriso de bondade e gesto de encorajamento, ficando a segurar os documentos que ela lhe confiara”.

O romancista Gustavo Aimard, que visitou o Brasil três vezes, escreveu sobre nosso País o livro “Brésil Nouveau”. Estava no Rio havia oito dias, em 1881, quando seu amigo Sohier lhe sugeriu que fosse ao Palácio da Boa Vista visitar o Imperador. Perguntou então qual seria a etiqueta. O amigo riu-se, e lhe deu a explicação:
— Nos sábados, as audiências imperiais são públicas, e duram de duas às cinco da tarde. Os candidatos a um encontro com o Soberano entram no Palácio, sobem ao segundo andar, atravessam uma longa galeria e entram na sala das audiências, sem ninguém para lhes embargar os passos.
— Então não há soldados, funcionários e veadores?
— Soldados, haverá uns vinte. Mas nenhum se ocupa de quem entra nem de quem sai.

Aimard narrou desta forma a entrevista:
“Entrei no Palácio, subi uma larga escadaria atapetada, no alto da qual encontrei uma pessoa que imaginei ser um porteiro, mas que era um camarista. Perguntei-lhe onde estava o Imperador: “Em frente, na segunda porta à esquerda”, respondeu-me sorrindo esse desconhecido. Atravessei um imenso salão, que parecia estreito por causa de seu extenso comprimento. Estava deserto, completamente sem móveis, não tendo nem mesmo um banco. Em compensação, as paredes se achavam cobertas de quadros, dos quais quase todos me pareceram ser de bons mestres e de várias escolas. Alguns deles chamaram minha atenção, parecendo-me de grande valor. Fiquei de tal modo absorvido por essas telas, que esqueci por muito tempo o que tinha ido fazer ali. Duas pessoas que saíam, conversando em voz alta, chamaram-me à realidade. Abri a porta que o desconhecido me tinha indicado, e achei-me noutro salão, este muito bem mobiliado, no qual se via uma meia dúzia de capuchinhos comodamente sentados, todos cochichando uns com os outros. Atravessei uma galeria bastante estreita, mas muito longa, cheia de gente. O Imperador se encontrava no fim da galeria. Reconheci-o logo pela sua elevada estatura, pela barba loura entremeada de fios de prata, e pela fisionomia sorridente”.

O Conde d’Ursel, secretário da legação belga no Brasil, aqui desembarcou em 9 de dezembro de 1873. Narra a visita a D. Pedro II:
“Estava o Palácio Imperial aberto a todo o mundo, e os veadores do Soberano acolhiam os visitantes com a maior cordialidade. Ao limiar daquele Paço, sentia-se que o dono da casa a todos recebia benévola e bondosamente.
Era sábado, dia de audiência pública, por assim dizer, pois toda e qualquer pessoa era admitida a falar a D. Pedro II. Na extremidade da longa galeria avistei o Imperador vestido de preto, parando em frente a pessoa por pessoa, estendendo freqüentemente a mão e ouvindo o interlocutor, sempre com visível atenção.
Nada mais impressionante do que o espetáculo ao mesmo tempo simples e comovedor, que eu tinha diante dos olhos. Havia pessoas de modesta posição, vestidas pobremente, esperando a vez para, sem intermediário algum, submeter ao Soberano a sua petição.
O Imperador, com benevolência e dignidade, deixa chegarem-se a ele todos dentre os seus súditos que têm uma reclamação a fazer ou um favor a pedir. É voz corrente que esta prática excelente serve por vezes de freio salutar aos funcionários que se deixam levar a arbitrariedades”.


Qualquer brasileiro pode falar com o Imperador e confiar na sua bondade

No Rio Grande do Sul, por ocasião dos contatos com os governantes dos países aliados Argentina e Uruguai, D. Pedro despira-se preliminarmente das exterioridades de sua hierarquia. Não era um rei entre burgueses, mas um chefe de Estado que procura equiparar-se aos outros dois. Na realidade, acentuava com isso a majestade que lhe é natural. Só os príncipes, educados para o trono, podem ser simples, familiares e agradáveis, sem que os demais ousem romper a zona de respeito de que insensivelmente se cercam. Silveira da Mota, secretário de Tamandaré, afirmou:
“Confesso que nunca vira, na pessoa de D. Pedro II, tanta força de sedução. Tudo o que havia de simpático e nobre na sua fisionomia, apresentava-se naquela época com o aspecto mais favorável. Parecia ser o Monarca da coxilha, idealizado pela gauchada. Ele não teve sequer o seu batismo de fogo, mas a fleuma com que se aproximava ao alcance do fuzil das trincheiras paraguaias foi o bastante para que os circunstantes fizessem uma alta idéia da sua coragem”.

Se D. Pedro II tinha um grande, um irremediável defeito, pode dizer-se que esse defeito era a sua bondade.27 Joaquim Nabuco, o famoso abolicionista, afirmou que durante cinqüenta anos o povo encontrou o Imperador sempre de pé, na galeria de São Cristóvão ou no Paço da Cidade, ouvindo a todos sem enganar a ninguém: “A sua porta esteve sempre mais franca do que qualquer outra no País. E quando se deixava de tratar com ele, para falar aos poderosos, todos sentiam que a vaidade da posição começava abaixo do trono”.

Na sua “Fé de Ofício”, o próprio Imperador afirmou: “O meu dia era todo ocupado no serviço público, e jamais deixei de ouvir e falar a quem quer que fosse”.

O conselheiro Nuno de Andrade descreveu uma audiência do Imperador:
“Às cinco horas em ponto desci do tílburi, junto à portinha baixa onde uma sentinela cochilava. Não se pedia licença para entrar. Tomei a escada da direita, e fui ter a um longo salão retangular quase sem móveis, com grandes quadros nas paredes. O Freire, criado da casa, meu conhecido, disse-me:
— O Imperador não tarda.
Cerca de quinze pessoas esperavam D. Pedro II, e entre elas um preto vestido de brim pardo, sem gravata, com uns grandes sapatos muito bem engraxados. Depreendia-se do lustro do calçado que o preto cuidara de parecer asseado; e, como era idoso, a intenção traduzia certa altivez nativa. Tinha ido a pé e sentia-se cansado, por isso sentara-se no chão da galeria. O Pederneiras, com sua barba branca, chegou-se a mim, indicou o preto e disse filosoficamente:
— Ainda querem mais liberdade nesta terra...
Instintivamente olhamos para as portas, constantemente abertas a todos os brasileiros.
O Imperador apareceu no extremo da galeria, e o preto levantou-se. Seria o primeiro a falar ao Soberano, e ninguém se lembrou de lhe disputar a precedência. O Imperador lhe perguntou:
— Então, como está? Que é que temos?
— Estou bom, sim senhor. E vosmecê? Eu venho dizer a vosmecê que fui voluntário na guerra do Paraguai. Na batalha, fiquei com um braço ferido por bala. Curei-me, e continuei até o fim de tudo. Depois voltei e caí no meu ofício de empalhador. Há um ano adoeci do fígado, e o Dr. Miranda, na Santa Casa, me fez uma operação. Nunca mais tive saúde. Agora, não posso mais trabalhar no ofício, e não tenho vintém para comprar farinha. Na secretaria do Império há falta de servente, e eu fui falar com o ministro. Mas o ministro não fala com toda a gente. Estão lá uns mulatinhos pernósticos, que me dizem sempre: Você espere. Eu espero, sim senhor; e depois os mulatinhos me mandam embora, porque o ministro não recebe mais ninguém. Já três vezes isso me aconteceu. Então fiquei zangado e pensei assim: vou falar ao Imperador, que é nosso pai; ele não manda a gente embora. Ora, pois, eu queria que vosmecê me desse um bilhetinho para o ministro...
O Imperador chamou o general Miranda Reis, que então o acompanhava, e disse-lhe algumas palavras. Voltando ao preto, exprimiu-se assim:
— Vá com Deus. Fico sendo seu procurador, e tratarei do seu negócio.
— Mas eu tinha vontade de mostrar àqueles mulatinhos pacholas...
— Não tem nada a mostrar. Vá para sua casa e espere.
Alguns dias depois, contou-me o general Miranda Reis que o Imperador mandara alojar o antigo voluntário numa casinha da Quinta, e ordenara ao comendador João Batista que lhe suprisse a mensalidade de 40 mil réis, pedindo desculpas de não poder dar mais. E o João Batista, honrado mineiro, prodigiosamente econômico, amofinava-se com as freqüentíssimas decisões desta espécie, sustentando, em voz fraca e lacrimosa, que das quatro operações o sábio Imperador só conhecia a de dividir”.


O Imperador é feliz quando cada brasileiro está contente

No “Figaro”, Gaston Calmette escrevera que Dom Pedro II se parecia com o escritor Arsène Houssaye, velho conhecido do Soberano. Dias depois, encontrando-se com Houssaye, Dom Pedro, risonhamente, conduziu-o para diante de um espelho, dizendo:
— Vejamos se de fato nos parecemos!
— Talvez – disse o poeta –, mas numa coisa não nos parecemos: é que eu, de vez em quando, gostaria de ser Dom Pedro II, e vós jamais gostaríeis de ser Arsène Houssaye.
— Quem sabe? Todo homem traz sua coroa de espinhos. Faríamos, contudo, uma troca inútil, pois não usaríamos a coroa do homem feliz.
— E Vossa Majestade já encontrou algum homem feliz?
— Sim! Eu mesmo, quando meu povo está contente!

No dia 16 de julho de 1865, quando chegou ao Rio Grande do Sul no limiar da guerra do Paraguai, o Imperador publicou uma patriótica proclamação, que termina com estas palavras:
— Riograndenses! Falo-vos como pai que zela a honra da família brasileira. Estou certo de que procedereis como irmãos que se amam ainda mais quando qualquer deles sofre.

D. Pedro se esforçava para obter o bem estar de cada súdito.
O Barão de Teffé narra um exame do qual participou na Academia de Marinha, na presença do Imperador. Era presidente da banca examinadora o Prof. Cristiano Otoni. No tom seco que lhe era peculiar, e que tanto assustava os alunos, chamou o examinando e ordenou:
— Exponha com clareza e precisão a matéria do seu ponto.
O rapaz titubeou, pois não tinha prática de fazer discursos. Gaguejou, empalideceu e guardou silêncio, enquanto organizava mentalmente algumas frases, para iniciar a exposição. Otoni se impacientou e intimou:
— Sua Majestade veio aqui para ouvi-lo e julgar do seu aproveitamento. Ou fale ou retire-se.
Nisto o Imperador tranqüilizou o rapaz, dizendo:
— Compreendo a sua perturbação, mas acalme o seu espírito, porque aqui não há juízes ferrenhos, e sim amigos dispostos a esperar que lhe volte o sangue frio.
Começou em seguida a conversar calmamente com Otoni. Isto bastou para conquistar o estudante tímido, porém bem preparado, que acabou fazendo brilhante exame e obteve aprovação plena.

Diante de uma escola, numa cidade do interior por onde passava o Imperador, uma menina se preparava para ler um discurso em sua homenagem.
— Nada, nada, minha filha! Eu não gosto de discursos.
Mas logo se arrependeu, porque a criança, contrariada, assumiu um ar de choro.
— Bem, bem! Uma vez que tanto quer falar, venha cá. Venha conversar comigo.
Para encorajá-la, acrescentou:
— Vejo que você é inteligente. Não tenha medo. Mostre-me que você é inteligente, porque eu gosto muito de crianças. Eu tenho netinhos da sua idade.

O Imperador tratava com especial atenção todos os servidores da Casa Imperial, inclusive os escravos, quando ainda os tinha, ou ex-escravos que, depois de libertos, continuavam a servi-lo como empregados pagos. Assistia aos casamentos dos seus servidores, quando previamente avisado.
Quando o Santíssimo Sacramento saía da capela da Quinta, para a casa de algum empregado doente, Dom Pedro II acompanhava o padre, de tocha na mão, até o carro que o conduzisse.

Em 1866, durante a guerra do Paraguai, D. Pedro escreveu ao Marquês de Paranaguá: “Lembro-lhe as providências para que não falte de comer e agasalho, assim como roupa, aos que forem designados. Cumpre não demorar essas medidas”.
De quem se tratava aí? De filhos de grandes do Império, que seguiam para os campos paludosos do Paraguai? Nada disso! Visava o conforto de simples escravos, que deixavam a Fazenda Imperial de Santa Cruz e partiam para a guerra.

Às quintas-feiras o Imperador costumava jantar com a Princesa Isabel, no Palácio Guanabara, para onde seguia com a Imperatriz às 4 horas da tarde, escoltado pela guarda imperial. Não estava previsto que os cadetes seriam alimentados pela cozinha do palácio, o que lhes causava não poucos transtornos, porém desconhecidos pelo Imperador.
Certo dia, um cadete resolveu arranjar algum alimento. Dirigiu-se aos fundos do Palácio e penetrou na sala de jantar. Pegou uma penca de bananas, e quando ia apanhar também uma garrafa de vinho, deparou com o Imperador. Não se desconcertou. Depôs sobre a mesa o que apanhara, fez continência e disse:
— Vossa Majestade me perdoe. Estava com fome, vi estas belas bananas e não me contive.
— Por que não esperou o jantar, seu cadete? Não demorava.
— Saiba Vossa Majestade que aqui não nos fornecem jantar, e os que não têm dinheiro para comprar alguma coisa passam fome.
O Imperador ficou carrancudo, e nada disse. Pouco depois vinha um bom jantar do Palácio, e daí em diante isto se tornou rotina.

Narrando fatos que comprovavam a brandura de trato do Imperador, um distinto servidor do Paço dizia:
— É coisa admirável! Eu às vezes não posso conter-me diante de faltas cometidas no Paço, mas o Imperador nunca se zanga! A que ponto isto chega, seria necessário ver para crer.


A popularidade do Imperador cantada em versos

Popularidade autêntica é a que se conquista na voz do povo, que não admite imposições. Principalmente na poesia popular, que é a própria alma do povo. Não são muitos os nomes de heróis e bandidos, de intelectuais e políticos, que aparecem na poesia popular do Brasil. Entre esses nomes, teve lugar de destaque o do magnânimo Imperador D. Pedro II. Logo após o seu nascimento, as mães cantavam em Minas Gerais, ninando as crianças:
“Lá vai o sol entrando
Arraiando pelo mundo;
No dia 2 de dezembro
Nasceu Dom Pedro Segundo”.

Por ocasião da campanha da maioridade, o povo se manifestou com uma quadra que ficou famosa:
“Queremos Pedro Segundo,
Embora não tenha idade.
A Nação dispensa a lei,
E viva a maioridade!”

A popularidade de D. Pedro II começou, mesmo, após a maioridade, pois cansado estava o povo das revoltas e experiências. Ansiava por outra coisa, e pôs no jovem Monarca, por isso, todas as esperanças:
“Suba ao trono o jovem Pedro,
Exulte toda a Nação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união.

Vista a seda, traje a púrpura,
Exulte toda a Nação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união.

Foi abaixo a camarilha,
De geral indignação;
Os heróis, os pais da Pátria,
Aprovaram com união”.

De Norte a Sul do País, cantava a musa popular, com variações regionais:
“Atirei um limão n’água
De tão alto foi ao fundo;
Os peixinhos responderam:
Viva Dom Pedro Segundo!”

No tempo de Canudos, cantava-se:
“Saiu D. Pedro Segundo
Para o reino de Lisboa,
Acabou-se a Monarquia,
O Brasil ficou à toa.

Este povo está perdido,
Está sem arrumação,
E o culpado disso tudo
É o chefe da Nação”.

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Um comentário:

Abbud disse...

Prezado senhor,

estou a ler REVIVENDO O BRASIL-IMPÉRIO. Tem sido uma leitura muito apreciável. D. Pedro II realmente foi o grande estadista brasileiro. Deveria ser exemplo aos de hoje que se dizem estadistas. Obrigado pela obra.

Meu interesse pelo imperador do Brasil vem desde pequeno. Na minha família roda a história de que meu bisavô teria trocado palavras com ele na rua e era seu admirador. Infelizmente não conheci este bisavô e quem poderia dar mais informações sobre o fato já faleceu.Mas tamanha foi sua importância que até hoje esse suposto encontro é comentado!pelo menos por mim. Mais uma vez, grato.